Neste capítulo você vai conhecer o violão com as mãos e com os ouvidos, antes de tocar qualquer nota. Ao final, você saberá nomear cada parte do instrumento, entenderá a numeração de cordas, casas e dedos que este livro usará do começo ao fim, saberá escolher entre cordas de nylon e de aço, avaliar se um violão emprestado está em condições de uso e cuidar dele para que dure muitos anos.
Um passeio pelo violão com as mãos
Pegue o violão e coloque-o deitado no colo, com as cordas viradas para cima. Não se preocupe ainda com a postura certa para tocar; isso é assunto de outro capítulo. Agora a ideia é apenas explorar.
A parte grande e oca é o corpo, também chamado de caixa. A face de cima do corpo, por onde as cordas passam, chama-se tampo. No meio do tampo há um furo redondo: é a boca. É por ela que sai o som amplificado pela caixa. Passe a mão pelo tampo, abaixo da boca, e você vai encontrar uma peça de madeira colada, com as seis cordas presas nela. Essa peça é o cavalete. Em cima do cavalete há uma tirinha fina e dura, de osso ou de plástico, onde as cordas se apoiam. Essa tirinha é o rastilho. É ele que passa a vibração das cordas para o tampo.
Agora suba a mão pela parte comprida e estreita. Esse é o braço. A face do braço por onde as cordas correm, geralmente de madeira mais escura e lisa, é a escala. Deslize um dedo pela escala e sinta as barrinhas de metal atravessadas. Cada barrinha é um traste. O espaço entre um traste e o seguinte é uma casa. É nas casas que você vai pressionar as cordas. No fim do braço, antes da parte que tem as chaves, há outra tirinha clara com seis ranhuras, uma para cada corda. Essa peça chama-se pestana. Guarde esse nome com atenção, porque mais adiante a palavra pestana também vai nomear uma técnica da mão esquerda. Por enquanto, pestana é a peça do braço.
Depois da pestana vem a cabeça, onde ficam as chaves que você gira para esticar ou afrouxar cada corda. Essas chaves são as tarraxas. No violão de nylon, elas costumam ficar três de cada lado, com as cordas enroladas em roletes dentro de duas aberturas na cabeça. No violão de aço, as cordas enrolam em pinos de metal que atravessam a cabeça e saem pela face da frente, a mesma face da escala; o mecanismo fica atrás e as chaves que você gira ficam nas laterais.
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A numeração que este livro usa
Segure o violão em posição de tocar, com o braço apontando para a esquerda e as cordas de frente para você. Passe o polegar por todas as cordas. A corda mais fina, que fica embaixo, mais perto do chão, é a corda 1. A corda mais grossa, em cima, mais perto do seu rosto, é a corda 6. As outras seguem em ordem: 2, 3, 4 e 5, da mais fina para a mais grossa. Muita gente se confunde porque a corda número um fica embaixo. Repita tocando com o dedo, de baixo para cima: um, dois, três, quatro, cinco, seis.
As casas são contadas a partir da cabeça. A casa 1 é o espaço entre a pestana e o primeiro traste. A casa 2 é o espaço seguinte, e assim por diante. Sempre que o livro disser casa 3, quer dizer o terceiro espaço contando da cabeça em direção à boca. Muitos violões têm bolinhas na lateral do braço que ajudam a se localizar sem contar: nos de aço, em geral nas casas 3, 5, 7, 9 e 12; nos de nylon, às vezes só na casa 7, e vários não têm marcação nenhuma. Se o seu não tiver, não se preocupe: conte as casas a partir da pestana e, se quiser, marque a casa 5 e a casa 7 com um pedacinho de fita na lateral do braço.
Os dedos da mão esquerda também têm número. O indicador é o dedo 1. O médio é o dedo 2. O anelar é o dedo 3. O mínimo é o dedo 4. O polegar não recebe número; ele é chamado de P. Quando o livro disser dedo 2 na corda 5 casa 2, você já saberá: dedo médio, na segunda corda mais grossa, no segundo espaço a partir da cabeça. Essa frase padrão vai aparecer centenas de vezes. Se você é canhoto e toca com o violão invertido, troque mentalmente mão esquerda por mão direita; a numeração continua a mesma.
Nylon ou aço?
Existem dois tipos principais de violão. O violão de cordas de nylon, às vezes chamado de clássico, tem três cordas agudas transparentes, de nylon puro, e três graves prateadas, de nylon revestido de metal. O som é redondo, doce e de volume moderado. É o violão da bossa nova, do samba, da MPB, da música de igreja, da serenata e do repertório clássico. O braço é um pouco mais largo. Para o iniciante, é o mais confortável: as cordas são macias, a pressão necessária é menor e os calos se formam com menos sofrimento. Um modelo de estudo costuma ser o mais barato das lojas.
O violão de cordas de aço, chamado de folk, tem seis cordas metálicas finas. O som é brilhante, alto e cheio de harmônicos. É o violão do sertanejo universitário, do pop, do rock e do country. O braço é mais estreito, o que agrada mãos pequenas, mas as cordas cortam mais os dedos nas primeiras semanas. O preço de entrada é parecido ou um pouco maior. Atenção: nunca coloque cordas de aço em um violão feito para nylon. A tensão é muito maior e pode arrancar o cavalete ou envergar o braço. O contrário também não funciona bem, porque o nylon fica frouxo e sem som em um violão de aço.
A recomendação prática para você, leitor deste livro, é começar no nylon. Se já tem um violão de aço em casa ou emprestado, siga com ele tranquilamente; apenas prefira um jogo de cordas de calibre leve, geralmente vendido como ponto dez ou ponto onze, que exige menos força.
Avaliando um violão comprado ou emprestado
Antes de estudar, vale gastar cinco minutos conferindo se o instrumento não vai trabalhar contra você. Verifique estes pontos:
- Altura das cordas. Na casa 12, o espaço entre a corda 6 e o traste deve ser, no violão de nylon, de aproximadamente quatro milímetros, mais ou menos a espessura de duas moedas de um real juntas. No violão de aço a altura normal é bem menor, em torno de dois a dois milímetros e meio, pouco mais que uma moeda de um real. Se for muito maior do que isso, você vai fazer força demais e sentir dor sem necessidade; um luthier ajusta isso baixando o rastilho por um preço acessível.
- Braço empenado. Segure o violão pela caixa, aponte a cabeça para o seu olho e olhe ao longo do braço como se mirasse um cano. Ele deve estar quase reto, com uma curva muito suave. Se estiver visivelmente arqueado ou torcido, procure um profissional antes de comprar.
- Tarraxas frouxas. Gire cada tarraxa um pouquinho. Ela deve oferecer resistência e mover a corda de forma suave. Se girar solta ou travar, o violão vai desafinar toda hora.
- Trastes que zumbem. Pressione cada corda em várias casas e toque. Se ouvir um chiado metálico como de abelha, algum traste está alto ou a corda está baixa demais naquele ponto.
- Rachaduras e cola. Passe o dedo pelo tampo e pela junção do cavalete. Cavalete se descolando é sinal de alerta sério.
Cuidados básicos para o violão durar
Madeira reage ao clima. Nunca deixe o violão no carro sob o sol, encostado em parede que esquenta, nem perto de janela com chuva. Calor forte descola peças e umidade incha o braço. Guarde-o em uma capa acolchoada ou em um suporte de chão, longe de onde alguém possa esbarrar. Depois de tocar, passe um pano seco e macio nas cordas, de ponta a ponta. O suor das mãos oxida as cordas e apaga o brilho do som em poucas semanas.
Como saber que é hora de trocar as cordas? Quando elas parecem escuras ou manchadas, quando o som fica abafado, quando a corda não se mantém no lugar depois de esticada ou quando você vê o revestimento das graves descascando. Para quem estuda todos os dias, uma troca a cada dois ou três meses é um bom ritmo. Um violão emprestado que ficou anos no armário quase sempre pede cordas novas.
Passo a passo para trocar as cordas de nylon
- Troque uma corda por vez, para o braço não perder a tensão de uma vez só. Comece pela corda 6.
- Gire a tarraxa da corda 6 até ela ficar bem frouxa e puxe-a para fora do rolete na cabeça.
- No cavalete, desfaça o nó e puxe a corda pelo furo. Aproveite para limpar a escala com um pano seco.
- Pegue a corda nova. Nas cordas de nylon, as duas pontas são iguais. Vindo do lado da boca, passe uma ponta pelo furo do cavalete em direção ao fundo do violão, deixando uns sete a dez centímetros de sobra saindo do lado de trás do cavalete, o lado oposto à boca.
- Com essa sobra, dê a volta por cima do cavalete de volta em direção à boca, passe por baixo da própria corda e enrole duas ou três vezes em torno dela, formando um nó que se aperta sozinho quando a corda esticar. A pontinha final deve ficar presa na borda de trás do cavalete, por baixo da última volta, e não solta em cima dele: é isso que trava o nó. Nas três cordas agudas, faça uma volta a mais, porque elas escorregam com facilidade. Um nó mal travado pode escapar quando a corda estiver esticada e chicotear o tampo, deixando marcas; por isso, puxe a corda com a mão e confira se o nó está firme antes de continuar.
- Leve a outra ponta até a cabeça, passe pelo furo do rolete, dê uma volta por cima da própria corda e comece a girar a tarraxa. As cordas devem enrolar de dentro para fora, afastando-se do centro da cabeça.
- Gire até a corda ficar firme, sem afinar ainda; o próximo capítulo ensina a afinação exata. Repita com as cordas 5, 4, 3, 2 e 1.
- Corte as sobras com um alicate ou tesoura, deixando dois dedos de margem.
No violão de aço, o processo é parecido, com duas diferenças: no cavalete, cada corda tem uma bolinha na ponta que fica travada por um pino, geralmente de plástico, mas às vezes de osso ou madeira, que você puxa para soltar e empurra de volta para prender; e na cabeça, a corda passa pelo furo do pino de metal e enrola para baixo, com três ou quatro voltas.

Cordas novas cedem nos primeiros dias e desafinam com frequência. Isso é normal. Puxe cada corda suavemente para cima algumas vezes depois de colocá-la, e ela vai se acomodar mais rápido.
Recapitulando
Você conheceu o violão pelo tato: tampo, boca, cavalete e rastilho no corpo; braço, escala, trastes, casas e pestana no caminho até a cabeça, onde ficam as tarraxas. Aprendeu a numeração que vai acompanhar todo o livro: cordas de 1 a 6, da mais fina embaixo para a mais grossa em cima; casas contadas a partir da cabeça; dedos da mão esquerda de 1 a 4, com o polegar chamado de P. Viu que o nylon é o caminho mais confortável para começar, que cada tipo de corda exige seu próprio violão, como checar altura das cordas, braço, tarraxas e trastes em um instrumento emprestado, e como guardar, limpar e trocar as cordas para que o violão sempre responda bem ao seu estudo.