Controle de Pragas na Agricultura Moderna: Monitoramento e Manejo Integrado

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Tomada de decisão baseada em monitoramento

O controle de pragas na agricultura moderna começa com uma regra simples: não decidir “no olho”. A decisão deve ser baseada em dados de campo coletados de forma padronizada, comparados com referências técnicas (níveis de ação e dano econômico) e revisados ao longo do ciclo da cultura. Isso reduz custos, evita aplicações desnecessárias, preserva inimigos naturais e diminui o risco de resistência a inseticidas.

Conceitos-chave: infestação, nível de ação e dano econômico

Nível de infestação (ou pressão de praga) é a medida observada no campo: número de insetos por planta, por metro, por armadilha/dia, porcentagem de folhas atacadas, número de lagartas por pano de batida etc.

Nível de ação (NA) é o ponto em que se recomenda iniciar uma intervenção para evitar que a praga alcance prejuízo econômico. Ele é definido para cada cultura-praga-estádio e pode variar por região, cultivar, preço do produto e custo de controle.

Dano econômico (DE) é quando o prejuízo causado pela praga igual ou supera o custo do controle (incluindo produto, operação e riscos). Em termos práticos: se você agir apenas no DE, normalmente age tarde. Por isso, usa-se o NA como gatilho.

  • Infestação: o que está acontecendo agora (medido).
  • Nível de ação: quando agir para evitar prejuízo.
  • Dano econômico: quando já compensa economicamente (e muitas vezes já houve perda).

Como monitorar: amostragem prática e padronizada

1) Planejamento do monitoramento (antes de entrar no talhão)

  • Defina o alvo: quais pragas principais e secundárias são prováveis para a cultura e época.
  • Escolha os métodos: inspeção visual, pano de batida, armadilhas (feromônio, adesiva, luminosa), avaliação de danos.
  • Defina a unidade amostral: planta, metro linear, número de batidas, número de armadilhas, folhas por planta etc.
  • Padronize horários: algumas pragas são mais ativas em certos períodos (ex.: final da tarde/noite). O importante é manter consistência para comparar séries.

2) Pontos no talhão: onde amostrar

Evite amostrar apenas bordas ou áreas “bonitas”. Use um trajeto que represente o talhão:

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  • Trajeto em “W” ou “Z” para talhões regulares.
  • Estratificação quando houver variação (baixadas, áreas mais arenosas, proximidade de mato/capoeira, bordas com culturas vizinhas). Nesse caso, amostre cada zona separadamente.
  • Evite vieses: não escolher pontos por conveniência (próximo à estrada) e não repetir sempre os mesmos pontos sem justificativa.

Quantidade de pontos (referência prática): para talhões pequenos, 5–10 pontos podem ser suficientes; para talhões médios/grandes, 10–20+ pontos, ajustando conforme heterogeneidade e histórico de pragas. O objetivo é capturar a variabilidade sem tornar o processo inviável.

3) Frequência de monitoramento

  • Fase inicial e vegetativa: 1 vez por semana (ou mais se houver histórico de surtos).
  • Períodos críticos (florescimento/frutificação/enchimento, conforme cultura): 2 vezes por semana pode ser necessário.
  • Após intervenções: reavaliar em 48–72 horas (produto de choque) e novamente em 5–7 dias (para verificar reinfestação e efeito residual), ajustando ao alvo e ao modo de ação.

Métodos de amostragem: passo a passo

Inspeção visual (folhas, ponteiros, flores e frutos)

Quando usar: pulgões, mosca-branca, tripes, cochonilhas, ácaros (com lupa), ovos e lagartas pequenas, sintomas de raspagem/sucção.

Passo a passo:

  • Em cada ponto, selecione um número fixo de plantas (ex.: 5–10) ou folhas por planta (ex.: 3 folhas: superior, média e inferior).
  • Observe presença/ausência, estádio (ovo, ninfa, adulto), densidade (contagem ou escala) e localização (face inferior, brotos, flores).
  • Registre também inimigos naturais (joaninhas, crisopídeos, percevejos predadores, vespinhas parasitoides, aranhas) e sinais de parasitismo (múmias de pulgão, lagartas com fungo).
  • Fotografe quando houver dúvida de identificação e marque o ponto (GPS/app) para revisita.

Pano de batida (batida de plantas)

Quando usar: percevejos, lagartas, besouros, ninfas e adultos que caem ao impacto (muito comum em grãos e hortaliças de porte adequado).

Passo a passo:

  • Use pano branco com dimensões padronizadas (ex.: 1 m de comprimento) e mantenha sempre o mesmo método.
  • Posicione o pano entre linhas ou sob a copa/ramo, conforme cultura.
  • Agite/bata um número fixo de plantas/ramo (ex.: 1 metro linear ou 5 plantas) e conte os insetos que caírem.
  • Registre por ponto: número por pano e, se possível, por grupo (percevejos, lagartas pequenas, lagartas grandes).

Armadilhas (feromônio, adesiva, luminosa)

Quando usar: monitoramento de voo de mariposas (feromônio), moscas e insetos alados (adesivas), pragas noturnas (luminosa, quando aplicável).

Boas práticas:

  • Instalação: posicionar na altura recomendada para a praga/cultura e manter acessível para leitura.
  • Densidade: usar número mínimo por área e aumentar em talhões heterogêneos; o importante é consistência e cobertura.
  • Leitura: contar e registrar em intervalos fixos (ex.: 2–3 vezes por semana em picos de voo).
  • Manutenção: trocar iscas/feromônios e placas adesivas no prazo; armadilha suja gera subestimativa.

Interpretação: armadilha indica tendência (aumento/queda do voo) e ajuda a prever postura/infestação, mas normalmente não substitui a avaliação direta na planta.

Amostragem de dano (quando a praga é difícil de contar)

Quando usar: pragas que causam sintomas característicos (minadores, desfolhadores em baixa densidade, sugadores com fumagina), ou quando a contagem direta é lenta.

Passo a passo:

  • Defina uma escala simples (ex.: % de folhas com dano; nota 0–5 para severidade).
  • Meça sempre a mesma estrutura (ex.: 20 folhas por ponto).
  • Combine com busca do agente causal para evitar confundir dano de praga com fitotoxicidade, deficiência ou doença.

Registro de dados: o que anotar para decidir melhor

Um monitoramento útil precisa gerar uma série histórica comparável. Registre:

  • Data e hora, talhão, cultura, estádio fenológico.
  • Método (visual, pano, armadilha), número de pontos e unidade amostral.
  • Praga (espécie quando possível) e estádio (ovo/larva/ninfa/adulto).
  • Contagem/dano por ponto e média do talhão.
  • Inimigos naturais e sinais de controle biológico natural.
  • Condições: clima recente (chuva, calor), presença de plantas hospedeiras próximas, bordaduras.
  • Ação tomada (se houve): produto/método, dose, volume, data, área tratada.
  • Resultado: reavaliação pós-intervenção.

Exemplo prático: ficha de monitoramento (modelo)

DataTalhãoCultura/estádioMétodoPontosPragaMedidaMédiaNA (ref.)Inimigos naturaisDecisãoReavaliação
__/__/__T1Ex.: soja R2Pano + visual12Lagarta Xnº/pano2,12,0crisopídeos: altoIntervir seletivo72h: 0,8
__/__/__T1Ex.: soja R2Armadilha feromônio2Mariposa Ycapturas/noite18tendênciaIntensificar inspeção3 dias: ovos presentes

Como usar: o campo “NA (ref.)” deve ser preenchido com a referência técnica adotada na propriedade (assistência técnica, boletins regionais, recomendações por cultura). O importante é que a equipe use a mesma referência ao longo da safra.

Manejo Integrado de Pragas (MIP): estratégias e como escolher

MIP é a combinação de táticas compatíveis para manter pragas abaixo do nível que cause prejuízo, com menor impacto ambiental e menor risco de resistência. A escolha depende de: espécie e estádio da praga, nível de pressão, fase da cultura, presença de inimigos naturais, clima e janela operacional.

Controle biológico

Objetivo: aumentar a mortalidade natural da praga com organismos benéficos, reduzindo dependência de químicos e preservando equilíbrio.

Predadores

  • O que são: consomem várias presas ao longo da vida (ex.: joaninhas contra pulgões; crisopídeos contra ovos e ninfas; percevejos predadores contra lagartas pequenas).
  • Como favorecer: evitar inseticidas de amplo espectro quando não necessários; manter refúgios/áreas com recursos (quando compatível); reduzir poeira e deriva.

Parasitoides

  • O que são: vespas/moscas que colocam ovos no hospedeiro (ex.: parasitoides de ovos de lepidópteros; parasitoides de pulgões).
  • Aplicação prática: liberações inundativas/inoculativas (quando disponíveis) exigem timing correto (início da infestação) e compatibilidade com produtos químicos.

Microrganismos (bioinseticidas)

  • Bactérias (ex.: Bacillus thuringiensis): melhor para lagartas jovens; exige boa cobertura e ingestão.
  • Fungos entomopatogênicos (ex.: Beauveria, Metarhizium): dependem de umidade/condições favoráveis; ação mais lenta, porém útil em programas.
  • Vírus (baculovírus): alta especificidade; excelente para manejo com baixa agressão a inimigos naturais.

Passo a passo para usar biológicos com mais chance de sucesso:

  • Confirmar que o alvo está no estádio mais suscetível (ex.: lagartas pequenas).
  • Aplicar com boa cobertura e volume adequado.
  • Evitar misturas incompatíveis e respeitar pH/qualidade da água quando indicado.
  • Programar aplicação em horários de menor radiação/temperatura, conforme recomendação do produto.
  • Reavaliar em 3–7 dias (biológicos podem ter efeito progressivo).

Controle cultural

São práticas de manejo que reduzem a chance de estabelecimento e multiplicação da praga.

  • Época de plantio: ajustar para evitar coincidência com picos populacionais (quando há histórico regional).
  • Rotação de culturas: quebra ciclos de pragas específicas e reduz “ponte verde”.
  • Eliminação de hospedeiros: controlar plantas voluntárias e hospedeiros alternativos em bordas e entre-safra (com cuidado para não eliminar refúgios úteis quando isso piorar o desequilíbrio; a decisão deve ser local e técnica).
  • Manejo de restos culturais: reduzir abrigo/oviposição quando aplicável.
  • Adensamento e arquitetura: ajustar espaçamento/poda (em perenes/hortas) para reduzir microclima favorável a algumas pragas e melhorar penetração de pulverização.

Controle físico/mecânico

  • Barreiras: telas anti-inseto em hortas/estufas; mantas quando viáveis.
  • Armadilhamento massal: aumento de armadilhas para reduzir população (mais comum em sistemas intensivos).
  • Remoção: retirada de folhas/frutos muito infestados em hortas e fruticultura, quando economicamente viável.
  • Jato d’água: em alguns casos para derrubar sugadores em hortaliças, como medida complementar.

Controle químico criterioso (quando e como usar)

O controle químico entra como ferramenta do MIP, não como padrão fixo. Deve ser acionado pelo nível de ação e pela tendência de crescimento da praga.

Seleção de produtos: critérios práticos

  • Alvo correto: produto eficaz para a praga e para o estádio presente (ovo, larva pequena, adulto).
  • Seletividade: preferir produtos menos agressivos a inimigos naturais e polinizadores quando possível.
  • Modo de ação: escolher considerando histórico de uso na área e necessidade de rotação.
  • Carência e intervalo de reentrada: compatíveis com a fase da cultura e com a operação.
  • Condições de aplicação: vento, temperatura, umidade e risco de deriva para áreas sensíveis.

Rotação de modos de ação e manejo de resistência

Resistência é favorecida por repetição do mesmo modo de ação e por aplicações em subdose ou com baixa cobertura. Boas práticas:

  • Rotacionar modos de ação entre aplicações e entre safras, evitando sequências repetidas do mesmo grupo.
  • Tratar no timing: pragas em estádio mais suscetível exigem menos pressão de seleção e melhor controle.
  • Evitar “calendário”: aplicações sem necessidade aumentam seleção por resistência.
  • Garantir tecnologia de aplicação: bico, volume, gotas, velocidade e calibração para atingir o alvo.

Exemplo de regra operacional: se foi usado um produto do grupo A para lagartas, a próxima intervenção para o mesmo alvo deve priorizar grupo B ou C (conforme registro e recomendação técnica), mantendo o número de aplicações por grupo dentro do recomendado.

Fluxo de decisão do MIP (do dado à ação)

1) Monitorar (campo + armadilhas + histórico)  →  2) Confirmar a praga (identificação e estádio)  →  3) Estimar pressão (média, distribuição, tendência)  →  4) Comparar com nível de ação (NA) e considerar inimigos naturais  →  5) Escolher método (cultural/biológico/físico/químico ou combinação)  →  6) Executar com qualidade (timing + tecnologia de aplicação)  →  7) Avaliar resultado (48–72h e 5–7 dias)  →  8) Registrar e ajustar (aprendizado para a próxima decisão)

Como estimar “tendência” (pressão subindo ou caindo)

  • Compare a média atual com a anterior usando o mesmo método.
  • Observe a proporção de pontos acima do NA (infestação agregada pode exigir manejo localizado).
  • Considere clima: calor pode acelerar ciclos; chuvas podem reduzir algumas pragas e favorecer outras.
  • Considere inimigos naturais: alta presença pode justificar intensificar monitoramento antes de intervir com químico de amplo espectro.

Exemplo prático (situação de campo): do monitoramento à escolha da tática

Cenário: em um talhão, armadilhas de feromônio indicam aumento de capturas de mariposas por 3 leituras consecutivas. Na inspeção visual, aparecem ovos e lagartas pequenas em alguns pontos, com desfolha ainda baixa.

  • 1) Monitorar: armadilhas (tendência) + inspeção visual (presença de ovos/lagartas).
  • 2) Confirmar: identificar a espécie-alvo e o estádio predominante (lagartas jovens).
  • 3) Estimar pressão: contar lagartas por unidade (pano/plantas) e mapear se está concentrado em bordas ou generalizado.
  • 4) Comparar com NA: se a média estiver próxima do NA e a tendência for de alta, planejar intervenção; se abaixo e inimigos naturais estiverem altos, intensificar frequência.
  • 5) Escolher método: priorizar bioinseticida (ex.: específico para lagartas jovens) e/ou produto seletivo, preservando parasitoides/predadores; complementar com ajuste cultural/operacional (ex.: eliminar hospedeiros voluntários próximos, se estiverem servindo de ponte).
  • 6) Executar: aplicar no horário adequado, com cobertura suficiente no dossel onde as lagartas se alimentam.
  • 7) Avaliar: reamostrar em 72h e em 7 dias; se persistir acima do NA, rotacionar modo de ação e revisar falhas de aplicação.

Orientações de segurança do aplicador e proteção de polinizadores

Segurança do aplicador (boas práticas essenciais)

  • EPIs: usar conforme rótulo/bula (luvas, macacão, botas, respirador, óculos/face shield), sem improvisos.
  • Preparo da calda: medir corretamente, evitar respingos, usar local ventilado e com contenção de derrames.
  • Calibração: reduzir exposição por retrabalho e vazamentos; verificar mangueiras, filtros, bicos e pressão.
  • Condições climáticas: evitar vento forte e calor extremo; reduzir deriva e risco ao aplicador.
  • Intervalo de reentrada: respeitar o período indicado; sinalizar área tratada.
  • Higiene: não comer/beber/fumar durante a operação; banho e troca de roupa após aplicação; lavar EPIs conforme orientação.
  • Armazenamento e descarte: manter produtos em local trancado e ventilado; realizar tríplice lavagem quando aplicável e destinar embalagens conforme sistema local.

Proteção de polinizadores e organismos benéficos

  • Evitar aplicação em florescimento quando houver atividade de abelhas, sempre que possível; preferir horários de menor visitação (fim de tarde/noite) quando o rótulo permitir.
  • Escolher produtos menos tóxicos a polinizadores e mais seletivos a inimigos naturais, quando houver alternativas eficazes.
  • Reduzir deriva: bicos adequados, gotas mais grossas quando indicado, altura correta da barra, vento dentro do limite, bordaduras de segurança.
  • Comunicação: avisar apicultores vizinhos e equipe sobre janelas de aplicação e áreas sensíveis.
  • Evitar contaminação de água: respeitar faixas de proteção e não lavar equipamentos próximo a corpos d’água.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um programa de manejo integrado, por que o nível de ação (NA) é usado como gatilho para intervir, em vez de esperar o dano econômico (DE)?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O NA é um ponto de decisão baseado em monitoramento para iniciar a intervenção antes que a praga cause perda econômica. Esperar o DE costuma significar agir tarde, com prejuízo já ocorrendo.

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