O que é confirmação de informações e checagem pós-entrevista
Após a entrevista, o trabalho jornalístico entra em uma fase de validação: garantir que fatos verificáveis (números, datas, cargos, nomes, valores, prazos, citações técnicas) estejam corretos e sustentados por evidências. Isso envolve duas frentes complementares:
- Confirmação com a fonte: pedir que o entrevistado confirme dados objetivos e forneça documentos, links, referências e nomes de pessoas/órgãos que possam corroborar.
- Checagem independente: verificar com outras fontes, bases públicas, especialistas e documentos oficiais, sem depender apenas do que o entrevistado diz.
O objetivo não é “melhorar” a fala do entrevistado, e sim evitar erro factual, reduzir risco jurídico e aumentar a precisão do texto final.
Checagem de fatos x “aprovação de texto” (e como manter o controle editorial)
Checagem de fatos
É a prática de confirmar elementos verificáveis do conteúdo. Exemplos: “o contrato foi assinado em 12/03/2024?”, “o orçamento é de R$ 18,7 milhões?”, “o cargo correto é ‘diretor-executivo’ ou ‘diretor de operações’?”. A checagem pode incluir o envio de trechos específicos para confirmar exatidão, sem abrir o texto inteiro para reescrita.
Aprovação de texto
É quando o entrevistado tenta revisar, editar, vetar ou condicionar a publicação do conteúdo. Isso transfere controle editorial para a fonte e pode levar a distorções, omissões e autocensura. Em jornalismo, a regra prática é: não há aprovação de texto, mas pode haver confirmação de fatos e, em alguns casos, checagem de citações para garantir fidelidade ao que foi dito.
Como pedir confirmações sem ceder controle
- Seja específico: envie uma lista objetiva de pontos a confirmar, não o texto completo.
- Delimite o escopo: “confirmação factual”, “títulos/cargos”, “números/datas”, “nomes próprios”.
- Defina prazo: informe data e horário-limite; após isso, você segue com o que foi apurado.
- Registre tudo: o que foi solicitado, quando, por qual canal, e a resposta recebida.
- Não negocie conteúdo editorial: se a fonte pedir para “tirar” algo, trate como contestação e peça evidências, não autorização.
O que confirmar: checklist de fatos críticos
Use uma lista de verificação para não depender da memória. Priorize o que, se errado, compromete credibilidade ou gera risco.
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1) Números e medidas
- Valores (R$, US$, porcentagens), base de cálculo e período (mensal/anual).
- Quantidades, volumes, métricas (ex.: “aumento de 18% em relação a qual mês?”).
- Unidades (mil, milhão, bilhão) e arredondamentos.
2) Datas, prazos e cronologia
- Data de eventos, assinatura de contratos, início/fim de projetos.
- Sequência temporal (o que ocorreu antes/depois).
3) Nomes próprios e cargos
- Grafia de nomes, sobrenomes, siglas, órgãos e programas.
- Cargo atual, período do cargo, e se fala em nome pessoal ou institucional.
4) Afirmações técnicas e causais
- Declarações que atribuem causa (“foi por X que aconteceu Y”).
- Afirmações científicas, médicas, ambientais, econômicas.
- Comparações (“somos o maior”, “o primeiro”, “o único”).
5) Acusações, imputações e alegações sensíveis
- Qualquer afirmação que atribua irregularidade, fraude, crime, má conduta ou dano a terceiros.
- Peça evidências e busque contraditório com os citados.
Passo a passo prático de checagem pós-entrevista
Passo 1: Extraia “itens checáveis” do material
Logo após a entrevista, faça uma varredura e liste tudo o que é verificável. Uma técnica simples é marcar no seu rascunho com etiquetas:
[NUM]números e valores[DATA]datas e prazos[NOME]nomes e cargos[DOC]documentos citados[ALEGA]alegações sensíveis
Passo 2: Classifique por risco e prioridade
Classifique cada item em:
- Alta prioridade: pode gerar erro grave, dano reputacional ou risco jurídico (acusações, números centrais, datas-chave).
- Média: melhora precisão e contexto (cargos, detalhes de cronologia).
- Baixa: detalhes periféricos (ex.: nome de um evento secundário).
Passo 3: Confirme com o entrevistado o que é objetivo
Envie um follow-up curto com perguntas fechadas e solicitação de evidências. Evite perguntas abertas do tipo “está tudo certo?”; prefira “confirma X e Y?”.
Passo 4: Solicite documentos e referências (com critérios)
Quando a fonte citar dados, peça:
- Documento primário: relatório, contrato, decisão, planilha, nota técnica, publicação oficial.
- Link e versão: URL, data de publicação, edição/versão do arquivo.
- Contato de referência: nome, cargo e canal de alguém que possa confirmar (assessoria, órgão, auditoria, especialista).
Se a fonte não puder enviar o documento, peça ao menos onde ele pode ser consultado e quem pode confirmar.
Passo 5: Verifique com outras fontes (independência)
Para itens críticos, não pare na confirmação do entrevistado. Busque:
- Registros públicos, diários oficiais, portais de transparência, bases estatísticas.
- Especialistas independentes para validar interpretações técnicas.
- Outras pessoas citadas (ou afetadas) para contraditório.
Passo 6: Checagem de citações (fidelidade, não “polimento”)
Se necessário, confirme com o entrevistado apenas a citação que será usada, especialmente quando:
- a frase contém números/datas;
- a formulação pode ser interpretada de forma ambígua;
- há risco de contestação (“eu não disse isso”).
Envie a citação exata e pergunte se ela está correta como registro do que foi dito. Se a fonte quiser “melhorar”, avalie: você pode manter a citação original e, se fizer sentido, incluir uma nota de esclarecimento atribuída (“em mensagem posterior, afirmou que…”), sem apagar o que foi dito antes.
Passo 7: Registre o rastro de checagem
Mantenha um log simples com data, canal, pedido e resposta. Isso ajuda a organizar a apuração e a demonstrar diligência.
| Item | O que precisa ser confirmado | Quem confirma | Evidência | Prazo | Status |
|---|---|---|---|---|---|
| Orçamento | R$ 18,7 milhões (2024) | Entrevistado + documento | Relatório/planilha | 28/01 18h | Pendente |
| Data | Assinatura em 12/03/2024 | Diário oficial/contrato | PDF + link | 28/01 18h | Confirmado |
| Alegação | Fornecedor “descumpriu” cláusula | Contrato + contraponto | Cláusula X + resposta do citado | 29/01 12h | Em apuração |
Modelos de mensagens para follow-up (copiar e adaptar)
1) Confirmação de números e datas (objetivo e curto)
Olá, [Nome]. Obrigado(a) pela entrevista de [data]. Para garantir precisão, você pode confirmar estes pontos factuais até [prazo]?
1) O valor informado foi R$ [X] (referente a [período/base])?
2) A data de [evento] foi [dd/mm/aaaa]?
3) O seu cargo/título correto para identificação é: [cargo]?
Se houver documento/link que sustente os dados (relatório, planilha, publicação oficial), pode me enviar por aqui.
Obrigado(a),
[Seu nome]2) Solicitação de documentos e referências
Olá, [Nome]. Você mencionou [documento/dado] durante a entrevista. Para checagem, poderia enviar:
- o arquivo ou link do documento (com data/versão), e
- o contato de alguém/órgão que possa confirmar oficialmente a informação.
Prazo ideal: [data e hora].
[Seu nome]3) Confirmação de citação específica (sem abrir o texto)
Olá, [Nome]. Vou usar a seguinte citação atribuída a você. Ela está correta como registro do que foi dito?
“[citação exata]”
Se houver algum dado objetivo nela (número/data) que precise de ajuste por precisão, me avise até [prazo].
[Seu nome]4) Quando a fonte pede “aprovação do texto”
Olá, [Nome]. Eu não trabalho com aprovação prévia do texto. Posso, no entanto, checar pontos factuais específicos (números, datas, nomes, cargos e documentos) para garantir precisão.
Se você listar quais itens factuais deseja confirmar, envio em formato de perguntas objetivas.
[Seu nome]5) Quando a fonte tenta retirar declaração on the record
Olá, [Nome]. Entendo sua preocupação. A declaração foi registrada on the record durante a entrevista.
Se você acredita que há erro factual ou falta de contexto, pode me enviar:
1) qual trecho específico está em disputa,
2) qual é a correção factual proposta, e
3) documentos/evidências que sustentem a correção.
Posso incluir seu esclarecimento atribuído a você, mas não posso apagar o registro do que foi dito.
Prazo para envio: [data e hora].
[Seu nome]Como lidar com tentativas de revisão, condicionamento ou recuo
1) “Quero ver o texto antes para aprovar”
- Resposta operacional: ofereça checagem factual em lista, com prazo.
- Evite: enviar o texto inteiro, títulos, lead e estrutura para “ok final”.
- Alternativa segura: enviar apenas trechos com dados objetivos ou citações que serão usadas, quando necessário.
2) “Só publico se eu puder editar minhas falas”
- Reforce a regra: não há edição pela fonte; há possibilidade de esclarecimento posterior.
- Estratégia: se a fonte quer substituir a frase por outra, avalie publicar a frase original e acrescentar: “Em mensagem posterior, [Nome] afirmou que…”.
- Critério: se a fala original contém erro factual comprovado, corrija e registre a correção com transparência.
3) “Eu retiro o que disse” (após ter sido on the record)
Trate como um pedido de contestação. Pergunte:
- O que exatamente está sendo retirado (trecho)?
- Qual o motivo: erro factual, risco pessoal, interpretação, mudança de posição?
- Há evidência de que o trecho está incorreto?
Se não houver erro factual, a saída mais comum é incluir o recuo como informação (atribuída) ou incluir um esclarecimento atribuído, sem apagar o registro do que foi dito.
4) “Isso foi off” (reclassificação posterior)
Se a entrevista foi conduzida on the record e não houve acordo de mudança de atribuição naquele momento, a tentativa de reclassificar depois deve ser tratada com cuidado. Proceda assim:
- Verifique seus registros: houve algum acordo explícito de off/anonimato naquele trecho?
- Se não houve, responda que o trecho foi registrado on the record.
- Se houver risco real e justificável (segurança, vulnerabilidade), avalie com sua editoria alternativas: paraphrasear, reduzir detalhe identificador, buscar confirmação independente e/ou substituir por documento público.
Registro de solicitações, prazos e controle de versão
Defina prazos que protejam a apuração
- Informe um deadline claro (data e hora) para respostas de checagem.
- Explique a consequência: “Se eu não receber retorno até [prazo], sigo com as informações disponíveis e com as confirmações independentes.”
- Para temas sensíveis, estabeleça janela para contraditório com terceiros citados.
Mantenha um “pacote de checagem” por entrevista
- Lista de itens checáveis (com prioridade).
- Links e arquivos recebidos (com data de recebimento).
- Log de mensagens enviadas e respostas.
- Decisões editoriais: o que foi confirmado, o que ficou como alegação atribuída, o que foi descartado por falta de evidência.
Modelo de log (texto simples)
[Entrevista: Nome / Data]
- 28/01 10:15 — Pedido de confirmação de valores e datas (WhatsApp). Prazo: 28/01 18:00.
- 28/01 14:40 — Recebido PDF “Relatorio_2024_v3.pdf”. Conferido: valor R$ X, período Y.
- 28/01 17:55 — Fonte confirma cargo: “Diretor de Operações” (desde 2023).
- 29/01 09:20 — Contraponto solicitado a [terceiro citado]. Prazo: 29/01 17:00.
- 29/01 16:10 — Terceiro nega alegação; anexou nota oficial (link).Boas práticas de redação ao incorporar checagem
Quando algo não pode ser confirmado
- Use atribuição clara: “segundo [Nome]”, “de acordo com [documento]”.
- Evite transformar alegação em fato: troque “houve fraude” por “ele alega que houve fraude”.
- Se a informação é central e não há evidência suficiente, considere não publicar ou publicar como “não comprovado”, explicando o que foi buscado.
Quando há divergência entre fonte e documentos
- Priorize evidência verificável e registre a divergência com atribuição.
- Peça nova manifestação da fonte com base no documento: “o documento X indica Y; como você explica a diferença?”