Compras e Suprimentos para Produção: Classificação de itens, criticidade e estratégia de abastecimento

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que classificar itens muda a forma de abastecer a produção

Na prática, não é viável aplicar o mesmo nível de controle, negociação e monitoramento para todos os materiais. A classificação de itens serve para definir esforço de gestão e escolher a estratégia de abastecimento adequada, equilibrando custo, risco e continuidade da linha. Um item barato pode parar a fábrica; um item caro pode ter consumo estável e permitir reposição enxuta. Por isso, a classificação deve combinar mais de um critério: valor/consumo, variabilidade, criticidade, risco de fornecimento e substituibilidade.

Métodos práticos de classificação

1) ABC (valor/consumo): onde está o dinheiro

O ABC classifica itens pelo impacto financeiro anual, normalmente usando Valor anual = preço unitário × consumo anual. A ideia é concentrar gestão onde está a maior parcela do gasto.

  • A: poucos itens que representam a maior parte do valor (ex.: ~70–80%).
  • B: impacto intermediário (ex.: ~15–25%).
  • C: muitos itens de baixo impacto (ex.: ~5–10%).

Uso típico: itens A pedem maior disciplina de planejamento, negociação e acompanhamento de fornecedor; itens C pedem processos simples e automatizados.

Passo a passo para rodar um ABC

  1. Extraia lista de itens com consumo anual e preço médio (últimos 12 meses).
  2. Calcule o valor anual por item.
  3. Ordene do maior para o menor valor anual.
  4. Calcule o percentual acumulado do valor total.
  5. Defina cortes (ex.: A até 80%, B até 95%, C o restante) e valide com a realidade do negócio.

2) XYZ (variabilidade): quão previsível é o consumo

O XYZ classifica itens pela variabilidade de consumo. Um método comum é o coeficiente de variação (CV): CV = desvio padrão / média (em base mensal/semanal).

  • X: consumo estável (CV baixo) → previsível.
  • Y: variação moderada → sazonalidade ou mix variável.
  • Z: consumo irregular (CV alto) → difícil prever, risco de ruptura se tratar como X.

Uso típico: itens X funcionam bem com reposição puxada (kanban) e estoques menores; itens Z tendem a exigir políticas mais robustas (estoque de segurança maior, revisão periódica, compras spot planejadas).

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Passo a passo para rodar um XYZ

  1. Escolha a granularidade (semanal para itens de alto giro; mensal para baixo giro).
  2. Calcule média e desvio padrão do consumo no período (ex.: 12 meses).
  3. Calcule o CV por item.
  4. Defina faixas (ex.: X < 0,5; Y 0,5–1,0; Z > 1,0) e ajuste conforme o comportamento real.

3) Criticidade (impacto na linha): o que para a produção

Criticidade mede o impacto operacional caso falte o item. Uma forma prática é pontuar três dimensões e somar:

  • Impacto: para linha? reduz OEE? gera refugo?
  • Tempo de recuperação: quanto tempo para normalizar após ruptura?
  • Detecção: dá para perceber risco antes (ex.: consumo visível) ou é “surpresa”?

Classifique como Crítico (parada/segurança/qualidade), Importante (perda relevante, mas contornável) ou Não crítico (baixo impacto).

4) Risco de fornecimento: probabilidade de faltar

Risco de fornecimento combina fatores como:

  • Lead time longo e/ou instável.
  • Fornecedor único ou mercado concentrado.
  • Dependência de importação (câmbio, desembaraço, frete).
  • Capacidade do fornecedor e histórico de OTIF (entrega no prazo e completa).
  • Volatilidade de preço e disponibilidade de matéria-prima.

Uma escala simples (Baixo/Médio/Alto) já direciona decisões de estoque e sourcing.

5) Substituibilidade: quão fácil é trocar

Substituibilidade avalia se existe alternativa técnica e operacional sem grande custo/risco:

  • Alta: múltiplas marcas/modelos aceitos, troca rápida, sem requalificação complexa.
  • Média: existe alternativa, mas exige ajuste de processo, teste ou validação.
  • Baixa: item “travado” (homologação rígida, ferramenta dedicada, requisito regulatório).

Quanto menor a substituibilidade, maior a necessidade de estratégia preventiva (contratos, dual sourcing, estoque de segurança).

Como transformar classificações em estratégia de abastecimento

Mapa mental: o que cada critério “puxa” de ação

  • ABC (valor) puxa: negociação, contratos, controle de preço, governança de compras.
  • XYZ (variabilidade) puxa: política de reposição e dimensionamento de estoque.
  • Criticidade puxa: redundância (dual sourcing), buffers, planos de contingência.
  • Risco de fornecimento puxa: contratos, desenvolvimento de fornecedor, antecipação, estoques estratégicos.
  • Substituibilidade puxa: padronização, alternativas aprovadas, flexibilização de especificação quando possível.

Matriz de decisão (criticidade × risco de fornecimento)

Uma matriz simples ajuda a definir políticas padrão. Use Criticidade no eixo vertical (Baixa → Alta) e Risco de fornecimento no eixo horizontal (Baixo → Alto).

Risco BaixoRisco Alto
Criticidade Alta

Garantir continuidade com eficiência

  • Kanban com limites bem definidos
  • Contrato com SLA/OTIF e penalidades
  • Estoque de segurança moderado
  • Revisão frequente de consumo

Proteção máxima

  • Dual sourcing (ou plano formal de segundo fornecedor)
  • Estoque de segurança alto / estoque estratégico
  • Contratos de longo prazo + reserva de capacidade
  • Consignado quando viável
  • Plano de contingência e alternativas aprovadas
Criticidade Baixa

Processo simples e barato

  • Reposição periódica (min-máx) ou kanban simples
  • Compras agrupadas
  • Catálogo e padronização

Flexibilidade e custo controlado

  • Compras spot com lista de fornecedores
  • Estoque mínimo para cobrir lead time
  • Substitutos pré-aprovados
  • Evitar contratos longos se preço/mercado for volátil

Como usar: a matriz define a “política padrão”. Depois, refine com ABC/XYZ e substituibilidade para ajustar nível de estoque, frequência de revisão e tipo de contrato.

Políticas típicas por estratégia (o que aplicar e quando)

Dual sourcing (duas fontes)

Indicado quando: criticidade alta e risco médio/alto; substituibilidade baixa; lead time longo. Cuidados: dividir volume de forma que o segundo fornecedor permaneça ativo; alinhar especificações e testes de recebimento; evitar “segundo fornecedor só no papel”.

Estoque de segurança (SS)

Indicado quando: variabilidade (Y/Z), lead time instável, risco de fornecimento alto, criticidade alta. Uma forma prática de começar é usar uma regra simples e depois calibrar:

SS inicial (semanas) = max(variabilidade do consumo, variabilidade do lead time) × fator de criticidade

Exemplo de fator de criticidade: Não crítico = 0,5; Importante = 1,0; Crítico = 1,5–2,0. Ajuste com base em rupturas reais e custo de estoque.

Contratos (preço, SLA, capacidade)

Indicado quando: itens A (alto valor) e/ou críticos; mercado com risco; necessidade de previsibilidade. Pode incluir: cláusulas de reajuste, lead time acordado, OTIF mínimo, reserva de capacidade, e regras de expedição.

Kanban / reposição puxada

Indicado quando: itens X (estáveis), risco baixo, consumo frequente. Boa prática: definir número de cartões/contêineres com base em consumo e lead time, e revisar quando houver mudança de mix.

Consignado (estoque no cliente, propriedade do fornecedor)

Indicado quando: item crítico e caro (A) ou com alta incerteza (Y/Z), e fornecedor confiável. Ajuda a reduzir capital empatado mantendo disponibilidade. Cuidados: regras claras de consumo, inventário e responsabilidade por obsolescência.

Compras spot (pontuais)

Indicado quando: itens não críticos, C, consumo irregular (Z) e/ou mercado com preço oportunístico. Cuidados: manter lista de fornecedores qualificados, prazos realistas e substitutos aceitos para evitar urgências caras.

Exemplos práticos: políticas diferentes para itens críticos vs não críticos

Exemplo 1: Sensor de máquina (Crítico, A, Y, risco alto, substituibilidade baixa)

  • Classificação: ABC=A (caro), XYZ=Y (varia com manutenção), Criticidade=Alta (para a linha), Risco=Alto (importado), Substituibilidade=Baixa.
  • Política recomendada:
    • Dual sourcing (se possível) ou plano de desenvolvimento do segundo fornecedor.
    • Contrato com SLA e lead time acordado; reserva de capacidade.
    • Estoque de segurança alto (cobrir variação + risco logístico).
    • Lista de substitutos/compatíveis previamente validados (quando existir).
  • Regra operacional simples: revisão semanal do saldo e pedidos; gatilho de compra antecipado se lead time aumentar.

Exemplo 2: Filme stretch para embalagem (Não crítico para linha, B/C, X, risco baixo, substituibilidade alta)

  • Classificação: ABC=B/C, XYZ=X (consumo estável), Criticidade=Baixa/Média (impacta expedição, mas não necessariamente para a linha), Risco=Baixo, Substituibilidade=Alta.
  • Política recomendada:
    • Kanban ou min-máx com reposição periódica.
    • Compras agrupadas para reduzir frete e custo administrativo.
    • Compras spot aceitáveis se houver múltiplos fornecedores.

Exemplo 3: Parafuso padrão (C, X, criticidade pode ser alta por parada, risco baixo, substituibilidade alta)

Mesmo sendo C (baixo valor), pode ser crítico se faltar e parar montagem. Isso mostra por que ABC sozinho não basta.

  • Política recomendada:
    • Kanban com estoque mínimo bem dimensionado (cobrir lead time + margem).
    • Dois fornecedores homologados (não necessariamente contrato longo).
    • Padronização e substitutos aceitos (mesma classe/medida).

Modelo de matriz de decisão ampliada (ABC + XYZ + Criticidade)

Para operacionalizar, use uma tabela de política por “famílias” de classificação. Exemplo de regras:

PerfilCaracterísticasPolítica padrãoFrequência de revisão
A + CríticoAlto valor e alto impactoContrato + SLA, estoque de segurança, plano de contingência, possível consignadoSemanal
A + Não críticoAlto valor, baixo impactoContrato/preço, reduzir estoque, compras programadasMensal
C + CríticoBaixo valor, alto impactoKanban/min-máx robusto, múltiplos fornecedores, substitutos aprovadosQuinzenal
C + Não críticoBaixo valor e baixo impactoProcesso simples, compras spot, padronização, lote econômicoBimestral/trimestral
Z (qualquer ABC)Consumo irregularRevisão periódica, estoque de segurança maior, gatilhos por evento (manutenção/projeto)Mensal (ou por evento)

Implementação prática em 7 passos (para colocar em operação)

  1. Monte a base de análise: consumo histórico, preço médio, lead time, fornecedor atual, ocorrências de ruptura e impacto.
  2. Rode o ABC para priorizar esforço financeiro.
  3. Rode o XYZ para entender previsibilidade e escolher método de reposição.
  4. Atribua criticidade com critérios objetivos (parada, segurança, qualidade, tempo de recuperação).
  5. Classifique risco de fornecimento (baixo/médio/alto) e substituibilidade (alta/média/baixa).
  6. Encaixe na matriz de decisão e defina política: dual sourcing, SS, contrato, kanban, consignado ou spot.
  7. Defina governança: quem revisa, periodicidade, indicadores (ruptura, OTIF, giro, cobertura) e gatilhos de mudança (novo fornecedor, mudança de lead time, alteração de consumo).

Checklist de decisão rápida (uso no dia a dia)

  • Se Crítico e Risco alto → priorize redundância (dual sourcing) + buffer (SS/estratégico) + contrato.
  • Se X (estável) → priorize kanban e revisão por parâmetros, não por urgência.
  • Se Z (irregular) → evite kanban “cego”; use revisão periódica e gatilhos por evento.
  • Se C mas Crítico → trate como crítico operacionalmente (estoque e disponibilidade), mesmo com baixo valor.
  • Se Substituibilidade baixa → aumente prevenção (contrato, SS, desenvolvimento de alternativa).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao definir a estratégia de abastecimento, por que não é adequado usar apenas a classificação ABC (valor/consumo) para decidir o nível de controle e estoque dos itens?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O ABC prioriza o esforço pelo impacto financeiro, mas não mede impacto na linha nem previsibilidade e risco. Por isso, a estratégia deve combinar ABC com XYZ, criticidade, risco de fornecimento e substituibilidade.

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