A comunicação técnica e os registros no contexto do INSS são parte central da qualidade do atendimento e da segurança institucional: documentam o que foi demandado, o que foi realizado, quais evidências foram consideradas e quais encaminhamentos foram adotados. Um registro bem feito precisa ser claro, objetivo, padronizado e rastreável, permitindo que outro profissional compreenda o caso sem suposições e que a informação seja auditável quando necessário.
1) Conceitos essenciais: escrita técnica, qualidade documental e rastreabilidade
Escrita técnica
É a forma de redigir informações de modo impessoal, preciso e verificável, priorizando fatos observáveis, falas relevantes do usuário (quando necessário), dados documentais e análises fundamentadas. A escrita técnica evita ambiguidades, generalizações e termos subjetivos.
Qualidade documental
Qualidade documental é a adequação do registro para cumprir sua finalidade: informar com exatidão, sustentar decisões e encaminhamentos, facilitar continuidade do atendimento e reduzir riscos (retrabalho, inconsistências, questionamentos, vazamentos). Um documento de qualidade apresenta: completude (o essencial está registrado), consistência (não se contradiz), atualidade (data e contexto), e pertinência (sem excesso de dados irrelevantes).
Rastreabilidade
Rastreabilidade é a capacidade de reconstruir o percurso do atendimento: quem registrou, quando, com base em quais evidências, e quais ações foram tomadas. Ela depende de identificação adequada do registro (data/hora, autoria, referência ao atendimento), descrição do que foi feito e indicação de fontes (documentos apresentados, declarações, sistemas consultados, contatos com rede, quando cabível).
2) Padronização de registros: como escrever para ser entendido e auditável
Princípios práticos de padronização
- Clareza: frases curtas, termos técnicos quando necessários, evitando jargões sem explicação.
- Objetividade: registrar apenas o que é relevante para a demanda e para o encaminhamento.
- Precisão: datas, valores, nomes de documentos, vínculos e eventos com especificidade (quando disponíveis).
- Coerência temporal: separar “histórico relatado” do “observado no atendimento” e do “verificado em documento/sistema”.
- Impessoalidade: foco no fato e na análise técnica, não em impressões pessoais.
- Padronização de termos: usar nomenclaturas consistentes para documentos, situações e encaminhamentos (ex.: “comprovante de residência”, “declaração”, “atestado”, “procuração”).
Estrutura recomendada do registro técnico (modelo)
Uma estrutura simples ajuda a manter padrão e rastreabilidade. Adapte ao instrumento/sistema utilizado, mantendo a lógica:
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- Identificação do atendimento: data/hora, canal (presencial/remoto), unidade, profissional responsável.
- Demanda apresentada: motivo do contato, pedido do usuário, contexto imediato.
- Fatos e evidências: documentos apresentados, informações verificadas, registros consultados, observações objetivas.
- Análise técnica: interpretação fundamentada dos dados, apontando limites e incertezas.
- Encaminhamentos/orientações: o que foi feito, prazos, responsáveis, próximos passos.
- Registro de consentimentos e restrições: quando houver compartilhamento de dados, contatos com terceiros, ou negativa do usuário.
3) Como descrever fatos, análises e conclusões sem confundir níveis de informação
Separar “fato”, “relato”, “verificação” e “análise”
Um erro comum é misturar o que o usuário disse com o que foi comprovado, ou registrar opinião como se fosse evidência. Use marcadores linguísticos para diferenciar:
- Relato do usuário: “Usuário informa/relata/declara que...”
- Documento apresentado: “Apresentou documento X, emitido em dd/mm/aaaa, contendo...”
- Verificação em sistema/registro: “Consta no sistema/registro consultado em dd/mm/aaaa...”
- Observação objetiva no atendimento: “No atendimento, observou-se...” (apenas o que for observável e pertinente)
- Análise técnica: “A partir dos elementos acima...” “Há indícios de...” “Não foi possível confirmar...”
Como formular conclusões técnicas com cautela
Conclusão técnica não é “certeza absoluta”; é um posicionamento fundamentado no conjunto de evidências disponíveis. Para reduzir risco de erro:
- Indique base: quais evidências sustentam a conclusão.
- Indique limites: o que não foi possível verificar.
- Evite linguagem categórica quando a evidência for parcial (prefira “indica”, “sugere”, “há compatibilidade/incompatibilidade”).
- Evite extrapolações: não inferir intenção, caráter, ou causas sem suporte.
Exemplos: fato vs. julgamento de valor
Má prática (julgamento): “Usuário é irresponsável e não trouxe documentos.”
Boa prática (fato verificável): “Usuário compareceu sem os documentos X e Y solicitados no atendimento anterior (registrado em dd/mm/aaaa). Informou que não conseguiu obtê-los até a data.”
Má prática (suposição): “Provavelmente está tentando fraudar.”
Boa prática (análise com base): “Há divergência entre o endereço informado no atendimento e o constante no comprovante apresentado (emitido em dd/mm/aaaa). Orientado a apresentar documentação atualizada para esclarecimento.”
4) Como evitar julgamentos de valor e linguagem inadequada
O que evitar
- Adjetivos moralizantes: “preguiçoso”, “desleixado”, “aproveitador”, “ignorante”.
- Generalizações: “sempre”, “nunca”, “todo mundo”.
- Diagnósticos não competentes: atribuir transtornos/condições sem documento idôneo ou sem atribuição para tal.
- Ironia ou informalidade: abreviações, gírias, comentários pessoais.
- Exposição desnecessária: detalhes íntimos que não impactam a demanda/encaminhamento.
Como substituir por linguagem técnica
- Troque “não quer” por “não aderiu ao encaminhamento X até a data; relatou motivo Y”.
- Troque “confuso” por “apresentou dificuldade para informar datas e sequência de eventos; solicitada confirmação documental”.
- Troque “agressivo” por descrição objetiva: “elevou o tom de voz, interrompeu falas, recusou-se a prosseguir; atendimento foi interrompido às hh:mm por motivo de segurança”.
5) Registro de evidências e fontes: como sustentar o que foi registrado
O que conta como evidência no registro
- Documentos apresentados: tipo, data de emissão, órgão emissor, informações relevantes (sem transcrever além do necessário).
- Declarações do usuário: apenas as partes pertinentes; quando necessário, registrar entre aspas trechos curtos e objetivos.
- Registros consultados: indicar que houve consulta e a data (evitar copiar dados sensíveis desnecessários).
- Contatos com rede: quando houver, registrar data, canal, instituição, nome/função do interlocutor (se pertinente), e síntese do conteúdo.
Como citar fontes sem expor dados em excesso
Registre o mínimo necessário para rastreabilidade. Em vez de copiar integralmente números e informações sensíveis, prefira referência ao tipo de documento e ao conteúdo essencial.
Boa prática: “Apresentou comprovante de residência em nome de terceiro, emitido em mm/aaaa; usuário informou coabitação e apresentou declaração do titular confirmando residência.”
Má prática: “Copiado integralmente o comprovante com endereço completo, código de barras, número de instalação e dados de consumo.”
6) Passo a passo prático: como produzir um registro técnico de atendimento
Passo 1 — Defina o objetivo do registro
Antes de escrever, responda: qual decisão, encaminhamento ou continuidade este registro precisa suportar? Isso ajuda a selecionar o que é pertinente.
Passo 2 — Organize as informações por categorias
- Demanda
- Evidências/documentos
- Verificações realizadas
- Análise técnica
- Encaminhamentos e prazos
Passo 3 — Escreva primeiro os fatos e evidências
Comece pelo que é verificável: documentos, datas, eventos, registros consultados. Use linguagem neutra.
Passo 4 — Registre o relato do usuário de forma controlada
Inclua apenas o que impacta a demanda. Diferencie claramente “relatado” de “comprovado”.
Passo 5 — Elabore a análise técnica com base explícita
Conecte evidências e relato, indique compatibilidades/divergências e limites de verificação. Evite inferências sobre intenção.
Passo 6 — Descreva encaminhamentos com rastreabilidade
Registre o que foi orientado/solicitado, prazos, responsáveis e como o usuário foi informado. Se houver recusa do usuário, registre a recusa e o que foi explicado.
Passo 7 — Revise com checklist de qualidade
- Está claro o motivo do atendimento?
- O que é relato está marcado como relato?
- As evidências estão descritas com fonte e data?
- Há termos subjetivos ou julgamentos?
- Há dados sensíveis desnecessários?
- Os encaminhamentos estão completos (o quê/quem/quando/como)?
7) Exemplos de boas e más práticas de registro (comparativos)
Exemplo 1 — Registro vago vs. registro rastreável
Má prática: “Usuário veio pedir orientação. Foi orientado e encaminhado.”
Boa prática: “Atendimento em dd/mm/aaaa, hh:mm, presencial. Demanda: esclarecimentos sobre pendência documental para andamento do requerimento. Evidências: usuário apresentou documento X (emitido em dd/mm/aaaa). Verificação: constatada ausência do documento Y. Orientações: informado sobre necessidade de apresentar Y e como obtê-lo; usuário ciente do prazo e do canal de entrega. Encaminhamento: agendado retorno/registrada orientação no sistema.”
Exemplo 2 — Linguagem moralizante vs. linguagem técnica
Má prática: “Usuário não colabora e quer tudo fácil.”
Boa prática: “Usuário demonstrou resistência em apresentar o documento X, alegando dificuldade de acesso. Foram apresentadas alternativas de obtenção e esclarecida a finalidade do documento para instrução do processo.”
Exemplo 3 — Excesso de dados pessoais vs. minimização
Má prática: “Registrados RG, CPF, endereço completo, telefones, e-mail, nomes de familiares e detalhes de saúde sem relação com a demanda.”
Boa prática: “Registrados apenas dados necessários à identificação do atendimento e à instrução da demanda. Informações sensíveis não relacionadas foram omitidas.”
8) Proteção de dados e segurança da informação no atendimento e nos registros
Princípios aplicáveis ao registro
- Necessidade: registrar apenas o necessário para a finalidade do atendimento.
- Finalidade: usar e registrar dados apenas para o propósito declarado do serviço.
- Minimização: evitar cópia integral de documentos e informações sensíveis sem necessidade.
- Confidencialidade: restringir acesso e evitar exposição indevida.
- Integridade: garantir que o registro não seja alterado indevidamente e que correções sejam rastreáveis.
Boas práticas no manuseio de informações
- Ambiente: evitar comentar casos em locais de circulação; atenção a chamadas em viva-voz e telas visíveis ao público.
- Telas e documentos: bloquear estação ao se ausentar; não deixar documentos expostos; recolher impressões imediatamente.
- Compartilhamento: compartilhar dados apenas com quem precisa saber e pelos canais institucionais adequados.
- Arquivos: evitar salvar cópias locais desnecessárias; seguir orientações institucionais de armazenamento.
- Identificação: confirmar identidade do solicitante antes de fornecer informações, especialmente em atendimentos remotos.
Más práticas comuns (e por que são arriscadas)
- Enviar dados por canais pessoais: aumenta risco de vazamento e perda de controle do acesso.
- Registrar “prints” e transcrições integrais: expõe dados além do necessário e amplia impacto de incidentes.
- Deixar registro com linguagem ambígua: gera interpretações divergentes e fragiliza auditoria.
- Usar dispositivos pessoais para fotografar documentos: cria cópias fora do controle institucional.
Como registrar incidentes e situações sensíveis com segurança
Quando houver situação que envolva risco, conflito, suspeita de inconsistência documental ou necessidade de preservação de evidências, registre de forma objetiva e mínima:
- Descreva o ocorrido com data/hora e comportamento observável (sem adjetivos).
- Indique quais medidas foram tomadas (interrupção do atendimento, acionamento de apoio, orientação fornecida).
- Evite imputar intenção; registre divergências como divergências e a necessidade de esclarecimento.
- Não inclua dados sensíveis além do indispensável para contextualizar a medida adotada.
9) Modelos práticos (para adaptação)
Modelo A — Registro de atendimento com foco em instrução documental
Data/hora/canal: dd/mm/aaaa – hh:mm – (presencial/remoto) Profissional: (identificação) Demanda: (síntese objetiva) Evidências apresentadas: (documentos, datas de emissão, pontos relevantes) Verificações realizadas: (consulta/checagem, data) Pontos de atenção: (divergências, pendências, limites de verificação) Análise técnica: (interpretação fundamentada, sem julgamentos) Orientações/encaminhamentos: (o que, como, prazo, responsável) Ciência do usuário: (confirmada/recusa registrada, se aplicável)Modelo B — Registro de contato com rede (quando aplicável)
Data/hora/canal: dd/mm/aaaa – hh:mm – (telefone/e-mail/ofício) Instituição/serviço: (nome) Interlocutor: (nome e função, se pertinente) Finalidade do contato: (objetiva) Síntese do retorno: (fatos informados) Evidência/registro associado: (documento/registro gerado, se houver) Próximos passos: (encaminhamentos e prazos)