Compras e Suprimentos para Produção: Seleção e homologação de fornecedores com foco em entrega

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é seleção e homologação de fornecedores com foco em entrega

Seleção é o processo de identificar e comparar fornecedores potenciais para um item ou família de itens. Homologação é a decisão formal de habilitar (ou não) um fornecedor para fornecer à produção, com critérios e evidências mínimas. Quando o foco é entrega, a homologação precisa traduzir “capacidade de entregar no prazo” em indicadores objetivos, níveis de aprovação e ações de mitigação de risco de falta de material.

Na prática, um fornecedor pode ter bom preço e até boa qualidade, mas se não sustenta OTD (On-Time Delivery) e não tem estrutura logística/planejamento, ele vira um risco recorrente de parada de linha. Por isso, a homologação deve combinar: desempenho histórico (quando existir), validação de capacidade e controles, e um plano de desenvolvimento quando o fornecedor é promissor, mas ainda não está no nível exigido.

Critérios objetivos para qualificar fornecedores (com foco em entrega)

1) Capacidade produtiva e planejamento

  • Capacidade instalada vs. demanda: volume mensal possível, gargalos (máquinas críticas), turnos, terceirização.
  • Capacidade flexível: aumento de volume em picos (ex.: +20% em 4 semanas), disponibilidade de horas extras, plano de contingência.
  • Planejamento e controle: existência de programação, controle de WIP, gestão de materiais internos, disciplina de promessas de entrega (não prometer o que não consegue cumprir).

Evidências típicas: lista de recursos, capacidade por processo, plano mestre/semana, histórico de atendimento em picos, lead time interno por etapa.

2) Histórico de OTD (On-Time Delivery)

  • OTD por linha de pedido: % de pedidos entregues no prazo acordado.
  • OTD por item/família: alguns itens têm rotas mais complexas e atrasam mais.
  • OTD por janela: no prazo, adiantado (pode gerar excesso), atrasado (risco de falta).
  • Confiabilidade de promessa: diferença entre data prometida e data entregue.

Como medir (exemplo): considerar “no prazo” quando entregue até a data acordada (ou dentro de uma tolerância definida, como 0 a +2 dias). Separar atrasos por responsabilidade do fornecedor vs. mudanças do comprador/engenharia.

3) Qualidade (PPM e reclamações)

  • PPM (parts per million) ou taxa de defeitos: mede risco de retrabalho, devolução e bloqueio de recebimento (que vira falta de material).
  • Reclamações e reincidência: número de ocorrências e repetição do mesmo defeito.
  • Tempo de resposta: prazo para contenção e ação corretiva.

Qualidade e entrega são conectadas: lote reprovado equivale a “não entrega” para a produção.

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4) Estabilidade financeira

  • Risco de ruptura: atrasos por falta de caixa, compra de matéria-prima, energia, manutenção.
  • Dependência de poucos clientes: risco de priorização de outro cliente em picos.
  • Capacidade de investimento: ferramentas, moldes, melhorias de processo.

Evidências típicas: certidões, referências comerciais, indicadores públicos quando aplicável, análise de crédito, histórico de protestos (conforme política interna).

5) Localização e logística

  • Tempo e variabilidade de transporte: distância, modais, restrições de rota.
  • Risco logístico: sazonalidade, greves, fronteiras, clima, dependência de um único transportador.
  • Embalagem e unitização: influencia avarias, conferência e velocidade de recebimento.

Fornecedor excelente, mas com logística instável, aumenta o risco de falta. Em itens críticos, a variabilidade logística pesa tanto quanto o lead time nominal.

6) Compliance e requisitos legais

  • Conformidade fiscal e trabalhista: risco de interrupção por bloqueios legais.
  • Requisitos regulatórios: quando aplicável (ex.: rastreabilidade, normas setoriais).
  • Ética e anticorrupção: aderência a políticas internas.

Compliance é critério de “licença para operar”: sem ele, o fornecedor pode ser bloqueado mesmo com bom desempenho.

7) Flexibilidade e colaboração

  • Flexibilidade de mix: troca de modelo/tamanho sem perder prazo.
  • Resposta a urgências controladas: capacidade de expedir parcial, antecipar, priorizar com transparência.
  • Comunicação: rapidez e qualidade das informações (confirmação de pedido, aviso de risco, plano de recuperação).

Flexibilidade reduz o impacto de variações de demanda e falhas pontuais, diminuindo o risco de parada.

Como aplicar na prática: questionário, auditoria simples, amostras e desenvolvimento

Passo a passo 1: Definir o “perfil de risco” do item e o nível de rigor

Antes de avaliar fornecedores, defina o rigor mínimo conforme o risco de falta de material. Exemplo de regra simples:

  • Item crítico (parada de linha): exigir auditoria simples + amostra aprovada + evidências de capacidade + plano logístico + OTD mínimo ou piloto.
  • Item importante (impacto moderado): questionário + amostra + referências + validação de capacidade.
  • Item não crítico: questionário + validação documental básica.

Isso evita burocracia excessiva para itens simples e, ao mesmo tempo, fecha lacunas para itens que podem parar a fábrica.

Passo a passo 2: Aplicar um questionário objetivo (pré-qualificação)

Use um questionário curto (20–40 perguntas) para filtrar rapidamente. Estruture por blocos e peça evidências anexas.

BlocoPerguntas objetivas (exemplos)Evidência
CapacidadeVolume mensal máximo? Gargalo? Turnos? Plano para +20%?Mapa de processo, capacidade por recurso
EntregaOTD últimos 6–12 meses? Como mede? Como confirma pedidos?Relatório OTD, procedimento de confirmação
QualidadePPM? Controle de recebimento? Rastreabilidade? Tratativa de NC?Indicadores, registros de inspeção
LogísticaPrazo de expedição? Incoterms (se aplicável)? Embalagem padrão?Fotos, especificação de embalagem
FinanceiroTempo de mercado? Limite de crédito? Dependência de cliente?Referências, análise de crédito
ComplianceCertidões? Política anticorrupção? LGPD (quando aplicável)?Documentos e declarações

Dica prática: inclua 3 perguntas “de consistência” (ex.: capacidade declarada vs. número de máquinas/turnos) para identificar respostas otimistas demais.

Passo a passo 3: Fazer uma auditoria simples focada em entrega (1–3 horas)

Não precisa ser uma auditoria complexa. O objetivo é validar se o fornecedor tem controles mínimos para cumprir prazos e evitar surpresas.

  • Planejamento: existe programação visível? Como prioriza ordens? Como lida com mudanças?
  • Gargalos: qual processo limita a produção? Há manutenção preventiva? Há plano de contingência?
  • Gestão de materiais: como garante matéria-prima? Há risco de falta interna?
  • Expedição: área organizada? conferência? identificação? horários de coleta?
  • Indicadores: acompanha OTD, atrasos, causas, ações?

Checklist rápido (exemplo):

Auditoria simples - foco em entrega (pontuar 0/1/2 por item) 1) Programação semanal existe e é seguida? 2) Há controle de capacidade por recurso? 3) Gargalo identificado e com plano? 4) Matéria-prima crítica com controle/estoque mínimo? 5) Processo de confirmação de pedido e data prometida? 6) Registro de atrasos e causa raiz? 7) Expedição com conferência e rastreio? 8) Embalagem padrão definida e aplicada? 9) Comunicação de risco antes do atraso (proativa)? 10) Plano de contingência (máquina, pessoal, transporte)?

Some a pontuação e use como parte do score de homologação.

Passo a passo 4: Avaliação de amostras e “pedido piloto”

Para itens que impactam produção, combine amostra aprovada com um pedido piloto que teste entrega e estabilidade.

  • Amostra: validar conformidade técnica e qualidade (dimensional, funcional, acabamento, embalagem).
  • Pedido piloto: pequeno lote com data acordada e critérios de aceite (qualidade + entrega + documentação).
  • Critérios de aprovação: exemplo: entrega no prazo, 0 devoluções, documentação correta, comunicação adequada.

Se o fornecedor entrega a amostra, mas falha no piloto (atraso, lote incompleto, documentação errada), o risco de falta de material permanece alto.

Passo a passo 5: Plano de desenvolvimento do fornecedor (quando vale a pena)

Quando o fornecedor é estratégico (tecnologia, capacidade, custo total), mas ainda não atende o nível de entrega, crie um plano simples com metas e prazos.

  • Problema: OTD 82% (meta 95%).
  • Causas comuns: promessas sem checar capacidade, falta de matéria-prima, expedição sem janela fixa, transporte instável.
  • Ações: implementar confirmação de pedido em 24h; congelar programação semanal; estoque mínimo de matéria-prima crítica; janela fixa de coleta; indicador semanal de OTD com causa.
  • Prazo: 60–90 dias com marcos quinzenais.
  • Critério de saída: manter OTD ≥ 95% por 8 semanas + PPM dentro da meta.

Enquanto o plano roda, trate o fornecedor como condicionado (limite de volume, itens não críticos, ou exigência de estoque de segurança/entregas fracionadas).

Matriz de homologação (modelo prático)

A matriz transforma critérios em pontuação e decisão. Ajuste pesos conforme o risco do item (para itens críticos, aumente peso de OTD/capacidade/logística).

CritérioPeso (%)Como pontuar (0 a 5)Exemplo de evidência
OTD / confiabilidade250=sem dados e sem controle; 3=OTD 90–94%; 5=OTD ≥97% e causa de atraso tratadaRelatório OTD, registros de promessas
Capacidade e flexibilidade200=capacidade incerta; 3=capacidade atende demanda atual; 5=atende + plano para picosCapacidade por recurso, plano de contingência
Qualidade (PPM/reclamações)200=sem controle; 3=PPM aceitável com ações; 5=PPM baixo e resposta rápidaIndicadores, registros de inspeção
Logística/localização150=alto risco/variabilidade; 3=transporte estável; 5=baixa variabilidade + rastreioPlano logístico, histórico de avarias
Financeiro100=alto risco; 3=estável; 5=estável e com capacidade de investimentoAnálise de crédito, referências
Compliance100=pendências; 3=atende mínimo; 5=atende e evidencia controlesCertidões, declarações, políticas

Cálculo: nota final = soma(pontuação de 0 a 5 × peso). Defina faixas de decisão, por exemplo:

  • Aprovado: ≥ 4,0
  • Condicionado: 3,0 a 3,9
  • Bloqueado: < 3,0 ou falha grave em compliance/segurança/qualidade crítica

Regra de bloqueio automático (exemplos): fraude documental, não conformidade legal relevante, reincidência de defeito crítico sem contenção, ou incapacidade comprovada de cumprir prazos mínimos.

Processo de cadastro/habilitação com níveis (aprovado, condicionado, bloqueado)

1) Entrada do fornecedor (solicitação)

  • Coletar dados cadastrais e escopo: quais itens/famílias, capacidade, local de produção, contatos operacionais.
  • Definir se é fornecedor de item crítico (exige trilha mais rigorosa).

2) Pré-qualificação documental

  • Compliance e documentação mínima (conforme política interna).
  • Checagem financeira básica e referências.

Saída: “apto para avaliação técnica” ou “bloqueado (documental)”.

3) Avaliação técnica e de entrega

  • Questionário com evidências.
  • Auditoria simples (quando aplicável).
  • Amostra e/ou pedido piloto.

Saída: pontuação na matriz + riscos identificados (ex.: logística instável, gargalo em máquina única).

4) Decisão de homologação por nível

NívelO que permiteControles recomendadosRisco de falta de material
AprovadoFornecimento regular de itens do escopoMonitorar OTD/PPM mensal; revisão trimestralBaixo (controlado por indicadores)
CondicionadoFornecimento limitado (volume, itens menos críticos, ou prazo maior)Plano de desenvolvimento; entregas fracionadas; estoque de segurança; acompanhamento semanalMédio (mitigado por restrições e plano)
BloqueadoNão pode fornecerReavaliação somente após correções e nova evidênciaAlto (evitar exposição)

5) Monitoramento pós-homologação (para manter foco em entrega)

Homologação não é evento único. Para manter o risco de falta baixo, defina gatilhos de reclassificação:

  • Rebaixar para condicionado: OTD abaixo da meta por 2 meses, aumento de reclamações, atrasos sem aviso prévio, mudança de planta/rota sem comunicação.
  • Bloquear temporariamente: falha grave de qualidade, não conformidade legal, ou repetição de atrasos críticos sem plano de recuperação.
  • Promover para aprovado: condicionado que cumpre metas (ex.: OTD ≥ 95% por 8 semanas + PPM dentro da meta) e evidencia controles.

Exemplo prático: como a homologação evita falta de material

Cenário: item A para produção, consumo alto e risco de parada. Dois fornecedores candidatos:

  • Fornecedor X: preço menor, mas sem indicador de OTD, expedição desorganizada, depende de um transportador informal.
  • Fornecedor Y: preço um pouco maior, OTD 97% comprovado, janela de coleta fixa, plano de contingência para gargalo.

Na matriz, Y tende a ser aprovado. X pode ser condicionado com pedido piloto e plano de desenvolvimento (ex.: formalizar transporte, confirmar pedidos em 24h, organizar expedição). Essa decisão reduz a probabilidade de falta de material porque limita exposição ao fornecedor com maior variabilidade de entrega.

Modelos rápidos para usar no dia a dia

Modelo de e-mail/registro de “pedido piloto”

Pedido piloto - critérios de aceite Item: ______ Quantidade: ______ Data acordada: ______ Critérios de entrega: entrega completa na data acordada (tolerância: __ dias) Critérios de qualidade: amostra aprovada + PPM/meta ______ Documentos: NF, identificação de lote, embalagem padrão Comunicação: avisar risco de atraso com antecedência mínima de __ dias

Modelo de registro de risco do fornecedor (ligado à falta de material)

Risco principal: atraso por (capacidade/logística/matéria-prima) Probabilidade: baixa/média/alta Impacto: baixo/médio/alto Mitigação: (estoque de segurança / dual source / entregas fracionadas / plano de recuperação) Gatilho: OTD < __% ou atraso > __ dias Responsável e prazo: ______

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao homologar um fornecedor com foco em entrega, qual abordagem reduz melhor o risco de falta de material na produção?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Focar em entrega exige medir OTD/confiabilidade, validar capacidade e logística com evidências e aplicar ações de mitigação (pedido piloto, plano de desenvolvimento, restrições) conforme o risco do item, reduzindo a chance de falta de material.

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