Por que controle de versões e organização de arquivos importam no dia a dia
Em um negócio de impressão 3D, o mesmo item pode ser reimpresso semanas depois, ajustado por feedback do cliente, ou investigado após uma falha. Sem organização e versionamento, você perde tempo procurando arquivos, corre o risco de imprimir um modelo antigo e fica sem evidências para diagnosticar problemas. Controle de versões é a prática de identificar claramente qual “estado” do arquivo foi usado em cada pedido, registrando mudanças e mantendo um pacote completo que permita repetir a produção com consistência.
A meta prática é simples: cada pedido deve apontar para uma versão específica do modelo e do perfil de fatiamento, e você deve conseguir reimprimir a mesma peça (ou auditar um defeito) apenas abrindo a pasta do pedido.
O que deve ser versionado (e o que não precisa)
Arquivos que devem ter versão
- Modelo 3D: STL/3MF para impressão; STEP (ou equivalente CAD) quando você edita geometria.
- Perfil do fatiador: preset/export do slicer (ex.: .ini/.json/.curaprofile/.3mf com configurações).
- Projeto do fatiador (quando aplicável): arquivo que guarda orientação, suportes, modificadores, múltiplas peças etc. (muitas equipes usam 3MF para isso).
- G-code: o arquivo efetivamente impresso (principalmente quando você precisa rastrear exatamente o que foi para a máquina).
Arquivos que podem ser “derivados”, mas ainda assim úteis
- Preview: imagem do fatiamento, captura de tela das camadas, ou export do preview.
- Fotos: peça pronta, peça com defeito, montagem, embalagem.
- Notas de produção: parâmetros reais usados (bico, filamento/lote, máquina, data/hora, observações).
Estrutura de pastas recomendada (modelo pronto para copiar)
Uma estrutura eficiente separa: (1) biblioteca de modelos e versões, (2) pedidos (onde você “congela” o que foi usado), e (3) recursos compartilhados (perfis base, materiais, máquinas). Abaixo um exemplo que funciona bem para pequenos negócios.
3D_NEGOCIO/ ├─ 00_ADMIN/ │ ├─ Templates/ │ └─ Padroes_Nomenclatura/ ├─ 01_BIBLIOTECA_MODELOS/ │ ├─ CLIENTE_OU_MARCA/ │ │ ├─ PRODUTO_X/ │ │ │ ├─ CAD_STEP/ │ │ │ ├─ EXPORT_STL_3MF/ │ │ │ ├─ CHANGELOG/ │ │ │ └─ REFERENCIAS/ ├─ 02_PERFIS_FATIADOR/ │ ├─ SLICER_NOME/ │ │ ├─ MAQUINA_A/ │ │ │ ├─ Materiais/ │ │ │ └─ Perfis_Base/ ├─ 03_PEDIDOS/ │ ├─ 2026/ │ │ ├─ 2026-01/ │ │ │ ├─ 2026-01-28_#1042_CLIENTE_NOME_PRODUTO_X/ │ │ │ │ ├─ 01_Arquivos_Recebidos/ │ │ │ │ ├─ 02_Modelo_Versionado/ │ │ │ │ ├─ 03_Fatiamento/ │ │ │ │ ├─ 04_Gcode_Impresso/ │ │ │ │ ├─ 05_Previews/ │ │ │ │ ├─ 06_Fotos/ │ │ │ │ └─ 07_Notas_e_Checks/ └─ 99_ARQUIVO_MORTO/ └─ Antigos_e_Obsoletos/Como usar na prática
- Biblioteca guarda as versões “oficiais” do produto (com histórico).
- Pedidos guardam um “snapshot” do que foi usado naquele pedido (mesmo que a biblioteca evolua depois).
- Perfis do fatiador ficam centralizados para evitar que cada pedido crie um perfil “solto” sem rastreio; no pedido você salva uma cópia/export do perfil efetivo.
Convenção de nomes (STL/STEP/3MF, perfis e G-code)
Uma convenção boa precisa ser: legível, ordenável por data, e com campos suficientes para evitar ambiguidade. Evite espaços e caracteres especiais; use _ e datas no formato AAAA-MM-DD.
Campos recomendados
- ID do produto (interno): ex.
P0123 - Nome curto: ex.
Suporte_Celular - Versão: ex.
v1,v2ouv1.1 - Revisão por data (opcional, mas forte para auditoria): ex.
r2026-01-28 - Material/variante (quando muda geometria ou tolerância): ex.
PLA,PETG,Folga0p30 - Máquina/bico (principalmente em G-code): ex.
MaqA,Nozzle0p4
Exemplos prontos
- STEP (editável):
P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28.step - STL (export para impressão):
P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28_PLA.stl - 3MF (projeto do fatiador com orientação/suportes):
P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28_Projeto.3mf - Perfil do fatiador (export):
Perfil_MaqA_PLA_0p20_v5_r2026-01-28.curaprofile(ajuste a extensão ao seu fatiador) - G-code:
2026-01-28_#1042_P0123_v2_MaqA_PLA_0p20_No0p4.gcode
Versionamento simples: v1, v2 e revisão por data
Quando usar v1, v2, v3…
Use v1, v2, v3 quando houver mudança relevante para o cliente ou para a produção, por exemplo:
- Ouça o áudio com a tela desligada
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Baixar o aplicativo
- mudança de encaixe/tolerância;
- reforço estrutural;
- alteração de dimensões;
- mudança de orientação recomendada (porque você alterou a geometria para imprimir melhor).
Quando usar revisão por data (rAAAA-MM-DD)
Use a revisão por data para rastrear pequenas iterações e manter clareza de “qual arquivo exatamente” foi usado, mesmo dentro da mesma versão. Exemplo: você mantém v2, mas ajusta um detalhe interno e quer saber qual export foi para o pedido.
- v2 = “família” da versão.
- r2026-01-28 = “build”/revisão específica.
Regra prática para não se perder
- Se você alterou a geometria: aumente versão (
v2→v3) e gere nova revisão por data. - Se você não alterou a geometria, mas mudou apenas fatiamento: mantenha a versão do modelo e versiona o perfil/projeto do fatiador separadamente.
Registro de mudanças (changelog): o que mudou e por quê
Um registro de mudanças evita “memória oral”. Ele deve responder: o que mudou, por que mudou e qual pedido motivou (quando aplicável). Pode ser um arquivo CHANGELOG.txt ou CHANGELOG.md dentro da pasta do produto na biblioteca.
Template simples (copiar e colar)
PRODUTO: P0123 - Suporte_Celular RESPONSAVEL: ____ UNIDADE: mm --- [v2 | r2026-01-28] Data: 2026-01-28 Motivo: Cliente relatou folga no encaixe / vibração O que mudou: - Aumentado ressalto lateral em +0,40 mm - Ajustada folga do encaixe de 0,20 para 0,30 mm Impacto esperado: Menos folga, montagem mais firme Pedidos relacionados: #1042 Arquivos gerados: - P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28.step - P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28_PLA.stl - P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28_Projeto.3mfBoas práticas rápidas
- Escreva o changelog no momento da alteração, não depois.
- Se a mudança foi para corrigir falha, registre o sintoma observado (ex.: empenamento, camada fraca, quebra no ponto X).
- Se a mudança foi estética, registre o critério (ex.: “reduzir marcas de suporte na face frontal”).
Vinculando cada pedido a uma versão (rastreabilidade)
O pedido precisa “apontar” para: versão do modelo, revisão, e qual perfil/projeto foi usado. Isso pode ser feito com um arquivo de metadados dentro da pasta do pedido, por exemplo Pedido_#1042.json ou README.txt.
Modelo de ficha do pedido (texto simples)
PEDIDO: #1042 DATA: 2026-01-28 CLIENTE: Nome ITEM: P0123 - Suporte_Celular MODELO: P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28_PLA.stl CAD: P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28.step PROJETO_SLICER: P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28_Projeto.3mf PERFIL_EXPORTADO: Perfil_MaqA_PLA_0p20_v5_r2026-01-28.curaprofile GCODE_IMPRESSO: 2026-01-28_#1042_P0123_v2_MaqA_PLA_0p20_No0p4.gcode MAQUINA: MaqA BICO: 0.4 MATERIAL: PLA (lote/nota: ____ ) OBS: Suporte em árvore; brim 6 mm; orientação X 90°Mesmo que você use um sistema de pedidos externo, essa ficha dentro da pasta garante que o pacote é autossuficiente para reimpressão e auditoria.
“Pacote do pedido” padrão: o que salvar sempre
O pacote do pedido é um conjunto mínimo de arquivos e evidências para permitir: (1) reimpressão consistente, (2) comparação entre pedidos, (3) auditoria de problemas. Padronize para que qualquer pessoa da equipe encontre tudo no mesmo lugar.
Checklist do pacote (pasta do pedido)
| Pasta | Conteúdo | Exemplo |
|---|---|---|
01_Arquivos_Recebidos | Arquivos do cliente e referências | STL original, desenho, foto, briefing |
02_Modelo_Versionado | Arquivos finais do modelo usados no pedido | STL/3MF final + STEP se aplicável |
03_Fatiamento | Projeto do slicer + perfil exportado | 3MF do projeto + preset exportado |
04_Gcode_Impresso | G-code enviado à máquina | Arquivo .gcode com nome rastreável |
05_Previews | Imagens do preview e parâmetros-chave | PNG do preview, screenshot de suportes |
06_Fotos | Fotos do resultado e eventuais defeitos | Frente/verso, close de falha, montagem |
07_Notas_e_Checks | Ficha do pedido + observações | Pedido_#1042.txt, checklist assinado |
Parâmetros que valem a pena registrar (mesmo que já estejam no slicer)
- máquina e identificação (se houver mais de uma);
- bico (diâmetro e se estava novo/usado);
- material e lote/fornecedor (quando possível);
- orientação e tipo de suporte;
- temperaturas e velocidade (se você ajustou “na hora”);
- observações de pós-processo que afetem repetibilidade (ex.: “lixado 2 min na face A”).
Passo a passo prático: do novo pedido ao arquivamento correto
1) Criar a pasta do pedido com nome padronizado
Use um padrão consistente e ordenável:
AAAA-MM-DD_#NUMERO_CLIENTE_PRODUTO
Exemplo: 2026-01-28_#1042_CLIENTE_NOME_PRODUTO_X
2) Copiar o template de subpastas
Mantenha um template em 00_ADMIN/Templates/Template_Pedido/ e copie para dentro do pedido. Isso reduz esquecimento.
3) “Congelar” a versão do modelo usada no pedido
- Se o produto já existe na biblioteca: copie para
02_Modelo_Versionadoexatamente o arquivo da versão/revisão escolhida. - Se você precisou alterar o modelo: crie nova revisão (ou nova versão) na biblioteca, atualize o changelog e então copie a nova revisão para o pedido.
4) Salvar o projeto do fatiador e exportar o perfil efetivo
- Salve o arquivo do projeto do slicer (ex.: 3MF) em
03_Fatiamento. - Exporte o perfil/preset usado e salve junto, com versão e revisão por data.
Isso evita o problema comum de “o preset foi alterado depois” e ninguém sabe qual configuração gerou aquele G-code.
5) Gerar e salvar o G-code com nome rastreável
Salve o G-code em 04_Gcode_Impresso com campos mínimos: data, pedido, produto, versão, máquina e material.
6) Capturar preview e evidências
- Salve ao menos 1 imagem do preview (orientação + suportes) em
05_Previews. - Tire fotos do resultado (e de falhas, se houver) e salve em
06_Fotos.
7) Preencher a ficha do pedido (metadados)
Crie Pedido_#1042.txt (ou .json) em 07_Notas_e_Checks e cole os nomes dos arquivos usados. O objetivo é que alguém consiga reimprimir sem “adivinhar”.
Regras para evitar confusão entre versões (erros comuns)
Não sobrescreva arquivos finais
Nunca salve por cima de ..._v2_r2026-01-28.stl. Se mudou algo, gere r2026-02-03 (ou v3 se for mudança maior). Sobrescrever destrói rastreabilidade.
Não dependa só do nome “final.stl”
Arquivos como final.stl, final2.stl, agora_vai.stl são um sinal de que o processo não está controlado. Troque por versão + revisão.
Não misture biblioteca com pedidos
Evite editar arquivos diretamente dentro da pasta do pedido. O pedido deve ser um snapshot; a edição e o histórico ficam na biblioteca.
Mini-padrão para equipes: quem pode mudar o quê
Mesmo em equipe pequena, defina um combinado simples:
- Biblioteca: só altera quem registra no changelog e incrementa versão/revisão.
- Perfis base: mudanças exigem export com nova revisão por data e anotação do motivo.
- Pedido: ninguém altera arquivos após a entrega; se houver reimpressão, crie uma subpasta
Reimpressao_01dentro do pedido ou um novo pedido vinculado, mantendo o histórico.
Exemplo completo (como fica um pedido bem documentado)
Pedido #1042 de um suporte, com pequena correção de encaixe:
- Biblioteca atualizada:
P0123_Suporte_Celular_v2_r2026-01-28.step+ changelog com motivo. - Pasta do pedido contém: STL final, 3MF do fatiamento, perfil exportado, G-code impresso, preview e fotos.
- Ficha do pedido aponta para os nomes exatos dos arquivos e registra máquina/material.