O que é “risco” em investimentos (na prática)
Em investimentos, risco é a possibilidade de o resultado real ser diferente do esperado. Isso pode significar: ganhar menos do que imaginava, ter perdas temporárias (ou permanentes), não conseguir resgatar quando precisa, ou enfrentar falhas operacionais. Na CPA-10, é essencial reconhecer que risco não é “algo ruim” por si só: ele é o motivo de existirem retornos diferentes entre produtos.
Uma forma simples de enxergar: retorno esperado é a “promessa” (ou projeção) e risco é o “quanto isso pode variar” e “o que pode dar errado”.
Principais tipos de risco cobrados na CPA-10
1) Risco de mercado
É o risco de variação de preços e taxas do mercado afetar o valor do investimento. Ele aparece quando o preço do ativo pode oscilar antes do vencimento ou durante o período de aplicação.
- Como aparece: mudanças em juros, inflação, câmbio, preço de ações e expectativas.
- Exemplo típico: um título de renda fixa que sofre marcação a mercado. Se as taxas de juros sobem, o preço do título tende a cair (e vice-versa).
- Onde é mais comum: títulos públicos e privados negociáveis, fundos com ativos marcados a mercado, ações, multimercados.
2) Risco de crédito
É o risco de o emissor (banco, empresa ou governo) não pagar o que prometeu: juros, principal ou ambos. Pode envolver atraso, renegociação ou inadimplência.
- Como aparece: piora financeira do emissor, aumento do endividamento, queda de receita, crise setorial.
- Exemplo típico: CDB de um banco: existe risco de crédito do banco emissor. Em muitos casos, há mitigação por mecanismos de proteção (quando aplicável), mas o risco de crédito do emissor é um conceito central.
- Onde é mais comum: CDB, LCI/LCA, debêntures, CRI/CRA, fundos de crédito privado.
3) Risco de liquidez
É o risco de não conseguir transformar o investimento em dinheiro no momento desejado (ou precisar aceitar um preço pior para vender). Liquidez não é só “poder resgatar”; é também “resgatar sem perda relevante por falta de compradores ou por regras de prazo”.
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- Como aparece: prazos longos de resgate, carência, mercado secundário fraco, ativos com pouca negociação.
- Exemplo típico: um investimento com resgate em D+30 (ou com carência) pode não servir para uma emergência amanhã. Outro exemplo é um título/ativo que até pode ser vendido, mas com grande desconto por falta de compradores.
- Onde é mais comum: ativos de crédito privado menos negociados, alguns fundos com prazos longos, previdência com regras específicas, produtos com carência.
4) Risco operacional
É o risco de perdas causadas por falhas de processos, sistemas, pessoas ou eventos externos. Não depende do “mercado subir ou cair”, mas de como a operação é executada e controlada.
- Como aparece: erro de cadastro, falha de sistema, fraude, erro de precificação, falha na liquidação, ataque cibernético.
- Exemplo típico: uma ordem executada com valor errado, ou indisponibilidade de sistema em momento crítico de mercado.
- Onde é mais comum: pode ocorrer em qualquer produto e instituição; é um risco transversal.
5) Risco sistêmico
É o risco de um choque amplo afetar o sistema financeiro como um todo, reduzindo liquidez e confiança, elevando a aversão a risco e contaminando vários mercados ao mesmo tempo.
- Como aparece: crises financeiras, eventos macroeconômicos severos, quebra de confiança generalizada, “efeito dominó”.
- Exemplo típico: em uma crise, ativos diferentes podem cair juntos e a liquidez pode secar, dificultando vendas e elevando spreads.
- Onde é mais comum: afeta carteiras inteiras; tende a aumentar correlações entre ativos em momentos de estresse.
Como os riscos aparecem em produtos diferentes (mapa mental rápido)
Crédito em CDB (exemplo prático)
Um CDB depende da capacidade do banco emissor honrar o pagamento. Mesmo que a taxa seja atrativa, o investidor deve reconhecer que:
- Existe risco de crédito do emissor.
- O rating (quando disponível) ajuda a comparar emissores.
- O retorno maior pode refletir maior risco percebido (spread maior).
Mercado em títulos marcados a mercado (exemplo prático)
Em títulos com preço variando diariamente, o investidor pode ver oscilações no valor antes do vencimento. Isso é risco de mercado.
- Se a taxa de juros do mercado sobe, o preço do título tende a cair.
- Quanto mais “sensível” o título for a juros (conceito ligado à duration), maior tende a ser a oscilação.
Liquidez em ativos com resgate longo (exemplo prático)
Mesmo que o investimento seja “bom”, ele pode não ser adequado para objetivos de curto prazo.
- Se o resgate é D+30, o dinheiro só cai 30 dias úteis após o pedido.
- Se houver carência, pode nem ser possível solicitar resgate antes de um prazo mínimo.
- Em alguns casos, vender antes pode significar aceitar preço pior (deságio).
Passo a passo prático: como identificar e medir riscos no dia a dia
Passo 1 — Defina o “prazo real” do seu objetivo
- Curto prazo (ex.: reserva de emergência): priorize liquidez e baixa oscilação.
- Médio prazo: aceite alguma oscilação, mas controle liquidez e risco de crédito.
- Longo prazo: pode tolerar mais risco de mercado, desde que seja compatível com o perfil.
Passo 2 — Pergunte: “qual risco é dominante aqui?”
Todo produto tem vários riscos, mas geralmente um é o principal:
- CDB/LCI/LCA: tende a dominar crédito (do emissor) e liquidez (prazo/carência), além de mercado se houver negociação antes do vencimento.
- Títulos marcados a mercado/fundos de renda fixa: tende a dominar mercado (juros) e, dependendo da carteira, crédito.
- Ações/fundos de ações: tende a dominar mercado (preço) e risco específico da empresa/setor.
Passo 3 — Use indicadores simples para “medir” risco
- Volatilidade (conceito): quanto o preço/retorno costuma oscilar. Maior volatilidade = maior variação possível no curto prazo.
- Duration (conceito): medida de sensibilidade do preço de um título à variação de juros. Em geral, maior duration = maior impacto no preço quando juros mudam.
- Rating (quando disponível): avaliação de risco de crédito do emissor/da emissão. Não elimina risco, mas ajuda a comparar.
- Spread: diferença de taxa entre um ativo e uma referência (ex.: um título privado pagando acima de um título considerado mais seguro). Spread maior pode indicar maior risco percebido ou menor liquidez.
Passo 4 — Faça um “teste de estresse” mental
Simule cenários simples e veja se você aguentaria:
- Juros sobem: seu investimento pode cair no curto prazo? Você precisaria vender?
- Crédito aperta: o emissor teria dificuldade? O spread poderia aumentar (e o preço cair)?
- Você precisa do dinheiro: o resgate é rápido? Há carência? Existe mercado para vender?
Passo 5 — Ajuste com diversificação e coerência com o objetivo
Se um risco estiver alto demais para seu objetivo, você ajusta de três formas: (1) reduzindo exposição, (2) escolhendo ativos com menor risco dominante, (3) diversificando entre fontes de risco diferentes.
Diversificação e correlação (linguagem simples)
Diversificação: não depender de um único “motor”
Diversificar é distribuir o dinheiro entre ativos diferentes para reduzir o impacto de um problema específico. Exemplo: se você coloca tudo em um único emissor, um evento de crédito pode afetar toda a carteira. Se distribui entre emissores e tipos de ativos, um problema tende a ter impacto menor.
Correlação: quando ativos “andam juntos”
Correlação é uma ideia simples: mede se dois investimentos costumam subir e cair ao mesmo tempo.
- Correlação alta (positiva): tendem a se mover juntos. Diversificar entre eles ajuda menos.
- Correlação baixa: um pode subir enquanto o outro cai. Diversificar ajuda mais.
- Em crises: correlações podem aumentar (muitos ativos caem juntos), o que reforça a importância de liquidez e adequação ao prazo.
Exemplo prático: ter apenas ações de empresas do mesmo setor costuma gerar correlação alta (todas reagem a notícias parecidas). Misturar classes (ex.: parte em pós-fixado de alta liquidez e parte em ativos de maior oscilação para longo prazo) tende a reduzir a dependência de um único cenário.
Quadro comparativo: riscos por classe de ativo (visão CPA-10)
| Classe de ativo / produto | Risco de mercado | Risco de crédito | Risco de liquidez | Risco operacional | Risco sistêmico |
|---|---|---|---|---|---|
| Títulos públicos (marcados a mercado) | Médio a alto (varia com prazo/duration) | Baixo (referência soberana) | Médio (pode vender, mas preço oscila) | Baixo a médio | Médio |
| CDB / LCI / LCA (mantidos até vencimento) | Baixo (se não houver venda antes) | Médio (depende do emissor/rating) | Baixo a médio (depende de carência/prazo) | Baixo a médio | Médio |
| Debêntures / CRI / CRA | Médio (preço e spread variam) | Médio a alto (depende do emissor/estrutura) | Médio a alto (mercado secundário pode ser limitado) | Baixo a médio | Médio a alto |
| Ações | Alto | Baixo (não é crédito do emissor no sentido de pagamento prometido) | Médio (depende do papel; blue chips tendem a ser mais líquidas) | Médio | Alto |
| Fundos de renda fixa | Baixo a alto (depende da carteira e duration) | Baixo a alto (se tiver crédito privado) | Baixo a médio (depende do prazo de resgate e ativos) | Médio | Médio |
| Fundos multimercado | Médio a alto | Baixo a médio (depende da estratégia) | Baixo a médio (depende do fundo) | Médio | Alto |
| Previdência (fundos em PGBL/VGBL) | Baixo a alto (depende do perfil do fundo) | Baixo a médio (depende dos ativos) | Médio (regras e prazos podem limitar resgate/portabilidade) | Médio | Médio |
Como usar o quadro: identifique a classe do produto, veja quais riscos tendem a ser mais relevantes e confirme no regulamento/termos do produto (prazo de resgate, composição, política de investimento, emissor e garantias quando aplicável).
Glossário essencial (CPA-10)
- Volatilidade: medida (conceitual) do quanto um investimento oscila. Maior volatilidade indica maior variação possível no curto prazo.
- Duration (conceito): indica a sensibilidade do preço de um título de renda fixa às mudanças na taxa de juros. Em geral, maior duration significa maior oscilação do preço quando juros variam.
- Spread: diferença entre a taxa de um ativo e uma taxa de referência. Pode refletir risco de crédito, liquidez e condições de mercado.
- Rating: classificação de risco de crédito atribuída por agência/classificador (quando disponível), indicando a capacidade do emissor honrar seus compromissos. Não é garantia de pagamento.
- Marcação a mercado: atualização do valor do investimento pelo preço corrente de mercado, gerando oscilações diárias no valor.
- Risco x retorno: relação em que, em geral, maior retorno esperado vem acompanhado de maior risco assumido.