Controle de estoque com impacto financeiro no fluxo de caixa

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que estoque mexe diretamente com o caixa (e não só com o “lucro”)

Estoque é dinheiro que saiu do caixa e ficou “parado” em forma de mercadoria. Enquanto não vende, ele não volta para o caixa. Por isso, estoque é um dos maiores pontos de pressão financeira em negócios de produto (loja, e-commerce, restaurante, oficina, revenda, etc.).

Dois efeitos acontecem ao mesmo tempo:

  • Imobilização de dinheiro: você paga (à vista ou a prazo) para comprar itens que ainda não geraram entrada de dinheiro.
  • Risco de perda de margem: itens parados podem exigir desconto para vender, vencer, quebrar, sair de linha ou perder valor — reduzindo o lucro.

Um erro comum é olhar apenas para “tenho mercadoria, então estou bem”. Na prática, você pode ter prateleira cheia e caixa vazio.

Exemplo rápido: estoque cheio e caixa apertado

Você compra R$ 30.000 em mercadorias para “aproveitar um preço bom”. Vende apenas R$ 10.000 no mês. Mesmo que a margem seja boa, o caixa pode ficar apertado porque R$ 20.000 continuam imobilizados no estoque (sem contar despesas do mês). Se parte desse estoque encalhar e você precisar dar desconto, a margem cai.

Controles mínimos de estoque (o básico que evita prejuízo e falta de caixa)

Você não precisa de um sistema complexo para começar. Precisa de consistência e de poucos campos bem preenchidos. O controle mínimo tem 5 pilares:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Entradas: tudo que foi comprado/recebido e entrou no estoque.
  • Saídas: tudo que foi vendido/consumido/transferido.
  • Custo de compra: quanto cada item realmente custou (para medir margem e valor do estoque).
  • Perdas: vencimento, quebra, roubo, avaria, erro de produção, devolução não reaproveitável.
  • Inventário periódico: contagem física para corrigir diferenças e enxergar perdas ocultas.

Passo a passo prático: como montar o controle mínimo em 1 tarde

  1. Liste os itens que merecem controle: comece pelos que mais vendem e/ou mais custam. Se tiver muitos SKUs, priorize os 20% que representam 80% do valor (regra de Pareto).
  2. Defina unidade padrão: peça, caixa, kg, litro. Evite misturar (ex.: comprar em caixa e vender em unidade sem conversão definida).
  3. Crie uma ficha por item: código, descrição, unidade, fornecedor principal, custo atual, estoque atual, estoque mínimo.
  4. Registre toda entrada: data, quantidade, custo unitário, fornecedor, condição de pagamento, prazo, número do documento.
  5. Registre toda saída: data, quantidade, motivo (venda, consumo interno, perda, transferência).
  6. Agende inventário: semanal (alto giro), quinzenal/mensal (médio), trimestral (baixo giro). O importante é ter rotina.

Custo de compra: o número que conecta estoque ao financeiro

Para o estoque ajudar na decisão financeira, o custo precisa ser realista. Em geral, use custo de aquisição:

  • Preço do fornecedor
  • + frete (se relevante)
  • + impostos não recuperáveis
  • + outros custos diretamente atribuíveis (ex.: embalagem obrigatória para revenda)

Se você compra o mesmo item várias vezes com preços diferentes, duas abordagens simples para pequenos negócios:

  • Custo médio: recalcula um custo médio a cada compra (bom para simplicidade).
  • Último custo: usa o custo da última compra (mais simples, mas pode distorcer margem em períodos de alta/baixa).

Exemplo: custo médio

Você tinha 10 unidades a R$ 20 (R$ 200). Compra mais 10 a R$ 24 (R$ 240). Total: 20 unidades por R$ 440. Custo médio = R$ 22. Esse custo é o que você usa para avaliar margem e valor do estoque.

Perdas: o “vazamento” que drena caixa sem aparecer

Perda não é só item quebrado. É qualquer saída que não vira venda. Se você não registra, o estoque “some” e você repõe sem perceber que está financiando desperdício.

Passo a passo prático: como controlar perdas sem burocracia

  1. Crie motivos padrão: vencimento, avaria, roubo, erro de separação, devolução, consumo interno.
  2. Registre a perda como saída: data, item, quantidade, motivo, responsável.
  3. Revise semanalmente: quais itens mais perdem? Qual o valor total perdido no mês?
  4. Defina ação: melhorar armazenamento, ajustar compra, treinar equipe, revisar embalagem, reduzir exposição.

Inventário periódico: a ponte entre “planilha” e realidade

Inventário é a contagem física para comparar com o saldo registrado. Diferença quase sempre significa: perda não registrada, erro de entrada/saída, venda sem baixa, ou contagem errada.

Passo a passo prático: inventário enxuto

  1. Escolha um dia e horário fixos: de preferência com menos movimento.
  2. Trave movimentações: durante a contagem, evite entrada/saída (ou registre separadamente).
  3. Conte por categorias: por prateleira, por família, por local.
  4. Compare e ajuste: registre a diferença como “ajuste de inventário” e investigue os maiores desvios.
  5. Foque no valor: priorize contagem mais frequente nos itens de maior valor e maior giro.

Indicadores práticos para decidir compra sem sufocar o caixa

1) Giro de estoque

Mostra quantas vezes o estoque “vira” (é vendido e reposto) em um período. Quanto maior o giro, menos dinheiro fica parado.

Uma forma prática:

Giro (no mês) = Custo das mercadorias vendidas no mês (CMV) / Estoque médio do mês

Exemplo: CMV do mês = R$ 18.000. Estoque médio = R$ 30.000. Giro = 0,6. Isso sugere que o estoque está alto para o volume vendido (muito dinheiro parado).

2) Cobertura (dias de estoque)

Indica por quantos dias seu estoque atual sustenta as vendas no ritmo atual.

Cobertura (dias) = Estoque atual / (CMV diário)

Exemplo: Estoque atual (a custo) = R$ 30.000. CMV mensal = R$ 18.000 → CMV diário (30 dias) = R$ 600. Cobertura = 30.000 / 600 = 50 dias. Se seu prazo de reposição é curto, 50 dias pode ser excesso e pressionar o caixa.

3) Ponto de reposição

É o nível de estoque em que você deve comprar para não faltar produto, considerando o tempo que o fornecedor leva para entregar.

Ponto de reposição = Consumo médio diário × Prazo de reposição (dias) + Estoque de segurança

Exemplo: você vende 5 unidades/dia. O fornecedor entrega em 7 dias. Estoque de segurança = 10 unidades. Ponto de reposição = 5×7 + 10 = 45 unidades. Quando o saldo chegar perto de 45, você dispara a compra.

4) Compras por lote (quanto comprar de cada vez)

Comprar em lote grande pode reduzir preço e frete, mas aumenta dinheiro parado e risco de perda/obsolescência. Comprar em lote pequeno preserva caixa, mas pode aumentar custo e risco de ruptura (falta).

Uma regra prática para decidir lote é comparar economia versus custo de carregar estoque (dinheiro parado + risco + espaço + perdas).

Exemplo de decisão: comprar mais barato em volume vs. preservar caixa

Item A:

  • Compra normal: 100 unidades a R$ 10 = R$ 1.000
  • Compra em volume: 500 unidades a R$ 9 = R$ 4.500 (economia de R$ 500 no preço)
  • Venda média: 100 unidades/mês

Se você comprar 500 unidades, terá estoque para 5 meses. Perguntas financeiras práticas:

  • Seu caixa aguenta pagar R$ 4.500 agora (ou assumir parcelas) sem atrasar outras contas?
  • O item tem risco de encalhar, vencer ou mudar?
  • Você perde oportunidade de comprar outros itens mais rentáveis por falta de caixa?
  • Qual o custo do dinheiro parado? Se você precisa de capital para operar, a economia de R$ 500 pode ser menor que o custo de ficar sem caixa (atrasos, juros, perda de desconto em outras compras, ruptura de itens críticos).

Decisão possível: comprar 200 unidades (2 meses) mesmo pagando R$ 10, se isso mantiver o caixa saudável e reduzir risco. Ou negociar com o fornecedor: preço de volume com entregas fracionadas.

Modelo de registro de estoque integrado ao financeiro (para enxergar impacto no caixa)

O objetivo é que cada entrada de estoque já traga informações que ajudam a prever saídas de caixa e medir margem. Abaixo um modelo simples de tabela (pode ser planilha) que conecta estoque e compra.

DataItem (SKU)DescriçãoTipoQtdUnidCusto unit.Custo totalFornecedorPrazo entrega (dias)Condição pagtoVencimento(s)NF/DocObservações
05/02SKU-001Filtro XEntrada50un22,001.100,00Fornecedor A330 dias07/03NF 1234Frete incluso
10/02SKU-001Filtro XSaída (venda)8un22,00176,00----Pedido 778Baixa automática
12/02SKU-002Produto YSaída (perda)2un15,0030,00----AJ-02Avaria

Como usar esse modelo no dia a dia (rotina simples)

  1. Ao comprar: registre a entrada com custo, fornecedor e condição de pagamento. Isso permite enxergar o estoque aumentando e também cria um “alerta” de vencimento futuro no financeiro (quando o pagamento vai sair).
  2. Ao vender: registre a saída (ou garanta que a venda dê baixa). Assim você mede consumo e consegue calcular giro/cobertura.
  3. Ao perder: registre como saída por perda (não como venda). Isso protege sua análise de margem e revela vazamentos.
  4. Semanalmente: revise itens com cobertura alta (parados) e itens próximos do ponto de reposição (risco de falta).
  5. Mensalmente: faça inventário dos itens mais valiosos e ajuste diferenças.

Checklist de decisões de compra com foco em caixa

  • O item é de alto giro? Se sim, faz sentido repor com frequência e lote menor para não imobilizar caixa.
  • Qual a cobertura atual? Se já tem muitos dias de estoque, comprar mais pode apertar o caixa sem necessidade.
  • Qual o prazo de reposição? Quanto maior o prazo, maior a necessidade de estoque de segurança (mas com cálculo, não “no olho”).
  • Qual a condição de pagamento? Se o fornecedor dá prazo, você reduz pressão imediata no caixa; se é à vista, o lote precisa ser mais conservador.
  • Existe risco de perda/obsolescência? Itens com validade, moda, tecnologia ou variação de modelo pedem lotes menores.
  • Existe alternativa de negociação? Entrega fracionada, consignação, desconto por volume com faturamento parcial, ou mix de itens para atingir mínimo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática ajuda a decidir reposições e compras sem sufocar o caixa, equilibrando risco de falta e dinheiro parado em estoque?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Giro e cobertura mostram quanto dinheiro está parado e por quantos dias o estoque sustenta as vendas; o ponto de reposição considera consumo e prazo do fornecedor para repor sem faltar, evitando excesso que pressiona o caixa.

Próximo capitúlo

Leitura simples de resultados: receita, custos, despesas e margem

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Gestão Financeira Básica para Empreendedores: fluxo de caixa e controle sem complicação
71%

Gestão Financeira Básica para Empreendedores: fluxo de caixa e controle sem complicação

Novo curso

14 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.