O que é o levantamento técnico (vistoria) e por que ele define o sucesso da instalação
Levantamento técnico é a vistoria detalhada do local onde o sistema fotovoltaico será instalado, com foco em confirmar viabilidade física, estrutural e operacional. O objetivo é transformar “o que parece caber” em “o que pode ser instalado com segurança e manutenção adequada”, registrando medidas, rotas e interferências para que o projeto executivo e a instalação ocorram sem improvisos.
Na prática, a vistoria responde a perguntas como: onde os módulos cabem com afastamentos corretos, onde fixar com segurança, por onde passar cabos com menor risco, onde posicionar o inversor com ventilação, qual a distância até o quadro, quais sombras existem ao longo do dia/ano e quais obstáculos (antenas, caixas d’água, árvores) podem reduzir geração ou dificultar montagem.
Preparação: o que levar e como organizar a visita
Ferramentas e itens recomendados
- Trena (5–10 m) e/ou trena a laser
- Inclinômetro (ou app confiável) para inclinação do plano
- Bússola (ou app) para azimute; ideal confirmar com referência local (evitar interferência metálica)
- Câmera/celular com boa lente e armazenamento
- Prancheta ou formulário digital (checklist + campos de medidas)
- Marcador/fita para identificar pontos (quando permitido)
- Lanterna (sótão/forro/shafts)
Informações para solicitar antes de ir
- Endereço completo e ponto de contato no local
- Fotos prévias do telhado/área externa e do quadro elétrico (se possível)
- Indicação de onde fica o medidor, quadro principal e possíveis locais do inversor
- Restrições de acesso (condomínio, horários, necessidade de autorização)
Passo a passo prático da vistoria
1) Reconhecimento geral do imóvel e do entorno
Comece com uma visão ampla para entender limitações e oportunidades:
- Tipo de edificação (casa, galpão, comércio) e altura
- Áreas candidatas: telhado, laje, solo, carport
- Obstáculos e interferências: antenas, chaminés, caixas d’água, claraboias, exaustores, para-raios, dutos, árvores, prédios vizinhos
- Possíveis rotas de cabos: internas (forro/eletrodutos) e externas (fachada/shafts)
Registro fotográfico inicial: faça fotos panorâmicas de cada face do telhado/área e do entorno (incluindo árvores e construções próximas). Essas imagens ajudam a reconstituir o cenário na etapa de projeto.
2) Inspeção do telhado (ou superfície de instalação)
2.1 Identificar o tipo de cobertura e seu estado
Classifique a cobertura e observe condições que impactam fixação e durabilidade:
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- Cerâmica/concreto: verificar telhas quebradas, empenos, cumeeira, necessidade de substituição local
- Metálica (trapezoidal/sanduíche): avaliar corrosão, espessura aparente, tipo de fixação existente, presença de vazamentos
- Fibrocimento: checar integridade, trincas e fragilidade; atenção a limitações de fixação e circulação
- Laje impermeabilizada: verificar manta, ralos, caimentos, pontos de infiltração e restrições de perfuração
Registre: idade aproximada do telhado (se o cliente souber), sinais de infiltração, áreas com manutenção recente e qualquer risco de quebra ao caminhar.
2.2 Verificar condições estruturais e pontos de ancoragem
O objetivo é localizar onde a estrutura “aceita” fixação e como distribuir cargas:
- Identifique a estrutura de suporte: caibros/ripas/terças, perfis metálicos, vigas, laje
- Procure acesso ao forro/sótão para ver espaçamentos e estado da madeira/metal (umidade, apodrecimento, corrosão)
- Mapeie onde é possível ancorar: alinhamento das terças, vigas, pontos próximos a cumeeira e beirais (conforme solução)
- Observe limitações: telhas frágeis, áreas com claraboias, recortes, calhas e rufos
Dica prática: quando não houver acesso visual à estrutura, use referências externas (parafusos aparentes em telha metálica, linhas de apoio, padrão de ripamento) e registre incertezas no relatório para validação posterior.
2.3 Medir área útil (não apenas área total)
Área útil é a área realmente disponível para módulos após descontar afastamentos e obstáculos. Meça:
- Comprimento e largura do pano de telhado (ou laje/solo)
- Recuos necessários de bordas, cumeeira, calhas e obstáculos (antenas, caixas d’água, claraboias)
- Corredores de acesso para manutenção (quando aplicável)
Exemplo de cálculo rápido:
Área útil aproximada = (Largura do pano - recuos laterais) x (Comprimento - recuos superior/inferior) - áreas de obstáculosRegistre as medidas com unidade e referência (ex.: “pano 1: 8,20 m x 4,10 m; recuo beiral 0,30 m; recuo cumeeira 0,30 m; obstáculo: caixa 1,20 m x 1,20 m”).
2.4 Medir inclinação e azimute
Inclinação e azimute influenciam a produção e a escolha do arranjo. Faça medições por pano:
- Inclinação: medir no plano do telhado (ou estimar por triângulo: altura/avanço) e registrar em graus
- Azimute: medir a direção para a qual o pano “aponta” (em graus) e registrar o método usado (bússola/app)
Boas práticas: evite medir azimute próximo a grandes massas metálicas (telhas metálicas, estruturas) que podem desviar a bússola; se usar app, registre a leitura e o local exato onde foi feita.
2.5 Medir alturas e desníveis relevantes
Alturas ajudam a planejar acesso, içamento e rotas:
- Altura do beiral em relação ao solo
- Altura até o ponto provável de passagem de cabos (ex.: entrada no forro)
- Desníveis em lajes e áreas de solo (para bases e nivelamento)
3) Avaliação de sombreamento e interferências
Sombras podem reduzir significativamente a geração e causar desbalanceamentos no arranjo. Avalie:
- Sombras fixas: caixas d’água, platibandas, chaminés, antenas, postes, edificações vizinhas
- Sombras variáveis: árvores (crescimento e poda), estruturas móveis, futuras construções (quando houver indício)
- Variação diária e sazonal: observe manhã/tarde e considere que no inverno o sol fica mais baixo (sombras mais longas)
Procedimento prático: marque no croqui as direções de sombra observadas e fotografe cada obstáculo com referência de distância aproximada e altura relativa. Quando possível, registre horários (ex.: “sombra da árvore atinge metade do pano às 16h”).
4) Definir rotas de cabos (CC e CA) e pontos de passagem
Planeje o caminho mais curto e protegido, evitando improvisos e exposição desnecessária:
- Identifique onde os cabos sairão do campo de módulos (ponto de descida)
- Verifique possibilidade de passagem interna (forro, shafts, eletrodutos existentes) versus externa (fachada)
- Mapeie obstáculos: vigas, paredes estruturais, áreas molhadas, locais de difícil acesso
- Defina pontos de perfuração/vedação (quando aplicável) e registre o tipo de superfície
Registre a distância aproximada: do campo de módulos até o local do inversor e do inversor até o quadro/medição. Essas distâncias impactam dimensionamento de cabos e perdas.
5) Avaliar o quadro elétrico e a distância até o ponto de conexão
Sem entrar em normas, a vistoria deve levantar informações físicas e de espaço:
- Localização do quadro principal e do medidor
- Espaço físico disponível para acomodar novos componentes (área livre no quadro, possibilidade de caixa adicional)
- Condição aparente: organização, aquecimento, sinais de oxidação, identificação de circuitos
- Distância e rota provável entre inversor e quadro
Fotos obrigatórias: quadro aberto (com cuidado e autorização), etiqueta/identificação do medidor, e visão geral do local do quadro (para avaliar ventilação e acesso).
6) Escolher o local do inversor: critérios práticos
O local do inversor deve equilibrar ventilação, proteção e facilidade de manutenção:
- Ventilação: evitar locais confinados e quentes; prever circulação de ar ao redor
- Proteção: evitar sol direto e chuva; preferir área coberta e seca
- Acesso: permitir leitura de indicadores, operação e manutenção sem desmontagens
- Proximidade: reduzir distâncias de cabos (principalmente entre módulos e inversor, e inversor e quadro)
- Ruído: evitar proximidade de dormitórios/ambientes sensíveis quando houver possibilidade de ruído operacional
Checklist rápido no local do inversor: parede firme, espaço lateral e superior, rota de cabos definida, ponto de fixação acessível, ausência de goteiras e fontes de calor.
7) Acesso para instalação e manutenção
Registre como a equipe chegará ao local e como fará manutenção futura:
- Ponto de acesso ao telhado (escada, alçapão, acesso interno)
- Espaço para movimentação e armazenamento temporário de materiais
- Condições do piso/solo (escorregadio, inclinação, fragilidade)
- Necessidade de içamento (guincho, cordas) e local seguro para isso
Medições essenciais: como medir e como registrar
Lista mínima de medições por área candidata
- Área útil (m²): dimensões do pano e recuos/obstáculos
- Inclinação (graus): por pano
- Azimute (graus): por pano
- Alturas (m): beiral/platibanda e pontos de passagem
- Distâncias de cabos (m): módulos → inversor; inversor → quadro
- Distância a obstáculos (m): árvore/prédio/antena até o campo de módulos (quando relevante)
Como fazer um croqui simples (suficiente para projeto)
Desenhe um croqui em planta e, se necessário, um corte lateral:
- Planta: contorno do telhado/laje/solo, obstáculos, setas de norte, indicação dos panos
- Corte: inclinação, alturas, platibandas e sombreamentos principais
- Numere panos e obstáculos para relacionar com fotos (ex.: “Foto 07 – Obstáculo O2: caixa d’água”)
Padrão de registro fotográfico (roteiro)
- Foto 1–2: fachada e visão geral do imóvel
- Foto 3–6: cada pano do telhado (uma foto frontal e uma em ângulo)
- Foto 7–10: obstáculos e interferências (antenas, caixas d’água, árvores, claraboias)
- Foto 11–12: local sugerido do inversor (visão geral + detalhe da parede)
- Foto 13–15: rota de cabos (pontos de descida, passagens, eletrodutos)
- Foto 16–18: quadro elétrico (visão geral + interno + identificação do medidor)
Dica prática: fotografe sempre com um ponto de referência (trena aparecendo, canto de parede, beiral) para facilitar estimativas posteriores.
Critérios para decidir entre telhado, laje, solo ou carport
| Opção | Quando tende a ser a melhor escolha | Pontos de atenção na vistoria |
|---|---|---|
| Telhado | Há área útil suficiente, baixa interferência de sombras e boa condição de fixação; menor ocupação de espaço no terreno | Tipo/estado da cobertura, pontos de ancoragem, acesso, obstáculos (caixas/antenas), rotas de cabos e distância até inversor/quadro |
| Laje | Superfície plana com boa área e acesso; permite ajuste de inclinação com estruturas; facilita manutenção | Impermeabilização (restrição de perfuração), caimento e drenagem, necessidade de lastro, ventos, platibandas gerando sombras |
| Solo | Terreno disponível, fácil acesso e manutenção; permite orientação/inclinação ideais e expansão futura | Sombras de árvores/edificações, nivelamento, drenagem, proteção contra vandalismo/impacto, distância maior até quadro/inversor |
| Carport | Necessidade de cobertura para veículos + geração; solução estética e funcional | Estrutura (nova ou existente), altura livre, sombreamento por edificações, rotas de cabos, drenagem e acesso para manutenção |
Regra prática de decisão (checklist de viabilidade)
- Viável se: área útil comporta o arranjo, sombreamento é baixo/gerenciável, há pontos de fixação confiáveis, rota de cabos é clara e o inversor tem local adequado
- Requer ajustes se: há sombras parciais em horários específicos, obstáculos removíveis (antena reposicionável), necessidade de pequenas adequações (troca de telhas, criação de eletroduto)
- Não recomendado se: cobertura deteriorada/sem ancoragem confiável, sombreamento severo e constante, acesso muito restrito, ou rota de cabos inviável sem obras significativas
Modelo de relatório de vistoria (campos obrigatórios)
Use o modelo abaixo como formulário. Ele pode ser impresso ou preenchido em aplicativo, mas deve manter os campos essenciais para rastreabilidade.
1) Identificação
- Cliente/Responsável:
- Endereço:
- Data e horário da vistoria:
- Técnico responsável:
- Tipo de imóvel (residencial/comercial/industrial):
- Contato no local:
2) Áreas candidatas avaliadas
- ( ) Telhado ( ) Laje ( ) Solo ( ) Carport
- Observações gerais do entorno (árvores, prédios, antenas, caixas d’água):
3) Telhado/Laje/Solo — dados por área (replicar para cada pano/área)
| Campo | Preenchimento |
|---|---|
| Identificação da área | Ex.: Pano T1 / Laje L1 / Solo S1 |
| Tipo de cobertura/superfície | Ex.: cerâmica, metálica, laje impermeabilizada, solo compactado |
| Estado de conservação | Ex.: bom / regular / ruim + descrição |
| Dimensões (m) | Largura x Comprimento |
| Área útil estimada (m²) | Com recuos e obstáculos |
| Inclinação (°) | Valor e método |
| Azimute (°) | Valor e método |
| Altura relevante (m) | Beiral/platibanda/nível do solo |
| Obstáculos na área | Lista + dimensões + posição no croqui |
| Pontos de ancoragem | Descrição de onde fixar e limitações |
| Acesso | Como acessar e circular |
| Sombreamento | Fontes, horários, meses críticos (se estimado) |
4) Rotas de cabos e distâncias
- Ponto de saída do campo de módulos (descrição + foto):
- Rota proposta (interna/externa) e pontos de passagem:
- Distância estimada módulos → inversor (m):
- Distância estimada inversor → quadro (m):
- Necessidade de eletroduto/canaleta adicional (sim/não) + onde:
5) Local do inversor (proposta)
- Local sugerido:
- Motivo (ventilação, proteção, acesso, proximidade):
- Condições do ambiente (calor, umidade, poeira):
- Fixação (parede/estrutura) e espaço disponível:
6) Quadro elétrico e ponto de conexão (levantamento físico)
- Localização do quadro principal:
- Condição aparente e organização:
- Espaço físico disponível (observação):
- Fotos anexadas (sim/não):
7) Registro fotográfico (obrigatório)
- Lista de fotos anexadas (numeradas) + descrição curta de cada uma:
- Croqui anexado (sim/não):
8) Decisão recomendada (com critérios)
| Alternativa | Status | Critérios observados |
|---|---|---|
| Telhado | Aprovado / Ajustes / Reprovado | Área útil, ancoragem, sombras, acesso, rota de cabos |
| Laje | Aprovado / Ajustes / Reprovado | Impermeabilização, lastro, sombras, acesso |
| Solo | Aprovado / Ajustes / Reprovado | Sombras, nivelamento, segurança, distância |
| Carport | Aprovado / Ajustes / Reprovado | Estrutura, altura livre, sombras, drenagem |
9) Pendências para validação
- Itens que precisam de confirmação (ex.: acesso ao forro, condição estrutural não visível, necessidade de poda, autorização do condomínio):
- Responsável e prazo para retorno: