Atribuição, on/off the record e contextualização responsável em entrevistas jornalísticas

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Atribuição: o que é e por que precisa ser precisa

Atribuição é a forma como o texto indica quem disse determinada informação e em quais condições ela foi obtida. Uma atribuição correta permite ao público avaliar credibilidade, interesse envolvido, grau de proximidade com o fato e limites do que pode ser afirmado. Em entrevistas jornalísticas, atribuição não é apenas “fulano disse”: envolve identidade, cargo/função, vínculo com o tema, local, momento e, quando necessário, condição de fala (por exemplo, sob anonimato).

Elementos mínimos de uma boa atribuição

  • Nome (quando on the record): grafia correta e, se houver homônimos, identificador adicional.
  • Cargo/função: o que qualifica a pessoa a falar sobre o tema (e se fala em nome de uma instituição ou como indivíduo).
  • Instituição e vínculo: empresa/órgão/entidade e relação com o assunto (ex.: “responsável pelo contrato”, “membro do conselho”, “advogado da parte”).
  • Contexto: em que situação a fala ocorreu (entrevista exclusiva, coletiva, corredor, evento, visita técnica).
  • Local e momento: cidade, ambiente e data/ocasião relevante (especialmente se houver mudança de cenário, crise, anúncio, votação, operação, etc.).
  • Condição de atribuição: on the record, sob anonimato, ou outra condição acordada (quando aplicável).

Como atribuir falas corretamente (passo a passo)

1) Confirme a identificação do entrevistado

  • Peça o nome completo e a forma preferida de identificação pública (incluindo acentos e sobrenomes).
  • Confirme o cargo atual e se está falando como representante institucional ou em caráter pessoal.
  • Se a pessoa tiver múltiplas funções, escolha a que é relevante para a fala.

2) Registre o contexto de obtenção

  • Anote se foi entrevista individual, coletiva, conversa informal após a entrevista, visita, telefonema, etc.
  • Registre data e local (ou, em remoto, a condição: “por telefone”, “por videochamada”).

3) Atribua com precisão no texto

Evite atribuições genéricas quando elas mudam o sentido da declaração. Compare:

  • Fraco: “Segundo a prefeitura, a obra atrasa por causa das chuvas.”
  • Melhor: “O secretário de Obras, Nome Sobrenome, afirmou em entrevista na sede da prefeitura, na terça-feira (data), que o cronograma foi afetado por chuvas acima da média.”

4) Diferencie fato, opinião e avaliação

Quando a fala for uma avaliação, deixe isso claro na atribuição e na redação:

  • “disse”/“afirmou” para declarações factuais;
  • “avaliou”/“considerou”/“defendeu” para posicionamentos;
  • “alegou” quando a informação é contestada ou não verificada (com cuidado para não insinuar falsidade sem base).

5) Evite “atribuição por proximidade”

Não deixe o leitor inferir quem falou por estar “perto” no texto. Em trechos com múltiplas fontes, reatribua com frequência para evitar confusão.

6) Use citações diretas com parcimônia e integridade

  • Não “limpe” a fala a ponto de alterar sentido; edições devem preservar intenção e conteúdo.
  • Se precisar cortar, mantenha a coerência e evite retirar qualificadores (“em tese”, “até onde sei”, “neste momento”) que mudam o grau de certeza.
  • Se houver correção de vício de linguagem, faça sem mudar o significado.

Checklist rápido de atribuição antes de publicar

  • O leitor entende quem falou?
  • Entende por que essa pessoa tem relação com o tema?
  • Entende quando e onde a fala ocorreu?
  • Está claro se é posição institucional ou pessoal?
  • Há risco de confundir falas entre fontes?

Anônimo, sob condição e proteção de fonte: quando e como usar

Quando o anonimato é justificável

O anonimato pode ser usado quando há risco real de retaliação (profissional, física, judicial) ou quando a fonte só fala sob proteção e a informação é de alto interesse público. Ele não deve ser usado para:

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  • encobrir falta de apuração;
  • publicar acusações graves sem sustentação;
  • substituir documentos ou outras confirmações quando elas são possíveis.

Como descrever a fonte sem expô-la indevidamente

O objetivo é dar ao leitor o máximo de contexto sobre a credibilidade e a proximidade da fonte com o fato, com o mínimo de pistas que permitam identificá-la.

Passo a passo para construir uma descrição segura

  1. Defina o que o leitor precisa saber: relação com o tema (ex.: “participou da reunião”, “teve acesso ao relatório”, “atua no setor”).
  2. Remova detalhes identificadores: unidade específica, cidade pequena, gênero/idade muito específicos, datas exatas de eventos internos, cargo único (“o único responsável por X”).
  3. Use categorias amplas: “um servidor envolvido no processo”, “uma pessoa com acesso ao documento”, “um integrante da equipe”.
  4. Evite combinações que revelem: duas ou três características juntas podem identificar (cargo + setor + local + turno).
  5. Explique por que o anonimato foi concedido (sem dramatizar): “por temer retaliação” ou “por não estar autorizado a falar publicamente”.
  6. Reforce a verificação: indique, quando possível, que a informação foi confirmada por documentos ou por outras fontes (sem detalhar o caminho que exponha a fonte).

Modelos de atribuição sob anonimato (exemplos)

  • “Segundo uma pessoa com acesso ao relatório, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizada a se manifestar, o documento aponta…”
  • “De acordo com um servidor envolvido na apuração, que pediu para não ser identificado por temer retaliação, …”
  • “Uma fonte que participou da reunião afirmou que…”

Evite descrições como: “um assessor muito próximo do prefeito”, “o único técnico responsável”, “uma funcionária do setor X da unidade Y”, quando isso permitir dedução fácil.

On the record, off the record e “em background”: limites práticos

Conceitos operacionais (para uso na rotina)

  • On the record: pode publicar a informação e atribuir nominalmente (nome/cargo).
  • Off the record: a informação não deve ser publicada. Serve para orientar apuração, indicar caminhos, sugerir documentos e outras fontes.
  • Em background / sem atribuição direta: pode publicar a informação, mas sem identificar nominalmente a fonte (ex.: “segundo fontes do setor”, “segundo um integrante da equipe”). Exige cuidado para não virar anonimato “automático”.

Na prática, o ponto crítico é que off the record não é um tempero estilístico. Se algo está off, não entra no texto nem em forma de “insinuação” (“a reportagem apurou que…”) se a única base for o off.

Passo a passo ao receber uma informação “sob condição”

  1. Pause e confirme a regra antes de ouvir o conteúdo sensível: “Isso é on, off ou em background?”
  2. Defina o que pode ser publicado: conteúdo, nível de atribuição e se pode usar aspas.
  3. Combine o escopo: vale para toda a conversa ou apenas para um trecho?
  4. Registre (em notas) a condição acordada e o momento em que foi estabelecida.
  5. Se for off: use apenas para orientar checagens, buscar documentos e outras fontes on.

Quando o entrevistado tenta mudar as regras depois

Situação comum: após falar, a pessoa pede para “tirar do on” ou “colocar em off”. A forma de agir depende do que foi combinado antes e do interesse público, mas há um procedimento profissional para reduzir conflito e proteger a integridade do processo.

Protocolo prático (sem escalada desnecessária)

  1. Recupere o acordo original: “Nossa conversa estava on the record, como combinamos no início.”
  2. Peça o motivo específico: é risco pessoal? erro factual? arrependimento? estratégia?
  3. Separe três casos:
    • Correção factual: se a pessoa aponta erro verificável (data, número, nome), trate como correção e rechecagem.
    • Risco legítimo: avalie se há ameaça real e se a proteção é necessária (pode envolver anonimização parcial, sem apagar o conteúdo).
    • Gestão de imagem: pedidos genéricos (“vai pegar mal”) não justificam reclassificar automaticamente.
  4. Ofereça alternativas editoriais sem ceder ao apagamento indevido:
    • publicar sem aspas, em discurso indireto, mantendo o sentido;
    • reduzir detalhes que não são essenciais e aumentam risco;
    • incluir esclarecimento/retificação do próprio entrevistado (“Depois, ele afirmou que…”);
    • dar oportunidade de resposta adicional, com prazo claro.
  5. Documente a solicitação: registre quando e como foi feita, e o que foi decidido.

Regra de ouro: mudanças de on para off depois de a informação ser dada não devem ser aceitas automaticamente, porque criam incentivo para “testar” falas e recuar. Exceções envolvem risco concreto, erro material ou circunstâncias extraordinárias.

Contextualização responsável: como evitar recortes que distorcem

O que é contextualizar (na prática)

Contextualizar é inserir a declaração em um quadro que permita ao leitor entender escala, comparação, causas, consequências e limites. Isso reduz o risco de publicar frases verdadeiras que, isoladas, induzem a interpretações erradas.

Três riscos comuns de descontextualização

  • Recorte temporal: usar um dado de um período atípico como se fosse tendência.
  • Recorte causal: sugerir causa sem evidência (“foi por X”) quando há múltiplos fatores.
  • Recorte comparativo: citar número absoluto sem base (per capita, série histórica, universo total).

Método prático: “declaração + base + contraponto + histórico mínimo”

  1. Declaração: o que foi dito, com atribuição completa.
  2. Base: dados, documentos ou evidências que sustentam ou testam a fala (números, relatórios, decisões, registros públicos).
  3. Contraponto: outra fonte qualificada, posição institucional, especialista, parte afetada ou dado que apresente limite/discordância.
  4. Histórico mínimo: 1–3 frases que situem o leitor (o que aconteceu antes, qual é a regra vigente, qual é o estágio do processo).

Exemplo 1: número isolado que pode enganar

Declaração (isolada): “Reduzimos em 30% as filas”, disse o diretor do hospital.

Contextualização responsável: “O diretor do Hospital X, Nome Sobrenome, afirmou na quarta-feira (data) que as filas caíram 30% desde janeiro. Dados do painel de atendimento da própria unidade indicam queda no tempo médio de espera de 4h para 2h50 no período, mas o sindicato dos profissionais aponta que parte da redução ocorreu durante a suspensão temporária de procedimentos eletivos em fevereiro. A secretaria estadual informou que a normalização está prevista para março.”

Exemplo 2: frase forte sem delimitação

Declaração (isolada): “Há fraude no sistema.”

Contextualização responsável: “O promotor Nome Sobrenome afirmou, em entrevista após a audiência (local, data), que há indícios de fraude em contratos específicos. Ele citou dois processos (números) e disse que a investigação apura direcionamento de licitação. A defesa da empresa negou irregularidades e afirmou que apresentará documentos. O tribunal de contas já havia apontado, em relatório de (mês/ano), falhas de transparência no mesmo órgão, sem concluir por fraude.”

Ferramentas de contextualização que evitam distorções

  • Quantificação correta: absoluto + proporção + universo (ex.: “20 casos, o equivalente a 0,3% do total de atendimentos”).
  • Série histórica: “maior desde…” / “menor em…” com base verificável.
  • Comparação justa: mesma métrica, mesma base, períodos equivalentes.
  • Limites declarados: “não há dados consolidados”, “o órgão não informou”, “o relatório é preliminar”.
  • Separação entre fala e fato: use construções que indiquem o status (“disse”, “segundo”, “de acordo com dados”).

Como usar aspas sem induzir interpretação errada

Regras práticas de edição de citações

  • Não recorte o que muda o sentido: remover “não” e condicionais (“se”, “talvez”) é distorção.
  • Evite “aspas-caça-clique”: frases chamativas que, fora do parágrafo, parecem afirmar algo diferente do que o texto demonstra.
  • Preserve o referente: se a pessoa diz “isso”, deixe claro no texto a que “isso” se refere.
  • Não misture tempos e sujeitos: ao condensar, não una trechos que foram ditos em respostas diferentes se isso criar causalidade inexistente.

Mini-checklist de integridade de citação

  • Se eu ler só a aspa, ela transmite a mesma ideia do trecho completo?
  • O parágrafo informa o contexto necessário (quem, quando, sobre o quê)?
  • Há dado ou contraponto quando a fala é controversa?
  • O leitor consegue distinguir claramente o que é afirmação da fonte e o que é apuração?

Tabela de referência rápida: condições de fala e uso no texto

CondiçãoPode publicar?Pode atribuir com nome?Uso recomendado
On the recordSimSimAspas diretas ou indiretas, com identificação completa
Em background / sem atribuição diretaSimNão (ou atribuição genérica)Para contexto e bastidores, com descrição segura da fonte
Off the recordNãoNãoSomente para orientar apuração e buscar confirmações independentes

Modelos prontos (adaptáveis) de atribuição completa

“[Citação]”, afirmou NOME SOBRENOME, CARGO, em entrevista concedida em [LOCAL], na [DATA], ao comentar [CONTEXTO].
NOME SOBRENOME, CARGO e INSTITUIÇÃO, disse por telefone na [DATA] que [discurso indireto], após [EVENTO/DECISÃO].
Segundo uma pessoa com acesso a [DOCUMENTO/PROCESSO], que falou sob anonimato por [MOTIVO], [INFORMAÇÃO]. A reportagem confirmou [PONTO] com [DOCUMENTO/OUTRA FONTE].

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao receber uma informação que a fonte diz estar "off the record", qual conduta está alinhada às boas práticas descritas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Off the record significa que a informação não deve ser publicada. Ela pode servir para orientar checagens e indicar caminhos, mas a publicação exige confirmação por outras fontes ou documentos em condições publicáveis.

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Seleção e edição de citações em entrevistas jornalísticas sem distorção

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