O que é controle e replanejamento no PCP (na prática)
Depois que as ordens estão liberadas e a execução começou, o papel do PCP é controlar o que está acontecendo no chão de fábrica e replanejar rapidamente quando surgem desvios. Controle significa transformar a execução em informações objetivas (status, atrasos, paradas, faltas de material, retrabalho), para decidir o que fazer hoje e nesta semana. Replanejamento é ajustar prioridades, redistribuir carga e alinhar áreas envolvidas para proteger prazos e reduzir perdas.
O controle no PCP funciona como um ciclo curto e repetitivo: ver (dados), entender (causas), decidir (prioridades e ações), comunicar (quem faz o quê) e acompanhar (se resolveu).
Quadro de ordens: o painel mínimo para controlar a execução
Um quadro de ordens (físico ou digital) é o instrumento mais simples para enxergar o fluxo. Ele deve permitir identificar rapidamente o que está parado, o que está atrasando e o que precisa de decisão.
Colunas recomendadas (status)
- Em aberto: ordem liberada, aguardando iniciar (fila).
- Em processo: operação em execução (ou aguardando próxima operação).
- Concluídas: finalizadas e liberadas para a próxima etapa (expedição, estoque, montagem etc.).
- Bloqueadas (opcional, mas muito útil): ordens que não podem avançar por algum impedimento (material, máquina, qualidade, ferramenta, falta de operador).
Campos essenciais por ordem
- Ordem / item / quantidade
- Cliente (ou destino interno) e data prometida
- Centro de trabalho atual e próximo
- Prioridade (A/B/C ou 1/2/3)
- Data/hora de início e previsão de término
- Status e motivo de bloqueio (se houver)
- Observações: retrabalho, inspeção pendente, falta de desenho, setup especial etc.
Exemplo de quadro (visão simplificada)
| Ordem | Item | Qtd | Status | CT atual | Prazo | Prior. | Bloqueio/Causa |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| OP-1042 | Eixo A | 200 | Em processo | Torno 02 | 29/01 | 1 | - |
| OP-1047 | Carcaça B | 80 | Bloqueada | Fresa 01 | 28/01 | 1 | Falta inserto |
| OP-1051 | Suporte C | 150 | Em aberto | Corte | 31/01 | 2 | - |
| OP-1039 | Conjunto D | 40 | Concluída | Montagem | 27/01 | 2 | - |
Análise de atrasos: como identificar o que está “furando” o plano
Para controlar atrasos, o PCP precisa de uma comparação simples entre planejado e real, destacando o que ameaça prazos e gargalos.
Indicadores práticos para o dia a dia
- Ordens atrasadas: quantidade e quais são (lista nominal).
- Atraso em dias: diferença entre data prometida e previsão atual.
- Fila no recurso crítico: quantas horas/dias de trabalho acumulado no centro mais carregado.
- OTD interno por etapa (no prazo por operação): ajuda a localizar onde o atraso nasce.
Classificação rápida do atraso (para decidir mais rápido)
- Atraso por capacidade: fila grande, máquina/turno insuficiente, setup elevado.
- Atraso por material: item faltante, divergência de estoque, atraso de fornecedor.
- Atraso por qualidade: retrabalho, refugo, inspeção pendente.
- Atraso por informação: desenho, instrução, liberação técnica, ferramenta.
- Atraso por prioridade: ordem “furada” por urgências ou trocas frequentes.
Causas de parada e faltas de material: como registrar para agir (e não só justificar)
Registrar causas de parada e faltas de material serve para tomar decisão imediata (o que fazer agora) e para evitar repetição (o que corrigir no processo). O registro deve ser padronizado e curto, para não virar burocracia.
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Modelo simples de registro de impedimento
| Campo | Exemplo |
|---|---|
| Ordem/Operação | OP-1047 / Fresagem |
| Tipo | Material / Máquina / Qualidade / Informação / Mão de obra |
| Causa | Inserto X sem reposição |
| Início | 27/01 10:20 |
| Responsável pela ação | Almoxarifado + Compras |
| Plano de ação | Buscar similar no estoque + cotar entrega expressa |
| Previsão de liberação | 27/01 14:00 |
Checklist rápido para “falta de material”
- Conferir saldo físico (não apenas sistema): existe divergência?
- Verificar reserva: material está alocado para outra ordem?
- Checar substituto: há equivalente aprovado?
- Confirmar entrega: pedido emitido? data confirmada? risco de atraso?
- Definir contenção: produzir parcial? trocar sequência? transferir de outra área?
Rotina prática diária de acompanhamento (reunião curta + reprogramação)
Uma rotina eficiente é curta, objetiva e baseada em fatos. O objetivo não é “passar status”, e sim remover impedimentos e reprogramar quando necessário.
Ritual recomendado (15 a 25 minutos)
- Participantes: líder de produção/turno, PCP, qualidade (quando necessário), manutenção (quando necessário), almoxarifado/compras (quando necessário).
- Frequência: diária (início do turno) e, se o ambiente for muito dinâmico, um “pit stop” no meio do dia (10 minutos).
- Entrada: quadro de ordens atualizado, lista de bloqueios, previsões de término do dia, pendências de material e manutenção.
- Saída: prioridades do dia, ordens reprogramadas, responsáveis e prazos de ação.
Pauta objetiva (ordem sugerida)
- Segurança e restrições do dia (ex.: máquina indisponível, falta de operador, inspeção).
- Top 5 ordens críticas (por prazo/cliente/gargalo): confirmar status e risco.
- Bloqueios: para cada bloqueio, definir ação e dono.
- Capacidade do dia: o que cabe produzir realisticamente no recurso crítico.
- Reprogramação: trocar sequência, dividir lote, mover para recurso alternativo, ajustar início/fim.
- Comunicação: avisos para áreas envolvidas (compras, manutenção, qualidade, logística, comercial).
Passo a passo prático para reprogramar o dia/semana
- Atualize o quadro: status real de cada ordem (em aberto/em processo/concluída/bloqueada) e previsões de término.
- Liste exceções: tudo que impede avanço (paradas, falta de material, retrabalho, atraso de fornecedor, pedido urgente).
- Recalcule o “caminho crítico” do curto prazo: quais ordens afetam diretamente entregas próximas e o recurso mais carregado.
- Defina prioridades do dia usando critérios claros (ver seção “passo a passo de decisão”).
- Confirme disponibilidade antes de prometer execução: material, ferramenta, máquina, operador, inspeção.
- Escolha a ação de reprogramação: sequenciar diferente, dividir lote, usar recurso alternativo, antecipar/adiar, terceirizar, rodar hora extra, trocar componente por equivalente.
- Registre mudanças: o que mudou, por quê, quem aprovou e qual o novo compromisso.
- Comunique imediatamente as mudanças para produção e áreas de suporte (e para quem depende da entrega).
- Acompanhe no mesmo dia: se a ação não destravou até o horário combinado, reabra a decisão (não espere “virar o dia”).
Gestão de exceções: cenários comuns e como agir
Cenário 1: quebra de máquina no recurso crítico
Situação: o centro de trabalho mais carregado para por falha, e há ordens com prazo curto.
Ações imediatas (primeira hora):
- Confirmar tempo estimado de reparo com manutenção (não trabalhar com “achismo”).
- Identificar ordens em processo na máquina e risco de perda (peça presa, material danificado).
- Mapear alternativas: máquina similar, rota alternativa, terceirização, mudança de sequência para manter outras áreas produtivas.
Reprogramação típica:
- Se reparo < 2–4 horas: manter fila, puxar ordens de outros recursos para não parar a fábrica e preparar setups/materiais.
- Se reparo > 1 turno: mover ordens críticas para recurso alternativo (se possível) e reordenar o restante para minimizar impacto no prazo.
Cenário 2: atraso de fornecedor (material crítico não chega)
Situação: componente chave não chega na data confirmada e bloqueia uma ordem prioritária.
Ações imediatas:
- Confirmar nova data e probabilidade (há risco de novo atraso?).
- Checar substitutos aprovados e estoque em outras áreas/unidades.
- Avaliar produção parcial: adiantar operações que não dependem do item faltante.
Reprogramação típica:
- Trocar a ordem bloqueada por outra que use o mesmo recurso e tenha material disponível.
- Se o cliente/prazo for crítico, acionar compra emergencial (frete expresso) e registrar impacto de custo.
Cenário 3: retrabalho inesperado (qualidade)
Situação: lote retorna para correção, consumindo capacidade e ameaçando prazos.
Ações imediatas:
- Quantificar: quantas peças, qual operação e tempo estimado de retrabalho.
- Decidir se retrabalho entra como prioridade (para proteger entrega) ou se pode aguardar janela.
- Separar fluxo: evitar misturar retrabalho com produção normal se isso aumentar setups e confusão.
Reprogramação típica:
- Reservar um bloco de tempo no recurso adequado (ou equipe dedicada) e ajustar sequência para reduzir trocas.
- Se o retrabalho consumir o gargalo, reavaliar todas as ordens da semana nesse recurso.
Cenário 4: pedido urgente (inserção de prioridade)
Situação: entra uma demanda urgente que compete com ordens já programadas.
Ações imediatas:
- Confirmar prazo real e penalidade (contrato, cliente estratégico, parada de linha do cliente).
- Checar disponibilidade (material, capacidade, rota) antes de “furar fila”.
- Definir qual ordem será postergada e comunicar impacto.
Reprogramação típica:
- Inserir a urgência no recurso crítico e deslocar ordens de menor impacto, evitando múltiplas trocas ao longo do dia.
- Se necessário, usar medidas de contenção: lote menor, hora extra, terceirização parcial.
Passo a passo de decisão para exceções (com critérios objetivos)
Quando surge uma exceção, a pior decisão é reprogramar “no impulso”. Use um roteiro curto com critérios para escolher a melhor alternativa.
1) Defina o problema em termos operacionais
- O que parou/bloqueou?
- Qual ordem/operação foi afetada?
- Qual é o prazo comprometido?
- Qual recurso está envolvido (especialmente se for gargalo)?
2) Liste opções de resposta (menu de ações)
- Trocar sequência (puxar outra ordem com material disponível).
- Dividir lote (entregar parcial antes, completar depois).
- Rota/recurso alternativo (máquina similar, operação alternativa).
- Terceirizar (operação específica ou lote).
- Hora extra/turno extra (capacidade temporária).
- Substituição de material (equivalente aprovado).
- Antecipar atividades preparatórias (setup, separação, inspeção) enquanto o bloqueio persiste.
3) Avalie com critérios (pontuação simples)
Use uma matriz rápida (0 a 3) para comparar opções. Exemplo de critérios:
- Impacto no prazo: reduz atraso? protege data prometida?
- Impacto no gargalo: consome ou libera o recurso crítico?
- Custo: frete expresso, terceirização, hora extra, sucata.
- Impacto no cliente: cliente estratégico, penalidade, risco de cancelamento.
- Risco operacional: aumenta chance de erro, retrabalho, falta de rastreabilidade.
Exemplo (0=ruim, 3=ótimo) para um pedido urgente: Opção A: trocar sequência (Prazo 3, Gargalo 2, Custo 3, Cliente 3, Risco 2) = 13 Opção B: hora extra (Prazo 3, Gargalo 3, Custo 1, Cliente 3, Risco 2) = 12 Opção C: terceirizar (Prazo 2, Gargalo 3, Custo 0, Cliente 3, Risco 1) = 94) Decida e “feche o circuito”
- Escolha 1 plano (e 1 plano B se o risco for alto).
- Defina dono e prazo para cada ação (compras, manutenção, produção, qualidade).
- Atualize o quadro e a prioridade das ordens afetadas.
- Comunique o impacto: o que mudou, quais ordens foram postergadas e por quanto.
Comunicação com áreas envolvidas: o mínimo para evitar retrabalho de planejamento
Replanejamento só funciona se a informação chegar rápido e sem ruído. Padronize mensagens curtas e completas.
Modelo de mensagem (interno)
- O que aconteceu: “Torno 02 parou por falha no spindle.”
- Impacto: “OP-1042 e OP-1045 atrasam 1 dia se não houver alternativa.”
- Decisão: “Mover OP-1042 para Torno 03 às 13:00; OP-1045 reprogramada para amanhã.”
- Ações e donos: “Manutenção: previsão 16:00; Almox: separar ferramenta X até 12:30.”
- Novo compromisso: “Entrega do cliente Z mantida em 29/01; cliente Y replanejado para 30/01.”
Regras simples de disciplina
- Sem confirmação de material/capacidade, não “prometer” execução.
- Reprogramação deve ter motivo registrado (para aprendizado e auditoria).
- Prioridade muda, mas não a cada hora: defina janelas (ex.: após a reunião diária e após o pit stop).