Confidencialidade no RH e Noções Práticas de LGPD para Rotinas Diárias

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é confidencialidade no RH (na prática)

No RH, confidencialidade é o conjunto de cuidados para que informações de colaboradores e candidatos sejam acessadas e usadas apenas por quem precisa, pelo tempo necessário e para uma finalidade legítima do trabalho. Isso inclui evitar exposição acidental (comentários, e-mails com anexos errados, documentos na impressora) e também reduzir riscos de vazamento, fraude e uso indevido.

Na rotina, pense em três perguntas antes de coletar, registrar, enviar ou comentar qualquer informação: (1) Eu realmente preciso desse dado? (2) Para qual finalidade específica? (3) Quem precisa ter acesso?

Noções práticas de LGPD aplicadas ao dia a dia do RH

Dados pessoais x dados pessoais sensíveis (exemplos comuns no RH)

Dado pessoal é qualquer informação que identifique ou possa identificar alguém. No RH, exemplos: nome, CPF, RG, endereço, telefone, e-mail pessoal, data de nascimento, número de matrícula, dados bancários, dependentes, salário, avaliações internas.

Dado pessoal sensível exige cuidado reforçado. Exemplos frequentes: informações de saúde (atestados com CID, laudos), biometria (se usada para ponto/acesso), dados sobre deficiência (PCD), filiação sindical (quando aplicável), informações sobre origem racial/étnica (quando coletadas), convicções religiosas (quando inferidas por pedidos específicos), dados de vida sexual (ex.: dependente para plano com informações médicas).

Princípios que viram regras simples

  • Coleta mínima necessária: não peça “por precaução”. Peça o que é necessário para cumprir uma rotina específica.
  • Finalidade: deixe claro por que o dado é solicitado (ex.: cadastro em benefício, registro trabalhista, pagamento).
  • Acesso restrito: acesso por necessidade (need-to-know). Nem todo gestor precisa ver tudo.
  • Segurança: proteger contra acesso indevido, perda e exposição (digital e físico).
  • Compartilhamento com necessidade: só com quem precisa executar a tarefa e no mínimo de informação.
  • Rastreabilidade: registrar quando e por que dados foram enviados/compartilhados (especialmente sensíveis).

Como tratar dados no RH: passo a passo por etapa

1) Coleta (formulários, e-mail, presencial)

Objetivo: coletar apenas o necessário, com clareza de finalidade e canal seguro.

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  1. Defina a finalidade antes de pedir: “preciso do dado para X”. Evite pedidos genéricos como “mande todos os documentos”.
  2. Use lista objetiva: solicite itens específicos e explique o motivo quando fizer sentido (ex.: “dados bancários para pagamento”).
  3. Evite coletar sensíveis sem necessidade: por exemplo, não pedir laudo médico se a rotina exige apenas o atestado de afastamento sem detalhes.
  4. Escolha canal adequado: preferir envio por canal corporativo aprovado. Se for e-mail, aplicar regras de segurança (ver seção de e-mail).
  5. Registre o recebimento: anote data, canal e responsável. Para sensíveis, registre também a finalidade e quem terá acesso.

Exemplo prático (boa prática): “Para cadastrar você no plano de saúde, preciso: nome completo, CPF, data de nascimento e grau de parentesco dos dependentes. Envie apenas esses dados.”

Exemplo (má prática): “Manda foto de todos os documentos seus e da família para eu ver o que precisa.”

2) Uso e consulta (no atendimento e nas rotinas internas)

Objetivo: usar o dado somente para a tarefa informada e evitar exposição no atendimento.

  1. Abra apenas o necessário: se o colaborador pediu 2ª via de um documento, não deixe aberto na tela histórico completo, salário e dados bancários.
  2. Evite comentar casos: não discutir situação de saúde, advertências, salário ou dados familiares em áreas comuns.
  3. Confirme identidade quando necessário: antes de passar qualquer informação, valide se quem solicita é o titular ou alguém autorizado (ver guia “pode/não pode”).
  4. Use linguagem neutra: em vez de “o atestado com CID”, use “documento médico” quando não for necessário detalhar.

3) Armazenamento seguro (digital e físico)

Objetivo: reduzir risco de acesso indevido, perda e vazamento.

  • Digital: usar pastas corporativas com controle de acesso; evitar salvar em área pública, desktop compartilhado ou pendrive pessoal; proteger com senha quando aplicável; manter antivírus e bloqueio de tela.
  • Físico: guardar documentos em armário trancado; evitar deixar pilhas em mesas; retirar impressões imediatamente; usar capa/envelope para documentos sensíveis.

Regra de ouro: se você não deixaria o documento “em cima da mesa” para qualquer pessoa ver, não deixe em uma pasta digital com acesso amplo.

4) Compartilhamento (interno e com terceiros)

Objetivo: compartilhar somente o mínimo necessário, com destinatário correto e registro.

  1. Verifique necessidade: o destinatário precisa mesmo desse dado para executar a tarefa?
  2. Minimize: envie apenas o trecho/arquivo necessário (ex.: comprovante de afastamento sem anexar laudo completo).
  3. Confirme destinatários: atenção a grupos, listas e “responder a todos”.
  4. Proteja o envio: preferir link com acesso restrito; se anexo, usar senha e enviar a senha por canal separado.
  5. Registre: anote data, o que foi enviado, para quem e por qual motivo (especialmente sensíveis).

Exemplo (boa prática): para a contabilidade, enviar apenas dados necessários para folha, sem anexar documentos pessoais que não impactam o cálculo.

Exemplo (má prática): enviar dossiê completo do colaborador para um gestor “para ele se inteirar”.

5) Retenção e descarte

Objetivo: manter dados apenas pelo tempo necessário e descartar com segurança.

  • Não descarte no lixo comum documentos com dados pessoais (ex.: CPF, endereço, dados bancários, atestados).
  • Use fragmentadora ou descarte seguro definido pela empresa (coleta confidencial).
  • Digital: ao excluir, verifique se não há cópias em e-mail, downloads e pastas temporárias; evite duplicidade de arquivos.
  • Se houver política interna de prazos, siga-a. Se não houver, não “apague por conta própria” documentos que podem ter obrigação legal de guarda; acione o responsável (DP/Jurídico/DPO/Encarregado).

Regras práticas para situações comuns

Envio de documentos por e-mail (checklist rápido)

  • Assunto neutro: evite mencionar “doença”, “advertência”, “demissão”. Prefira “Documentação solicitada” ou “Atualização cadastral”.
  • Destinatário correto: confira o e-mail letra por letra; cuidado com autocomplete.
  • Evite CC desnecessário: use CC apenas quando houver necessidade real; evite grupos amplos.
  • Preferir link com acesso restrito (pasta corporativa) em vez de anexos, quando possível.
  • Se anexo sensível: PDF com senha + senha enviada por outro canal (ex.: mensagem corporativa/telefone).
  • Não encaminhar e-mails antigos que contenham histórico desnecessário (thread com dados extras).
  • Antes de enviar: revise anexos (nome do arquivo e conteúdo). Erro comum: anexar documento de outra pessoa.

Modelo de texto (objetivo e seguro):

Olá, [Nome]. Segue o documento solicitado para [finalidade]. Caso precise de mais alguma informação, me avise. 

Observação: evite inserir dados pessoais no corpo do e-mail (CPF, endereço, dados bancários). Prefira anexos protegidos ou canal seguro.

Impressão e manuseio de papel

  • Imprima apenas se necessário e retire imediatamente da impressora.
  • Não deixe em bandejas ou mesas compartilhadas.
  • Use envelope para transportar documentos com dados sensíveis.
  • Rascunhos contam: folhas de teste com dados devem ser descartadas com segurança.

Descarte seguro (papel e mídia)

  • Papel: fragmentar/triturar ou usar descarte confidencial.
  • Mídias: pendrives e HDs devem seguir procedimento interno; não “formatar e doar” equipamentos sem orientação de TI.
  • Etiquetas e envelopes: rasgar/remover dados visíveis (nome, endereço, CPF) antes de descartar.

Acesso a pastas e sistemas (regras de bolso)

  • Princípio do menor privilégio: cada pessoa acessa apenas o que precisa.
  • Não compartilhar login/senha e não deixar sessão aberta.
  • Bloqueio de tela ao sair da mesa, mesmo por poucos minutos.
  • Evite baixar arquivos para dispositivos pessoais.
  • Controle de permissões: se alguém pede acesso, registre o pedido e valide com responsável.

Atendimentos presenciais e por telefone

  • Ambiente: evite falar de assuntos sensíveis em recepção/corredor.
  • Tom e discrição: não repita em voz alta dados como CPF, salário, diagnóstico.
  • Documentos na mesa: mantenha virados para você; não deixe outros colaboradores verem.
  • Telefone: antes de informar qualquer dado, confirme identidade com perguntas de validação definidas internamente (ex.: matrícula + dado não público). Se não houver procedimento, encaminhe para canal oficial.

Guia de boas práticas: o que pode e o que não pode ser compartilhado

SituaçãoPodeNão pode
Gestor pede informação sobre atestadoInformar apenas o necessário para gestão de ausência (período de afastamento e status de entrega do documento), conforme regra internaCompartilhar CID, detalhes de laudo, histórico médico
Gestor pede salário de um colaboradorSeguir política interna: se houver necessidade formal (ex.: orçamento/estrutura), fornecer via canal oficial e com registroInformar informalmente, em conversa de corredor, ou enviar planilha completa sem necessidade
Colaborador pede dados de outro colaboradorOrientar a procurar o próprio colega ou canal oficial (se aplicável) sem repassar dados pessoaisPassar telefone, endereço, e-mail pessoal, salário, situação disciplinar
Envio para fornecedor (benefício/medicina/contabilidade)Enviar somente campos necessários para execução do serviço, preferindo canal seguroEnviar dossiê completo, documentos extras, ou incluir pessoas em CC sem necessidade
Comunicado interno sobre afastamentoInformar de forma genérica (ex.: “ausente por motivo pessoal/saúde” se necessário)Detalhar diagnóstico, tratamento, condição de saúde
Pedido de documento por e-mailSolicitar lista mínima e orientar envio seguroPedir “tudo que tiver”, aceitar foto de documentos sensíveis em grupos informais

Consentimento e registros: quando se aplica e como registrar

Em muitas rotinas de RH, o tratamento de dados ocorre por necessidade contratual, legal/regulatória ou para execução de políticas internas. Ainda assim, pode haver situações em que consentimento seja usado (por exemplo, uso de imagem em materiais internos/externos, participação em ações não obrigatórias, divulgação de dados em canais não essenciais).

Boas práticas quando o consentimento for aplicável:

  • Seja específico: consentimento para uma finalidade (ex.: “uso de foto em mural interno por 6 meses”).
  • Registre: data, finalidade, canal (formulário/termo), responsável e como o colaborador pode revogar.
  • Guarde o comprovante em local com acesso restrito.
  • Não condicione direitos básicos do colaborador a consentimento para algo opcional.

Procedimento em caso de incidente (perda, envio errado, exposição)

O que é incidente no RH

Qualquer evento que gere risco aos dados pessoais: e-mail enviado ao destinatário errado, planilha anexada incorretamente, documento esquecido na impressora, notebook extraviado, pasta com permissões abertas, conversa com dados sensíveis em local público, acesso indevido ao sistema.

Passo a passo imediato (primeiras ações)

  1. Conter: se foi e-mail, tentar recall (se disponível), pedir exclusão imediata ao destinatário e interromper novos envios; se foi pasta, remover permissões; se foi papel, recolher o documento.
  2. Preservar evidências: não “apagar tudo” sem orientação. Guarde informações: data/hora, o que foi exposto, para quem, quantas pessoas, prints/logs se aplicável.
  3. Comunicar internamente: acionar o responsável definido (liderança do RH, TI e Encarregado/DPO, se houver). Use canal oficial e registre o chamado.
  4. Avaliar impacto: quais dados foram envolvidos (pessoais/sensíveis), quantidade de titulares, risco de fraude/discriminação.
  5. Mitigar: trocar senhas, invalidar links, solicitar bloqueio de conta, orientar o titular se houver risco (ex.: tentativa de golpe).
  6. Registrar o incidente: preencher registro interno com causa provável e ações tomadas.

Modelo de registro interno (campos mínimos)

  • Data/hora do incidente
  • Como ocorreu (ex.: e-mail com anexo errado)
  • Tipo de dados envolvidos (pessoais/sensíveis)
  • Quantidade de pessoas afetadas
  • Quem teve acesso (destinatário/grupo/pasta)
  • Ações de contenção e mitigação
  • Responsáveis acionados (RH/TI/DPO)
  • Medidas preventivas (ex.: revisão de permissões, treinamento, ajuste de processo)

Checklist diário do assistente de RH (confidencialidade e LGPD)

  • Antes de pedir um dado: preciso mesmo? qual finalidade?
  • Antes de enviar: conferir destinatário, anexo, CC e histórico do e-mail.
  • Evitar dados pessoais no corpo do e-mail; preferir canal seguro/anexo protegido.
  • Bloquear tela ao sair e não compartilhar credenciais.
  • Retirar impressões imediatamente e guardar papéis em local trancado.
  • Descartar rascunhos e cópias com fragmentação/descarte confidencial.
  • Em atendimento presencial: falar baixo, evitar áreas comuns e não expor documentos na mesa.
  • Se algo der errado: conter, registrar e comunicar rapidamente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao precisar enviar informações de um colaborador para um fornecedor (ex.: benefício/contabilidade), qual conduta está mais alinhada às boas práticas de confidencialidade e LGPD no RH?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A prática correta é aplicar coleta/compartilhamento mínimos, acesso restrito e segurança no envio. Deve-se enviar somente o necessário para a finalidade, reduzir exposição e, especialmente para dados sensíveis, manter rastreabilidade (data, motivo e destinatário).

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