Anatomia de uma transmissão padronizada
Em fraseologia aeronáutica e marítima, uma mensagem eficiente é construída com componentes previsíveis, em ordem lógica, para reduzir ambiguidades e facilitar a leitura de volta (readback) e a confirmação (roger/afirmativo). A ideia é que o destinatário identifique rapidamente: quem está chamando, de onde fala, o que quer, quais dados críticos envolvem segurança e como a troca termina.
Componentes essenciais (modelo mental)
- Destinatário: quem deve receber/agir (ex.: Torre, Aproximação, Estação Costeira, Navio X).
- Identificação: quem fala (callsign/indicativo) e, quando útil, tipo de aeronave/embarcação.
- Localização/posição: onde você está (ponto, radial, distância, nível/altitude, rumo, referência visual; no mar, posição geográfica/rumo/velocidade).
- Intenção/solicitação: o que você pretende ou pede (autorização, informação, mudança de nível, entrada/saída, manobra, canal, etc.).
- Informações de segurança: dados críticos que afetam separação, navegação e risco (pista, nível/altitude, rumo, QNH, posição, velocidade, canal, tráfego, restrições, condições).
- Fechamento: confirmação/encerramento operacional (ex.: “câmbio”, “aguardando”, “mantendo escuta”, “stand by”).
Estrutura-base (template)
Use como “esqueleto” e adapte ao contexto:
[DESTINATÁRIO], [IDENTIFICAÇÃO], [POSIÇÃO], [INTENÇÃO/SOLICITAÇÃO], [INFORMAÇÕES CRÍTICAS], [FECHAMENTO].Exemplo (aeronáutico, genérico):
Torre, PT-ABC, na final pista 27, solicito autorização para pouso, vento informado, PT-ABC.Exemplo (marítimo, genérico):
Estação Costeira, Navio ALFA, posição 23 graus 10 minutos Sul 043 graus 12 minutos Oeste, solicitando informação de tráfego na área, câmbio.Passo a passo prático para montar a mensagem
Passo 1 — Defina o objetivo em uma frase
Antes de transmitir, formule mentalmente a intenção em linguagem simples: “quero autorização para…”, “vou reportar…”, “preciso confirmar…”. Isso evita mensagens longas e reordenações durante a fala.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Passo 2 — Escolha o destinatário correto
Comece pelo destinatário para “capturar” a atenção da estação certa. Em ambientes com várias estações no mesmo canal/frequência, isso reduz interferência operacional.
Passo 3 — Identifique-se de forma consistente
Use o callsign/indicativo conforme o padrão local. Em comunicações com múltiplas aeronaves/embarcações, a identificação deve aparecer no início e, quando necessário, no final para evitar confusão em gravações e anotações.
Passo 4 — Informe posição apenas no nível necessário
Posição deve ser suficiente para que o destinatário entenda contexto e prioridade. Excesso de detalhes pode atrasar a transmissão; falta de detalhes pode gerar perguntas adicionais.
- Aviação: ponto de reporte, perna do circuito (vento em cauda/base/final), radial/distância, nível/altitude, rumo, estimado.
- Mar: latitude/longitude, rumo (course), velocidade (speed), distância/rumo para um ponto conhecido, setor/área.
Passo 5 — Declare intenção/solicitação com verbo claro
Prefira verbos operacionais: “solicito”, “requeiro”, “reporto”, “confirmo”, “mantendo”, “iniciando”, “alterando”. Evite rodeios (“a gente queria ver se dá…”).
Passo 6 — Inclua dados críticos e restrições
Se a ação depende de parâmetros (pista, nível, rumo, QNH, canal, velocidade), inclua-os no mesmo bloco da solicitação ou imediatamente após, para reduzir idas e voltas.
Passo 7 — Feche com o que você fará a seguir
Indique se ficará aguardando, mantendo escuta, ou se a mensagem exige confirmação imediata. Em alguns casos, repetir o callsign/indicativo no final ajuda a fixar quem executará a instrução.
Quando e por que repetir elementos críticos
Repetição não é “redundância gratuita”: é uma técnica de segurança para itens que, se entendidos errado, geram risco imediato. A repetição pode ocorrer em duas situações principais: (1) na própria emissão, para dar ênfase e clareza; (2) no readback, para confirmar que a instrução foi recebida corretamente.
Itens que merecem repetição/ênfase
| Elemento crítico | Por que é crítico | Quando repetir |
|---|---|---|
| Pista | Erro de pista pode causar incursão/colisão | Ao receber/confirmar autorização de pouso/decolagem, alinhamento, cruzamento |
| Nível/altitude | Separação vertical e risco de colisão | Em autorizações, mudanças de nível, restrições (“mantendo…”, “subindo para…”) e readback |
| Rumo (heading/course) | Separação lateral e navegação | Em vetorações, desvios, manobras, aproximações, mudanças de rota |
| QNH | Altimetria correta; erro afeta altitude indicada | Ao receber ajuste e ao confirmar ajuste aplicado quando requerido |
| Posição | Consciência situacional e coordenação | Em relatórios de posição, emergências, tráfego intenso, baixa visibilidade |
| Velocidade | Separação, sequência, manobra | Quando houver instrução/limite de velocidade e no readback |
| Canal/frequência | Contato com a estação correta | Ao receber instrução de mudança e ao confirmar a mudança |
Como repetir sem alongar demais
- Repita apenas o item crítico, não a frase inteira.
- Use ordem fixa (ex.: “pista, nível, rumo” quando aplicável).
- Readback objetivo: callsign + itens críticos + ação.
Modelo de readback (genérico):
[IDENTIFICAÇÃO], [AÇÃO] pista XX, [NÍVEL/ALTITUDE] XXXX, [RUMO] XXX, QNH XXXX.Modelos de frases (aeronáutico e marítimo)
Os modelos abaixo são “blocos” reutilizáveis. Substitua os campos entre colchetes pelos seus dados.
1) Solicitar informações
Aviação
[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito informações de aeródromo.[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito QNH.[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito pista em uso e vento.[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito tráfego na área/na final.
Mar
[ESTAÇÃO/NAVIO], [INDICATIVO], solicito informação de tráfego na área, câmbio.[ESTAÇÃO], [INDICATIVO], solicito condições meteorológicas/estado do mar para [ÁREA], câmbio.[NAVIO], [INDICATIVO], solicito sua posição, câmbio.
2) Reportar intenção
Aviação
[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], [POSIÇÃO], intenção [AÇÃO] (ex.: ingressar no circuito / realizar aproximação / arremeter).[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], mantendo [ALTITUDE/NÍVEL], prosseguindo para [PONTO].
Mar
[NAVIO/ESTAÇÃO], [INDICATIVO], posição [LAT/LONG], rumo [RUMO], velocidade [VEL], intenção alterar rumo para [NOVO RUMO], câmbio.[NAVIO], [INDICATIVO], intenção ultrapassar por [BOMBORDO/ESTIBORDO], câmbio.
3) Confirmar instruções (readback/acknowledgement)
Aviação
[CALLSIGN], autorizado pouso pista [XX].[CALLSIGN], alinhando e decolando pista [XX].[CALLSIGN], subindo para [ALTITUDE/NÍVEL] [XXXX], rumo [XXX], QNH [XXXX].[CALLSIGN], mudando para [FREQUÊNCIA], [CALLSIGN].
Mar
[INDICATIVO], recebido. Alterando para canal [XX], câmbio.[INDICATIVO], entendido. Mantendo rumo [XXX] e velocidade [XX] nós, câmbio.
4) Relatar condições (operacionais e ambientais)
Aviação
[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], reporto vento [DIREÇÃO] [INTENSIDADE], pista [COND.], visibilidade [VALOR].[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], reporto turbulência/tesoura de vento em [POSIÇÃO/ALTITUDE].[DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], reporto tráfego em [POSIÇÃO], [ALTITUDE], [DIREÇÃO].
Mar
[ESTAÇÃO/NAVIO], [INDICATIVO], reporto visibilidade [VALOR], vento [DIREÇÃO/INTENSIDADE], mar [ESTADO], câmbio.[ESTAÇÃO], [INDICATIVO], reporto avaria/condição de segurança: [DESCRIÇÃO], posição [LAT/LONG], câmbio.
Erros comuns ao montar a mensagem (e correções rápidas)
- Começar falando sem destinatário → sempre inicie com quem deve agir.
- Identificação tardia → callsign/indicativo no começo; repita no final quando houver instrução crítica.
- Pedido sem contexto (“solicito pouso”) → inclua posição e pista/intenções quando relevante.
- Dados críticos espalhados → agrupe pista/nível/rumo/QNH/velocidade/canal em bloco.
- Readback incompleto → repita os itens críticos, não apenas “copiado/roger”.
Exercícios guiados: do coloquial ao padronizado
Instrução: reescreva cada mensagem coloquial usando o template [DESTINATÁRIO], [IDENTIFICAÇÃO], [POSIÇÃO], [INTENÇÃO/SOLICITAÇÃO], [DADOS CRÍTICOS], [FECHAMENTO]. Em seguida, compare com a sugestão.
Exercício 1 — Solicitar informação (aviação)
Coloquial: “Torre, aqui é o Papa Tango ABC, tô chegando aí, como tá o vento e qual pista tá usando?”
Passos:
- Destinatário: Torre
- Identificação: PT-ABC
- Posição: “aproximando” (melhorar com referência: setor/distância/altitude se disponível)
- Solicitação: pista em uso e vento
Sugestão padronizada:
Torre, PT-ABC, aproximando para pouso, solicito pista em uso e vento, PT-ABC.Exercício 2 — Reportar intenção e posição (aviação)
Coloquial: “Tô na perna do vento em cauda e vou fazer toque e arremetida.”
Passos:
- Destinatário: Torre (ou tráfego, conforme cenário)
- Identificação: [CALLSIGN]
- Posição: perna do vento em cauda
- Intenção: toque e arremetida
Sugestão padronizada:
Torre, [CALLSIGN], perna do vento em cauda, intenção toque e arremetida, [CALLSIGN].Exercício 3 — Confirmar instrução com itens críticos (aviação)
Coloquial: “Beleza, vou subir e virar pra direita.”
Cenário: Você recebeu: “Suba para 5.000 pés, rumo 090, QNH 1015.”
Passos:
- Readback deve conter altitude, rumo e QNH
- Inclua identificação
Sugestão padronizada:
[CALLSIGN], subindo para 5.000, rumo 090, QNH 1015.Exercício 4 — Mudança de canal (mar)
Coloquial: “Vamos falar no 72 então.”
Passos:
- Destinatário: navio/estação com quem você coordena
- Identificação: seu indicativo
- Solicitação/ação: mudar para canal 72
- Fechamento: câmbio
Sugestão padronizada:
[NAVIO/ESTAÇÃO], [INDICATIVO], mudando para canal 72, câmbio.Exercício 5 — Relatar condição (mar)
Coloquial: “Aqui tá com neblina e tá meio ruim de ver, tô indo devagar.”
Passos:
- Destinatário: estação costeira ou navio relevante
- Identificação: indicativo
- Posição: lat/long ou referência
- Condição: visibilidade reduzida
- Segurança: velocidade atual (se relevante) e intenção (manter velocidade reduzida)
Sugestão padronizada:
[ESTAÇÃO/NAVIO], [INDICATIVO], posição [LAT/LONG], reporto visibilidade reduzida, mantendo velocidade [XX] nós, câmbio.Exercício 6 — Transformação livre (misto)
Coloquial: “Tô passando perto de você pela direita, não vou atrapalhar.”
Tarefa: Reescreva informando: destinatário, indicativo, posição relativa, intenção (passar por estibordo/direita), e fechamento.
Modelo de resposta:
[NAVIO], [INDICATIVO], [POSIÇÃO RELATIVA], intenção passar por estibordo, câmbio.