O que é confidencialidade no RH (na prática)
No RH, confidencialidade é o conjunto de cuidados para que informações de colaboradores e candidatos sejam acessadas e usadas apenas por quem precisa, pelo tempo necessário e para uma finalidade legítima do trabalho. Isso inclui evitar exposição acidental (comentários, e-mails com anexos errados, documentos na impressora) e também reduzir riscos de vazamento, fraude e uso indevido.
Na rotina, pense em três perguntas antes de coletar, registrar, enviar ou comentar qualquer informação: (1) Eu realmente preciso desse dado? (2) Para qual finalidade específica? (3) Quem precisa ter acesso?
Noções práticas de LGPD aplicadas ao dia a dia do RH
Dados pessoais x dados pessoais sensíveis (exemplos comuns no RH)
Dado pessoal é qualquer informação que identifique ou possa identificar alguém. No RH, exemplos: nome, CPF, RG, endereço, telefone, e-mail pessoal, data de nascimento, número de matrícula, dados bancários, dependentes, salário, avaliações internas.
Dado pessoal sensível exige cuidado reforçado. Exemplos frequentes: informações de saúde (atestados com CID, laudos), biometria (se usada para ponto/acesso), dados sobre deficiência (PCD), filiação sindical (quando aplicável), informações sobre origem racial/étnica (quando coletadas), convicções religiosas (quando inferidas por pedidos específicos), dados de vida sexual (ex.: dependente para plano com informações médicas).
Princípios que viram regras simples
- Coleta mínima necessária: não peça “por precaução”. Peça o que é necessário para cumprir uma rotina específica.
- Finalidade: deixe claro por que o dado é solicitado (ex.: cadastro em benefício, registro trabalhista, pagamento).
- Acesso restrito: acesso por necessidade (need-to-know). Nem todo gestor precisa ver tudo.
- Segurança: proteger contra acesso indevido, perda e exposição (digital e físico).
- Compartilhamento com necessidade: só com quem precisa executar a tarefa e no mínimo de informação.
- Rastreabilidade: registrar quando e por que dados foram enviados/compartilhados (especialmente sensíveis).
Como tratar dados no RH: passo a passo por etapa
1) Coleta (formulários, e-mail, presencial)
Objetivo: coletar apenas o necessário, com clareza de finalidade e canal seguro.
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- Defina a finalidade antes de pedir: “preciso do dado para X”. Evite pedidos genéricos como “mande todos os documentos”.
- Use lista objetiva: solicite itens específicos e explique o motivo quando fizer sentido (ex.: “dados bancários para pagamento”).
- Evite coletar sensíveis sem necessidade: por exemplo, não pedir laudo médico se a rotina exige apenas o atestado de afastamento sem detalhes.
- Escolha canal adequado: preferir envio por canal corporativo aprovado. Se for e-mail, aplicar regras de segurança (ver seção de e-mail).
- Registre o recebimento: anote data, canal e responsável. Para sensíveis, registre também a finalidade e quem terá acesso.
Exemplo prático (boa prática): “Para cadastrar você no plano de saúde, preciso: nome completo, CPF, data de nascimento e grau de parentesco dos dependentes. Envie apenas esses dados.”
Exemplo (má prática): “Manda foto de todos os documentos seus e da família para eu ver o que precisa.”
2) Uso e consulta (no atendimento e nas rotinas internas)
Objetivo: usar o dado somente para a tarefa informada e evitar exposição no atendimento.
- Abra apenas o necessário: se o colaborador pediu 2ª via de um documento, não deixe aberto na tela histórico completo, salário e dados bancários.
- Evite comentar casos: não discutir situação de saúde, advertências, salário ou dados familiares em áreas comuns.
- Confirme identidade quando necessário: antes de passar qualquer informação, valide se quem solicita é o titular ou alguém autorizado (ver guia “pode/não pode”).
- Use linguagem neutra: em vez de “o atestado com CID”, use “documento médico” quando não for necessário detalhar.
3) Armazenamento seguro (digital e físico)
Objetivo: reduzir risco de acesso indevido, perda e vazamento.
- Digital: usar pastas corporativas com controle de acesso; evitar salvar em área pública, desktop compartilhado ou pendrive pessoal; proteger com senha quando aplicável; manter antivírus e bloqueio de tela.
- Físico: guardar documentos em armário trancado; evitar deixar pilhas em mesas; retirar impressões imediatamente; usar capa/envelope para documentos sensíveis.
Regra de ouro: se você não deixaria o documento “em cima da mesa” para qualquer pessoa ver, não deixe em uma pasta digital com acesso amplo.
4) Compartilhamento (interno e com terceiros)
Objetivo: compartilhar somente o mínimo necessário, com destinatário correto e registro.
- Verifique necessidade: o destinatário precisa mesmo desse dado para executar a tarefa?
- Minimize: envie apenas o trecho/arquivo necessário (ex.: comprovante de afastamento sem anexar laudo completo).
- Confirme destinatários: atenção a grupos, listas e “responder a todos”.
- Proteja o envio: preferir link com acesso restrito; se anexo, usar senha e enviar a senha por canal separado.
- Registre: anote data, o que foi enviado, para quem e por qual motivo (especialmente sensíveis).
Exemplo (boa prática): para a contabilidade, enviar apenas dados necessários para folha, sem anexar documentos pessoais que não impactam o cálculo.
Exemplo (má prática): enviar dossiê completo do colaborador para um gestor “para ele se inteirar”.
5) Retenção e descarte
Objetivo: manter dados apenas pelo tempo necessário e descartar com segurança.
- Não descarte no lixo comum documentos com dados pessoais (ex.: CPF, endereço, dados bancários, atestados).
- Use fragmentadora ou descarte seguro definido pela empresa (coleta confidencial).
- Digital: ao excluir, verifique se não há cópias em e-mail, downloads e pastas temporárias; evite duplicidade de arquivos.
- Se houver política interna de prazos, siga-a. Se não houver, não “apague por conta própria” documentos que podem ter obrigação legal de guarda; acione o responsável (DP/Jurídico/DPO/Encarregado).
Regras práticas para situações comuns
Envio de documentos por e-mail (checklist rápido)
- Assunto neutro: evite mencionar “doença”, “advertência”, “demissão”. Prefira “Documentação solicitada” ou “Atualização cadastral”.
- Destinatário correto: confira o e-mail letra por letra; cuidado com autocomplete.
- Evite CC desnecessário: use CC apenas quando houver necessidade real; evite grupos amplos.
- Preferir link com acesso restrito (pasta corporativa) em vez de anexos, quando possível.
- Se anexo sensível: PDF com senha + senha enviada por outro canal (ex.: mensagem corporativa/telefone).
- Não encaminhar e-mails antigos que contenham histórico desnecessário (thread com dados extras).
- Antes de enviar: revise anexos (nome do arquivo e conteúdo). Erro comum: anexar documento de outra pessoa.
Modelo de texto (objetivo e seguro):
Olá, [Nome]. Segue o documento solicitado para [finalidade]. Caso precise de mais alguma informação, me avise. Observação: evite inserir dados pessoais no corpo do e-mail (CPF, endereço, dados bancários). Prefira anexos protegidos ou canal seguro.
Impressão e manuseio de papel
- Imprima apenas se necessário e retire imediatamente da impressora.
- Não deixe em bandejas ou mesas compartilhadas.
- Use envelope para transportar documentos com dados sensíveis.
- Rascunhos contam: folhas de teste com dados devem ser descartadas com segurança.
Descarte seguro (papel e mídia)
- Papel: fragmentar/triturar ou usar descarte confidencial.
- Mídias: pendrives e HDs devem seguir procedimento interno; não “formatar e doar” equipamentos sem orientação de TI.
- Etiquetas e envelopes: rasgar/remover dados visíveis (nome, endereço, CPF) antes de descartar.
Acesso a pastas e sistemas (regras de bolso)
- Princípio do menor privilégio: cada pessoa acessa apenas o que precisa.
- Não compartilhar login/senha e não deixar sessão aberta.
- Bloqueio de tela ao sair da mesa, mesmo por poucos minutos.
- Evite baixar arquivos para dispositivos pessoais.
- Controle de permissões: se alguém pede acesso, registre o pedido e valide com responsável.
Atendimentos presenciais e por telefone
- Ambiente: evite falar de assuntos sensíveis em recepção/corredor.
- Tom e discrição: não repita em voz alta dados como CPF, salário, diagnóstico.
- Documentos na mesa: mantenha virados para você; não deixe outros colaboradores verem.
- Telefone: antes de informar qualquer dado, confirme identidade com perguntas de validação definidas internamente (ex.: matrícula + dado não público). Se não houver procedimento, encaminhe para canal oficial.
Guia de boas práticas: o que pode e o que não pode ser compartilhado
| Situação | Pode | Não pode |
|---|---|---|
| Gestor pede informação sobre atestado | Informar apenas o necessário para gestão de ausência (período de afastamento e status de entrega do documento), conforme regra interna | Compartilhar CID, detalhes de laudo, histórico médico |
| Gestor pede salário de um colaborador | Seguir política interna: se houver necessidade formal (ex.: orçamento/estrutura), fornecer via canal oficial e com registro | Informar informalmente, em conversa de corredor, ou enviar planilha completa sem necessidade |
| Colaborador pede dados de outro colaborador | Orientar a procurar o próprio colega ou canal oficial (se aplicável) sem repassar dados pessoais | Passar telefone, endereço, e-mail pessoal, salário, situação disciplinar |
| Envio para fornecedor (benefício/medicina/contabilidade) | Enviar somente campos necessários para execução do serviço, preferindo canal seguro | Enviar dossiê completo, documentos extras, ou incluir pessoas em CC sem necessidade |
| Comunicado interno sobre afastamento | Informar de forma genérica (ex.: “ausente por motivo pessoal/saúde” se necessário) | Detalhar diagnóstico, tratamento, condição de saúde |
| Pedido de documento por e-mail | Solicitar lista mínima e orientar envio seguro | Pedir “tudo que tiver”, aceitar foto de documentos sensíveis em grupos informais |
Consentimento e registros: quando se aplica e como registrar
Em muitas rotinas de RH, o tratamento de dados ocorre por necessidade contratual, legal/regulatória ou para execução de políticas internas. Ainda assim, pode haver situações em que consentimento seja usado (por exemplo, uso de imagem em materiais internos/externos, participação em ações não obrigatórias, divulgação de dados em canais não essenciais).
Boas práticas quando o consentimento for aplicável:
- Seja específico: consentimento para uma finalidade (ex.: “uso de foto em mural interno por 6 meses”).
- Registre: data, finalidade, canal (formulário/termo), responsável e como o colaborador pode revogar.
- Guarde o comprovante em local com acesso restrito.
- Não condicione direitos básicos do colaborador a consentimento para algo opcional.
Procedimento em caso de incidente (perda, envio errado, exposição)
O que é incidente no RH
Qualquer evento que gere risco aos dados pessoais: e-mail enviado ao destinatário errado, planilha anexada incorretamente, documento esquecido na impressora, notebook extraviado, pasta com permissões abertas, conversa com dados sensíveis em local público, acesso indevido ao sistema.
Passo a passo imediato (primeiras ações)
- Conter: se foi e-mail, tentar recall (se disponível), pedir exclusão imediata ao destinatário e interromper novos envios; se foi pasta, remover permissões; se foi papel, recolher o documento.
- Preservar evidências: não “apagar tudo” sem orientação. Guarde informações: data/hora, o que foi exposto, para quem, quantas pessoas, prints/logs se aplicável.
- Comunicar internamente: acionar o responsável definido (liderança do RH, TI e Encarregado/DPO, se houver). Use canal oficial e registre o chamado.
- Avaliar impacto: quais dados foram envolvidos (pessoais/sensíveis), quantidade de titulares, risco de fraude/discriminação.
- Mitigar: trocar senhas, invalidar links, solicitar bloqueio de conta, orientar o titular se houver risco (ex.: tentativa de golpe).
- Registrar o incidente: preencher registro interno com causa provável e ações tomadas.
Modelo de registro interno (campos mínimos)
- Data/hora do incidente
- Como ocorreu (ex.: e-mail com anexo errado)
- Tipo de dados envolvidos (pessoais/sensíveis)
- Quantidade de pessoas afetadas
- Quem teve acesso (destinatário/grupo/pasta)
- Ações de contenção e mitigação
- Responsáveis acionados (RH/TI/DPO)
- Medidas preventivas (ex.: revisão de permissões, treinamento, ajuste de processo)
Checklist diário do assistente de RH (confidencialidade e LGPD)
- Antes de pedir um dado: preciso mesmo? qual finalidade?
- Antes de enviar: conferir destinatário, anexo, CC e histórico do e-mail.
- Evitar dados pessoais no corpo do e-mail; preferir canal seguro/anexo protegido.
- Bloquear tela ao sair e não compartilhar credenciais.
- Retirar impressões imediatamente e guardar papéis em local trancado.
- Descartar rascunhos e cópias com fragmentação/descarte confidencial.
- Em atendimento presencial: falar baixo, evitar áreas comuns e não expor documentos na mesa.
- Se algo der errado: conter, registrar e comunicar rapidamente.