Compras e Suprimentos para Produção: Estoques, almoxarifado e recebimento alinhados à produção

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que recebimento, inspeção e armazenagem determinam o atendimento à produção

Mesmo quando o fornecedor entrega no prazo, a produção só é atendida quando o material está liberado (fiscal e qualitativamente) e disponível (endereçado e localizável) no almoxarifado. O tempo entre a chegada do caminhão e a liberação para consumo é o tempo de liberação e costuma ser uma fonte silenciosa de atraso.

Na prática, três etapas impactam diretamente o atendimento à fábrica:

  • Recebimento: descarregamento, conferência e registro. Se houver fila, divergência ou falta de documentos, o material “existe”, mas não entra no estoque.
  • Inspeção: quando aplicável, define se o item pode ser usado. Inspeção lenta ou sem critério aumenta a quarentena e cria ruptura artificial.
  • Armazenagem: endereçamento e organização determinam se o item será encontrado e separado rapidamente, com acuracidade.

Um almoxarifado alinhado à produção trabalha com dois objetivos simultâneos: reduzir o tempo de liberação e manter acuracidade para evitar rupturas por erro de inventário.

Fluxo recomendado: do portão ao estoque disponível

1) Agendamento de recebimento (reduz filas e urgências)

O agendamento organiza a capacidade de docas, equipe e inspeção. Sem agenda, o recebimento vira “pico e vale”: em picos, a conferência é apressada (erro); em vales, a equipe fica ociosa (custo).

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  • Defina janelas de recebimento por tipo de material (ex.: matéria-prima, embalagem, MRO) e por necessidade de inspeção.
  • Exija do fornecedor aviso prévio com: número do pedido, volumes, peso, lote/validade (quando houver), NF/CT-e e horário estimado.
  • Bloqueie agenda para itens críticos em dias/horários com inspeção disponível.
  • Crie regra de exceção: entrega fora da janela só entra com autorização (para evitar “furar fila” e desorganizar o dia).

2) Pré-checagem documental (evita material parado por burocracia)

Uma causa comum de atraso é a divergência entre pedido, nota fiscal e entrega física. A pré-checagem reduz o tempo de caminhão parado e evita retrabalho.

  • Conferir: CNPJ, CFOP, unidade de medida, quantidade, descrição, número do pedido, impostos aplicáveis, certificados exigidos.
  • Quando aplicável: anexos como laudo, certificado de conformidade, ficha técnica, MSDS.

3) Conferência física com código de barras (acelera e reduz erro)

Conferência manual (papel/planilha) aumenta erro e tempo. A leitura por código de barras (ou QR) permite registrar entrada, lotes e endereços com rastreabilidade.

Passo a passo prático:

  • Padronize etiqueta mínima por volume: SKU, descrição curta, unidade, quantidade, lote e validade (quando aplicável).
  • No recebimento, faça leitura do código do item e do volume; registre divergências no ato (sobra, falta, avaria).
  • Se o fornecedor não etiqueta, crie estação de etiquetagem rápida na doca (impressora térmica) para não “empurrar” volumes sem identificação para dentro do estoque.
  • Integre a leitura ao ERP/WMS para gerar automaticamente: entrada, status (quarentena/liberado) e sugestão de endereço.

4) Inspeção por amostragem (equilibra risco e velocidade)

Inspecionar 100% de tudo costuma ser inviável e cria gargalo. A amostragem reduz tempo mantendo controle, desde que o plano seja coerente com o risco do item.

Como aplicar:

  • Defina classes de inspeção (ex.: crítica, normal, reduzida) por família/fornecedor/criticidade.
  • Use amostragem maior para: itens novos, fornecedor com histórico ruim, itens de alto impacto na qualidade.
  • Use amostragem reduzida para: fornecedor estável, histórico bom, itens de baixo risco.
  • Registre defeitos por tipo e lote para retroalimentar o plano (aumentar ou reduzir rigor conforme desempenho).

Exemplo prático: um insumo com histórico de 2% de não conformidade e alto impacto no processo pode exigir amostragem maior e liberação condicionada; já uma embalagem secundária com histórico estável pode ter inspeção visual reduzida para liberar rápido.

5) Quarentena e status de estoque (evita uso indevido)

Quarentena é o mecanismo para impedir consumo antes da liberação. O problema não é ter quarentena; é ter quarentena sem SLA e sem visibilidade.

Boas práticas:

  • Crie status claros no sistema: Recebido, Em inspeção, Quarentena, Liberado, Reprovado, Devolução.
  • Defina tempo-alvo por categoria (SLA), por exemplo: 4h para itens sem inspeção; 24h para inspeção normal; 48h para inspeção crítica.
  • Separe fisicamente a área de quarentena com identificação visual e controle de acesso.
  • Não enderece no “estoque bom” antes de liberar; se precisar endereçar por espaço, use endereços dedicados de quarentena.

6) Endereçamento (localização é parte do prazo)

Sem endereçamento, o tempo de separação aumenta e a acuracidade cai. Endereçar é transformar volumes em estoque “encontrável”.

Passo a passo prático:

  • Defina padrão de endereços (rua-coluna-nível-posição) e sinalização física.
  • Crie regras de put-away: itens de alto giro próximos à expedição interna; itens pesados em níveis baixos; itens perigosos em áreas dedicadas.
  • Use sugestão automática de endereço no WMS/ERP e confirme com leitura de código de barras do endereço.
  • Evite “endereços genéricos” (ex.: “almoxarifado”) que viram depósito sem controle.

7) FIFO/FEFO (quando aplicável) para evitar perdas e paradas

Para itens com validade, o correto é FEFO (First Expired, First Out): consumir primeiro o que vence primeiro. Para itens sem validade, aplica-se FIFO (First In, First Out) para reduzir envelhecimento e obsolescência.

Como implementar:

  • Registre lote e validade no recebimento (via leitura/entrada assistida).
  • Configure a regra de separação no WMS/ERP: FEFO para itens com validade; FIFO para demais.
  • Faça auditorias rápidas em áreas críticas (ex.: semanal) para checar se o físico segue a regra.

Redução do tempo de liberação: desenho de um “fast lane”

Nem todo material precisa passar pelo mesmo caminho. Um fast lane reduz o tempo de liberação para itens que podem entrar direto no estoque liberado.

Critérios típicos para fast lane:

  • Fornecedor com desempenho de qualidade consistente.
  • Item de baixa criticidade de qualidade ou com inspeção simplificada.
  • Documentação completa e padronizada.

Passo a passo prático:

  • Classifique SKUs elegíveis e publique a regra para recebimento e qualidade.
  • Ao receber, faça conferência por código de barras + checagem documental.
  • Libere automaticamente (ou com inspeção visual rápida) e enderece imediatamente.
  • Monitore taxa de falhas do fast lane; se subir, rever fornecedor/critério.

Parâmetros de estoque conectados ao lead time real e à variabilidade

Parâmetros como mínimo, máximo, ponto de pedido e estoque de segurança só funcionam quando refletem o lead time real (incluindo liberação interna) e a variabilidade (atrasos, consumo oscilante, inspeção).

Componentes do lead time que afetam o estoque

Para parametrizar corretamente, considere o lead time total até o material estar disponível:

  • Transporte (chegada física).
  • Tempo de recebimento (fila, descarga, conferência).
  • Tempo de inspeção/quarentena (quando aplicável).
  • Tempo de endereçamento (put-away).

Se o seu lead time “oficial” ignora recebimento/inspeção, o ponto de pedido fica subdimensionado e a ruptura aparece como “atraso do fornecedor”, quando na verdade é atraso de liberação.

Como calcular ponto de pedido com base no consumo e no lead time

Uma forma prática de conectar parâmetros ao mundo real é usar:

Ponto de Pedido (PP) = Demanda média durante o lead time + Estoque de Segurança (ES)

Demanda durante LT = Consumo médio diário × Lead time total (dias)

Exemplo:

  • Consumo médio: 100 unidades/dia
  • Lead time total real: 8 dias (inclui 2 dias de inspeção e endereçamento)
  • Demanda durante LT: 100 × 8 = 800
  • Estoque de segurança: 300
  • PP = 800 + 300 = 1.100 unidades

Estoque de segurança: quando aumentar e quando reduzir

O estoque de segurança existe para absorver variabilidade. Ajuste-o conforme os principais “ruídos”:

  • Variabilidade de lead time: atrasos de transporte, fila de recebimento, inspeção sem SLA.
  • Variabilidade de consumo: mudanças de mix, refugo, retrabalho, picos de produção.
  • Risco de inventário: baixa acuracidade, perdas, erros de unidade de medida.

Regra prática: antes de aumentar estoque de segurança, ataque as causas internas que inflacionam o lead time (quarentena longa, endereçamento lento, conferência fraca). Caso contrário, o estoque vira “muleta” para processo ruim.

Mínimo e máximo: controle simples para evitar excesso e falta

  • Estoque mínimo: normalmente alinhado ao ponto de pedido (ou ligeiramente acima, dependendo da política).
  • Estoque máximo: limita capital parado e evita vencimento/obsolescência; deve considerar lote de compra, espaço e giro.

Exemplo de política: se o lote de compra é 2.000 e o PP é 1.100, o máximo pode ser definido como PP + lote (3.100), ajustado por capacidade e validade.

Indicadores de acuracidade e ações para evitar rupturas por erro de inventário

Indicadores essenciais

IndicadorComo medirPor que importa para a produção
Acuracidade de estoque(itens/endereços corretos ÷ itens/endereços contados) × 100Evita “estoque fantasma” (sistema diz que tem, mas não tem) e “estoque oculto” (tem, mas não aparece)
Divergência no recebimento% de notas com diferença de quantidade, item, lote, avariaReduz retrabalho e bloqueios; melhora confiabilidade do saldo
Tempo de liberaçãoHoras/dias do chegou ao liberadoImpacta diretamente o atendimento ao plano de produção
Backlog de inspeçãoQuantidade/valor em quarentena aguardando inspeçãoMostra gargalo de qualidade e risco de ruptura
Acuracidade de separação% de requisições atendidas sem erro (item/quantidade/lote)Evita paradas por material errado na linha

Principais causas de ruptura por erro de inventário

  • Entrada sem conferência adequada (quantidade errada registrada).
  • Movimentação sem baixa (transferências “no braço”).
  • Endereçamento incorreto ou inexistente.
  • Unidade de medida divergente (caixa vs unidade, kg vs peça).
  • Consumo na produção sem apontamento (retirada informal).
  • Perdas/avarias não registradas.

Ações práticas para elevar acuracidade

1) Inventário cíclico por criticidade

  • Conte mais vezes o que mais impacta a produção (itens críticos e de alto giro).
  • Conte por endereço e por item, com tolerâncias definidas (ex.: 0 para itens críticos).
  • Ao encontrar divergência, faça análise de causa (não apenas ajuste).

2) Disciplina de movimentação com leitura

  • Qualquer transferência exige leitura do item e do endereço origem/destino.
  • Bloqueie movimentações sem transação no sistema (processo e auditoria).

3) Dupla checagem em pontos de risco

  • Recebimento de itens críticos: conferência de quantidade + lote/validade com segundo conferente ou validação no sistema.
  • Separação para produção: validação por código de barras para evitar troca de item.

4) Tratamento de avarias e perdas

  • Crie fluxo simples: identificar, segregar, registrar e decidir (reinspeção, sucata, devolução).
  • Não deixe avaria “misturada” no estoque liberado.

5) Auditoria de FEFO/FIFO

  • Verifique se o sistema está sugerindo o lote correto e se o físico permite separar na ordem.
  • Corrija layout quando a operação “força” a quebrar a regra (ex.: lotes antigos inacessíveis).

Rotina operacional alinhada à produção (checklists rápidos)

Checklist diário do recebimento

  • Agenda do dia confirmada (docas, equipe, inspeção).
  • Prioridade para itens com impacto imediato na produção.
  • Conferência por leitura (item, quantidade, lote/validade).
  • Status correto aplicado (quarentena/liberado).
  • Endereçamento executado no mesmo turno sempre que possível.

Checklist diário do almoxarifado

  • Rupturas potenciais por divergência: itens com saldo baixo e alta variabilidade.
  • Itens em quarentena com SLA estourado (acionar qualidade/compras conforme regra interna).
  • Separações para produção com validação (evitar erro de item/lote).
  • Inventário cíclico do dia executado e divergências tratadas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um almoxarifado alinhado à produção, qual é a condição para considerar que um material realmente atende a fábrica após a entrega do fornecedor?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A produção só é atendida quando o item está liberado (fiscal e qualitativamente) e disponível no almoxarifado (endereçado e localizável). Atrasos entre chegada e liberação aumentam o tempo de liberação.

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