Compras e Suprimentos para Produção: Papel, fluxo e responsabilidades no atendimento à fábrica

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que significa “atender a produção” em Compras e Suprimentos

Atender a produção, do ponto de vista operacional, é garantir que materiais, componentes e serviços necessários ao chão de fábrica estejam disponíveis no local certo, na quantidade certa e no momento certo, com qualidade aprovada e documentação fiscal/financeira correta. Isso acontece por meio de um fluxo integrado que começa no consumo (saída do estoque ou necessidade identificada) e termina no reabastecimento (material recebido, conferido, endereçado e liberado para uso).

Na prática, Compras e Suprimentos não “trabalha sozinho”: o desempenho depende de interfaces bem definidas com PCP, engenharia, qualidade, almoxarifado e financeiro, além de fornecedores e transportadoras. O objetivo operacional é reduzir urgências, evitar faltas e estabilizar o abastecimento com controles simples e repetíveis.

Fluxo ponta a ponta: do consumo ao reabastecimento

A seguir, um fluxo típico e aplicável à maioria das fábricas. Ajuste nomes de documentos e sistemas (ERP/MRP), mas mantenha os entregáveis e pontos de controle.

1) Consumo e sinalização de necessidade

Gatilhos comuns para iniciar o reabastecimento:

  • Baixa de estoque por requisição de produção (separação para ordem de produção) ou consumo por apontamento.
  • Explosão de necessidades via MRP/PCP (demanda futura por plano mestre e ordens).
  • Solicitação de engenharia (novo item, alteração de desenho, substituição de material).
  • Reposição por ponto de pedido (mínimo/máximo, kanban, duas gavetas).

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  • Lista de necessidades (MRP) ou alerta de reposição (mínimo atingido).
  • Requisição de compra (RC) ou requisição interna de material (quando é transferência/retirada do estoque).

Pontos de controle que evitam urgências:

  • Cadastro de item com lead time, lote mínimo, múltiplos, unidade de medida e política de estoque.
  • Parametrização de estoque de segurança e ponto de pedido coerentes com variabilidade de consumo e prazo do fornecedor.
  • Disciplina de apontamento/baixa: consumo “fora do sistema” destrói previsibilidade.

2) Requisição de compra (RC): o pedido interno para Compras

A RC é o documento que formaliza a necessidade para Compras. Ela deve nascer com dados suficientes para cotar e comprar sem retrabalho.

Campos mínimos recomendados:

  • Código e descrição do item (ou especificação técnica quando ainda não há código).
  • Quantidade, unidade, data necessária e local de entrega.
  • Centro de custo/ordem interna/projeto (para rastreio e aprovação).
  • Motivo (reposição, novo produto, manutenção, melhoria, amostra).
  • Fornecedor sugerido (se aplicável) e anexos (desenho, norma, ficha técnica).

Exemplo prático: o PCP roda o MRP e identifica que o item “Parafuso M8 zincado” ficará negativo em 12 dias. A RC é aberta com necessidade para 10 dias (considerando tempo de recebimento e inspeção), quantidade para cobrir o lote de produção e reposição do mínimo.

Pontos de controle:

  • RC com data necessária “ontem” deve ser exceção e exigir justificativa e aprovação adicional.
  • RC sem especificação/anexo para itens críticos deve ser devolvida ao solicitante (evita compra errada).

3) Triagem e estratégia de atendimento (Compras/Suprimentos)

Antes de cotar, Compras faz uma triagem para decidir o caminho:

  • Item já homologado e fornecedor aprovado: compra direta (pedido) ou cotação rápida.
  • Item novo/alterado: envolver engenharia e qualidade para especificação e critérios de aceitação; pode exigir homologação.
  • Item de estoque: avaliar saldo, pedidos em aberto, transferências entre almoxarifados e alternativas internas.
  • Urgência real: plano de contingência (frete expresso, compra spot, substituto aprovado, empréstimo entre plantas).

Entregáveis:

  • Plano de atendimento da RC (comprar, transferir, substituir, consumir saldo, replanejar).
  • Lista de fornecedores a cotar (base homologada).

Pontos de controle:

  • Checagem de pedidos em aberto e saldo disponível antes de abrir cotação (evita duplicidade).
  • Definição de criticidade (A/B/C ou crítico/não crítico) para priorizar tempo de resposta.

4) Cotação (RFQ): comparar preço, prazo e condições

A cotação deve padronizar o que será comparado. O objetivo não é apenas menor preço, mas melhor custo total para atender a produção no prazo.

Passo a passo prático:

  • Enviar RFQ com especificação, quantidade, data necessária, local de entrega, requisitos de qualidade e embalagem.
  • Solicitar explicitamente: prazo de fabricação, prazo de entrega, validade da proposta, impostos, frete (CIF/FOB), condições de pagamento.
  • Receber propostas e montar mapa comparativo.
  • Negociar pontos críticos (prazo, lote mínimo, frete, penalidades, garantia).
  • Selecionar fornecedor conforme critérios e aprovações internas.

Entregáveis:

  • Mapa de cotação (tabela comparativa).
  • Registro de negociação e justificativa de escolha (especialmente quando não for menor preço).

Pontos de controle:

  • Comparar prazo prometido vs. data necessária da produção.
  • Checar requisitos de qualidade (certificados, laudos, PPAP/FAI quando aplicável).
  • Evitar “cotação incomparável”: padronize unidade, impostos e frete.
CritérioFornecedor AFornecedor BFornecedor C
Preço unitárioR$ 1,10R$ 1,05R$ 1,20
Prazo de entrega7 dias15 dias5 dias
FreteCIFFOBCIF
Condição pagamento28 d14 d28 d
Qualidade/homologaçãoAprovadoAprovadoEm avaliação

5) Pedido de compra (PO): formalização do compromisso

O pedido de compra é o contrato operacional do dia a dia. Ele precisa ser claro para evitar divergências no recebimento e atrasos.

Conteúdo essencial do PO:

  • Item, descrição, revisão (quando aplicável), quantidade, unidade.
  • Preço, impostos, frete, Incoterm (quando aplicável), local de entrega.
  • Data de entrega e/ou cronograma de entregas (parciais).
  • Requisitos de qualidade (certificados, inspeção, rastreabilidade, embalagem).
  • Condição de pagamento e dados fiscais.

Entregáveis:

  • PO emitido e enviado ao fornecedor.
  • Confirmação do fornecedor (acknowledgement) com data prometida.

Pontos de controle:

  • PO sem confirmação de entrega vira risco oculto; exigir confirmação para itens críticos.
  • Itens com revisão de engenharia: PO deve citar revisão correta para evitar recebimento de versão antiga.

6) Follow-up e gestão de prazo (antes do recebimento)

Follow-up é a rotina que garante que o prometido será cumprido. Ele deve ser proporcional à criticidade do item.

Passo a passo prático:

  • Classificar pedidos por criticidade e data de necessidade (ex.: semáforo).
  • Confirmar início de produção/expedição com o fornecedor.
  • Antecipar riscos: falta de matéria-prima do fornecedor, capacidade, transporte, feriados.
  • Acionar plano de contingência quando necessário (alternativo, parcial, expresso).

Entregáveis:

  • Relatório de pedidos em aberto com status (prometido x necessário).
  • Registro de ações de mitigação e replanejamento com PCP.

Pontos de controle:

  • Alerta antecipado ao PCP quando houver risco de atraso (não esperar “estourar”).
  • Evitar “urgência crônica”: se o mesmo item atrasa sempre, revisar fornecedor, lead time cadastrado e política de estoque.

7) Recebimento físico e fiscal

Quando o material chega, o recebimento precisa garantir três coisas: conferência física, conformidade fiscal e rastreabilidade.

Passo a passo prático:

  • Conferir nota fiscal vs. pedido (itens, quantidades, lote, unidade, impostos).
  • Conferir fisicamente volumes, integridade da embalagem e identificação.
  • Registrar entrada no sistema (pré-entrada/entrada) conforme processo fiscal.
  • Segregar material para inspeção de qualidade quando aplicável.

Entregáveis:

  • Registro de recebimento (entrada fiscal e/ou recebimento físico).
  • Etiqueta/identificação interna (lote, localização, status).

Pontos de controle:

  • Receber sem PO (ou sem autorização) deve ser exceção controlada; gera risco de pagamento indevido e divergências.
  • Divergência de NF (preço, CFOP, impostos) deve bloquear o fluxo até correção, para não criar passivo no financeiro.

8) Inspeção de qualidade e liberação

Qualidade define se o material pode ser usado. Para itens críticos, a inspeção evita parar a fábrica por defeito; para itens não críticos, pode haver liberação por amostragem ou por certificado.

Modelos comuns:

  • Inspeção total (alto risco).
  • Amostragem (plano AQL).
  • Liberação por certificado (fornecedor qualificado + certificado de conformidade).
  • Skip lot (redução de inspeção por histórico).

Entregáveis:

  • Registro de inspeção (aprovado/reprovado/condicional).
  • Tratativa de não conformidade (devolução, retrabalho, concessão).

Pontos de controle:

  • Material sem status de qualidade não deve ir para linha (bloqueio físico ou sistêmico).
  • Concessões devem ter aprovação formal (engenharia/qualidade/produção) e rastreabilidade.

9) Armazenagem, endereçamento e disponibilização para produção

Após liberação, o almoxarifado endereça e disponibiliza o material. A produção enxerga “material disponível” quando ele está no estoque liberado e com localização definida.

Passo a passo prático:

  • Endereçar (rua/prateleira/posição) e registrar no sistema.
  • Aplicar regras de FIFO/FEFO quando aplicável.
  • Separar e abastecer linha conforme requisição/ordem de produção (kitting, picking, milk run).

Entregáveis:

  • Saldo disponível atualizado no sistema.
  • Separação/baixa para ordem de produção (rastreio de consumo).

Pontos de controle:

  • Evitar “estoque invisível”: material sem endereçamento ou sem entrada correta não aparece para o PCP.
  • Auditoria de acuracidade (inventário cíclico) para manter confiança no saldo.

Interfaces essenciais e como organizar a comunicação

Interface com PCP (Planejamento e Controle da Produção)

  • Entrada: plano de produção, MRP, prioridades, datas necessárias.
  • Saída: status de compras (prometido x necessário), riscos e alternativas.
  • Rotinas recomendadas: reunião curta semanal de materiais críticos; semáforo de itens que podem parar linha.

Interface com Engenharia

  • Entrada: desenhos, revisões, lista técnica (BOM), especificações e substituições.
  • Saída: feedback de mercado (lead time, disponibilidade), propostas de alternativos, impacto de mudanças.
  • Controle-chave: gestão de revisão (não comprar versão antiga) e data de efetividade da alteração.

Interface com Qualidade

  • Entrada: critérios de inspeção, requisitos de certificação, fornecedores homologados.
  • Saída: desempenho de fornecedores (NCs, devoluções), necessidade de ações corretivas.
  • Controle-chave: bloqueio/liberação e tratamento de não conformidades sem “atalhos”.

Interface com Almoxarifado/Logística interna

  • Entrada: capacidade de recebimento, janelas de entrega, regras de endereçamento e abastecimento.
  • Saída: previsões de chegada, prioridades de descarga/inspeção, materiais críticos.
  • Controle-chave: acuracidade de estoque e disciplina de movimentação registrada.

Interface com Financeiro/Fiscal

  • Entrada: regras fiscais, cadastro de fornecedores, condições de pagamento, limites de aprovação.
  • Saída: POs aprovados, previsões de desembolso, tratativas de divergência de NF.
  • Controle-chave: “3-way match” (pedido x recebimento x nota fiscal) para evitar pagamentos indevidos e bloqueios.

Entregáveis por etapa (checklist operacional)

  • Necessidade: lista MRP/alerta de reposição.
  • Requisição: RC completa com anexos e data necessária.
  • Cotação: RFQ enviada + mapa comparativo + justificativa.
  • Compra: PO emitido + confirmação do fornecedor.
  • Follow-up: status atualizado + plano de mitigação para riscos.
  • Recebimento: entrada fiscal/física + conferência registrada.
  • Qualidade: laudo/registro de inspeção + status de liberação.
  • Estoque: endereçamento + saldo liberado + separação para OP.

Matriz RACI (responsabilidades) do fluxo de atendimento à fábrica

RACI: R (Responsible: executa), A (Accountable: responde pelo resultado), C (Consulted: consultado), I (Informed: informado).

AtividadePCPComprasEngenhariaQualidadeAlmoxarifadoFinanceiro/Fiscal
Gerar necessidades (MRP/ponto de pedido)A/RICIII
Abrir e aprovar RC (escopo e prioridade)RCCCIA/C
Validar especificação/revisão (item novo/alterado)ICA/RCII
Solicitar cotação e negociarIA/RCCIC
Selecionar fornecedor (critérios técnicos/qualidade)IA/RCCII
Emitir PO e obter confirmaçãoIA/RIIIC
Follow-up de entrega e gestão de riscoCA/RCCII
Recebimento físico (conferência)IIICA/RC
Recebimento fiscal/lançamento NFIIIICA/R
Inspeção e liberação de qualidadeIICA/RCI
Endereçamento e disponibilização em estoqueIIIIA/RI
Separação/abastecimento para OPCIIIA/RI
3-way match (PO x recebimento x NF) e pagamentoICIICA/R

Pontos de controle que evitam urgências e faltas (onde mais dá errado)

Controle 1: Data necessária realista e lead time confiável

  • Se o lead time cadastrado é menor que o real, o MRP “promete” o impossível e cria urgências.
  • Prática: revisar lead time por família de itens com base em histórico de entrega (prometido x realizado).

Controle 2: RC completa e padronizada

  • RC incompleta vira cotação lenta, compra errada ou recebimento bloqueado.
  • Prática: checklist obrigatório de anexos para itens técnicos; bloqueio de envio para compras sem campos mínimos.

Controle 3: Confirmação do fornecedor e follow-up por criticidade

  • Pedido “emitido” não é “garantido”.
  • Prática: exigir confirmação formal para itens críticos e criar rotina de follow-up com marcos (produção, expedição, coleta).

Controle 4: Integração com qualidade (liberação rápida e segura)

  • Material chega no prazo, mas fica parado por falta de inspeção ou critério.
  • Prática: definir quais itens liberam por certificado e quais exigem inspeção; combinar janelas de inspeção para itens críticos.

Controle 5: Recebimento sem divergências (físico e fiscal)

  • Divergência de NF bloqueia entrada e pagamento; divergência física cria falta “fantasma”.
  • Prática: conferência no ato, tolerâncias definidas (quantidade, preço) e canal rápido com fornecedor para correção.

Controle 6: Estoque “visível” e acurado

  • Sem endereçamento e acuracidade, o PCP planeja com base em números errados.
  • Prática: inventário cíclico por criticidade e disciplina de movimentação registrada (sem retiradas informais).

Exemplo integrado (mini-caso) para aplicar o fluxo

Cenário: uma linha de montagem consome 2.000 unidades/semana do componente X. O fornecedor entrega em 10 dias úteis. O estoque de segurança é 1 semana. Na segunda-feira, o saldo cai abaixo do ponto de pedido.

  • PCP identifica a necessidade no MRP e abre RC para 6.000 unidades com data necessária em 12 dias corridos (considerando recebimento e inspeção).
  • Compras checa pedidos em aberto (não há), cota com 3 fornecedores homologados e escolhe o que entrega em 9 dias úteis com frete CIF.
  • Compras emite PO com requisito de certificado de conformidade e identificação de lote.
  • Follow-up confirma expedição no 7º dia útil e agenda recebimento com almoxarifado.
  • Almoxarifado confere volumes e NF; Qualidade libera por certificado (fornecedor qualificado) no mesmo dia.
  • Almoxarifado endereça e abastece a linha no dia seguinte, evitando parada.

Onde o controle evitou urgência: ponto de pedido correto + RC completa + confirmação do fornecedor + liberação por certificado para fornecedor qualificado.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática melhor reduz o risco de “urgência crônica” e falta de material, mesmo quando o pedido já foi emitido?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Pedido emitido não garante entrega. A confirmação do fornecedor e o follow-up por criticidade permitem antecipar riscos e acionar contingências, alinhando "prometido x necessário" com o PCP para evitar falta e urgência recorrente.

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