Triângulo e tetraedro do fogo
Para entender o combate a incêndio, comece pelos elementos que sustentam a combustão. O triângulo do fogo reúne: combustível (o que queima), comburente (oxigênio do ar, em geral) e calor (energia para iniciar e manter a reação). O tetraedro do fogo acrescenta o quarto elemento: a reação em cadeia (processo químico autoalimentado que mantém a combustão).
Ideia-chave para prova e operação: extinguir é remover ou reduzir pelo menos um desses elementos. Em incêndios reais, muitas vezes você atua em mais de um: resfriar com água (calor), abafar com espuma (oxigênio), retirar/isolamento do combustível (combustível) e interromper reação em cadeia (pó químico e alguns agentes especiais).
Exemplo prático
- Panela com óleo em chamas: retirar o calor (desligar fonte), abafar (tampa/manta) e evitar água (risco de projeção e expansão violenta).
- Incêndio em papel/lixo: resfriar com água e, se necessário, afastar materiais adjacentes (reduzir combustível).
Propagação de calor e leitura do incêndio
O fogo se espalha porque o calor se transfere para novos combustíveis, elevando sua temperatura até a ignição. As principais formas de propagação de calor são:
- Condução: transferência através de um sólido. Ex.: viga metálica aquecida levando calor a outro cômodo.
- Convecção: transporte pelo movimento de gases quentes e fumaça. Ex.: gases quentes subindo por escada e aquecendo o pavimento superior.
- Radiação: energia térmica em ondas, sem contato. Ex.: calor irradiado quebrando vidros e aquecendo cortinas próximas.
Na prática, a convecção costuma dominar em ambientes compartimentados: a camada de fumaça quente se acumula no teto, desce com o aumento de temperatura e pode levar a eventos extremos (flashover). A radiação é crítica em incêndios com muita carga térmica e em exposições (proteção de edificações vizinhas).
Sinais operacionais úteis (terminologia comum)
- Camada neutra: zona onde a pressão interna se iguala à externa; acima tende a sair fumaça, abaixo tende a entrar ar.
- Fumaça: cor, densidade, velocidade e pulsação ajudam a inferir temperatura e ventilação. Fumaça escura, densa e sob pressão sugere alta energia e ventilação limitada.
- Rolagem de chamas (rollover): línguas de fogo na camada de gases, indicando gases inflamáveis aquecidos.
Classes de incêndio (classificação e implicações)
A classificação orienta o agente extintor e a técnica. Um resumo prático:
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- Classe A: sólidos combustíveis comuns (papel, madeira, tecido). Forma brasas. Melhor: água (resfriamento), espuma também pode atuar.
- Classe B: líquidos inflamáveis/combustíveis e gases inflamáveis (gasolina, solventes, GLP). Melhor: espuma (abafamento) e pó químico; água em jato direto pode espalhar líquido.
- Classe C: equipamentos energizados. Melhor: agentes não condutores (CO2, pó químico). Após desenergizar, o material passa a ser A ou B conforme o combustível.
- Classe D: metais pirofóricos/combustíveis (magnésio, sódio, titânio). Melhor: pós especiais; água pode reagir violentamente em alguns casos.
- Classe K (ou F, conforme norma local): óleos e gorduras de cozinha. Melhor: agente específico (saponificação) e abafamento; água é perigosa.
Armadilhas frequentes em prova
- “Classe C” não é um tipo de material, e sim uma condição: energizado.
- Água conduz eletricidade: em C, use jato adequado e distância segura apenas se for procedimento previsto; preferir CO2/pó e desenergizar.
- Em B, a técnica (neblina/espuma) importa tanto quanto o agente.
Agentes extintores e mecanismos de extinção
Os principais agentes e como atuam no tetraedro:
- Água: resfriamento (reduz calor). Em neblina, também pode ajudar a deslocar oxigênio localmente e reduzir radiação.
- Espuma: forma uma película que separa combustível do oxigênio (abafamento) e reduz vaporização em líquidos (B).
- Pó químico seco (PQS): interrompe reação em cadeia e pode abafar parcialmente. Muito útil em B e C.
- CO2: desloca oxigênio e resfria superficialmente; bom para C e pequenos focos em B, com atenção ao risco de asfixia em locais confinados.
- Agentes especiais (classe D e K): formulados para reações específicas (isolamento, saponificação, etc.).
Seleção rápida (raciocínio de prova)
- Se há brasas e penetração necessária: água (A).
- Se há superfície líquida com vapores: espuma (B).
- Se há energia elétrica: CO2/PQS e desenergização (C).
- Se há metal reativo: pó especial (D).
Técnicas de extinção: resfriamento, abafamento, isolamento e ataque
As técnicas combinam agente, padrão de jato e posicionamento. Conceitualmente:
- Resfriamento: reduzir temperatura do combustível e dos gases (água).
- Abafamento: reduzir oxigênio disponível (espuma, CO2, manta, fechamento controlado).
- Isolamento/retirada: remover combustível ou criar aceiros e afastamentos.
- Inibição química: interromper reação em cadeia (PQS).
Ataque direto, indireto e combinado
- Direto: aplicação no material em combustão. Ex.: fogo em colchão (A) com jato sólido ou neblina curta para penetrar e resfriar.
- Indireto: aplicação na camada de gases/ambiente para resfriar gases e reduzir energia (neblina), comum em compartimentos com alta temperatura.
- Combinado: pulsos na camada de gases e, em seguida, aplicação no combustível, buscando controlar o ambiente e extinguir o foco.
Passo a passo prático: ataque interno básico (nível conceitual)
- 1) Avaliar: tipo de ocupação, provável classe do incêndio, ventilação (aberturas), vítimas, rota de fuga e sinais de fogo em gases.
- 2) Definir linha e esguicho: selecionar diâmetro/linha e padrão (sólido/neblina) conforme objetivo (penetração vs resfriamento de gases).
- 3) Garantir suprimento: hidrante, viatura, recalque, pressurização e reserva.
- 4) Entrada controlada: progressão com proteção, controle de porta e aplicação de pulsos curtos na camada de gases quando necessário.
- 5) Extinção do foco: aplicar no combustível, revirar/inspecionar (overhaul) com cuidado para não reintroduzir oxigênio em ambiente instável.
- 6) Ventilar de forma coordenada: somente quando houver linha pronta e objetivo definido (ver seção de ventilação).
Ventilação: objetivos, tipos e coordenação
Ventilar não é “tirar fumaça” apenas; é controlar o fluxo de gases e a energia do incêndio. Ventilação mal coordenada pode aumentar a intensidade ao fornecer oxigênio.
Objetivos
- Melhorar visibilidade e reduzir temperatura para progressão.
- Reduzir concentração de gases tóxicos.
- Direcionar fumaça e calor para fora, protegendo rotas e vítimas.
Tipos (visão operacional)
- Ventilação natural: uso de aberturas existentes (portas/janelas), com controle de porta para limitar entrada de ar.
- Ventilação vertical: abertura superior (telhado) para liberar gases quentes; exige avaliação estrutural e segurança.
- Ventilação mecânica (pressão positiva/negativa): ventiladores para controlar fluxo; requer caminho de exaustão definido.
Passo a passo prático: ventilação coordenada (conceitual)
- 1) Definir objetivo: apoiar ataque? busca e salvamento? proteção de escada?
- 2) Identificar entrada e exaustão: onde o ar entra e por onde os gases sairão.
- 3) Coordenar com a linha: abrir exaustão quando a equipe de ataque estiver pronta para aplicar água e controlar o avanço do fogo.
- 4) Monitorar efeito: se o fogo intensificar ou a fumaça mudar para fluxo mais rápido e escuro, reavaliar e ajustar aberturas.
Flashover e backdraft: prevenção em nível conceitual
Flashover (generalização súbita)
Flashover é a transição rápida para incêndio generalizado em um compartimento, quando a camada de gases e superfícies atingem temperaturas elevadas e ocorre ignição quase simultânea de materiais. Indicadores conceituais: calor extremo, rolagem de chamas, fumaça muito quente e descendo, aumento rápido de radiação.
Prevenção (conceitual): resfriar a camada de gases com aplicação adequada de água em neblina/pulsos curtos, controlar ventilação (não criar entrada de ar descontrolada) e manter rota de escape.
Backdraft (explosão de fumaça)
Backdraft ocorre quando há combustão incompleta em ambiente pobre em oxigênio, acumulando gases inflamáveis; ao entrar ar (abertura de porta/janela), pode haver ignição explosiva. Sinais conceituais: fumaça sob pressão, pulsante, escurecida, janelas enegrecidas, pouca chama visível apesar de muito calor.
Prevenção (conceitual): controle de porta, ventilação planejada (preferir exaustão alta quando possível), resfriamento de gases antes de abrir totalmente e posicionamento fora do eixo de abertura.
Mangotinhos, linhas, esguichos e noções de pressão
Mangotinho
Mangotinho é uma linha semirrígida (geralmente em carretel) usada para primeira intervenção em princípios de incêndio, com rapidez de emprego. É comum em edificações e viaturas. Limitações típicas: menor vazão e alcance em comparação a linhas maiores, podendo ser insuficiente para incêndios desenvolvidos.
Linhas de mangueira
As linhas variam em diâmetro e finalidade (ataque, proteção, abastecimento). Em termos de prova, o raciocínio é: maior diâmetro tende a permitir maior vazão e menor perda de carga relativa, porém com menor mobilidade.
Esguichos (noções)
- Jato sólido: maior alcance e penetração; útil para atingir o foco e resfriar materiais (A) e para proteção a distância.
- Neblina: gotas menores, maior área de contato, útil para resfriar gases e reduzir radiação; exige técnica para não “empurrar” fogo ou atrapalhar visibilidade.
- Regulável: permite alternar padrões conforme a fase do combate.
Noções de pressão e perdas
Pressão adequada no esguicho é necessária para obter vazão e padrão de jato. No caminho, há perdas de carga por atrito na mangueira, conexões, desnível e acessórios. Consequência prática: linhas longas, muitos lances e desnível exigem maior pressão de bombeamento para manter desempenho no esguicho.
Erros comuns: pressão insuficiente (jato “morto”, baixa vazão) e pressão excessiva (recuo elevado, perda de controle e risco à equipe).
Hidrantes e sistemas básicos de combate a incêndio
Em operações urbanas, o suprimento pode vir de hidrantes públicos e de sistemas prediais. Conceitos essenciais:
- Hidrante de coluna/público: ponto de tomada na via para abastecimento da viatura ou linha direta, dependendo do procedimento local.
- Rede de hidrantes prediais: pode alimentar hidrantes internos/externos; requer verificação de pressurização (bombas), registros e condições de uso.
- Sistema de mangotinho predial: destinado a primeiros combates por ocupantes/brigada; pode ser aproveitado, mas deve-se avaliar vazão/alcance e segurança.
Passo a passo prático: estabelecimento de suprimento por hidrante (conceitual)
- 1) Reconhecer e sinalizar: localizar hidrante, avaliar acessibilidade e segurança viária.
- 2) Conectar: usar adaptadores e chaves adequadas, garantindo vedação e acoplamento correto.
- 3) Abrir gradualmente: evitar golpe de aríete e danos; checar vazamentos.
- 4) Monitorar: observar pressão/vazão disponíveis e ajustar estratégia (mais de um hidrante, reforço por viatura, etc.).
Procedimentos de segurança no combate a incêndio
Segurança é parte da tomada de decisão. Pontos cobrados com frequência:
- EPI e EPR: uso correto e checagem antes da entrada; gerenciamento de ar (tempo de trabalho e reserva).
- Dupla e comunicação: atuação em equipe, rádio, sinais e plano de contingência.
- Controle de porta: reduzir entrada de ar até a linha estar pronta; diminui risco de aceleração do incêndio.
- Consciência situacional: observar mudanças de fumaça, calor, sons e integridade estrutural.
- Rota de fuga e ponto de referência: manter orientação em baixa visibilidade; não avançar sem referência.
- Risco elétrico e gás: identificar quadros, botijões, tubulações; solicitar corte quando possível.
- Colapso: atenção a sinais (rachaduras, deformações, estalos, queda de revestimentos) e estabelecer zonas de segurança.
Cenários operacionais (tomada de decisão)
Cenário 1: Incêndio em apartamento com porta fechada e fumaça saindo por frestas
Leitura: compartimento possivelmente subventilado, alta energia interna. Risco conceitual de backdraft/flashover ao abrir.
- Decisão: controlar a porta, preparar linha pressurizada antes de abrir, resfriar gases conforme técnica prevista e coordenar ventilação.
- Objetivo: reduzir temperatura e controlar fluxo de ar para permitir busca e extinção.
Cenário 2: Fogo em garagem com veículo e presença de combustíveis
Leitura: mistura de classes (A em plásticos/estofados, B em combustíveis), alta carga térmica e fumaça tóxica.
- Decisão: proteger exposições, usar linha com vazão adequada, considerar espuma para líquidos derramados, atenção a pneus e compartimento do motor.
- Ventilação: definir exaustão para não empurrar fumaça para rotas de fuga.
Cenário 3: Princípio de incêndio em quadro elétrico energizado
Leitura: classe C enquanto energizado, risco de choque e arco elétrico.
- Decisão: priorizar desenergização, usar CO2/PQS, manter distância e evitar água/jato condutor.
- Após desenergizar: reclassificar (A/B) e resfriar/inspecionar pontos quentes.
Cenário 4: Cozinha industrial com óleo em chamas
Leitura: classe K/F, risco de projeção se usar água.
- Decisão: desligar fonte de calor, aplicar agente adequado (classe K) e abafar; isolar área e evitar movimentar o recipiente.
Questões de treino (terminologia e decisão)
1) (Terminologia) O que o tetraedro do fogo acrescenta ao triângulo do fogo?
Gabarito esperado: a reação em cadeia, além de combustível, comburente e calor.
2) (Propagação) Em um incêndio em cômodo fechado, qual mecanismo mais contribui para aquecer rapidamente o teto e formar camada de fumaça quente?
Gabarito esperado: convecção.
3) (Classe e agente) Incêndio em líquido inflamável derramado no piso: qual agente/técnica é mais indicada?
Gabarito esperado: espuma (abafamento e supressão de vapores) ou PQS conforme disponibilidade; evitar jato de água que espalhe o líquido.
4) (Classe C) Por que um incêndio em equipamento energizado é classificado como C?
Gabarito esperado: porque há risco elétrico e necessidade de agente não condutor; ao desenergizar, a classe passa a depender do material.
5) (Ventilação) Qual o principal risco de ventilar abrindo janelas/portas sem coordenação com a linha de ataque?
Gabarito esperado: aumentar o aporte de oxigênio, intensificando o incêndio e elevando risco de flashover/backdraft.
6) (Sinais) Fumaça escura, densa e pulsante saindo por frestas com pouca chama visível sugere qual fenômeno potencial?
Gabarito esperado: condição favorável a backdraft (ambiente subventilado com gases inflamáveis).
7) (Equipamentos) Em que situação o mangotinho tende a ser mais adequado do que uma linha de maior diâmetro?
Gabarito esperado: princípio de incêndio e intervenção rápida, quando a carga térmica ainda é baixa e a mobilidade é prioridade.
8) (Pressão) Cite duas causas comuns de perda de desempenho no esguicho em linhas longas.
Gabarito esperado: perda de carga por atrito na mangueira e desnível (elevação), além de conexões/acessórios.
9) (Tática) Em ataque interno, por que o controle de porta é uma medida de segurança?
Gabarito esperado: limita a entrada de ar, reduzindo a aceleração do incêndio e o risco de eventos extremos, enquanto a equipe prepara a linha.
10) (Hidrantes) Ao conectar em hidrante, por que abrir o registro gradualmente?
Gabarito esperado: para evitar golpe de aríete e instabilidades no sistema, além de permitir checagem de vazamentos e controle do fluxo.