O que é Alta Complexidade na Proteção Social Especial
A Alta Complexidade no SUAS reúne serviços destinados a situações em que a pessoa ou família precisa de proteção integral fora do domicílio, porque permanecer no ambiente de origem representa risco, impossibilidade de cuidado, ou ausência temporária/definitiva de referência familiar. Nesses casos, o atendimento envolve acolhimento (institucional ou em outras modalidades), garantia de segurança, cuidados cotidianos e trabalho técnico para reconstrução de vínculos e retorno ao convívio familiar e comunitário quando possível e seguro.
Na prática, a Alta Complexidade é acionada quando a violação de direitos ou a condição de vulnerabilidade exige:
- afastamento imediato do local de risco;
- moradia provisória e cuidados 24h;
- proteção contra ameaças, negligência grave, violência, abandono, exploração, ou incapacidade de autocuidado sem suporte;
- medidas protetivas (especialmente para crianças e adolescentes) e articulação com o Sistema de Justiça e órgãos de proteção.
Modalidades de acolhimento mais comuns na rede socioassistencial
A rede pode ofertar diferentes formas de acolhimento, conforme tipificação e organização local. Exemplos frequentes:
- Acolhimento institucional: unidades como abrigo institucional, casa-lar, residência inclusiva, casa de passagem (conforme público e finalidade). Estrutura com equipe, rotina de cuidados e acompanhamento técnico.
- Acolhimento em família acolhedora (quando implantado): acolhimento temporário em família cadastrada, com acompanhamento técnico e regras específicas.
- Acolhimento para pessoas em situação de rua (quando organizado como serviço de acolhimento): unidades com pernoite e apoio para reorganização de vida, com encaminhamentos para saúde, documentação, trabalho e rede.
O ponto central é que o acolhimento é provisório e deve estar vinculado a um plano de acompanhamento que organize objetivos, responsabilidades e prazos, evitando permanências prolongadas sem projeto de saída.
Quando acionar a Alta Complexidade: critérios práticos de decisão
Use critérios objetivos para avaliar a necessidade de acolhimento. Em geral, aciona-se Alta Complexidade quando há risco atual e não há alternativa protetiva imediata no território (ou na família extensa) que garanta segurança.
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Indicadores de necessidade de acolhimento (checklist)
- Risco iminente à integridade física/psicológica (ameaça, violência grave, exploração, coação, tentativa de homicídio, etc.).
- Negligência grave com prejuízo significativo (falta de cuidados básicos, abandono, privação extrema, recusa persistente de tratamento essencial quando há risco).
- Ausência de responsável ou responsável impossibilitado de exercer cuidado (hospitalização, prisão, desaparecimento, incapacidade severa sem rede).
- Conflito familiar intenso com expulsão do domicílio, ou ambiente que inviabiliza permanência segura.
- Condição de dependência de cuidados sem suporte (pessoa idosa ou com deficiência sem cuidador e sem condições de autocuidado).
- Medida protetiva determinada por autoridade competente (especialmente no caso de crianças e adolescentes).
O que NÃO deve ser motivo isolado para acolhimento
- Pobreza ou precariedade habitacional, sem risco grave e sem esgotar alternativas de proteção no território.
- Conflitos familiares sem avaliação de risco e sem tentativa de mediação/apoio quando cabível.
- Uso de substâncias como único fator, sem análise de risco e sem considerar outras ofertas de cuidado e proteção.
Esses pontos ajudam a evitar acolhimentos indevidos e a manter o foco em proteção integral quando realmente necessária.
Passo a passo: como acionar o acolhimento (fluxo operacional)
O fluxo exato varia por município, mas um roteiro prático ajuda a padronizar decisões e reduzir falhas.
1) Identificação da situação e registro inicial
- Receba a demanda (denúncia, busca ativa, encaminhamento de saúde, educação, Conselho Tutelar, Delegacia, Judiciário, etc.).
- Registre informações essenciais: quem é a pessoa, onde está, qual o risco, quem são referências familiares, e quais serviços já foram acionados.
- Se houver risco imediato, priorize segurança e acione rede de urgência (saúde/segurança pública) conforme necessidade.
2) Avaliação de risco e definição da medida protetiva necessária
- Realize avaliação técnica com foco em: gravidade, urgência, possibilidade de permanência segura com medidas de proteção no domicílio, e existência de família extensa/rede de apoio.
- Defina se a situação exige afastamento e acolhimento, ou se pode ser protegida com outras estratégias (ex.: acompanhamento intensivo, medidas de proteção no território, articulação com saúde e educação).
3) Articulação com órgãos de proteção e Judiciário (quando couber)
Em casos envolvendo crianças e adolescentes, a articulação com o Conselho Tutelar é central para aplicação de medidas protetivas e encaminhamentos. Em situações que demandem decisão judicial (por exemplo, afastamento do agressor, suspensão/limitação de convivência, guarda, destituição do poder familiar), é necessária interface com o Sistema de Justiça.
- Acione o Conselho Tutelar para providências protetivas e formalização do encaminhamento ao acolhimento quando for o caso.
- Quando houver determinação judicial, cumpra os termos e prazos, mantendo comunicação técnica (relatórios, informações de acompanhamento, participação em audiências quando convocado).
- Em situações de violência, articule com Delegacia/MP/Defensoria conforme o caso, preservando sigilo e segurança.
4) Definição da modalidade de acolhimento e vaga
- Selecione a modalidade mais adequada ao perfil e necessidade (ex.: unidade para crianças, adolescentes, pessoas com deficiência, idosos, residência inclusiva, casa de passagem, etc.).
- Verifique disponibilidade de vaga e condições de atendimento (acessibilidade, equipe, capacidade de cuidado, localização e segurança).
- Evite deslocamentos desnecessários que rompam vínculos comunitários (escola, serviços de saúde, rede de apoio), salvo quando a segurança exigir.
5) Preparação para ingresso (acolhida qualificada)
- Organize documentos e informações essenciais (identificação, contatos, histórico de saúde, medicações, restrições alimentares, escola, necessidades específicas).
- Planeje o transporte e a chegada com cuidado para reduzir exposição e sofrimento.
- Garanta que a unidade receba informações mínimas para cuidado imediato, sem repassar detalhes desnecessários que violem privacidade.
6) Ingresso e formalização do acompanhamento
- Realize registro de ingresso, termo/guia de encaminhamento e abertura do prontuário.
- Defina referência técnica e periodicidade de acompanhamento.
- Agende, desde o início, a construção do Plano Individual e/ou Familiar de Acompanhamento (PIA/PIF), com metas e prazos.
Critérios de acesso e prioridades no acolhimento
Os critérios devem ser transparentes e aplicados de forma isonômica, com base em risco e necessidade de proteção. Na gestão local, é útil manter um protocolo com:
- Prioridade por risco: situações de ameaça, violência grave, abandono, exploração, ou ausência total de cuidado.
- Adequação do serviço: compatibilidade entre necessidades e capacidade da unidade (ex.: acessibilidade, suporte para cuidados intensivos, perfil etário).
- Territorialidade: preferência por acolhimento que preserve vínculos comunitários, quando seguro.
- Excepcionalidade e provisoriedade: acolhimento como medida protetiva temporária, não como solução permanente.
Exemplo prático: uma adolescente ameaçada por grupo criminoso pode precisar de acolhimento fora do território por segurança; já uma criança em negligência grave pode ser acolhida em unidade próxima para manter escola e acompanhamento de saúde, se não houver risco de perseguição.
Responsabilidades da gestão municipal na Alta Complexidade
A gestão municipal tem papel decisivo para que o acolhimento seja protetivo e não se torne apenas “guarda” ou permanência indefinida. Responsabilidades típicas incluem:
Planejamento e oferta
- Mapear demanda e dimensionar vagas por público (crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, população em situação de rua).
- Definir modelo de oferta: unidades próprias, conveniadas/OSC, consórcios, ou pactuações intermunicipais quando necessário.
- Garantir infraestrutura adequada (segurança, acessibilidade, condições sanitárias, privacidade, espaços de convivência).
Gestão do trabalho e qualificação
- Assegurar equipe suficiente e capacitada (cuidado cotidiano e equipe técnica).
- Implantar protocolos: acolhida, registro, visitas, convivência familiar, prevenção de violências institucionais, gestão de crises.
- Supervisão técnica e educação permanente para reduzir rotatividade e padronizar práticas.
Articulação intersetorial
- Garantir acesso a saúde (incluindo saúde mental), educação, documentação civil, trabalho e renda, habitação quando aplicável.
- Organizar fluxos com Conselho Tutelar, Judiciário, Ministério Público, Defensoria e segurança pública, com pontos focais e prazos.
Regulação de vagas e controle de permanência
- Manter sistema de regulação/gestão de vagas com critérios e transparência.
- Monitorar tempo de acolhimento e motivos de prolongamento, acionando a rede para destravar pendências (documentos, escola, saúde, decisões judiciais, busca de família extensa).
Plano Individual/Familiar de Acompanhamento: eixo para retorno ao convívio
O plano (individual e/ou familiar) é o instrumento que transforma o acolhimento em medida protetiva com projeto. Ele organiza objetivos, responsabilidades e prazos, evitando que a unidade funcione apenas como moradia.
O que o plano deve conter (componentes mínimos)
- Diagnóstico sintético: riscos, necessidades, potencialidades, rede de apoio e fatores de proteção.
- Objetivo principal: retorno familiar, colocação em família extensa, autonomia com moradia, ou outra saída protetiva possível.
- Metas de curto prazo (ex.: regularizar documentos, matrícula escolar, avaliação de saúde, definição de visitas).
- Metas de médio prazo (ex.: fortalecimento de vínculos, reorganização familiar, inclusão em serviços de saúde mental, inserção produtiva).
- Plano de convivência familiar e comunitária: visitas, contatos, saídas programadas, acompanhamento de encontros, avaliação de segurança.
- Responsáveis e prazos: quem faz o quê (unidade, equipe técnica, família, Conselho Tutelar, saúde, escola, Judiciário).
- Critérios de reavaliação: periodicidade e indicadores de avanço/retrocesso.
Passo a passo para construir e manter o plano
- 1. Reunião inicial (primeiras semanas): escuta qualificada da pessoa acolhida e, quando possível, da família; identificação de urgências.
- 2. Mapeamento de rede: família extensa, vizinhança protetiva, escola, UBS, CAPS, serviços de documentação, oportunidades de trabalho.
- 3. Definição de metas com prazos realistas e indicadores observáveis (ex.: “retomar frequência escolar” em vez de “melhorar na escola”).
- 4. Pactuação com os atores envolvidos e registro formal.
- 5. Reavaliações periódicas: atualizar metas, registrar evolução, justificar mudanças e acionar instâncias necessárias quando houver bloqueios.
Exemplo prático: em acolhimento de criança por negligência grave, o plano pode incluir: tratamento de saúde da criança, acompanhamento de parentalidade com a família, visitas supervisionadas, regularização de renda/benefícios quando cabível, e metas objetivas para avaliar capacidade protetiva antes do retorno.
Articulação com Judiciário e órgãos de proteção: como organizar sem perder o foco técnico
Quando há medidas protetivas e processos judiciais, a gestão e as equipes precisam equilibrar: cumprimento de determinações, qualidade do cuidado e defesa do melhor interesse da pessoa acolhida.
Boas práticas de interface
- Canal formal de comunicação (ofícios, e-mails institucionais, sistema próprio quando houver) e registro de tudo no prontuário.
- Relatórios objetivos: descrever fatos, evolução do plano, riscos atuais, rede acionada e recomendações técnicas, evitando juízos morais.
- Reuniões interinstitucionais para casos complexos: alinhar prazos, visitas, decisões sobre convivência e estratégias de desinstitucionalização.
- Proteção de dados: compartilhar apenas o necessário para a finalidade, com cuidado especial em casos de violência e ameaça.
Desinstitucionalização: práticas para reduzir permanências e promover saídas protetivas
Desinstitucionalização é o conjunto de estratégias para evitar que o acolhimento se prolongue e para garantir que a pessoa retome uma vida com autonomia, vínculos e pertencimento comunitário, com suporte proporcional à necessidade.
Estratégias práticas de desinstitucionalização
- Busca ativa de família extensa e rede de apoio: identificar parentes e referências afetivas com potencial protetivo, avaliar condições e preparar a transição.
- Trabalho sistemático de convivência: visitas planejadas, saídas de fim de semana, contatos por telefone/videochamada quando adequado, mediação de conflitos.
- Preparação para autonomia (especialmente adolescentes e adultos): documentação, escolarização, qualificação, habilidades de vida diária, educação financeira, acesso a trabalho e moradia.
- Articulação com saúde mental quando houver sofrimento psíquico, uso problemático de substâncias ou trauma, garantindo continuidade do cuidado fora da instituição.
- Plano de transição: datas, responsáveis, recursos necessários (ex.: enxoval, mobiliário básico, transporte, matrícula escolar, referência em UBS).
Sinais de alerta de institucionalização indevida
- Plano sem metas e prazos, ou reavaliações que não geram mudanças.
- Visitas familiares inexistentes sem justificativa técnica e sem estratégia para reconstrução de vínculos.
- Rotina centrada apenas em disciplina e controle, com pouca participação da pessoa acolhida nas decisões.
- Desligamentos “de última hora” sem preparação (alto risco de retorno ao acolhimento).
Desligamento e acompanhamento pós-acolhimento
O desligamento é uma etapa crítica. Sem acompanhamento, aumentam as chances de ruptura de vínculos, evasão escolar, retorno a situações de violência e reacolhimento.
Passo a passo do desligamento protegido
- 1) Confirmação das condições de segurança: avaliar risco atual, rede de apoio, condições de moradia e cuidado.
- 2) Pactuação do plano pós-desligamento: quem acompanhará, frequência de contatos, onde buscar ajuda em crise.
- 3) Garantia de continuidade de serviços: saúde, escola, documentação, benefícios quando cabível, e rede comunitária.
- 4) Entrega organizada de documentos e informações essenciais (medicações, encaminhamentos, contatos de referência).
- 5) Acompanhamento intensivo inicial: visitas/contatos mais frequentes nas primeiras semanas, reduzindo gradualmente conforme estabilidade.
O que monitorar no pós-desligamento
- Frequência escolar e rotina diária (quando aplicável).
- Convivência familiar: conflitos, recaídas de violência, capacidade de cuidado.
- Saúde física e mental: adesão a tratamentos, crises, acesso a serviços.
- Renda e condições materiais mínimas (sem confundir pobreza com motivo de reacolhimento, mas prevenindo agravamentos).
- Rede de apoio: presença de adultos de referência, vizinhança protetiva, serviços próximos.
Exemplo prático: adolescente desligado para retorno familiar pode ter plano pós-desligamento com: acompanhamento semanal no primeiro mês, articulação com escola para monitorar frequência, encaminhamento para curso/qualificação, e canal de contato para situações de ameaça.
Monitoramento da qualidade do acolhimento: o que a gestão deve acompanhar
Qualidade em Alta Complexidade envolve proteção, cuidado, direitos e projeto de saída. Para monitorar, a gestão municipal pode combinar indicadores, visitas técnicas e escuta qualificada.
Indicadores e verificações úteis
| Dimensão | O que observar | Exemplos de evidências |
|---|---|---|
| Segurança e proteção | Prevenção de violências, protocolos de crise, privacidade | Registros de incidentes, plano de segurança, espaços adequados |
| Cuidado cotidiano | Alimentação, higiene, saúde, medicação, acessibilidade | Rotinas, cardápio, prontuários, encaminhamentos de saúde |
| Direitos e participação | Escuta, participação em decisões, acesso à escola e lazer | Reuniões com acolhidos, registros de atividades, matrícula escolar |
| Trabalho técnico | Planos ativos, reavaliações, articulação com rede | PIA/PIF com metas, relatórios, atas de reuniões intersetoriais |
| Tempo de acolhimento | Permanências prolongadas e motivos | Painel de casos por tempo, pendências e responsáveis |
| Saídas e pós-desligamento | Desligamentos planejados e acompanhamento | Planos de transição, contatos pós-desligamento, reacolhimentos |
Rotinas de gestão recomendadas
- Visitas técnicas regulares às unidades, com checklists e devolutivas.
- Reuniões de caso para situações com permanência prolongada, com plano de destravamento (documentos, decisões judiciais, saúde, escola, família extensa).
- Escuta protegida de pessoas acolhidas (inclusive crianças e adolescentes, com metodologia adequada), para identificar violações institucionais.
- Auditoria de prontuários e planos: verificar se há metas, prazos, registros de convivência e reavaliações.
- Gestão de vagas com critérios e transparência, evitando improvisos e acolhimentos inadequados ao perfil.
Roteiro rápido para tomada de decisão (uso em plantões e situações urgentes)
1) Há risco atual grave? (sim/não) 2) É possível proteger sem afastar do domicílio hoje? (sim/não) 3) Existe família extensa/rede protetiva imediata e segura? (sim/não) 4) Se criança/adolescente: acionar Conselho Tutelar e formalizar medida protetiva 5) Definir modalidade de acolhimento adequada ao perfil 6) Garantir acolhida qualificada + registro + referência técnica 7) Iniciar plano individual/familiar com metas e prazos 8) Planejar desde o início a saída (desinstitucionalização) + pós-desligamento