O que é gestão de riscos de fornecimento (e por que ela protege o prazo)
Gestão de riscos de fornecimento é o processo de identificar, avaliar e tratar eventos que podem impedir que um material chegue no prazo, na quantidade e na condição necessária para a produção. Na prática, significa transformar “surpresas” (atrasos, falta de matéria-prima, bloqueios de qualidade, ruptura logística) em cenários previstos, com respostas prontas e critérios claros de acionamento.
O foco aqui é prazo: mesmo quando o custo aumenta pontualmente, um plano de contingência bem desenhado evita paradas de linha, reprogramações e perdas de entrega ao cliente.
Mapa de riscos típicos que afetam prazo (com sinais de alerta)
1) Fornecedor único (single source)
Risco: qualquer falha do fornecedor vira falta imediata. Sinais de alerta: dependência acima de 70–80% do volume, ausência de alternativa homologada, fornecedor com capacidade “no limite”, histórico de atrasos.
- Exemplo: um componente usinado com ferramenta exclusiva do fornecedor; se a máquina quebra, o lead time dobra.
2) Matéria-prima restrita ou com mercado volátil
Risco: indisponibilidade por cotas, sazonalidade, restrições regulatórias ou concentração de produtores. Sinais de alerta: prazos de mercado aumentando, pedidos mínimos subindo, fornecedores pedindo “forecast” com antecedência maior.
- Exemplo: resina específica com alocação; pedidos fora da janela viram “sem data”.
3) Falhas de qualidade (bloqueio na entrada ou no processo)
Risco: material chega no prazo, mas não pode ser usado; o efeito no prazo é igual (ou pior) que atraso. Sinais de alerta: aumento de devoluções, variação de lote, mudanças de subfornecedor sem aviso, reclamações recorrentes.
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- Exemplo: lote de rolamentos com ruído fora do padrão; produção bloqueia e precisa de reposição urgente.
4) Logística (transporte, alfândega, rotas, capacidade)
Risco: atrasos por falta de veículo, congestionamento portuário, greves, clima, documentação. Sinais de alerta: transit time instável, transportadora com baixa performance, aumento de avarias, alto índice de “sem atualização” no tracking.
- Exemplo: item importado parado por divergência de classificação fiscal; prazo real vira imprevisível.
5) Variação cambial (quando aplicável)
Risco: o fornecedor suspende oferta, encurta validade de proposta, exige pré-pagamento ou muda condição; isso pode atrasar emissão/aceite e embarque. Sinais de alerta: volatilidade alta, cláusulas de reajuste frequentes, necessidade de aprovação financeira extra.
- Exemplo: cotação em moeda forte expira em 24h; atraso interno de aprovação faz perder janela de produção do fornecedor.
6) Mudanças de engenharia (ECO/ECN) e revisões de desenho
Risco: material comprado vira obsoleto, ou o novo item não tem fornecedor pronto; ocorre ruptura durante transição. Sinais de alerta: mudanças frequentes, baixa disciplina de congelamento de revisão, comunicação tardia de substituição.
- Exemplo: alteração de espessura de chapa; fornecedor atual não tem capacidade de corte na nova especificação e o prazo estoura.
7) Picos de demanda (internos ou do mercado)
Risco: capacidade do fornecedor e logística não acompanham; filas aumentam e prazos alongam. Sinais de alerta: aumento abrupto de consumo, pedidos urgentes recorrentes, fornecedor pedindo replanejamento de entregas.
- Exemplo: campanha comercial dobra o consumo de embalagem; fornecedor entra em backorder.
Como criar planos de contingência por item crítico (passo a passo)
Planos de contingência funcionam melhor quando são por item (ou família), com gatilhos objetivos. A seguir, um roteiro prático para montar um plano aplicável no dia a dia.
Passo 1 — Selecione os itens que exigem contingência
Comece pelos itens com maior risco de parar a produção ou gerar atraso relevante. Critérios práticos para priorizar:
- Dependência de fornecedor único ou baixa concorrência.
- Lead time longo/instável ou logística complexa.
- Histórico de não conformidade que bloqueia uso.
- Consumo alto e pouca flexibilidade de substituição.
- Importados sujeitos a variação cambial e desembaraço.
Passo 2 — Descreva o “modo de falha” e o impacto no prazo
Para cada item, escreva 1–3 cenários de falha em linguagem direta:
- Falha: fornecedor atrasa 10 dias por falta de matéria-prima.
- Efeito: ruptura em 6 dias; linha X para por 2 turnos.
- Impacto no prazo: atraso de entrega ao cliente em 3 dias se não houver alternativa.
Passo 3 — Defina opções de contingência (escolha pelo menos 2)
Use um “cardápio” de respostas. O ideal é combinar alternativas que atuem em diferentes pontos (fonte, especificação, estoque, logística).
- Fornecedores alternativos: manter 1–2 fontes prontas para cotar/produzir. Defina capacidade, prazo e condição mínima de compra.
- Especificação equivalente: prever substitutos tecnicamente aceitos (ex.: material equivalente, dimensão alternativa, marca alternativa). Registrar limites e restrições de uso.
- Estoque de segurança temporário: elevar cobertura por período de risco (ex.: sazonalidade, transição de engenharia, instabilidade logística). Deve ter data de revisão para não virar excesso permanente.
- Reposição emergencial planejada: rotas e modalidades pré-definidas (aéreo, expresso, coleta dedicada), com custos estimados e tempo de resposta.
- Critérios de acionamento: gatilhos objetivos para evitar “achismo” e acionamento tardio.
Passo 4 — Especifique critérios de acionamento (gatilhos) e prazos de decisão
Gatilhos devem ser mensuráveis e ligados ao risco. Exemplos práticos:
- Atraso confirmado: fornecedor informa atraso > 3 dias em item com cobertura < 7 dias.
- Qualidade: taxa de bloqueio > 2% em 2 lotes consecutivos ou bloqueio de lote crítico.
- Logística: embarque não realizado até D-2 da data acordada; ausência de tracking por > 48h em rota crítica.
- Câmbio: variação > X% em Y dias que exige reaprovação; se aprovação não ocorrer em 24h, acionar alternativa local.
- Engenharia: mudança liberada sem estoque de transição; acionar compra do item novo com prioridade e plano de uso do saldo antigo.
Inclua também um prazo máximo para decisão (ex.: “em até 4 horas após confirmação de atraso, decidir entre alternativa A ou frete expresso”).
Passo 5 — Defina responsáveis, dados necessários e “checklist” de execução
Para cada contingência, liste o que precisa estar pronto:
- Contato e canal do fornecedor alternativo (e quem aciona).
- Condição comercial pré-negociada ou faixa de preço aceitável.
- Documentos e requisitos logísticos (coleta, embalagem, notas, importação quando houver).
- Critérios mínimos de aceitação para liberar uso (ex.: inspeção reforçada em recebimento).
Passo 6 — Teste o plano (simulação rápida) e revise periodicamente
Um plano não testado costuma falhar no momento crítico. Faça simulações simples:
- “Se o fornecedor atrasar hoje, em quanto tempo consigo emitir pedido no alternativo?”
- “O equivalente realmente encaixa no processo sem ajustes?”
- “O frete emergencial tem janela de coleta e custo aprovado?”
Revise após eventos reais (atraso, bloqueio, pico) e em ciclos definidos (ex.: trimestral para itens críticos).
Modelo prático de plano de contingência por item (estrutura)
| Campo | Exemplo preenchido (ilustrativo) |
|---|---|
| Item / Família | Filme stretch 500mm (embalagem) |
| Riscos principais | Pico de demanda; fornecedor único; logística regional |
| Cobertura atual | 8 dias |
| Gatilhos | Atraso > 2 dias com cobertura < 6 dias; consumo semanal +30% |
| Contingência A | Fornecedor alternativo local (prazo 5 dias; pedido mínimo 20 caixas) |
| Contingência B | Especificação equivalente: 23 micras em vez de 20 micras (uso restrito a produto Y) |
| Contingência C | Frete expresso dedicado (coleta D+1; custo estimado +18%) |
| Responsável por acionar | Compras (aciona A/C); Engenharia/Qualidade valida B |
| Checklist | Contato alternativo; tabela de preços; instrução de inspeção; transportadora homologada |
Registro de riscos (Risk Register) — como montar e usar
O registro de riscos é uma planilha (ou tabela) viva que consolida os riscos por item/fornecedor, com avaliação e ações. Ele ajuda a priorizar energia no que realmente ameaça o prazo.
Escalas simples para probabilidade e impacto
- Probabilidade (P): 1 (raro) a 5 (frequente).
- Impacto (I): 1 (baixo) a 5 (parada/atraso crítico).
- Nível de risco:
P x I(ex.: 15+ = alto, 8–14 = médio, 1–7 = baixo; ajuste conforme sua realidade).
Exemplo de Risk Register (preenchimento ilustrativo)
| ID | Item/Serviço | Risco | Causa | P | I | P x I | Sinais de alerta | Ações preventivas | Plano de contingência | Critério de acionamento | Dono | Status |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| R-01 | Componente usinado A | Fornecedor único atrasa | Capacidade limitada; máquina gargalo | 4 | 5 | 20 | OTD caindo; fila > 2 semanas | Reservar capacidade mensal; revisar plano de produção do fornecedor | Desenvolver fornecedor B; frete expresso em atraso | Atraso confirmado > 3 dias e cobertura < 7 dias | Compras | Em andamento |
| R-02 | Resina X | Restrição de matéria-prima | Alocação do produtor | 3 | 5 | 15 | Fornecedor pede forecast maior; prazo subindo | Compra antecipada em janela; contrato de volume | Especificação equivalente (Resina Y); estoque temporário +15 dias | Prazo prometido > 2x do normal | Compras/PCP | Ativo |
| R-03 | Rolamento B | Bloqueio de qualidade | Variação de lote; mudança de subfornecedor | 3 | 4 | 12 | NC em 2 lotes; reclamações internas | Auditoria de processo; inspeção reforçada por 3 lotes | Fornecedor alternativo; lote de segurança para transição | Bloqueio de lote crítico ou NC > 2% em 2 lotes | Qualidade/Compras | Ativo |
| R-04 | Item importado C | Atraso logístico/alfândega | Documentação; congestionamento | 4 | 4 | 16 | Sem tracking; embarque não confirmado | Checklist documental; buffer de trânsito; despachante alinhado | Modal aéreo; alternativa nacional temporária | Embarque não realizado até D-2 | Logística/Compras | Ativo |
| R-05 | Componente D | Variação cambial trava compra | Reaprovação financeira; validade curta de proposta | 3 | 3 | 9 | Moeda volátil; fornecedor reduz validade | Faixa de câmbio pré-aprovada; hedge quando aplicável | Fornecedor local alternativo; compra parcial para garantir produção | Proposta expira em < 24h e item é crítico | Compras/Financeiro | Em revisão |
| R-06 | Conjunto E | Mudança de engenharia gera ruptura | Transição sem estoque; fornecedor do novo item não pronto | 2 | 5 | 10 | ECO liberada sem plano de fase-in/out | Planejar fase-in/out; congelar revisão por janela | Compra de transição; uso controlado do saldo antigo | ECO aprovada e cobertura do novo item < 10 dias | Engenharia/PCP/Compras | Ativo |
| R-07 | Embalagem F | Pico de demanda | Campanha; sazonalidade | 4 | 3 | 12 | Consumo +30% semana; pedidos urgentes | Capacidade reservada; previsão compartilhada | Segundo fornecedor; estoque temporário | Consumo semanal > +20% por 2 semanas | PCP/Compras | Ativo |
Como operar o Risk Register no dia a dia (rotina simples)
- Atualização: semanal para itens críticos e mensal para os demais.
- Reunião curta: 30 minutos para revisar riscos altos (P x I) e checar se ações preventivas estão em dia.
- Indicadores úteis: quantidade de riscos altos sem contingência definida; tempo médio para acionar contingência; número de eventos reais por categoria (qualidade, logística, capacidade).
- Regra prática: risco alto sem plano de contingência vira prioridade imediata (definir alternativa, equivalente ou buffer temporário).
Checklist rápido para garantir que o plano é acionável
- Existe pelo menos 1 alternativa viável (fornecedor, equivalente ou logística) para cada item crítico?
- Os gatilhos são mensuráveis (dias, %, datas) e têm prazo de decisão?
- Os contatos, condições e documentos estão prontos para execução em horas (não dias)?
- O plano considera qualidade (liberação/inspeção) e não apenas compra e transporte?
- O Risk Register tem dono, status e revisão periódica definida?