Por que estoque mexe diretamente com o caixa (e não só com o “lucro”)
Estoque é dinheiro que saiu do caixa e ficou “parado” em forma de mercadoria. Enquanto não vende, ele não volta para o caixa. Por isso, estoque é um dos maiores pontos de pressão financeira em negócios de produto (loja, e-commerce, restaurante, oficina, revenda, etc.).
Dois efeitos acontecem ao mesmo tempo:
- Imobilização de dinheiro: você paga (à vista ou a prazo) para comprar itens que ainda não geraram entrada de dinheiro.
- Risco de perda de margem: itens parados podem exigir desconto para vender, vencer, quebrar, sair de linha ou perder valor — reduzindo o lucro.
Um erro comum é olhar apenas para “tenho mercadoria, então estou bem”. Na prática, você pode ter prateleira cheia e caixa vazio.
Exemplo rápido: estoque cheio e caixa apertado
Você compra R$ 30.000 em mercadorias para “aproveitar um preço bom”. Vende apenas R$ 10.000 no mês. Mesmo que a margem seja boa, o caixa pode ficar apertado porque R$ 20.000 continuam imobilizados no estoque (sem contar despesas do mês). Se parte desse estoque encalhar e você precisar dar desconto, a margem cai.
Controles mínimos de estoque (o básico que evita prejuízo e falta de caixa)
Você não precisa de um sistema complexo para começar. Precisa de consistência e de poucos campos bem preenchidos. O controle mínimo tem 5 pilares:
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Entradas: tudo que foi comprado/recebido e entrou no estoque.
- Saídas: tudo que foi vendido/consumido/transferido.
- Custo de compra: quanto cada item realmente custou (para medir margem e valor do estoque).
- Perdas: vencimento, quebra, roubo, avaria, erro de produção, devolução não reaproveitável.
- Inventário periódico: contagem física para corrigir diferenças e enxergar perdas ocultas.
Passo a passo prático: como montar o controle mínimo em 1 tarde
- Liste os itens que merecem controle: comece pelos que mais vendem e/ou mais custam. Se tiver muitos SKUs, priorize os 20% que representam 80% do valor (regra de Pareto).
- Defina unidade padrão: peça, caixa, kg, litro. Evite misturar (ex.: comprar em caixa e vender em unidade sem conversão definida).
- Crie uma ficha por item: código, descrição, unidade, fornecedor principal, custo atual, estoque atual, estoque mínimo.
- Registre toda entrada: data, quantidade, custo unitário, fornecedor, condição de pagamento, prazo, número do documento.
- Registre toda saída: data, quantidade, motivo (venda, consumo interno, perda, transferência).
- Agende inventário: semanal (alto giro), quinzenal/mensal (médio), trimestral (baixo giro). O importante é ter rotina.
Custo de compra: o número que conecta estoque ao financeiro
Para o estoque ajudar na decisão financeira, o custo precisa ser realista. Em geral, use custo de aquisição:
- Preço do fornecedor
- + frete (se relevante)
- + impostos não recuperáveis
- + outros custos diretamente atribuíveis (ex.: embalagem obrigatória para revenda)
Se você compra o mesmo item várias vezes com preços diferentes, duas abordagens simples para pequenos negócios:
- Custo médio: recalcula um custo médio a cada compra (bom para simplicidade).
- Último custo: usa o custo da última compra (mais simples, mas pode distorcer margem em períodos de alta/baixa).
Exemplo: custo médio
Você tinha 10 unidades a R$ 20 (R$ 200). Compra mais 10 a R$ 24 (R$ 240). Total: 20 unidades por R$ 440. Custo médio = R$ 22. Esse custo é o que você usa para avaliar margem e valor do estoque.
Perdas: o “vazamento” que drena caixa sem aparecer
Perda não é só item quebrado. É qualquer saída que não vira venda. Se você não registra, o estoque “some” e você repõe sem perceber que está financiando desperdício.
Passo a passo prático: como controlar perdas sem burocracia
- Crie motivos padrão: vencimento, avaria, roubo, erro de separação, devolução, consumo interno.
- Registre a perda como saída: data, item, quantidade, motivo, responsável.
- Revise semanalmente: quais itens mais perdem? Qual o valor total perdido no mês?
- Defina ação: melhorar armazenamento, ajustar compra, treinar equipe, revisar embalagem, reduzir exposição.
Inventário periódico: a ponte entre “planilha” e realidade
Inventário é a contagem física para comparar com o saldo registrado. Diferença quase sempre significa: perda não registrada, erro de entrada/saída, venda sem baixa, ou contagem errada.
Passo a passo prático: inventário enxuto
- Escolha um dia e horário fixos: de preferência com menos movimento.
- Trave movimentações: durante a contagem, evite entrada/saída (ou registre separadamente).
- Conte por categorias: por prateleira, por família, por local.
- Compare e ajuste: registre a diferença como “ajuste de inventário” e investigue os maiores desvios.
- Foque no valor: priorize contagem mais frequente nos itens de maior valor e maior giro.
Indicadores práticos para decidir compra sem sufocar o caixa
1) Giro de estoque
Mostra quantas vezes o estoque “vira” (é vendido e reposto) em um período. Quanto maior o giro, menos dinheiro fica parado.
Uma forma prática:
Giro (no mês) = Custo das mercadorias vendidas no mês (CMV) / Estoque médio do mêsExemplo: CMV do mês = R$ 18.000. Estoque médio = R$ 30.000. Giro = 0,6. Isso sugere que o estoque está alto para o volume vendido (muito dinheiro parado).
2) Cobertura (dias de estoque)
Indica por quantos dias seu estoque atual sustenta as vendas no ritmo atual.
Cobertura (dias) = Estoque atual / (CMV diário)Exemplo: Estoque atual (a custo) = R$ 30.000. CMV mensal = R$ 18.000 → CMV diário (30 dias) = R$ 600. Cobertura = 30.000 / 600 = 50 dias. Se seu prazo de reposição é curto, 50 dias pode ser excesso e pressionar o caixa.
3) Ponto de reposição
É o nível de estoque em que você deve comprar para não faltar produto, considerando o tempo que o fornecedor leva para entregar.
Ponto de reposição = Consumo médio diário × Prazo de reposição (dias) + Estoque de segurançaExemplo: você vende 5 unidades/dia. O fornecedor entrega em 7 dias. Estoque de segurança = 10 unidades. Ponto de reposição = 5×7 + 10 = 45 unidades. Quando o saldo chegar perto de 45, você dispara a compra.
4) Compras por lote (quanto comprar de cada vez)
Comprar em lote grande pode reduzir preço e frete, mas aumenta dinheiro parado e risco de perda/obsolescência. Comprar em lote pequeno preserva caixa, mas pode aumentar custo e risco de ruptura (falta).
Uma regra prática para decidir lote é comparar economia versus custo de carregar estoque (dinheiro parado + risco + espaço + perdas).
Exemplo de decisão: comprar mais barato em volume vs. preservar caixa
Item A:
- Compra normal: 100 unidades a R$ 10 = R$ 1.000
- Compra em volume: 500 unidades a R$ 9 = R$ 4.500 (economia de R$ 500 no preço)
- Venda média: 100 unidades/mês
Se você comprar 500 unidades, terá estoque para 5 meses. Perguntas financeiras práticas:
- Seu caixa aguenta pagar R$ 4.500 agora (ou assumir parcelas) sem atrasar outras contas?
- O item tem risco de encalhar, vencer ou mudar?
- Você perde oportunidade de comprar outros itens mais rentáveis por falta de caixa?
- Qual o custo do dinheiro parado? Se você precisa de capital para operar, a economia de R$ 500 pode ser menor que o custo de ficar sem caixa (atrasos, juros, perda de desconto em outras compras, ruptura de itens críticos).
Decisão possível: comprar 200 unidades (2 meses) mesmo pagando R$ 10, se isso mantiver o caixa saudável e reduzir risco. Ou negociar com o fornecedor: preço de volume com entregas fracionadas.
Modelo de registro de estoque integrado ao financeiro (para enxergar impacto no caixa)
O objetivo é que cada entrada de estoque já traga informações que ajudam a prever saídas de caixa e medir margem. Abaixo um modelo simples de tabela (pode ser planilha) que conecta estoque e compra.
| Data | Item (SKU) | Descrição | Tipo | Qtd | Unid | Custo unit. | Custo total | Fornecedor | Prazo entrega (dias) | Condição pagto | Vencimento(s) | NF/Doc | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 05/02 | SKU-001 | Filtro X | Entrada | 50 | un | 22,00 | 1.100,00 | Fornecedor A | 3 | 30 dias | 07/03 | NF 1234 | Frete incluso |
| 10/02 | SKU-001 | Filtro X | Saída (venda) | 8 | un | 22,00 | 176,00 | - | - | - | - | Pedido 778 | Baixa automática |
| 12/02 | SKU-002 | Produto Y | Saída (perda) | 2 | un | 15,00 | 30,00 | - | - | - | - | AJ-02 | Avaria |
Como usar esse modelo no dia a dia (rotina simples)
- Ao comprar: registre a entrada com custo, fornecedor e condição de pagamento. Isso permite enxergar o estoque aumentando e também cria um “alerta” de vencimento futuro no financeiro (quando o pagamento vai sair).
- Ao vender: registre a saída (ou garanta que a venda dê baixa). Assim você mede consumo e consegue calcular giro/cobertura.
- Ao perder: registre como saída por perda (não como venda). Isso protege sua análise de margem e revela vazamentos.
- Semanalmente: revise itens com cobertura alta (parados) e itens próximos do ponto de reposição (risco de falta).
- Mensalmente: faça inventário dos itens mais valiosos e ajuste diferenças.
Checklist de decisões de compra com foco em caixa
- O item é de alto giro? Se sim, faz sentido repor com frequência e lote menor para não imobilizar caixa.
- Qual a cobertura atual? Se já tem muitos dias de estoque, comprar mais pode apertar o caixa sem necessidade.
- Qual o prazo de reposição? Quanto maior o prazo, maior a necessidade de estoque de segurança (mas com cálculo, não “no olho”).
- Qual a condição de pagamento? Se o fornecedor dá prazo, você reduz pressão imediata no caixa; se é à vista, o lote precisa ser mais conservador.
- Existe risco de perda/obsolescência? Itens com validade, moda, tecnologia ou variação de modelo pedem lotes menores.
- Existe alternativa de negociação? Entrega fracionada, consignação, desconto por volume com faturamento parcial, ou mix de itens para atingir mínimo.