Compras e Suprimentos para Produção: Gestão de riscos de fornecimento e planos de contingência

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é gestão de riscos de fornecimento (e por que ela protege o prazo)

Gestão de riscos de fornecimento é o processo de identificar, avaliar e tratar eventos que podem impedir que um material chegue no prazo, na quantidade e na condição necessária para a produção. Na prática, significa transformar “surpresas” (atrasos, falta de matéria-prima, bloqueios de qualidade, ruptura logística) em cenários previstos, com respostas prontas e critérios claros de acionamento.

O foco aqui é prazo: mesmo quando o custo aumenta pontualmente, um plano de contingência bem desenhado evita paradas de linha, reprogramações e perdas de entrega ao cliente.

Mapa de riscos típicos que afetam prazo (com sinais de alerta)

1) Fornecedor único (single source)

Risco: qualquer falha do fornecedor vira falta imediata. Sinais de alerta: dependência acima de 70–80% do volume, ausência de alternativa homologada, fornecedor com capacidade “no limite”, histórico de atrasos.

  • Exemplo: um componente usinado com ferramenta exclusiva do fornecedor; se a máquina quebra, o lead time dobra.

2) Matéria-prima restrita ou com mercado volátil

Risco: indisponibilidade por cotas, sazonalidade, restrições regulatórias ou concentração de produtores. Sinais de alerta: prazos de mercado aumentando, pedidos mínimos subindo, fornecedores pedindo “forecast” com antecedência maior.

  • Exemplo: resina específica com alocação; pedidos fora da janela viram “sem data”.

3) Falhas de qualidade (bloqueio na entrada ou no processo)

Risco: material chega no prazo, mas não pode ser usado; o efeito no prazo é igual (ou pior) que atraso. Sinais de alerta: aumento de devoluções, variação de lote, mudanças de subfornecedor sem aviso, reclamações recorrentes.

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  • Exemplo: lote de rolamentos com ruído fora do padrão; produção bloqueia e precisa de reposição urgente.

4) Logística (transporte, alfândega, rotas, capacidade)

Risco: atrasos por falta de veículo, congestionamento portuário, greves, clima, documentação. Sinais de alerta: transit time instável, transportadora com baixa performance, aumento de avarias, alto índice de “sem atualização” no tracking.

  • Exemplo: item importado parado por divergência de classificação fiscal; prazo real vira imprevisível.

5) Variação cambial (quando aplicável)

Risco: o fornecedor suspende oferta, encurta validade de proposta, exige pré-pagamento ou muda condição; isso pode atrasar emissão/aceite e embarque. Sinais de alerta: volatilidade alta, cláusulas de reajuste frequentes, necessidade de aprovação financeira extra.

  • Exemplo: cotação em moeda forte expira em 24h; atraso interno de aprovação faz perder janela de produção do fornecedor.

6) Mudanças de engenharia (ECO/ECN) e revisões de desenho

Risco: material comprado vira obsoleto, ou o novo item não tem fornecedor pronto; ocorre ruptura durante transição. Sinais de alerta: mudanças frequentes, baixa disciplina de congelamento de revisão, comunicação tardia de substituição.

  • Exemplo: alteração de espessura de chapa; fornecedor atual não tem capacidade de corte na nova especificação e o prazo estoura.

7) Picos de demanda (internos ou do mercado)

Risco: capacidade do fornecedor e logística não acompanham; filas aumentam e prazos alongam. Sinais de alerta: aumento abrupto de consumo, pedidos urgentes recorrentes, fornecedor pedindo replanejamento de entregas.

  • Exemplo: campanha comercial dobra o consumo de embalagem; fornecedor entra em backorder.

Como criar planos de contingência por item crítico (passo a passo)

Planos de contingência funcionam melhor quando são por item (ou família), com gatilhos objetivos. A seguir, um roteiro prático para montar um plano aplicável no dia a dia.

Passo 1 — Selecione os itens que exigem contingência

Comece pelos itens com maior risco de parar a produção ou gerar atraso relevante. Critérios práticos para priorizar:

  • Dependência de fornecedor único ou baixa concorrência.
  • Lead time longo/instável ou logística complexa.
  • Histórico de não conformidade que bloqueia uso.
  • Consumo alto e pouca flexibilidade de substituição.
  • Importados sujeitos a variação cambial e desembaraço.

Passo 2 — Descreva o “modo de falha” e o impacto no prazo

Para cada item, escreva 1–3 cenários de falha em linguagem direta:

  • Falha: fornecedor atrasa 10 dias por falta de matéria-prima.
  • Efeito: ruptura em 6 dias; linha X para por 2 turnos.
  • Impacto no prazo: atraso de entrega ao cliente em 3 dias se não houver alternativa.

Passo 3 — Defina opções de contingência (escolha pelo menos 2)

Use um “cardápio” de respostas. O ideal é combinar alternativas que atuem em diferentes pontos (fonte, especificação, estoque, logística).

  • Fornecedores alternativos: manter 1–2 fontes prontas para cotar/produzir. Defina capacidade, prazo e condição mínima de compra.
  • Especificação equivalente: prever substitutos tecnicamente aceitos (ex.: material equivalente, dimensão alternativa, marca alternativa). Registrar limites e restrições de uso.
  • Estoque de segurança temporário: elevar cobertura por período de risco (ex.: sazonalidade, transição de engenharia, instabilidade logística). Deve ter data de revisão para não virar excesso permanente.
  • Reposição emergencial planejada: rotas e modalidades pré-definidas (aéreo, expresso, coleta dedicada), com custos estimados e tempo de resposta.
  • Critérios de acionamento: gatilhos objetivos para evitar “achismo” e acionamento tardio.

Passo 4 — Especifique critérios de acionamento (gatilhos) e prazos de decisão

Gatilhos devem ser mensuráveis e ligados ao risco. Exemplos práticos:

  • Atraso confirmado: fornecedor informa atraso > 3 dias em item com cobertura < 7 dias.
  • Qualidade: taxa de bloqueio > 2% em 2 lotes consecutivos ou bloqueio de lote crítico.
  • Logística: embarque não realizado até D-2 da data acordada; ausência de tracking por > 48h em rota crítica.
  • Câmbio: variação > X% em Y dias que exige reaprovação; se aprovação não ocorrer em 24h, acionar alternativa local.
  • Engenharia: mudança liberada sem estoque de transição; acionar compra do item novo com prioridade e plano de uso do saldo antigo.

Inclua também um prazo máximo para decisão (ex.: “em até 4 horas após confirmação de atraso, decidir entre alternativa A ou frete expresso”).

Passo 5 — Defina responsáveis, dados necessários e “checklist” de execução

Para cada contingência, liste o que precisa estar pronto:

  • Contato e canal do fornecedor alternativo (e quem aciona).
  • Condição comercial pré-negociada ou faixa de preço aceitável.
  • Documentos e requisitos logísticos (coleta, embalagem, notas, importação quando houver).
  • Critérios mínimos de aceitação para liberar uso (ex.: inspeção reforçada em recebimento).

Passo 6 — Teste o plano (simulação rápida) e revise periodicamente

Um plano não testado costuma falhar no momento crítico. Faça simulações simples:

  • “Se o fornecedor atrasar hoje, em quanto tempo consigo emitir pedido no alternativo?”
  • “O equivalente realmente encaixa no processo sem ajustes?”
  • “O frete emergencial tem janela de coleta e custo aprovado?”

Revise após eventos reais (atraso, bloqueio, pico) e em ciclos definidos (ex.: trimestral para itens críticos).

Modelo prático de plano de contingência por item (estrutura)

CampoExemplo preenchido (ilustrativo)
Item / FamíliaFilme stretch 500mm (embalagem)
Riscos principaisPico de demanda; fornecedor único; logística regional
Cobertura atual8 dias
GatilhosAtraso > 2 dias com cobertura < 6 dias; consumo semanal +30%
Contingência AFornecedor alternativo local (prazo 5 dias; pedido mínimo 20 caixas)
Contingência BEspecificação equivalente: 23 micras em vez de 20 micras (uso restrito a produto Y)
Contingência CFrete expresso dedicado (coleta D+1; custo estimado +18%)
Responsável por acionarCompras (aciona A/C); Engenharia/Qualidade valida B
ChecklistContato alternativo; tabela de preços; instrução de inspeção; transportadora homologada

Registro de riscos (Risk Register) — como montar e usar

O registro de riscos é uma planilha (ou tabela) viva que consolida os riscos por item/fornecedor, com avaliação e ações. Ele ajuda a priorizar energia no que realmente ameaça o prazo.

Escalas simples para probabilidade e impacto

  • Probabilidade (P): 1 (raro) a 5 (frequente).
  • Impacto (I): 1 (baixo) a 5 (parada/atraso crítico).
  • Nível de risco: P x I (ex.: 15+ = alto, 8–14 = médio, 1–7 = baixo; ajuste conforme sua realidade).

Exemplo de Risk Register (preenchimento ilustrativo)

IDItem/ServiçoRiscoCausaPIP x ISinais de alertaAções preventivasPlano de contingênciaCritério de acionamentoDonoStatus
R-01Componente usinado AFornecedor único atrasaCapacidade limitada; máquina gargalo4520OTD caindo; fila > 2 semanasReservar capacidade mensal; revisar plano de produção do fornecedorDesenvolver fornecedor B; frete expresso em atrasoAtraso confirmado > 3 dias e cobertura < 7 diasComprasEm andamento
R-02Resina XRestrição de matéria-primaAlocação do produtor3515Fornecedor pede forecast maior; prazo subindoCompra antecipada em janela; contrato de volumeEspecificação equivalente (Resina Y); estoque temporário +15 diasPrazo prometido > 2x do normalCompras/PCPAtivo
R-03Rolamento BBloqueio de qualidadeVariação de lote; mudança de subfornecedor3412NC em 2 lotes; reclamações internasAuditoria de processo; inspeção reforçada por 3 lotesFornecedor alternativo; lote de segurança para transiçãoBloqueio de lote crítico ou NC > 2% em 2 lotesQualidade/ComprasAtivo
R-04Item importado CAtraso logístico/alfândegaDocumentação; congestionamento4416Sem tracking; embarque não confirmadoChecklist documental; buffer de trânsito; despachante alinhadoModal aéreo; alternativa nacional temporáriaEmbarque não realizado até D-2Logística/ComprasAtivo
R-05Componente DVariação cambial trava compraReaprovação financeira; validade curta de proposta339Moeda volátil; fornecedor reduz validadeFaixa de câmbio pré-aprovada; hedge quando aplicávelFornecedor local alternativo; compra parcial para garantir produçãoProposta expira em < 24h e item é críticoCompras/FinanceiroEm revisão
R-06Conjunto EMudança de engenharia gera rupturaTransição sem estoque; fornecedor do novo item não pronto2510ECO liberada sem plano de fase-in/outPlanejar fase-in/out; congelar revisão por janelaCompra de transição; uso controlado do saldo antigoECO aprovada e cobertura do novo item < 10 diasEngenharia/PCP/ComprasAtivo
R-07Embalagem FPico de demandaCampanha; sazonalidade4312Consumo +30% semana; pedidos urgentesCapacidade reservada; previsão compartilhadaSegundo fornecedor; estoque temporárioConsumo semanal > +20% por 2 semanasPCP/ComprasAtivo

Como operar o Risk Register no dia a dia (rotina simples)

  • Atualização: semanal para itens críticos e mensal para os demais.
  • Reunião curta: 30 minutos para revisar riscos altos (P x I) e checar se ações preventivas estão em dia.
  • Indicadores úteis: quantidade de riscos altos sem contingência definida; tempo médio para acionar contingência; número de eventos reais por categoria (qualidade, logística, capacidade).
  • Regra prática: risco alto sem plano de contingência vira prioridade imediata (definir alternativa, equivalente ou buffer temporário).

Checklist rápido para garantir que o plano é acionável

  • Existe pelo menos 1 alternativa viável (fornecedor, equivalente ou logística) para cada item crítico?
  • Os gatilhos são mensuráveis (dias, %, datas) e têm prazo de decisão?
  • Os contatos, condições e documentos estão prontos para execução em horas (não dias)?
  • O plano considera qualidade (liberação/inspeção) e não apenas compra e transporte?
  • O Risk Register tem dono, status e revisão periódica definida?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao criar um plano de contingência para um item crítico, qual abordagem torna a resposta mais eficaz para proteger o prazo de produção?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Planos mais acionáveis são definidos por item/família, descrevem cenários de falha e combinam alternativas (fonte, equivalente, estoque ou logística), com gatilhos objetivos e prazo de decisão para evitar acionamento tardio.

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