Componentes da Mensagem em Fraseologia Aeronáutica e Marítima

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Anatomia de uma transmissão padronizada

Em fraseologia aeronáutica e marítima, uma mensagem eficiente é construída com componentes previsíveis, em ordem lógica, para reduzir ambiguidades e facilitar a leitura de volta (readback) e a confirmação (roger/afirmativo). A ideia é que o destinatário identifique rapidamente: quem está chamando, de onde fala, o que quer, quais dados críticos envolvem segurança e como a troca termina.

Componentes essenciais (modelo mental)

  • Destinatário: quem deve receber/agir (ex.: Torre, Aproximação, Estação Costeira, Navio X).
  • Identificação: quem fala (callsign/indicativo) e, quando útil, tipo de aeronave/embarcação.
  • Localização/posição: onde você está (ponto, radial, distância, nível/altitude, rumo, referência visual; no mar, posição geográfica/rumo/velocidade).
  • Intenção/solicitação: o que você pretende ou pede (autorização, informação, mudança de nível, entrada/saída, manobra, canal, etc.).
  • Informações de segurança: dados críticos que afetam separação, navegação e risco (pista, nível/altitude, rumo, QNH, posição, velocidade, canal, tráfego, restrições, condições).
  • Fechamento: confirmação/encerramento operacional (ex.: “câmbio”, “aguardando”, “mantendo escuta”, “stand by”).

Estrutura-base (template)

Use como “esqueleto” e adapte ao contexto:

[DESTINATÁRIO], [IDENTIFICAÇÃO], [POSIÇÃO], [INTENÇÃO/SOLICITAÇÃO], [INFORMAÇÕES CRÍTICAS], [FECHAMENTO].

Exemplo (aeronáutico, genérico):

Torre, PT-ABC, na final pista 27, solicito autorização para pouso, vento informado, PT-ABC.

Exemplo (marítimo, genérico):

Estação Costeira, Navio ALFA, posição 23 graus 10 minutos Sul 043 graus 12 minutos Oeste, solicitando informação de tráfego na área, câmbio.

Passo a passo prático para montar a mensagem

Passo 1 — Defina o objetivo em uma frase

Antes de transmitir, formule mentalmente a intenção em linguagem simples: “quero autorização para…”, “vou reportar…”, “preciso confirmar…”. Isso evita mensagens longas e reordenações durante a fala.

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Passo 2 — Escolha o destinatário correto

Comece pelo destinatário para “capturar” a atenção da estação certa. Em ambientes com várias estações no mesmo canal/frequência, isso reduz interferência operacional.

Passo 3 — Identifique-se de forma consistente

Use o callsign/indicativo conforme o padrão local. Em comunicações com múltiplas aeronaves/embarcações, a identificação deve aparecer no início e, quando necessário, no final para evitar confusão em gravações e anotações.

Passo 4 — Informe posição apenas no nível necessário

Posição deve ser suficiente para que o destinatário entenda contexto e prioridade. Excesso de detalhes pode atrasar a transmissão; falta de detalhes pode gerar perguntas adicionais.

  • Aviação: ponto de reporte, perna do circuito (vento em cauda/base/final), radial/distância, nível/altitude, rumo, estimado.
  • Mar: latitude/longitude, rumo (course), velocidade (speed), distância/rumo para um ponto conhecido, setor/área.

Passo 5 — Declare intenção/solicitação com verbo claro

Prefira verbos operacionais: “solicito”, “requeiro”, “reporto”, “confirmo”, “mantendo”, “iniciando”, “alterando”. Evite rodeios (“a gente queria ver se dá…”).

Passo 6 — Inclua dados críticos e restrições

Se a ação depende de parâmetros (pista, nível, rumo, QNH, canal, velocidade), inclua-os no mesmo bloco da solicitação ou imediatamente após, para reduzir idas e voltas.

Passo 7 — Feche com o que você fará a seguir

Indique se ficará aguardando, mantendo escuta, ou se a mensagem exige confirmação imediata. Em alguns casos, repetir o callsign/indicativo no final ajuda a fixar quem executará a instrução.

Quando e por que repetir elementos críticos

Repetição não é “redundância gratuita”: é uma técnica de segurança para itens que, se entendidos errado, geram risco imediato. A repetição pode ocorrer em duas situações principais: (1) na própria emissão, para dar ênfase e clareza; (2) no readback, para confirmar que a instrução foi recebida corretamente.

Itens que merecem repetição/ênfase

Elemento críticoPor que é críticoQuando repetir
PistaErro de pista pode causar incursão/colisãoAo receber/confirmar autorização de pouso/decolagem, alinhamento, cruzamento
Nível/altitudeSeparação vertical e risco de colisãoEm autorizações, mudanças de nível, restrições (“mantendo…”, “subindo para…”) e readback
Rumo (heading/course)Separação lateral e navegaçãoEm vetorações, desvios, manobras, aproximações, mudanças de rota
QNHAltimetria correta; erro afeta altitude indicadaAo receber ajuste e ao confirmar ajuste aplicado quando requerido
PosiçãoConsciência situacional e coordenaçãoEm relatórios de posição, emergências, tráfego intenso, baixa visibilidade
VelocidadeSeparação, sequência, manobraQuando houver instrução/limite de velocidade e no readback
Canal/frequênciaContato com a estação corretaAo receber instrução de mudança e ao confirmar a mudança

Como repetir sem alongar demais

  • Repita apenas o item crítico, não a frase inteira.
  • Use ordem fixa (ex.: “pista, nível, rumo” quando aplicável).
  • Readback objetivo: callsign + itens críticos + ação.

Modelo de readback (genérico):

[IDENTIFICAÇÃO], [AÇÃO] pista XX, [NÍVEL/ALTITUDE] XXXX, [RUMO] XXX, QNH XXXX.

Modelos de frases (aeronáutico e marítimo)

Os modelos abaixo são “blocos” reutilizáveis. Substitua os campos entre colchetes pelos seus dados.

1) Solicitar informações

Aviação

  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito informações de aeródromo.
  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito QNH.
  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito pista em uso e vento.
  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], solicito tráfego na área/na final.

Mar

  • [ESTAÇÃO/NAVIO], [INDICATIVO], solicito informação de tráfego na área, câmbio.
  • [ESTAÇÃO], [INDICATIVO], solicito condições meteorológicas/estado do mar para [ÁREA], câmbio.
  • [NAVIO], [INDICATIVO], solicito sua posição, câmbio.

2) Reportar intenção

Aviação

  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], [POSIÇÃO], intenção [AÇÃO] (ex.: ingressar no circuito / realizar aproximação / arremeter).
  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], mantendo [ALTITUDE/NÍVEL], prosseguindo para [PONTO].

Mar

  • [NAVIO/ESTAÇÃO], [INDICATIVO], posição [LAT/LONG], rumo [RUMO], velocidade [VEL], intenção alterar rumo para [NOVO RUMO], câmbio.
  • [NAVIO], [INDICATIVO], intenção ultrapassar por [BOMBORDO/ESTIBORDO], câmbio.

3) Confirmar instruções (readback/acknowledgement)

Aviação

  • [CALLSIGN], autorizado pouso pista [XX].
  • [CALLSIGN], alinhando e decolando pista [XX].
  • [CALLSIGN], subindo para [ALTITUDE/NÍVEL] [XXXX], rumo [XXX], QNH [XXXX].
  • [CALLSIGN], mudando para [FREQUÊNCIA], [CALLSIGN].

Mar

  • [INDICATIVO], recebido. Alterando para canal [XX], câmbio.
  • [INDICATIVO], entendido. Mantendo rumo [XXX] e velocidade [XX] nós, câmbio.

4) Relatar condições (operacionais e ambientais)

Aviação

  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], reporto vento [DIREÇÃO] [INTENSIDADE], pista [COND.], visibilidade [VALOR].
  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], reporto turbulência/tesoura de vento em [POSIÇÃO/ALTITUDE].
  • [DESTINATÁRIO], [CALLSIGN], reporto tráfego em [POSIÇÃO], [ALTITUDE], [DIREÇÃO].

Mar

  • [ESTAÇÃO/NAVIO], [INDICATIVO], reporto visibilidade [VALOR], vento [DIREÇÃO/INTENSIDADE], mar [ESTADO], câmbio.
  • [ESTAÇÃO], [INDICATIVO], reporto avaria/condição de segurança: [DESCRIÇÃO], posição [LAT/LONG], câmbio.

Erros comuns ao montar a mensagem (e correções rápidas)

  • Começar falando sem destinatário → sempre inicie com quem deve agir.
  • Identificação tardia → callsign/indicativo no começo; repita no final quando houver instrução crítica.
  • Pedido sem contexto (“solicito pouso”) → inclua posição e pista/intenções quando relevante.
  • Dados críticos espalhados → agrupe pista/nível/rumo/QNH/velocidade/canal em bloco.
  • Readback incompleto → repita os itens críticos, não apenas “copiado/roger”.

Exercícios guiados: do coloquial ao padronizado

Instrução: reescreva cada mensagem coloquial usando o template [DESTINATÁRIO], [IDENTIFICAÇÃO], [POSIÇÃO], [INTENÇÃO/SOLICITAÇÃO], [DADOS CRÍTICOS], [FECHAMENTO]. Em seguida, compare com a sugestão.

Exercício 1 — Solicitar informação (aviação)

Coloquial: “Torre, aqui é o Papa Tango ABC, tô chegando aí, como tá o vento e qual pista tá usando?”

Passos:

  • Destinatário: Torre
  • Identificação: PT-ABC
  • Posição: “aproximando” (melhorar com referência: setor/distância/altitude se disponível)
  • Solicitação: pista em uso e vento

Sugestão padronizada:

Torre, PT-ABC, aproximando para pouso, solicito pista em uso e vento, PT-ABC.

Exercício 2 — Reportar intenção e posição (aviação)

Coloquial: “Tô na perna do vento em cauda e vou fazer toque e arremetida.”

Passos:

  • Destinatário: Torre (ou tráfego, conforme cenário)
  • Identificação: [CALLSIGN]
  • Posição: perna do vento em cauda
  • Intenção: toque e arremetida

Sugestão padronizada:

Torre, [CALLSIGN], perna do vento em cauda, intenção toque e arremetida, [CALLSIGN].

Exercício 3 — Confirmar instrução com itens críticos (aviação)

Coloquial: “Beleza, vou subir e virar pra direita.”

Cenário: Você recebeu: “Suba para 5.000 pés, rumo 090, QNH 1015.”

Passos:

  • Readback deve conter altitude, rumo e QNH
  • Inclua identificação

Sugestão padronizada:

[CALLSIGN], subindo para 5.000, rumo 090, QNH 1015.

Exercício 4 — Mudança de canal (mar)

Coloquial: “Vamos falar no 72 então.”

Passos:

  • Destinatário: navio/estação com quem você coordena
  • Identificação: seu indicativo
  • Solicitação/ação: mudar para canal 72
  • Fechamento: câmbio

Sugestão padronizada:

[NAVIO/ESTAÇÃO], [INDICATIVO], mudando para canal 72, câmbio.

Exercício 5 — Relatar condição (mar)

Coloquial: “Aqui tá com neblina e tá meio ruim de ver, tô indo devagar.”

Passos:

  • Destinatário: estação costeira ou navio relevante
  • Identificação: indicativo
  • Posição: lat/long ou referência
  • Condição: visibilidade reduzida
  • Segurança: velocidade atual (se relevante) e intenção (manter velocidade reduzida)

Sugestão padronizada:

[ESTAÇÃO/NAVIO], [INDICATIVO], posição [LAT/LONG], reporto visibilidade reduzida, mantendo velocidade [XX] nós, câmbio.

Exercício 6 — Transformação livre (misto)

Coloquial: “Tô passando perto de você pela direita, não vou atrapalhar.”

Tarefa: Reescreva informando: destinatário, indicativo, posição relativa, intenção (passar por estibordo/direita), e fechamento.

Modelo de resposta:

[NAVIO], [INDICATIVO], [POSIÇÃO RELATIVA], intenção passar por estibordo, câmbio.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao montar uma transmissão padronizada em fraseologia aeronáutica ou marítima, qual sequência melhor reduz ambiguidades e facilita o readback?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A estrutura padronizada começa pelo destinatário para captar a estação correta, segue com identificação e posição para dar contexto, declara a intenção/solicitação com clareza, inclui os dados críticos de segurança e finaliza com o fechamento operacional.

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