O que significa “atender a produção” em Compras e Suprimentos
Atender a produção, do ponto de vista operacional, é garantir que materiais, componentes e serviços necessários ao chão de fábrica estejam disponíveis no local certo, na quantidade certa e no momento certo, com qualidade aprovada e documentação fiscal/financeira correta. Isso acontece por meio de um fluxo integrado que começa no consumo (saída do estoque ou necessidade identificada) e termina no reabastecimento (material recebido, conferido, endereçado e liberado para uso).
Na prática, Compras e Suprimentos não “trabalha sozinho”: o desempenho depende de interfaces bem definidas com PCP, engenharia, qualidade, almoxarifado e financeiro, além de fornecedores e transportadoras. O objetivo operacional é reduzir urgências, evitar faltas e estabilizar o abastecimento com controles simples e repetíveis.
Fluxo ponta a ponta: do consumo ao reabastecimento
A seguir, um fluxo típico e aplicável à maioria das fábricas. Ajuste nomes de documentos e sistemas (ERP/MRP), mas mantenha os entregáveis e pontos de controle.
1) Consumo e sinalização de necessidade
Gatilhos comuns para iniciar o reabastecimento:
- Baixa de estoque por requisição de produção (separação para ordem de produção) ou consumo por apontamento.
- Explosão de necessidades via MRP/PCP (demanda futura por plano mestre e ordens).
- Solicitação de engenharia (novo item, alteração de desenho, substituição de material).
- Reposição por ponto de pedido (mínimo/máximo, kanban, duas gavetas).
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- Lista de necessidades (MRP) ou alerta de reposição (mínimo atingido).
- Requisição de compra (RC) ou requisição interna de material (quando é transferência/retirada do estoque).
Pontos de controle que evitam urgências:
- Cadastro de item com lead time, lote mínimo, múltiplos, unidade de medida e política de estoque.
- Parametrização de estoque de segurança e ponto de pedido coerentes com variabilidade de consumo e prazo do fornecedor.
- Disciplina de apontamento/baixa: consumo “fora do sistema” destrói previsibilidade.
2) Requisição de compra (RC): o pedido interno para Compras
A RC é o documento que formaliza a necessidade para Compras. Ela deve nascer com dados suficientes para cotar e comprar sem retrabalho.
Campos mínimos recomendados:
- Código e descrição do item (ou especificação técnica quando ainda não há código).
- Quantidade, unidade, data necessária e local de entrega.
- Centro de custo/ordem interna/projeto (para rastreio e aprovação).
- Motivo (reposição, novo produto, manutenção, melhoria, amostra).
- Fornecedor sugerido (se aplicável) e anexos (desenho, norma, ficha técnica).
Exemplo prático: o PCP roda o MRP e identifica que o item “Parafuso M8 zincado” ficará negativo em 12 dias. A RC é aberta com necessidade para 10 dias (considerando tempo de recebimento e inspeção), quantidade para cobrir o lote de produção e reposição do mínimo.
Pontos de controle:
- RC com data necessária “ontem” deve ser exceção e exigir justificativa e aprovação adicional.
- RC sem especificação/anexo para itens críticos deve ser devolvida ao solicitante (evita compra errada).
3) Triagem e estratégia de atendimento (Compras/Suprimentos)
Antes de cotar, Compras faz uma triagem para decidir o caminho:
- Item já homologado e fornecedor aprovado: compra direta (pedido) ou cotação rápida.
- Item novo/alterado: envolver engenharia e qualidade para especificação e critérios de aceitação; pode exigir homologação.
- Item de estoque: avaliar saldo, pedidos em aberto, transferências entre almoxarifados e alternativas internas.
- Urgência real: plano de contingência (frete expresso, compra spot, substituto aprovado, empréstimo entre plantas).
Entregáveis:
- Plano de atendimento da RC (comprar, transferir, substituir, consumir saldo, replanejar).
- Lista de fornecedores a cotar (base homologada).
Pontos de controle:
- Checagem de pedidos em aberto e saldo disponível antes de abrir cotação (evita duplicidade).
- Definição de criticidade (A/B/C ou crítico/não crítico) para priorizar tempo de resposta.
4) Cotação (RFQ): comparar preço, prazo e condições
A cotação deve padronizar o que será comparado. O objetivo não é apenas menor preço, mas melhor custo total para atender a produção no prazo.
Passo a passo prático:
- Enviar RFQ com especificação, quantidade, data necessária, local de entrega, requisitos de qualidade e embalagem.
- Solicitar explicitamente: prazo de fabricação, prazo de entrega, validade da proposta, impostos, frete (CIF/FOB), condições de pagamento.
- Receber propostas e montar mapa comparativo.
- Negociar pontos críticos (prazo, lote mínimo, frete, penalidades, garantia).
- Selecionar fornecedor conforme critérios e aprovações internas.
Entregáveis:
- Mapa de cotação (tabela comparativa).
- Registro de negociação e justificativa de escolha (especialmente quando não for menor preço).
Pontos de controle:
- Comparar prazo prometido vs. data necessária da produção.
- Checar requisitos de qualidade (certificados, laudos, PPAP/FAI quando aplicável).
- Evitar “cotação incomparável”: padronize unidade, impostos e frete.
| Critério | Fornecedor A | Fornecedor B | Fornecedor C |
|---|---|---|---|
| Preço unitário | R$ 1,10 | R$ 1,05 | R$ 1,20 |
| Prazo de entrega | 7 dias | 15 dias | 5 dias |
| Frete | CIF | FOB | CIF |
| Condição pagamento | 28 d | 14 d | 28 d |
| Qualidade/homologação | Aprovado | Aprovado | Em avaliação |
5) Pedido de compra (PO): formalização do compromisso
O pedido de compra é o contrato operacional do dia a dia. Ele precisa ser claro para evitar divergências no recebimento e atrasos.
Conteúdo essencial do PO:
- Item, descrição, revisão (quando aplicável), quantidade, unidade.
- Preço, impostos, frete, Incoterm (quando aplicável), local de entrega.
- Data de entrega e/ou cronograma de entregas (parciais).
- Requisitos de qualidade (certificados, inspeção, rastreabilidade, embalagem).
- Condição de pagamento e dados fiscais.
Entregáveis:
- PO emitido e enviado ao fornecedor.
- Confirmação do fornecedor (acknowledgement) com data prometida.
Pontos de controle:
- PO sem confirmação de entrega vira risco oculto; exigir confirmação para itens críticos.
- Itens com revisão de engenharia: PO deve citar revisão correta para evitar recebimento de versão antiga.
6) Follow-up e gestão de prazo (antes do recebimento)
Follow-up é a rotina que garante que o prometido será cumprido. Ele deve ser proporcional à criticidade do item.
Passo a passo prático:
- Classificar pedidos por criticidade e data de necessidade (ex.: semáforo).
- Confirmar início de produção/expedição com o fornecedor.
- Antecipar riscos: falta de matéria-prima do fornecedor, capacidade, transporte, feriados.
- Acionar plano de contingência quando necessário (alternativo, parcial, expresso).
Entregáveis:
- Relatório de pedidos em aberto com status (prometido x necessário).
- Registro de ações de mitigação e replanejamento com PCP.
Pontos de controle:
- Alerta antecipado ao PCP quando houver risco de atraso (não esperar “estourar”).
- Evitar “urgência crônica”: se o mesmo item atrasa sempre, revisar fornecedor, lead time cadastrado e política de estoque.
7) Recebimento físico e fiscal
Quando o material chega, o recebimento precisa garantir três coisas: conferência física, conformidade fiscal e rastreabilidade.
Passo a passo prático:
- Conferir nota fiscal vs. pedido (itens, quantidades, lote, unidade, impostos).
- Conferir fisicamente volumes, integridade da embalagem e identificação.
- Registrar entrada no sistema (pré-entrada/entrada) conforme processo fiscal.
- Segregar material para inspeção de qualidade quando aplicável.
Entregáveis:
- Registro de recebimento (entrada fiscal e/ou recebimento físico).
- Etiqueta/identificação interna (lote, localização, status).
Pontos de controle:
- Receber sem PO (ou sem autorização) deve ser exceção controlada; gera risco de pagamento indevido e divergências.
- Divergência de NF (preço, CFOP, impostos) deve bloquear o fluxo até correção, para não criar passivo no financeiro.
8) Inspeção de qualidade e liberação
Qualidade define se o material pode ser usado. Para itens críticos, a inspeção evita parar a fábrica por defeito; para itens não críticos, pode haver liberação por amostragem ou por certificado.
Modelos comuns:
- Inspeção total (alto risco).
- Amostragem (plano AQL).
- Liberação por certificado (fornecedor qualificado + certificado de conformidade).
- Skip lot (redução de inspeção por histórico).
Entregáveis:
- Registro de inspeção (aprovado/reprovado/condicional).
- Tratativa de não conformidade (devolução, retrabalho, concessão).
Pontos de controle:
- Material sem status de qualidade não deve ir para linha (bloqueio físico ou sistêmico).
- Concessões devem ter aprovação formal (engenharia/qualidade/produção) e rastreabilidade.
9) Armazenagem, endereçamento e disponibilização para produção
Após liberação, o almoxarifado endereça e disponibiliza o material. A produção enxerga “material disponível” quando ele está no estoque liberado e com localização definida.
Passo a passo prático:
- Endereçar (rua/prateleira/posição) e registrar no sistema.
- Aplicar regras de FIFO/FEFO quando aplicável.
- Separar e abastecer linha conforme requisição/ordem de produção (kitting, picking, milk run).
Entregáveis:
- Saldo disponível atualizado no sistema.
- Separação/baixa para ordem de produção (rastreio de consumo).
Pontos de controle:
- Evitar “estoque invisível”: material sem endereçamento ou sem entrada correta não aparece para o PCP.
- Auditoria de acuracidade (inventário cíclico) para manter confiança no saldo.
Interfaces essenciais e como organizar a comunicação
Interface com PCP (Planejamento e Controle da Produção)
- Entrada: plano de produção, MRP, prioridades, datas necessárias.
- Saída: status de compras (prometido x necessário), riscos e alternativas.
- Rotinas recomendadas: reunião curta semanal de materiais críticos; semáforo de itens que podem parar linha.
Interface com Engenharia
- Entrada: desenhos, revisões, lista técnica (BOM), especificações e substituições.
- Saída: feedback de mercado (lead time, disponibilidade), propostas de alternativos, impacto de mudanças.
- Controle-chave: gestão de revisão (não comprar versão antiga) e data de efetividade da alteração.
Interface com Qualidade
- Entrada: critérios de inspeção, requisitos de certificação, fornecedores homologados.
- Saída: desempenho de fornecedores (NCs, devoluções), necessidade de ações corretivas.
- Controle-chave: bloqueio/liberação e tratamento de não conformidades sem “atalhos”.
Interface com Almoxarifado/Logística interna
- Entrada: capacidade de recebimento, janelas de entrega, regras de endereçamento e abastecimento.
- Saída: previsões de chegada, prioridades de descarga/inspeção, materiais críticos.
- Controle-chave: acuracidade de estoque e disciplina de movimentação registrada.
Interface com Financeiro/Fiscal
- Entrada: regras fiscais, cadastro de fornecedores, condições de pagamento, limites de aprovação.
- Saída: POs aprovados, previsões de desembolso, tratativas de divergência de NF.
- Controle-chave: “3-way match” (pedido x recebimento x nota fiscal) para evitar pagamentos indevidos e bloqueios.
Entregáveis por etapa (checklist operacional)
- Necessidade: lista MRP/alerta de reposição.
- Requisição: RC completa com anexos e data necessária.
- Cotação: RFQ enviada + mapa comparativo + justificativa.
- Compra: PO emitido + confirmação do fornecedor.
- Follow-up: status atualizado + plano de mitigação para riscos.
- Recebimento: entrada fiscal/física + conferência registrada.
- Qualidade: laudo/registro de inspeção + status de liberação.
- Estoque: endereçamento + saldo liberado + separação para OP.
Matriz RACI (responsabilidades) do fluxo de atendimento à fábrica
RACI: R (Responsible: executa), A (Accountable: responde pelo resultado), C (Consulted: consultado), I (Informed: informado).
| Atividade | PCP | Compras | Engenharia | Qualidade | Almoxarifado | Financeiro/Fiscal |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Gerar necessidades (MRP/ponto de pedido) | A/R | I | C | I | I | I |
| Abrir e aprovar RC (escopo e prioridade) | R | C | C | C | I | A/C |
| Validar especificação/revisão (item novo/alterado) | I | C | A/R | C | I | I |
| Solicitar cotação e negociar | I | A/R | C | C | I | C |
| Selecionar fornecedor (critérios técnicos/qualidade) | I | A/R | C | C | I | I |
| Emitir PO e obter confirmação | I | A/R | I | I | I | C |
| Follow-up de entrega e gestão de risco | C | A/R | C | C | I | I |
| Recebimento físico (conferência) | I | I | I | C | A/R | C |
| Recebimento fiscal/lançamento NF | I | I | I | I | C | A/R |
| Inspeção e liberação de qualidade | I | I | C | A/R | C | I |
| Endereçamento e disponibilização em estoque | I | I | I | I | A/R | I |
| Separação/abastecimento para OP | C | I | I | I | A/R | I |
| 3-way match (PO x recebimento x NF) e pagamento | I | C | I | I | C | A/R |
Pontos de controle que evitam urgências e faltas (onde mais dá errado)
Controle 1: Data necessária realista e lead time confiável
- Se o lead time cadastrado é menor que o real, o MRP “promete” o impossível e cria urgências.
- Prática: revisar lead time por família de itens com base em histórico de entrega (prometido x realizado).
Controle 2: RC completa e padronizada
- RC incompleta vira cotação lenta, compra errada ou recebimento bloqueado.
- Prática: checklist obrigatório de anexos para itens técnicos; bloqueio de envio para compras sem campos mínimos.
Controle 3: Confirmação do fornecedor e follow-up por criticidade
- Pedido “emitido” não é “garantido”.
- Prática: exigir confirmação formal para itens críticos e criar rotina de follow-up com marcos (produção, expedição, coleta).
Controle 4: Integração com qualidade (liberação rápida e segura)
- Material chega no prazo, mas fica parado por falta de inspeção ou critério.
- Prática: definir quais itens liberam por certificado e quais exigem inspeção; combinar janelas de inspeção para itens críticos.
Controle 5: Recebimento sem divergências (físico e fiscal)
- Divergência de NF bloqueia entrada e pagamento; divergência física cria falta “fantasma”.
- Prática: conferência no ato, tolerâncias definidas (quantidade, preço) e canal rápido com fornecedor para correção.
Controle 6: Estoque “visível” e acurado
- Sem endereçamento e acuracidade, o PCP planeja com base em números errados.
- Prática: inventário cíclico por criticidade e disciplina de movimentação registrada (sem retiradas informais).
Exemplo integrado (mini-caso) para aplicar o fluxo
Cenário: uma linha de montagem consome 2.000 unidades/semana do componente X. O fornecedor entrega em 10 dias úteis. O estoque de segurança é 1 semana. Na segunda-feira, o saldo cai abaixo do ponto de pedido.
- PCP identifica a necessidade no MRP e abre RC para 6.000 unidades com data necessária em 12 dias corridos (considerando recebimento e inspeção).
- Compras checa pedidos em aberto (não há), cota com 3 fornecedores homologados e escolhe o que entrega em 9 dias úteis com frete CIF.
- Compras emite PO com requisito de certificado de conformidade e identificação de lote.
- Follow-up confirma expedição no 7º dia útil e agenda recebimento com almoxarifado.
- Almoxarifado confere volumes e NF; Qualidade libera por certificado (fornecedor qualificado) no mesmo dia.
- Almoxarifado endereça e abastece a linha no dia seguinte, evitando parada.
Onde o controle evitou urgência: ponto de pedido correto + RC completa + confirmação do fornecedor + liberação por certificado para fornecedor qualificado.