Cronograma PMI: estimativas, dependências e acompanhamento realista

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é um cronograma “útil” no PMI (e por que alguns cronogramas falham)

Um cronograma útil é aquele que ajuda a tomar decisões no dia a dia: o que fazer agora, o que depende do quê, quando algo precisa estar pronto e como perceber cedo que o plano está escapando. Ele não precisa ser complexo; precisa ser confiável, atualizável e adequado ao contexto.

Os cronogramas falham quando: (1) viram uma lista de desejos sem dependências, (2) têm estimativas “otimistas” sem base, (3) não têm marcos claros, (4) ninguém atualiza, (5) não existe regra objetiva de “pronto”, gerando retrabalho e atrasos invisíveis.

Componentes essenciais: decomposição, dependências, estimativas, caminho crítico e marcos

1) Decomposição do trabalho (o suficiente para planejar e acompanhar)

Para cronograma, a decomposição precisa chegar em um nível onde seja possível: estimar duração, atribuir responsável, identificar dependências e verificar “pronto”. Como regra prática, prefira itens entre 0,5 e 5 dias úteis para projetos com acompanhamento semanal. Se uma atividade passa de 10 dias, geralmente está grande demais e esconde riscos.

  • Bom nível: “Configurar ambiente de homologação” (2 dias), “Criar endpoint X” (3 dias), “Testar fluxo Y” (1 dia).
  • Ruim (grande demais): “Implementar módulo de pagamentos” (20 dias).
  • Ruim (pequeno demais): “Criar variável”, “Abrir IDE”.

2) Sequenciamento e dependências (o que precisa acontecer antes)

Dependência é a relação que define a ordem entre atividades. Para cronogramas práticos, foque no tipo mais comum: Término-Início (TI) (uma tarefa só começa quando a anterior termina). Use outros tipos apenas se realmente fizer diferença.

  • Término-Início (TI): “Aprovar layout” → “Desenvolver telas”.
  • Início-Início (II): “Preparar dados” pode começar ao mesmo tempo que “Configurar ambiente”.
  • Término-Término (TT): “Escrever documentação” termina junto com “Finalizar desenvolvimento”.

Inclua também restrições reais (ex.: janela de mudança, disponibilidade de fornecedor, data de campanha) e buffers quando houver incerteza relevante (ex.: 1–2 dias entre “submeter para aprovação” e “aprovação”).

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3) Estimativas realistas (duração ≠ esforço)

Duração é o tempo no calendário (ex.: 5 dias corridos). Esforço é o trabalho necessário (ex.: 16 horas). Uma tarefa pode ter 16 horas de esforço e 5 dias de duração se a pessoa só puder dedicar 3–4 horas por dia ou se houver espera por terceiros.

Três abordagens simples para estimar:

  • Por referência (análoga): “Da última vez, isso levou 3 dias; agora é parecido, então 3–4 dias.”
  • Por componentes (bottom-up leve): dividir em 3–6 subitens e somar.
  • Três pontos (PERT simplificado): otimista (O), provável (M), pessimista (P). Estimativa = (O + 4M + P) / 6. Útil quando há incerteza.

Regras práticas para reduzir otimismo:

  • Inclua tempo de espera (aprovação, fila de QA, agenda de reunião).
  • Inclua retrabalho esperado (ex.: 10–20% em atividades com validação externa).
  • Considere capacidade real (reuniões, suporte, interrupções).

4) Caminho crítico (no nível necessário)

O caminho crítico é a sequência de atividades que determina a data final do projeto: se qualquer uma delas atrasar, o término também atrasa (sem folga). Você não precisa fazer cálculos avançados para usar o conceito; basta identificar:

  • Quais atividades têm dependências em cadeia até o marco final.
  • Quais não têm “espaço” (folga) porque já estão encostadas em uma data fixa ou em outra atividade.

Uso prático: em reuniões de controle, priorize remover impedimentos e reduzir risco das atividades do caminho crítico. Se precisar acelerar, as opções mais comuns são: reduzir escopo, paralelizar (com risco), adicionar capacidade (se fizer sentido) ou simplificar entregas.

5) Marcos (milestones) que orientam o projeto

Marcos são pontos de verificação sem duração (ou duração zero) que indicam “chegamos aqui”. Eles ajudam a comunicar progresso sem entrar em detalhes e servem como gatilhos de decisão.

  • Exemplos: “Protótipo aprovado”, “Integração concluída”, “Homologação iniciada”, “Go-live autorizado”.
  • Boa prática: cada marco deve ter critério objetivo (o que precisa estar verdadeiro para considerar atingido).

Passo a passo: construindo um cronograma aplicável

Passo 1 — Defina o nível de detalhe adequado

Escolha o formato do cronograma conforme o ambiente:

  • Alta incerteza e mudanças frequentes: Kanban com prazos e marcos.
  • Equipe pequena e entrega curta: lista de marcos + checklist de atividades.
  • Várias áreas e dependências: Gantt simplificado.
  • Projeto regulatório/contratual: cronograma detalhado com baseline e controle formal.

Passo 2 — Liste entregas e atividades “planejáveis”

Transforme o trabalho em atividades que possam ser acompanhadas semanalmente. Para cada atividade, registre: responsável, duração, critério de pronto e dependências principais.

Passo 3 — Sequencie e valide dependências com quem executa

Faça uma revisão rápida com a equipe: “o que precisa acontecer antes?”, “o que pode rodar em paralelo?”, “onde há espera externa?”. Ajuste para refletir a realidade, não o ideal.

Passo 4 — Estime duração e aplique buffers onde faz sentido

Use referência histórica quando possível. Se houver incerteza, aplique três pontos e registre a premissa (ex.: “depende de aprovação em até 48h”). Coloque buffers em pontos de risco (aprovações, integrações, fornecedores).

Passo 5 — Identifique marcos e o caminho crítico “visível”

Marque 5–10 marcos principais. Em seguida, observe a cadeia de atividades que leva ao marco final e destaque as que não têm folga. Essas serão o foco do acompanhamento.

Passo 6 — Publique e combine a rotina de atualização

Um cronograma só funciona se houver acordo sobre: frequência de atualização, quem atualiza o quê, e como lidar com atrasos (replanejar, negociar escopo, mudar sequência).

Alternativas de cronograma conforme o contexto (com templates)

1) Cronograma em lista de marcos (mínimo viável)

Útil quando o projeto precisa de alinhamento rápido e comunicação simples.

Template — Lista de Marcos (Milestones Plan)
MarcoData alvoDonoCritério de prontoStatusRiscos/Dependências
Requisitos validados12/03AnaDocumento aprovado por Negócio + TIEm andamentoAgenda do aprovador
Protótipo aprovado20/03BrunoFeedback incorporado + aceite formalNão iniciadoDisponibilidade do usuário-chave
Homologação iniciada05/04CarlaAmbiente pronto + build publicadoNão iniciadoInfra / acessos

Regras de uso:

  • Limite a 5–10 marcos para manter legível.
  • Se um marco atrasar, registre causa e ação (não apenas “atrasado”).

2) Kanban com prazos (fluxo + compromisso de datas)

Útil quando o trabalho chega em fluxo contínuo e há necessidade de previsibilidade sem “engessar” em um Gantt.

Template — Kanban com prazos (campos por item)
  • Colunas: A Fazer | Em Progresso | Em Revisão/QA | Aguardando Terceiros | Pronto
  • Campos do cartão: prazo (due date), responsável, dependência, tamanho (P/M/G), critério de pronto, link de evidência
  • Políticas: limite de WIP (trabalho em progresso) por coluna; itens “Aguardando Terceiros” devem ter data de follow-up

Como conectar com marcos: crie uma “raia” (swimlane) para itens que precisam estar prontos antes do próximo marco e revise diariamente/2x por semana.

3) Gantt simplificado (visão de dependências sem excesso)

Útil quando há várias dependências e você precisa enxergar sequência e impacto de atrasos, mas sem detalhar cada microtarefa.

Template — Gantt simplificado (tabela base)
IDAtividadeDuração (dias)InícioTérminoDependênciasResponsávelStatus
1Configurar ambiente210/0311/03-InfraEm andamento
2Desenvolver funcionalidade A412/0315/031DevNão iniciado
3Testes QA218/0319/032QANão iniciado
4Homologação com usuário320/0322/033NegócioNão iniciado

Regras de uso:

  • Evite mais de 30–60 linhas para manter atualizável.
  • Se uma atividade depender de aprovação, trate como atividade explícita (não esconda em “desenvolver”).

4) Cronograma detalhado (quando o controle precisa ser mais formal)

Útil quando há contrato, auditoria, múltiplos fornecedores ou alta criticidade. Além do Gantt, você registra baseline, variação e ações corretivas.

Campos adicionais recomendados
  • Baseline: início/término planejados aprovados
  • Variação: dias de adiantamento/atraso vs baseline
  • Motivo do desvio: categoria (requisito, dependência externa, capacidade, defeito, decisão)
  • Ação: o que será feito, por quem e até quando

Rotinas de controle: manter o cronograma vivo sem burocracia

Reunião rápida (10–15 min) para destravar o dia a dia

Objetivo: identificar impedimentos e alinhar prioridades imediatas. Perguntas práticas:

  • O que avançou desde a última checagem?
  • O que está bloqueado e por quê?
  • Qual atividade do caminho crítico precisa de atenção hoje?
  • Há algo que pode virar atraso por dependência externa?

Saída mínima: lista de bloqueios com dono e prazo de resolução.

Atualização semanal (30–45 min) com foco em previsibilidade

Objetivo: atualizar datas, revisar marcos e recalcular o “novo provável” (forecast) de entrega.

  • Atualize status: % concluído (se fizer sentido), datas reais de início/término, e o que mudou.
  • Revise próximos 10–15 dias: atividades que começam em breve e suas dependências.
  • Cheque capacidade: férias, demandas paralelas, gargalos (QA, aprovação, infraestrutura).
  • Atualize forecast: se o marco final mudou, registre a nova previsão e o motivo.

Análise de atrasos: separar sintoma de causa

Quando uma atividade atrasa, evite apenas “empurrar datas”. Use uma análise simples:

  • Tipo de atraso: estimativa errada, dependência externa, retrabalho, mudança, falta de capacidade, bloqueio técnico.
  • Impacto: afeta caminho crítico? afeta qual marco?
  • Ação: remover bloqueio, reduzir escopo, paralelizar, trocar sequência, adicionar revisão antecipada.

Regra prática: se o atraso for recorrente na mesma categoria (ex.: aprovações), ajuste o cronograma para refletir o tempo real e crie uma política (ex.: aprovações com SLA, janelas fixas, substituto do aprovador).

Replanejamento: como ajustar sem perder o controle

Replanejar não é “começar do zero”; é atualizar o plano com base no que foi aprendido.

  • Replaneje em camadas: detalhe as próximas 2–4 semanas; mantenha o restante em nível de marcos/épicos.
  • Proteja marcos críticos: se um marco é fixo (evento, campanha), negocie escopo e sequência antes de tentar “apertar” tudo.
  • Registre decisões: o que mudou, por quê, e qual o novo compromisso.

Templates práticos para reduzir retrabalho: regras de “pronto” (Definition of Done)

Por que “pronto” precisa ser objetivo

Sem uma regra clara de “pronto”, a atividade parece concluída, mas volta como retrabalho (correções, ajustes, reaprovação). Isso distorce o cronograma: o plano diz que terminou, mas o trabalho real continua.

Template — Definition of Done por tipo de atividade

Tipo de itemCritérios mínimos de “pronto”Evidência
Documento/EspecificaçãoRevisado por pares; aprovado pelo responsável de negócio; versão publicada; pendências registradasLink do documento + registro de aprovação
DesenvolvimentoCódigo revisado; testes unitários ok; build gerado; sem erros críticos; logs/monitoramento básico definidoPR aprovado + pipeline verde
Teste/QACasos executados; defeitos críticos tratados ou aceitos; relatório de evidências anexadoRelatório de testes + lista de defeitos
HomologaçãoRoteiro executado; aceite formal ou pendências priorizadas; plano de correção acordadoE-mail/registro de aceite
Entrega/ImplantaçãoPlano de rollback; janela confirmada; checklist executado; validação pós-implantaçãoChecklist assinado + evidência de validação

Regras simples para escrever um “pronto” bom

  • Use critérios verificáveis (sim/não), não subjetivos (“bem feito”, “ok”).
  • Inclua a evidência (link, aprovação, relatório, checklist).
  • Inclua dependências de qualidade (revisão, teste, validação) dentro da atividade ou como atividades explícitas no cronograma.
  • Se “pronto” depende de terceiro, crie um item separado: “Aprovar X” com duração e responsável.

Exemplo completo (mini) de cronograma realista para um projeto pequeno

Cenário: entrega de uma melhoria em sistema interno com validação do usuário.

IDAtividadeDuraçãoDependênciasPronto quando...Marco relacionado
1Alinhar critérios com usuário1 dia-Critérios registrados e aprovadosRequisitos validados
2Protótipo de tela2 dias1Protótipo revisado + feedback incorporadoProtótipo aprovado
3Aprovação do protótipo1 dia2Aceite formal do usuárioProtótipo aprovado
4Implementação4 dias3PR aprovado + build gerado-
5QA2 dias4Testes executados + sem defeitos críticosHomologação iniciada
6Homologação3 dias5Aceite ou pendências priorizadasAceite de homologação
7Implantação1 dia6Checklist ok + validação pósGo-live

Observação prática: se a aprovação do usuário costuma demorar, aumente a duração do item 3 ou adicione buffer antes do marco “Protótipo aprovado”. Isso evita que o cronograma pareça “sempre atrasado” quando, na verdade, ele estava irrealista.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática torna o cronograma mais realista quando há demora recorrente em aprovações de terceiros?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para refletir a realidade e evitar atrasos “invisíveis”, aprovações devem aparecer como atividades (com duração e dono) e, quando houver incerteza, podem ter buffers antes dos marcos afetados.

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Custos no PMI: orçamento, controle e previsibilidade em diferentes tamanhos de projeto

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