O que é uma RFQ orientada a prazo (e por que ela evita atrasos)
RFQ (Request for Quotation) é a solicitação formal de cotação enviada a fornecedores para obter propostas comparáveis. Quando o objetivo é garantir material no prazo, a RFQ precisa transformar “preciso rápido” em requisitos objetivos e verificáveis: datas, condições de entrega, capacidade, riscos e consequências em caso de atraso. Uma RFQ bem estruturada reduz retrabalho (rodadas de perguntas), evita propostas incompletas e permite comparar fornecedores de forma justa (equalização técnica/comercial).
Como estruturar uma RFQ com requisitos claros (modelo prático)
1) Identificação e escopo do fornecimento
- Item/serviço: descrição objetiva (sem reexplicar especificação técnica já definida em documentos anteriores).
- Quantidade: total e, se aplicável, por lote/entrega.
- Local de entrega: endereço completo, horário de recebimento, restrições (doca, agendamento, normas de segurança).
- Documentos anexos: desenho, ficha técnica, critérios de inspeção, lista de embalagem exigida, etc.
2) Requisito de prazo (o coração da RFQ)
Defina o prazo em termos que possam ser auditados. Evite “entrega urgente” e prefira datas e marcos.
- Data requerida (RDD): data limite de chegada no recebimento.
- Data de disponibilidade para coleta (se aplicável): quando o material estará pronto.
- Prazo de fabricação/expedição: em dias corridos/úteis (especificar).
- Janela de entrega: por exemplo, “entregar entre 08:00 e 16:00, com agendamento prévio”.
- Entregas parciais: permitido? Em quais quantidades mínimas? Como será faturado?
Exemplo de texto de RFQ (prazo):
Prazo requerido: entrega total até 15/03/2026 (RDD) no endereço X. Informar: (a) lead time em dias corridos a partir do pedido, (b) data mais cedo possível de entrega, (c) capacidade de antecipação com custo adicional (se houver), (d) possibilidade de entrega parcial: SIM, mínimo 30% até 05/03/2026 e saldo até 15/03/2026.3) Incoterms/condição de entrega e responsabilidade logística
Para comparar propostas, todos devem cotar na mesma base logística.
- Incoterm (quando aplicável): EXW, FCA, DAP, DDP etc.
- Modal e frete: incluso ou destacado; transportadora indicada ou livre.
- Seguro: quem contrata e qual cobertura.
- Prazo contado a partir de: pedido, confirmação, pagamento, aprovação de desenho, coleta etc.
Dica: se o risco é prazo, prefira base que dê visibilidade e controle (ex.: DAP com SLA de entrega) e exija evidências de capacidade logística (frequência de coleta, rotas, lead time real).
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4) Condições de pagamento e impacto no prazo
Pagamento pode ser gatilho de produção. Se isso não estiver claro, o fornecedor pode “ganhar” no prazo prometido e depois alongar por depender de adiantamento.
- Condição: 28/35/45 dias, antecipado, parcelado, contra entrega, etc.
- Moeda: BRL, USD, EUR.
- Impostos: informar regime esperado (ex.: ICMS, IPI, ISS) e solicitar detalhamento.
- Marco de início do prazo: “lead time conta após confirmação do pedido + recebimento do sinal”, se aplicável.
5) Validade da proposta e congelamento de condições
- Validade mínima: ex.: 15 ou 30 dias.
- Reajuste: se houver, qual índice/regra.
- Prazo garantido: exigir que prazo ofertado esteja dentro da validade (evita “prazo só vale hoje”).
6) Embalagem, identificação e requisitos de recebimento
Embalagem inadequada pode gerar avaria, devolução e atraso. Trate como requisito de prazo (evitar reentrega).
- Tipo de embalagem: caixa, pallet, proteção anticorrosiva, dessecante, etc.
- Identificação: etiqueta com código, lote, quantidade, PO, data.
- Documentos: NF, packing list, certificados (quando aplicável).
- Condições de armazenagem/transporte: temperatura, umidade, empilhamento.
7) Lote mínimo (MOQ), múltiplos e restrições de capacidade
- MOQ: mínimo por pedido e por entrega.
- Múltiplos: ex.: vender apenas em caixas de 50.
- Capacidade: volume máximo por semana/mês; gargalos conhecidos.
- Plano de atendimento: se houver pico de demanda, como o fornecedor atende?
8) Garantia, qualidade e critérios de aceitação
Sem repetir especificações técnicas, a RFQ deve amarrar responsabilidade e prazos de correção.
- Garantia: prazo e cobertura.
- Tratativa de não conformidade: prazo para resposta (ex.: 48h) e para reposição (ex.: 5 dias úteis).
- Custos: frete de devolução e reenvio por conta de quem.
9) Penalidades e SLAs de entrega (sem inviabilizar o fornecedor)
Penalidade não é “punição”; é mecanismo de alinhamento de risco. Deve ser proporcional, clara e aplicável.
- SLA: OTIF (On Time In Full), por exemplo, “≥ 95%”.
- Multa por atraso: ex.: 1% do valor da remessa por semana de atraso, limitado a 10%.
- Cláusula de expedição emergencial: em atraso, fornecedor arca com frete expresso para cumprir RDD.
- Exceções: força maior documentada; atrasos por responsabilidade do comprador (ex.: mudança de escopo).
Exemplo de texto (penalidade orientada a prazo):
Em caso de atraso imputável ao fornecedor: (a) fornecedor deverá priorizar produção e, se necessário, enviar por modal expresso às suas expensas para cumprir a data requerida; (b) multa de 1% por semana de atraso sobre o valor da remessa atrasada, limitada a 10%.10) Formato de resposta e checklist para evitar propostas incomparáveis
Padronize a resposta para facilitar o mapa de cotação.
- Planilha padrão: preço unitário, impostos, frete, prazo, validade, MOQ, condições.
- Confirmação explícita: “Atende/Não atende” para cada requisito.
- Evidências: cronograma, capacidade, referências logísticas, certificações (quando aplicável).
Checklist rápido de RFQ:
- RDD e regra de contagem de prazo definidos?
- Base de entrega (Incoterm/condição) igual para todos?
- Pagamento e gatilhos de início do lead time claros?
- Embalagem/identificação e documentos exigidos?
- MOQ/múltiplos e entregas parciais definidos?
- Garantia e prazos de reposição em caso de falha?
- Penalidades/SLA aplicáveis e proporcionais?
- Formato de resposta padronizado?
Mapa de cotação: como comparar preço, prazo e risco na mesma tela
Mapa de cotação é a planilha (ou tabela) que consolida propostas e permite decisão rastreável. Para compras orientadas a prazo, não basta “menor preço”: é necessário comparar custo total, prazo realista, capacidade e risco de não entrega.
Estrutura recomendada do mapa (campos essenciais)
| Categoria | Campos | Como usar na decisão |
|---|---|---|
| Preço total | Preço unitário, quantidade, descontos, custo de setup, embalagem, impostos, frete, seguro | Calcular TCO (Total Cost of Ownership) por cenário de entrega |
| Prazo | Lead time, data prometida, possibilidade de antecipação, entregas parciais, prazo de reposição | Comparar contra RDD e impacto no plano (atende/não atende) |
| Condições | Pagamento, validade, Incoterm/base de entrega | Evitar “prazo bom” condicionado a pagamento inviável |
| Capacidade | Capacidade mensal, gargalos, plano de atendimento, nível de serviço histórico (se houver) | Validar se o prazo é executável |
| Riscos | Risco logístico, risco de qualidade, dependência de matéria-prima, risco cambial, risco de fornecedor único | Aplicar mitigação (estoque de segurança, dual source, inspeção) |
| Compliance | Documentos fiscais, certificações exigidas, aderência contratual | Evitar bloqueios no recebimento/faturamento que viram atraso |
Como calcular “preço total” de forma comparável
Padronize a base: todos em mesma moeda, mesma condição de entrega e mesmos impostos considerados. Quando não for possível, faça ajustes (equalização comercial).
Exemplo de cálculo (simplificado):
Preço Total (R$) = (Preço unitário x Quantidade) + Frete + Seguro + Embalagem + Impostos não recuperáveis + Custos adicionais (setup, armazenagem, urgência)Coluna de “atendimento ao prazo” (regra objetiva)
Inclua uma coluna com status padronizado:
- OK: entrega até RDD sem condicionantes.
- OK com condição: atende se houver entrega parcial, pagamento antecipado, ou outro gatilho (registrar).
- Risco: atende por promessa, mas sem evidência de capacidade/logística.
- NOK: não atende RDD.
Score de risco (simples e aplicável)
Para não “inventar” complexidade, use um score de 1 a 5 para cada risco e uma nota final.
- Risco de prazo: evidência de capacidade, histórico, gargalos.
- Risco logístico: rota, modal, sazonalidade, coleta.
- Risco de qualidade: taxa de NC, robustez de inspeção.
Exemplo: Nota final de risco = média ponderada (Prazo 50%, Logística 30%, Qualidade 20%).
Equalização técnica e comercial: como decidir sem “misturar” critérios
1) Equalização técnica (primeiro filtro)
Antes de comparar preço e prazo, valide se a proposta atende aos requisitos técnicos e de fornecimento (embalagem, garantia, documentos, MOQ, etc.). O objetivo é evitar escolher a melhor oferta comercial de um fornecedor que não consegue entregar conforme exigido.
- Regra prática: só entram na comparação final os fornecedores “tecnicamente conformes” ou “conformes com desvio aceito”.
- Desvio aceito: deve ser documentado (o que muda, por que é aceitável, impacto no prazo/qualidade, quem aprovou).
2) Equalização comercial (comparar maçã com maçã)
Com as propostas tecnicamente comparáveis, ajuste diferenças comerciais para a mesma base:
- Converter moedas na mesma data/taxa definida.
- Trazer todos para a mesma condição de entrega (ex.: somar frete quando cotado EXW).
- Separar impostos recuperáveis vs. não recuperáveis (conforme regra interna).
- Normalizar prazo: “lead time após pedido” vs “após pagamento” (registrar e ajustar).
Negociação orientada a prazo (sem comprometer qualidade)
Princípio: negociar prazo é negociar capacidade, prioridade e risco
Prazo não melhora apenas “na conversa”. Ele melhora quando você mexe em variáveis que o fornecedor controla: fila de produção, disponibilidade de matéria-prima, janela logística e esforço de expedição. A negociação deve buscar encurtar o caminho crítico sem abrir brechas de qualidade.
Alavancas práticas para reduzir prazo com segurança
- Entrega parcial planejada: liberar parte do material para não parar a produção, mantendo o restante no prazo final.
- Prioridade de produção: negociar “slot” na linha (com evidência de programação).
- Matéria-prima: confirmar disponibilidade imediata ou alternativa aprovada (sem alterar especificação sem controle).
- Modal logístico: trocar para expresso quando o gargalo é transporte (definir quem paga e quando aplica).
- Pré-aprovação documental: alinhar documentos e etiquetação para evitar retenção no recebimento.
- Inspeção acelerada: quando aplicável, combinar inspeção na origem para reduzir tempo de quarentena (sem “pular” critérios).
O que evitar ao negociar prazo
- Trocar prazo por “qualquer coisa serve”: mudanças de material/processo sem aprovação formal aumentam risco de não conformidade e reentrega.
- Prazo sem marco de contagem: “10 dias” sem dizer a partir de quê vira atraso disfarçado.
- Promessa sem evidência: aceite apenas com plano (capacidade, cronograma, reserva de transporte).
Roteiro de negociação (passo a passo)
- Chegue com o RDD e o gap: “Preciso em 15/03; sua proposta entrega em 25/03. Gap de 10 dias.”
- Identifique o gargalo: produção? matéria-prima? transporte? aprovação? MOQ?
- Escolha a alavanca: entrega parcial, expedição expressa, slot prioritário, etc.
- Peça contrapartida verificável: cronograma, confirmação de estoque, booking de transporte.
- Amarre em cláusula: SLA/penalidade ou frete expresso em caso de atraso.
- Confirme qualidade e requisitos: “Sem alteração de especificação/embalagem; mantém garantia e critérios.”
Exemplo de negociação objetiva:
Para atender o RDD 15/03, precisamos antecipar 10 dias. Você consegue entregar 30% até 05/03 e 70% até 15/03? Se o gargalo for transporte, podemos autorizar modal expresso, desde que o custo seja separado e aplicado apenas na primeira remessa. Confirme por escrito o cronograma e o marco de contagem do lead time.Regras para registrar justificativas de decisão (rastreabilidade e auditoria)
Decidir por um fornecedor não é apenas escolher; é justificar de forma que outra pessoa consiga entender o motivo, o risco aceito e as condições negociadas. Isso protege a operação quando houver questionamentos (internos, auditoria, qualidade, finanças).
O que deve ser registrado sempre
- Resumo da necessidade: item, quantidade, RDD, criticidade operacional (ex.: risco de parada).
- Fornecedores consultados: quem recebeu RFQ e quem respondeu (com datas).
- Resultado da equalização técnica: atende/não atende e desvios aceitos (com aprovadores).
- Mapa de cotação: versão final anexada (ou link), com base de comparação.
- Justificativa da escolha: critérios objetivos (prazo, TCO, risco, capacidade).
- Condições negociadas: prazo final acordado, entregas parciais, Incoterm, pagamento, penalidades, validade.
- Riscos remanescentes e mitigação: plano B, fornecedor alternativo, inspeção na origem, estoque tampão (se aplicável).
Modelo de justificativa (texto curto e completo)
Decisão: adjudicado ao Fornecedor B. Motivo: único a atender RDD 15/03 com entrega parcial (30% em 05/03 e saldo em 15/03) e evidência de capacidade (cronograma anexado). TCO 3,2% acima do menor preço, porém menor risco de atraso (score 1,8 vs 3,6). Condições: DAP planta, pagamento 35 dias, validade 20 dias, multa 1%/semana limitada a 10% e frete expresso por conta do fornecedor em caso de atraso imputável. Equalização técnica: conforme; embalagem reforçada conforme RFQ. Risco remanescente: dependência de matéria-prima importada; mitigação: confirmação de estoque do insumo e atualização semanal de status até entrega.Regras de governança (para evitar decisões “no verbal”)
- Sem registro, não existe: qualquer concessão (prazo, qualidade, embalagem, pagamento) deve estar documentada.
- Uma fonte da verdade: versão controlada do mapa de cotação e da RFQ (evitar planilhas paralelas).
- Aprovação de desvios: desvio técnico só com aprovador definido (qualidade/engenharia), desvio comercial com aprovador definido (compras/finanças).
- Trilha de comunicação: e-mails/ata de negociação anexados ou resumidos com data, participantes e decisões.