Por que classificar itens muda a forma de abastecer a produção
Na prática, não é viável aplicar o mesmo nível de controle, negociação e monitoramento para todos os materiais. A classificação de itens serve para definir esforço de gestão e escolher a estratégia de abastecimento adequada, equilibrando custo, risco e continuidade da linha. Um item barato pode parar a fábrica; um item caro pode ter consumo estável e permitir reposição enxuta. Por isso, a classificação deve combinar mais de um critério: valor/consumo, variabilidade, criticidade, risco de fornecimento e substituibilidade.
Métodos práticos de classificação
1) ABC (valor/consumo): onde está o dinheiro
O ABC classifica itens pelo impacto financeiro anual, normalmente usando Valor anual = preço unitário × consumo anual. A ideia é concentrar gestão onde está a maior parcela do gasto.
- A: poucos itens que representam a maior parte do valor (ex.: ~70–80%).
- B: impacto intermediário (ex.: ~15–25%).
- C: muitos itens de baixo impacto (ex.: ~5–10%).
Uso típico: itens A pedem maior disciplina de planejamento, negociação e acompanhamento de fornecedor; itens C pedem processos simples e automatizados.
Passo a passo para rodar um ABC
- Extraia lista de itens com consumo anual e preço médio (últimos 12 meses).
- Calcule o valor anual por item.
- Ordene do maior para o menor valor anual.
- Calcule o percentual acumulado do valor total.
- Defina cortes (ex.: A até 80%, B até 95%, C o restante) e valide com a realidade do negócio.
2) XYZ (variabilidade): quão previsível é o consumo
O XYZ classifica itens pela variabilidade de consumo. Um método comum é o coeficiente de variação (CV): CV = desvio padrão / média (em base mensal/semanal).
- X: consumo estável (CV baixo) → previsível.
- Y: variação moderada → sazonalidade ou mix variável.
- Z: consumo irregular (CV alto) → difícil prever, risco de ruptura se tratar como X.
Uso típico: itens X funcionam bem com reposição puxada (kanban) e estoques menores; itens Z tendem a exigir políticas mais robustas (estoque de segurança maior, revisão periódica, compras spot planejadas).
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Passo a passo para rodar um XYZ
- Escolha a granularidade (semanal para itens de alto giro; mensal para baixo giro).
- Calcule média e desvio padrão do consumo no período (ex.: 12 meses).
- Calcule o CV por item.
- Defina faixas (ex.: X < 0,5; Y 0,5–1,0; Z > 1,0) e ajuste conforme o comportamento real.
3) Criticidade (impacto na linha): o que para a produção
Criticidade mede o impacto operacional caso falte o item. Uma forma prática é pontuar três dimensões e somar:
- Impacto: para linha? reduz OEE? gera refugo?
- Tempo de recuperação: quanto tempo para normalizar após ruptura?
- Detecção: dá para perceber risco antes (ex.: consumo visível) ou é “surpresa”?
Classifique como Crítico (parada/segurança/qualidade), Importante (perda relevante, mas contornável) ou Não crítico (baixo impacto).
4) Risco de fornecimento: probabilidade de faltar
Risco de fornecimento combina fatores como:
- Lead time longo e/ou instável.
- Fornecedor único ou mercado concentrado.
- Dependência de importação (câmbio, desembaraço, frete).
- Capacidade do fornecedor e histórico de OTIF (entrega no prazo e completa).
- Volatilidade de preço e disponibilidade de matéria-prima.
Uma escala simples (Baixo/Médio/Alto) já direciona decisões de estoque e sourcing.
5) Substituibilidade: quão fácil é trocar
Substituibilidade avalia se existe alternativa técnica e operacional sem grande custo/risco:
- Alta: múltiplas marcas/modelos aceitos, troca rápida, sem requalificação complexa.
- Média: existe alternativa, mas exige ajuste de processo, teste ou validação.
- Baixa: item “travado” (homologação rígida, ferramenta dedicada, requisito regulatório).
Quanto menor a substituibilidade, maior a necessidade de estratégia preventiva (contratos, dual sourcing, estoque de segurança).
Como transformar classificações em estratégia de abastecimento
Mapa mental: o que cada critério “puxa” de ação
- ABC (valor) puxa: negociação, contratos, controle de preço, governança de compras.
- XYZ (variabilidade) puxa: política de reposição e dimensionamento de estoque.
- Criticidade puxa: redundância (dual sourcing), buffers, planos de contingência.
- Risco de fornecimento puxa: contratos, desenvolvimento de fornecedor, antecipação, estoques estratégicos.
- Substituibilidade puxa: padronização, alternativas aprovadas, flexibilização de especificação quando possível.
Matriz de decisão (criticidade × risco de fornecimento)
Uma matriz simples ajuda a definir políticas padrão. Use Criticidade no eixo vertical (Baixa → Alta) e Risco de fornecimento no eixo horizontal (Baixo → Alto).
| Risco Baixo | Risco Alto | |
|---|---|---|
| Criticidade Alta | Garantir continuidade com eficiência
| Proteção máxima
|
| Criticidade Baixa | Processo simples e barato
| Flexibilidade e custo controlado
|
Como usar: a matriz define a “política padrão”. Depois, refine com ABC/XYZ e substituibilidade para ajustar nível de estoque, frequência de revisão e tipo de contrato.
Políticas típicas por estratégia (o que aplicar e quando)
Dual sourcing (duas fontes)
Indicado quando: criticidade alta e risco médio/alto; substituibilidade baixa; lead time longo. Cuidados: dividir volume de forma que o segundo fornecedor permaneça ativo; alinhar especificações e testes de recebimento; evitar “segundo fornecedor só no papel”.
Estoque de segurança (SS)
Indicado quando: variabilidade (Y/Z), lead time instável, risco de fornecimento alto, criticidade alta. Uma forma prática de começar é usar uma regra simples e depois calibrar:
SS inicial (semanas) = max(variabilidade do consumo, variabilidade do lead time) × fator de criticidadeExemplo de fator de criticidade: Não crítico = 0,5; Importante = 1,0; Crítico = 1,5–2,0. Ajuste com base em rupturas reais e custo de estoque.
Contratos (preço, SLA, capacidade)
Indicado quando: itens A (alto valor) e/ou críticos; mercado com risco; necessidade de previsibilidade. Pode incluir: cláusulas de reajuste, lead time acordado, OTIF mínimo, reserva de capacidade, e regras de expedição.
Kanban / reposição puxada
Indicado quando: itens X (estáveis), risco baixo, consumo frequente. Boa prática: definir número de cartões/contêineres com base em consumo e lead time, e revisar quando houver mudança de mix.
Consignado (estoque no cliente, propriedade do fornecedor)
Indicado quando: item crítico e caro (A) ou com alta incerteza (Y/Z), e fornecedor confiável. Ajuda a reduzir capital empatado mantendo disponibilidade. Cuidados: regras claras de consumo, inventário e responsabilidade por obsolescência.
Compras spot (pontuais)
Indicado quando: itens não críticos, C, consumo irregular (Z) e/ou mercado com preço oportunístico. Cuidados: manter lista de fornecedores qualificados, prazos realistas e substitutos aceitos para evitar urgências caras.
Exemplos práticos: políticas diferentes para itens críticos vs não críticos
Exemplo 1: Sensor de máquina (Crítico, A, Y, risco alto, substituibilidade baixa)
- Classificação: ABC=A (caro), XYZ=Y (varia com manutenção), Criticidade=Alta (para a linha), Risco=Alto (importado), Substituibilidade=Baixa.
- Política recomendada:
- Dual sourcing (se possível) ou plano de desenvolvimento do segundo fornecedor.
- Contrato com SLA e lead time acordado; reserva de capacidade.
- Estoque de segurança alto (cobrir variação + risco logístico).
- Lista de substitutos/compatíveis previamente validados (quando existir).
- Regra operacional simples: revisão semanal do saldo e pedidos; gatilho de compra antecipado se lead time aumentar.
Exemplo 2: Filme stretch para embalagem (Não crítico para linha, B/C, X, risco baixo, substituibilidade alta)
- Classificação: ABC=B/C, XYZ=X (consumo estável), Criticidade=Baixa/Média (impacta expedição, mas não necessariamente para a linha), Risco=Baixo, Substituibilidade=Alta.
- Política recomendada:
- Kanban ou min-máx com reposição periódica.
- Compras agrupadas para reduzir frete e custo administrativo.
- Compras spot aceitáveis se houver múltiplos fornecedores.
Exemplo 3: Parafuso padrão (C, X, criticidade pode ser alta por parada, risco baixo, substituibilidade alta)
Mesmo sendo C (baixo valor), pode ser crítico se faltar e parar montagem. Isso mostra por que ABC sozinho não basta.
- Política recomendada:
- Kanban com estoque mínimo bem dimensionado (cobrir lead time + margem).
- Dois fornecedores homologados (não necessariamente contrato longo).
- Padronização e substitutos aceitos (mesma classe/medida).
Modelo de matriz de decisão ampliada (ABC + XYZ + Criticidade)
Para operacionalizar, use uma tabela de política por “famílias” de classificação. Exemplo de regras:
| Perfil | Características | Política padrão | Frequência de revisão |
|---|---|---|---|
| A + Crítico | Alto valor e alto impacto | Contrato + SLA, estoque de segurança, plano de contingência, possível consignado | Semanal |
| A + Não crítico | Alto valor, baixo impacto | Contrato/preço, reduzir estoque, compras programadas | Mensal |
| C + Crítico | Baixo valor, alto impacto | Kanban/min-máx robusto, múltiplos fornecedores, substitutos aprovados | Quinzenal |
| C + Não crítico | Baixo valor e baixo impacto | Processo simples, compras spot, padronização, lote econômico | Bimestral/trimestral |
| Z (qualquer ABC) | Consumo irregular | Revisão periódica, estoque de segurança maior, gatilhos por evento (manutenção/projeto) | Mensal (ou por evento) |
Implementação prática em 7 passos (para colocar em operação)
- Monte a base de análise: consumo histórico, preço médio, lead time, fornecedor atual, ocorrências de ruptura e impacto.
- Rode o ABC para priorizar esforço financeiro.
- Rode o XYZ para entender previsibilidade e escolher método de reposição.
- Atribua criticidade com critérios objetivos (parada, segurança, qualidade, tempo de recuperação).
- Classifique risco de fornecimento (baixo/médio/alto) e substituibilidade (alta/média/baixa).
- Encaixe na matriz de decisão e defina política: dual sourcing, SS, contrato, kanban, consignado ou spot.
- Defina governança: quem revisa, periodicidade, indicadores (ruptura, OTIF, giro, cobertura) e gatilhos de mudança (novo fornecedor, mudança de lead time, alteração de consumo).
Checklist de decisão rápida (uso no dia a dia)
- Se Crítico e Risco alto → priorize redundância (dual sourcing) + buffer (SS/estratégico) + contrato.
- Se X (estável) → priorize kanban e revisão por parâmetros, não por urgência.
- Se Z (irregular) → evite kanban “cego”; use revisão periódica e gatilhos por evento.
- Se C mas Crítico → trate como crítico operacionalmente (estoque e disponibilidade), mesmo com baixo valor.
- Se Substituibilidade baixa → aumente prevenção (contrato, SS, desenvolvimento de alternativa).