O que é um fluxo de produção (e por que ele define seus prazos)
Fluxo de produção é a forma como um pedido “anda” dentro do seu negócio, desde a entrada na fila até a entrega. Em impressão 3D, o fluxo precisa considerar três realidades: (1) a impressora é um recurso limitado (capacidade finita), (2) há etapas fora da máquina (preparo, pós-processo, inspeção, embalagem) e (3) trocas de setup (material, cor, bico, perfil) geram perdas e atrasos. Um fluxo bem desenhado transforma pedidos soltos em uma fila visível, com prioridades claras, prazos calculáveis e comunicação consistente.
Quadro de produção: etapas, status e prioridades
Estrutura recomendada de etapas (colunas)
Monte um quadro (físico ou digital) com colunas que representem o caminho real do trabalho. Um modelo simples e eficiente:
- Entrada / Triagem (pedido recebido, checagem de arquivos e requisitos)
- Ordem pronta (arquivos fatiados, parâmetros definidos, estimativa revisada)
- Fila de impressão (aguardando janela de máquina)
- Imprimindo (em execução)
- Pós-processo (remoção, limpeza, cura, acabamento)
- Inspeção (medidas, aparência, funcionalidade)
- Embalagem
- Pronto para retirada/envio
- Bloqueado (pendência do cliente: pagamento, confirmação, ajuste de arquivo)
Status padronizados (cartões)
Para cada pedido (ou lote), use cartões com campos mínimos para não depender de memória:
- ID do pedido e nome do cliente
- Material/cor, bico, altura de camada, perfil
- Quantidade e observações de qualidade
- Tempo de máquina estimado (por peça e total)
- Tempo de pós-processo estimado
- Data prometida e prioridade
- Dependências (ex.: “aguardando aprovação do cliente”)
Prioridade: regra simples para evitar “gritaria”
Defina uma regra pública (interna) para ordenar a fila. Exemplo prático:
- P1 — Urgente: só entra com taxa extra e janela definida (ver seção de urgências)
- P2 — Prazo curto: pedidos com data prometida próxima
- P3 — Normal: ordem de chegada dentro do mesmo agrupamento
- P4 — Flexível: pode ser usado para preencher “buracos” de agenda
Importante: prioridade não é “quem pediu por último”. É uma combinação de data prometida, esforço de setup e impacto na agenda.
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Capacidade: horas disponíveis × taxa de ocupação
Conceito
Capacidade é quanto tempo de impressão você realmente consegue entregar por período. Não confunda “24 horas por dia” com capacidade real: há manutenção, trocas, falhas, espera de material, tempo do operador e períodos em que você não inicia trabalhos longos (por exemplo, perto do horário de dormir, se não houver monitoramento).
Como calcular (passo a passo)
Passo 1 — Defina o período: semanal costuma funcionar melhor para pequenos negócios.
Passo 2 — Some as horas brutas de máquina:
- 1 impressora × 24h/dia × 7 dias = 168h/semana
- 2 impressoras = 336h/semana
Passo 3 — Aplique a taxa de ocupação (O) para refletir a realidade. Uma faixa comum para operação pequena é 0,55 a 0,80, dependendo de automação, confiabilidade e disciplina de fila.
Capacidade efetiva (h/semana) = Horas brutas × O
Exemplo: 1 impressora, 168h/semana, O=0,65 → capacidade efetiva ≈ 109h/semana.
Passo 4 — Reserve janelas fixas (capacidade “não vendável”): manutenção preventiva, calibração, testes de material, impressões internas. Exemplo: 6h/semana. Capacidade vendável ≈ 109h − 6h = 103h/semana.
Passo 5 — Converta em “limite de entrada”: some os tempos estimados de máquina dos pedidos aceitos na semana e compare com a capacidade vendável. Se a soma passar do limite, o novo pedido só entra com data prometida mais distante.
Capacidade do operador (não ignore)
Mesmo com máquina sobrando, o gargalo pode ser o pós-processo/embalagem. Faça um cálculo simples:
- Horas do operador disponíveis/semana (ex.: 20h)
- Taxa de ocupação do operador (ex.: 0,70)
- Capacidade efetiva do operador: 20 × 0,70 = 14h/semana
Se seus pedidos exigem 18h/semana de pós-processo, você terá fila fora da máquina e atrasos “inexplicáveis” para o cliente.
Lead time: como transformar fila em prazo realista
Definição prática
Lead time é o tempo entre “pedido aceito” e “pronto para entrega”. Ele inclui espera na fila, impressão, pós-processo, inspeção e embalagem. O erro comum é prometer apenas o tempo de impressão.
Modelo simples de cálculo
Use um modelo por pedido/lote:
Lead time = Espera na fila + Tempo de impressão + Pós-processo + Inspeção/embalagem + Folga operacionalComo estimar a espera na fila (método rápido): some as horas de impressão já comprometidas antes do pedido e divida pela capacidade diária.
Exemplo:
- Capacidade vendável: 103h/semana → ~14,7h/dia
- Fila atual comprometida: 44h de impressão
- Espera estimada: 44 ÷ 14,7 ≈ 3 dias
- Pedido novo: 10h impressão + 1,5h pós + 0,5h inspeção/embalagem
- Folga operacional: 20% do total (ver abaixo)
Total sem folga: 3 dias + (10h/14,7h/dia ≈ 0,7 dia) + (2h de trabalho fora da máquina, distribuído) → aproximadamente 4 dias úteis dependendo da sua rotina. Com folga, prometer 5 dias úteis tende a ser mais seguro.
Folga operacional: a regra que protege sua reputação
Folga operacional é tempo reservado para absorver variabilidade: pequenas falhas, reimpressões, atrasos de insumo, ajustes de última hora e “efeito dominó” de uma impressão que passou do tempo.
Formas práticas de aplicar:
- Percentual: adicione 15% a 30% ao lead time calculado (quanto mais custom e mais setups, maior o percentual).
- Buffer fixo: “+1 dia útil” para pedidos acima de X horas de impressão.
- Capacidade reservada: não venda 100% da capacidade; opere com 70–85% e deixe o restante como amortecedor.
Agrupamento de jobs: reduzir trocas e perdas sem bagunçar a fila
Por que agrupar
Cada troca de material, cor, bico ou perfil custa tempo e aumenta risco de falha. Agrupar jobs semelhantes reduz setups, melhora consistência e libera capacidade real.
Critérios de agrupamento (do mais impactante ao mais comum)
- Material (ex.: PLA, PETG, ABS, resina padrão): evita limpeza/troca e ajustes de temperatura/adesão.
- Cor: reduz trocas de filamento e purgas.
- Bico (0,4 / 0,6 / 0,8): evita troca física e recalibração.
- Altura de camada (0,12 / 0,20 / 0,28): mantém padrão de tempo e acabamento.
- Perfil/qualidade (rápido vs. detalhado): evita alternar parâmetros críticos.
- Altura Z / tempo total: combina peças com alturas semelhantes para reduzir “tempo ocioso” e facilitar planejamento.
Como aplicar sem prejudicar prazos (passo a passo)
Passo 1 — Defina “janelas de produção”: por exemplo, blocos de 1 a 2 dias por material/cor, dependendo do seu volume.
Passo 2 — Crie uma regra de corte para não segurar pedido demais. Exemplos:
- “Agrupo por material, mas nenhum pedido espera mais de 48h para entrar na máquina.”
- “Pedidos P2 entram na próxima janela, mesmo que quebrem o agrupamento.”
Passo 3 — Use uma coluna ‘Aguardando Lote’ dentro da fila: pedidos ficam visíveis e com data máxima para serem liberados.
Passo 4 — Planeje o setup como tarefa: no quadro, crie cartões de setup (ex.: “Trocar para PETG preto + bico 0,6 + perfil X”). Isso torna o custo de troca explícito e reduz improviso.
Exemplo de agenda semanal (1 impressora)
| Dia | Janela | Objetivo |
|---|---|---|
| Seg–Ter | PLA (cores claras) | Pedidos padrão e reposição |
| Qua | PLA (cores escuras) + bico 0,6 | Peças maiores/rápidas |
| Qui | PETG | Peças funcionais |
| Sex | Flex / especiais | Baixo volume, maior risco |
| Sáb | Buffer | Reimpressões, urgências, atrasos |
| Dom | Impressões longas estáveis | Jobs que podem rodar contínuos |
Essa estrutura cria previsibilidade: você sabe quando cada tipo de pedido “encaixa”, e o cliente recebe prazos coerentes.
Como prometer prazos com segurança (sem perder vendas)
Promessa em duas camadas: data interna e data ao cliente
Trabalhe com duas datas:
- Data interna: quando você precisa terminar para ter margem de manobra.
- Data prometida: a que o cliente vê.
Exemplo: se a entrega é sexta, sua data interna pode ser quarta (para absorver reimpressão, atraso de cura, embalagem, coleta).
Checklist rápido antes de prometer
- O pedido já está em Ordem pronta (fatiado e revisado)?
- Há capacidade vendável no período?
- O pedido exige setup raro (bico/material especial)?
- O pós-processo cabe na agenda do operador?
- Existe buffer na semana (capacidade reservada)?
Formato de prazo que reduz conflito
Prefira comunicar prazos como janela e com marco de confirmação:
- “Produção: 3 a 5 dias úteis após aprovação do arquivo e pagamento.”
- “Envio/retirada: no próximo dia útil após finalizar.”
Isso evita que o cliente conte horas corridas e protege você de dependências externas.
Urgências: como aceitar sem destruir sua fila
Crie um “modo urgente” com regras
Urgência não pode ser só “passar na frente”. Ela precisa de critérios para não virar padrão.
- Capacidade reservada: mantenha 10–20% da semana como buffer. Urgências entram primeiro nesse espaço.
- Taxa de urgência: cobre o custo real de quebrar agrupamentos e replanejar (inclusive risco de atrasar outros).
- Escopo travado: urgência só com arquivo aprovado e especificações fechadas. Mudança reinicia prazo.
- Limite de urgências: ex.: no máximo 2 urgências simultâneas por impressora.
Passo a passo para encaixar uma urgência
- Passo 1: verifique se cabe no buffer (horas de máquina e operador).
- Passo 2: se não couber, ofereça duas opções: (A) prazo urgente com taxa e impacto assumido, (B) prazo normal sem taxa.
- Passo 3: replaneje o quadro movendo cartões, mas registre quem foi impactado e já prepare comunicação preventiva.
Como comunicar atrasos mantendo confiança
Regra de ouro: avise cedo com plano, não com desculpa
Atraso comunicado no último dia parece descontrole. Atraso comunicado assim que detectado, com alternativa, preserva confiança.
Modelo de mensagem (copie e adapte)
Cenário 1 — Atraso pequeno (até 1 dia útil)
“Identificamos um ajuste necessário para garantir o padrão de qualidade desta peça. Isso desloca a finalização em 1 dia útil. Nova previsão: dia X. Se isso impactar seu uso, posso oferecer (opção A) retirada parcial do que já está pronto ou (opção B) envio expresso assim que finalizar.”
Cenário 2 — Atraso maior (reimpressão/insumo)
“Durante a produção ocorreu uma falha que exige reimpressão para manter o resultado esperado. Já reprogramamos a fila e a nova previsão é dia X. Para você não ficar sem alternativa, posso: (1) entregar uma versão provisória/parte do lote antes, ou (2) manter o prazo estendido com desconto/upgrade de frete (conforme aplicável).”
O que sempre incluir na comunicação
- Novo prazo (data e, se possível, janela)
- Motivo em linguagem simples (sem excesso técnico, sem culpar terceiros)
- Ação tomada (reimpressão, ajuste, replanejamento)
- Opções (parcial, alternativa de envio, ajuste de escopo)
- Próximo ponto de atualização (“te atualizo amanhã às 16h”)
Rotina de controle: cadência para não perder o domínio da fila
Revisão diária (10–15 minutos)
- Quais jobs terminam hoje?
- Qual é o próximo job a iniciar (já está “Ordem pronta”)?
- Existe algum bloqueio que precisa do cliente?
- O buffer da semana ainda existe ou já foi consumido?
Revisão semanal (30–60 minutos)
- Atualize a taxa de ocupação real (compare planejado vs. entregue).
- Ajuste janelas de agrupamento (material/cor/bico) conforme demanda.
- Identifique gargalos recorrentes (pós-processo, inspeção, embalagem).
- Defina a capacidade reservada para urgências e reimpressões.
Com quadro visível, capacidade calculada e regras de agrupamento/urgência, sua promessa de prazo deixa de ser “feeling” e vira um compromisso operacional controlável.