Por que recebimento, inspeção e armazenagem determinam o atendimento à produção
Mesmo quando o fornecedor entrega no prazo, a produção só é atendida quando o material está liberado (fiscal e qualitativamente) e disponível (endereçado e localizável) no almoxarifado. O tempo entre a chegada do caminhão e a liberação para consumo é o tempo de liberação e costuma ser uma fonte silenciosa de atraso.
Na prática, três etapas impactam diretamente o atendimento à fábrica:
- Recebimento: descarregamento, conferência e registro. Se houver fila, divergência ou falta de documentos, o material “existe”, mas não entra no estoque.
- Inspeção: quando aplicável, define se o item pode ser usado. Inspeção lenta ou sem critério aumenta a quarentena e cria ruptura artificial.
- Armazenagem: endereçamento e organização determinam se o item será encontrado e separado rapidamente, com acuracidade.
Um almoxarifado alinhado à produção trabalha com dois objetivos simultâneos: reduzir o tempo de liberação e manter acuracidade para evitar rupturas por erro de inventário.
Fluxo recomendado: do portão ao estoque disponível
1) Agendamento de recebimento (reduz filas e urgências)
O agendamento organiza a capacidade de docas, equipe e inspeção. Sem agenda, o recebimento vira “pico e vale”: em picos, a conferência é apressada (erro); em vales, a equipe fica ociosa (custo).
Passo a passo prático:
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- Defina janelas de recebimento por tipo de material (ex.: matéria-prima, embalagem, MRO) e por necessidade de inspeção.
- Exija do fornecedor aviso prévio com: número do pedido, volumes, peso, lote/validade (quando houver), NF/CT-e e horário estimado.
- Bloqueie agenda para itens críticos em dias/horários com inspeção disponível.
- Crie regra de exceção: entrega fora da janela só entra com autorização (para evitar “furar fila” e desorganizar o dia).
2) Pré-checagem documental (evita material parado por burocracia)
Uma causa comum de atraso é a divergência entre pedido, nota fiscal e entrega física. A pré-checagem reduz o tempo de caminhão parado e evita retrabalho.
- Conferir: CNPJ, CFOP, unidade de medida, quantidade, descrição, número do pedido, impostos aplicáveis, certificados exigidos.
- Quando aplicável: anexos como laudo, certificado de conformidade, ficha técnica, MSDS.
3) Conferência física com código de barras (acelera e reduz erro)
Conferência manual (papel/planilha) aumenta erro e tempo. A leitura por código de barras (ou QR) permite registrar entrada, lotes e endereços com rastreabilidade.
Passo a passo prático:
- Padronize etiqueta mínima por volume: SKU, descrição curta, unidade, quantidade, lote e validade (quando aplicável).
- No recebimento, faça leitura do código do item e do volume; registre divergências no ato (sobra, falta, avaria).
- Se o fornecedor não etiqueta, crie estação de etiquetagem rápida na doca (impressora térmica) para não “empurrar” volumes sem identificação para dentro do estoque.
- Integre a leitura ao ERP/WMS para gerar automaticamente: entrada, status (quarentena/liberado) e sugestão de endereço.
4) Inspeção por amostragem (equilibra risco e velocidade)
Inspecionar 100% de tudo costuma ser inviável e cria gargalo. A amostragem reduz tempo mantendo controle, desde que o plano seja coerente com o risco do item.
Como aplicar:
- Defina classes de inspeção (ex.: crítica, normal, reduzida) por família/fornecedor/criticidade.
- Use amostragem maior para: itens novos, fornecedor com histórico ruim, itens de alto impacto na qualidade.
- Use amostragem reduzida para: fornecedor estável, histórico bom, itens de baixo risco.
- Registre defeitos por tipo e lote para retroalimentar o plano (aumentar ou reduzir rigor conforme desempenho).
Exemplo prático: um insumo com histórico de 2% de não conformidade e alto impacto no processo pode exigir amostragem maior e liberação condicionada; já uma embalagem secundária com histórico estável pode ter inspeção visual reduzida para liberar rápido.
5) Quarentena e status de estoque (evita uso indevido)
Quarentena é o mecanismo para impedir consumo antes da liberação. O problema não é ter quarentena; é ter quarentena sem SLA e sem visibilidade.
Boas práticas:
- Crie status claros no sistema:
Recebido,Em inspeção,Quarentena,Liberado,Reprovado,Devolução. - Defina tempo-alvo por categoria (SLA), por exemplo: 4h para itens sem inspeção; 24h para inspeção normal; 48h para inspeção crítica.
- Separe fisicamente a área de quarentena com identificação visual e controle de acesso.
- Não enderece no “estoque bom” antes de liberar; se precisar endereçar por espaço, use endereços dedicados de quarentena.
6) Endereçamento (localização é parte do prazo)
Sem endereçamento, o tempo de separação aumenta e a acuracidade cai. Endereçar é transformar volumes em estoque “encontrável”.
Passo a passo prático:
- Defina padrão de endereços (rua-coluna-nível-posição) e sinalização física.
- Crie regras de put-away: itens de alto giro próximos à expedição interna; itens pesados em níveis baixos; itens perigosos em áreas dedicadas.
- Use sugestão automática de endereço no WMS/ERP e confirme com leitura de código de barras do endereço.
- Evite “endereços genéricos” (ex.: “almoxarifado”) que viram depósito sem controle.
7) FIFO/FEFO (quando aplicável) para evitar perdas e paradas
Para itens com validade, o correto é FEFO (First Expired, First Out): consumir primeiro o que vence primeiro. Para itens sem validade, aplica-se FIFO (First In, First Out) para reduzir envelhecimento e obsolescência.
Como implementar:
- Registre lote e validade no recebimento (via leitura/entrada assistida).
- Configure a regra de separação no WMS/ERP: FEFO para itens com validade; FIFO para demais.
- Faça auditorias rápidas em áreas críticas (ex.: semanal) para checar se o físico segue a regra.
Redução do tempo de liberação: desenho de um “fast lane”
Nem todo material precisa passar pelo mesmo caminho. Um fast lane reduz o tempo de liberação para itens que podem entrar direto no estoque liberado.
Critérios típicos para fast lane:
- Fornecedor com desempenho de qualidade consistente.
- Item de baixa criticidade de qualidade ou com inspeção simplificada.
- Documentação completa e padronizada.
Passo a passo prático:
- Classifique SKUs elegíveis e publique a regra para recebimento e qualidade.
- Ao receber, faça conferência por código de barras + checagem documental.
- Libere automaticamente (ou com inspeção visual rápida) e enderece imediatamente.
- Monitore taxa de falhas do fast lane; se subir, rever fornecedor/critério.
Parâmetros de estoque conectados ao lead time real e à variabilidade
Parâmetros como mínimo, máximo, ponto de pedido e estoque de segurança só funcionam quando refletem o lead time real (incluindo liberação interna) e a variabilidade (atrasos, consumo oscilante, inspeção).
Componentes do lead time que afetam o estoque
Para parametrizar corretamente, considere o lead time total até o material estar disponível:
- Transporte (chegada física).
- Tempo de recebimento (fila, descarga, conferência).
- Tempo de inspeção/quarentena (quando aplicável).
- Tempo de endereçamento (put-away).
Se o seu lead time “oficial” ignora recebimento/inspeção, o ponto de pedido fica subdimensionado e a ruptura aparece como “atraso do fornecedor”, quando na verdade é atraso de liberação.
Como calcular ponto de pedido com base no consumo e no lead time
Uma forma prática de conectar parâmetros ao mundo real é usar:
Ponto de Pedido (PP) = Demanda média durante o lead time + Estoque de Segurança (ES)
Demanda durante LT = Consumo médio diário × Lead time total (dias)
Exemplo:
- Consumo médio: 100 unidades/dia
- Lead time total real: 8 dias (inclui 2 dias de inspeção e endereçamento)
- Demanda durante LT: 100 × 8 = 800
- Estoque de segurança: 300
- PP = 800 + 300 = 1.100 unidades
Estoque de segurança: quando aumentar e quando reduzir
O estoque de segurança existe para absorver variabilidade. Ajuste-o conforme os principais “ruídos”:
- Variabilidade de lead time: atrasos de transporte, fila de recebimento, inspeção sem SLA.
- Variabilidade de consumo: mudanças de mix, refugo, retrabalho, picos de produção.
- Risco de inventário: baixa acuracidade, perdas, erros de unidade de medida.
Regra prática: antes de aumentar estoque de segurança, ataque as causas internas que inflacionam o lead time (quarentena longa, endereçamento lento, conferência fraca). Caso contrário, o estoque vira “muleta” para processo ruim.
Mínimo e máximo: controle simples para evitar excesso e falta
- Estoque mínimo: normalmente alinhado ao ponto de pedido (ou ligeiramente acima, dependendo da política).
- Estoque máximo: limita capital parado e evita vencimento/obsolescência; deve considerar lote de compra, espaço e giro.
Exemplo de política: se o lote de compra é 2.000 e o PP é 1.100, o máximo pode ser definido como PP + lote (3.100), ajustado por capacidade e validade.
Indicadores de acuracidade e ações para evitar rupturas por erro de inventário
Indicadores essenciais
| Indicador | Como medir | Por que importa para a produção |
|---|---|---|
| Acuracidade de estoque | (itens/endereços corretos ÷ itens/endereços contados) × 100 | Evita “estoque fantasma” (sistema diz que tem, mas não tem) e “estoque oculto” (tem, mas não aparece) |
| Divergência no recebimento | % de notas com diferença de quantidade, item, lote, avaria | Reduz retrabalho e bloqueios; melhora confiabilidade do saldo |
| Tempo de liberação | Horas/dias do chegou ao liberado | Impacta diretamente o atendimento ao plano de produção |
| Backlog de inspeção | Quantidade/valor em quarentena aguardando inspeção | Mostra gargalo de qualidade e risco de ruptura |
| Acuracidade de separação | % de requisições atendidas sem erro (item/quantidade/lote) | Evita paradas por material errado na linha |
Principais causas de ruptura por erro de inventário
- Entrada sem conferência adequada (quantidade errada registrada).
- Movimentação sem baixa (transferências “no braço”).
- Endereçamento incorreto ou inexistente.
- Unidade de medida divergente (caixa vs unidade, kg vs peça).
- Consumo na produção sem apontamento (retirada informal).
- Perdas/avarias não registradas.
Ações práticas para elevar acuracidade
1) Inventário cíclico por criticidade
- Conte mais vezes o que mais impacta a produção (itens críticos e de alto giro).
- Conte por endereço e por item, com tolerâncias definidas (ex.: 0 para itens críticos).
- Ao encontrar divergência, faça análise de causa (não apenas ajuste).
2) Disciplina de movimentação com leitura
- Qualquer transferência exige leitura do item e do endereço origem/destino.
- Bloqueie movimentações sem transação no sistema (processo e auditoria).
3) Dupla checagem em pontos de risco
- Recebimento de itens críticos: conferência de quantidade + lote/validade com segundo conferente ou validação no sistema.
- Separação para produção: validação por código de barras para evitar troca de item.
4) Tratamento de avarias e perdas
- Crie fluxo simples: identificar, segregar, registrar e decidir (reinspeção, sucata, devolução).
- Não deixe avaria “misturada” no estoque liberado.
5) Auditoria de FEFO/FIFO
- Verifique se o sistema está sugerindo o lote correto e se o físico permite separar na ordem.
- Corrija layout quando a operação “força” a quebrar a regra (ex.: lotes antigos inacessíveis).
Rotina operacional alinhada à produção (checklists rápidos)
Checklist diário do recebimento
- Agenda do dia confirmada (docas, equipe, inspeção).
- Prioridade para itens com impacto imediato na produção.
- Conferência por leitura (item, quantidade, lote/validade).
- Status correto aplicado (quarentena/liberado).
- Endereçamento executado no mesmo turno sempre que possível.
Checklist diário do almoxarifado
- Rupturas potenciais por divergência: itens com saldo baixo e alta variabilidade.
- Itens em quarentena com SLA estourado (acionar qualidade/compras conforme regra interna).
- Separações para produção com validação (evitar erro de item/lote).
- Inventário cíclico do dia executado e divergências tratadas.