O que é coesão e por que ela muda a interpretação
Coesão é o conjunto de mecanismos linguísticos que “costuram” palavras, frases e parágrafos, indicando como as partes do texto se conectam. Na interpretação, a coesão funciona como um mapa: ela mostra quem é quem (referências), o que retoma o quê (substituições e elipses) e qual é a relação lógica entre ideias (conectores). Quando você identifica esses sinais, reduz erros como atribuir um pronome ao referente errado, inverter causa e consequência ou entender oposição como reforço.
Mecanismos coesivos: como reconhecer e interpretar
1) Referência: pronomes, demonstrativos e expressões que apontam
Referência ocorre quando um termo aponta para outro elemento do texto (ou do contexto). Em interpretação, o foco é localizar o referente: a palavra/ideia a que o termo se refere.
- Anáfora: aponta para trás (retoma algo já dito). Ex.: “A empresa anunciou cortes. Isso gerou protestos.” (“isso” retoma “anunciou cortes”).
- Catáfora: aponta para frente (antecipa algo que virá). Ex.: “Este é o problema: a verba não chegou.” (“este” antecipa “a verba não chegou”).
Pronomes pessoais (ele, ela, eles), possessivos (seu, sua), demonstrativos (este, esse, aquele, isso, aquilo) e expressões como “tal medida”, “o referido”, “essa decisão” são pistas fortes de encadeamento.
Cuidado frequente: “seu/sua” pode ser ambíguo. Ex.: “João falou com Pedro sobre sua demissão.” A coesão sozinha pode não resolver; procure pistas próximas (verbo, tema do parágrafo, retomadas) para decidir se é de João ou de Pedro.
2) Substituição: trocar um termo por outro para evitar repetição
Substituição ocorre quando o texto troca um elemento por outro equivalente para manter fluidez. Pode ser:
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- Pronominal: “O relatório foi entregue. Ele será analisado.”
- Nominal: “A pesquisadora apresentou a tese. A autora respondeu às perguntas.”
- Verbal: “Alguns defendem reduzir impostos; outros preferem fazê-lo depois.” (“fazê-lo” substitui “reduzir impostos”).
Na interpretação, pergunte: o que foi substituído? e o que se mantém igual (sentido central) e o que muda (ênfase)?
3) Elipse: o que foi omitido, mas continua valendo
Elipse é a omissão de um termo recuperável pelo contexto. O texto “economiza” palavras, mas mantém o sentido.
Ex.: “Uns concordaram; outros, não.” (omissão de “concordaram”).
Para interpretar, reconstrua mentalmente a parte omitida: “outros não concordaram”. Isso ajuda a evitar leituras quebradas ou conclusões indevidas.
4) Repetição controlada: repetir para fixar, não para cansar
Repetição controlada é a retomada intencional de palavras-chave para manter o tópico visível e evitar perda de foco. Em textos argumentativos e informativos, repetir o termo central pode ser um recurso de clareza.
Ex.: “A vacinação reduz internações. A vacinação também protege grupos vulneráveis.”
Na interpretação, a repetição costuma indicar tópico estável e pode sinalizar que as frases estão no mesmo eixo temático (explicação, detalhamento, exemplificação).
5) Sinonímia e hiperonímia/hiponímia: variar o vocabulário sem perder o fio
O texto pode retomar uma ideia com sinônimos (ou quase sinônimos) e com termos mais gerais ou mais específicos.
- Sinonímia: “O problema persistiu. A dificuldade afetou o cronograma.”
- Hiperonímia (mais geral): “Comprou frutas. As maçãs estavam maduras.” (“frutas” é hiperônimo de “maçãs”).
- Hiponímia (mais específico): “O animal avançou. O cão estava assustado.” (“cão” é hipônimo de “animal”).
Na interpretação, isso ajuda a perceber que o texto continua falando do mesmo assunto, mesmo quando troca a palavra.
Conectores: como eles organizam a lógica do texto
Conectores (ou conectivos) indicam relações entre orações, frases e parágrafos. Eles são decisivos para responder questões do tipo “por que?”, “com que objetivo?”, “em que condição?”, “apesar de quê?”.
| Relação | Conectores comuns | O que você deve perguntar ao ler |
|---|---|---|
| Causa | porque, pois, já que, visto que | Qual fato explica o outro? |
| Consequência | portanto, por isso, assim, logo, de modo que | O que resulta do que foi dito? |
| Oposição | mas, porém, contudo, entretanto | Que ideia contrasta com a anterior? |
| Concessão | embora, apesar de, ainda que, mesmo que | O que é admitido, mas não impede a tese? |
| Condição | se, caso, contanto que, desde que | O que precisa acontecer para valer? |
| Finalidade | para, a fim de, com o objetivo de | Para quê? Com que propósito? |
Diferenças que mais geram erro
- Oposição (mas) não é o mesmo que concessão (embora). Em “Ele estudou, mas foi mal”, há contraste direto. Em “Embora tenha estudado, foi mal”, o estudo é um fato admitido que não impede o resultado.
- Causa vs. consequência: “Choveu, por isso o jogo foi cancelado” (consequência). “O jogo foi cancelado porque choveu” (causa).
- Condição vs. finalidade: “Se chover, não sairemos” (condição). “Levei guarda-chuva para não me molhar” (finalidade).
Passo a passo prático: como usar coesão para mapear o texto
Passo 1 — Marque os “apontadores” (referências)
Sublinhe pronomes e demonstrativos (ele, ela, isso, esse, aquele, tal, o qual, cujo). Em seguida, pergunte: aponta para qual termo? Procure o candidato mais próximo que concorde em gênero/número e faça sentido no tema do trecho.
Passo 2 — Reconstrua elipses e substituições
Quando perceber uma frase “econômica” (com vírgulas, paralelismos, respostas curtas), tente reescrever mentalmente o que foi omitido. E quando houver troca de termo (“o autor”, “o pesquisador”, “ele”), liste as equivalências.
Passo 3 — Identifique conectores e nomeie a relação
Circule conectores e escreva ao lado a relação: causa, consequência, oposição, concessão, condição, finalidade. Isso evita interpretar parágrafos como “lista solta” e ajuda a entender a progressão do raciocínio.
Passo 4 — Faça um “esqueleto” de encadeamento
Transforme o trecho em uma sequência lógica curta, usando setas e rótulos:
Ideia A (causa) → Ideia B (consequência) → Ideia C (oposição) → Ideia D (conclusão parcial)Esse esqueleto é útil para questões que pedem relação entre períodos, função de um parágrafo ou sentido de um conectivo.
Atividades práticas (com gabarito comentado)
1) Identificar o referente de pronomes e demonstrativos
Trecho 1: “A prefeitura anunciou novas regras para feiras. Elas começam a valer na próxima semana.”
- Pergunta: “Elas” retoma o quê?
- Gabarito: “novas regras”. Concorda em número (plural) e é o elemento que pode “começar a valer”.
Trecho 2: “O relatório criticou a falta de manutenção nas pontes. Isso preocupou os moradores.”
- Pergunta: “Isso” se refere a “relatório” ou a “falta de manutenção”?
- Gabarito: ao conteúdo criticado (a falta de manutenção nas pontes), isto é, ao fato/ideia apresentada, não ao objeto “relatório” em si.
Trecho 3: “Carla discutiu com Marina depois da reunião, mas ela pediu desculpas no dia seguinte.”
- Pergunta: quem pediu desculpas?
- Gabarito: indeterminado apenas pela frase; é necessário contexto adicional. Em prova, a alternativa correta costuma reconhecer a ambiguidade ou usar pistas do período seguinte.
2) Explicar a função de conectivos
Trecho 4: “O preço subiu, portanto a demanda caiu.”
- Pergunta: qual a relação marcada por “portanto”?
- Gabarito: consequência/conclusão (a queda da demanda é apresentada como resultado do aumento do preço).
Trecho 5: “Embora o time tenha melhorado, ainda comete erros defensivos.”
- Pergunta: “embora” indica oposição ou concessão?
- Gabarito: concessão (admite a melhora, mas afirma que isso não elimina os erros).
Trecho 6: “Levantaram dados adicionais para reduzir a margem de erro.”
- Pergunta: “para” indica o quê?
- Gabarito: finalidade (objetivo da ação de levantar dados).
3) Reorganizar trechos mantendo o sentido (coesão e lógica)
Instrução: reordene as frases para formar um parágrafo coeso.
Frases:
- (A) “Por isso, a equipe revisou o cronograma.”
- (B) “O atraso na entrega dos materiais foi confirmado.”
- (C) “Além disso, renegociou prazos com fornecedores.”
- Ordem esperada: B → A → C
- Por quê: (A) “Por isso” precisa de uma causa anterior (B). (C) “Além disso” adiciona uma segunda ação após a primeira (A).
Frases:
- (D) “No entanto, parte do público discordou.”
- (E) “A proposta foi bem recebida por especialistas.”
- (F) “Mesmo assim, o debate continuou nas semanas seguintes.”
- Ordem possível: E → D → F
- Por quê: (D) “No entanto” contrasta com (E). (F) “Mesmo assim” retoma o contraste e indica continuidade apesar da discordância.
4) Completar lacunas com conectores adequados
Instrução: escolha um conector que mantenha a relação pedida.
Item 1 (causa): “A rua foi interditada ________ houve risco de desabamento.”
- Resposta: “porque” / “já que” / “visto que”.
Item 2 (consequência): “O sistema ficou instável; ________, o atendimento foi suspenso.”
- Resposta: “por isso” / “portanto” / “assim”.
Item 3 (oposição): “O texto é curto, ________ apresenta muitos dados.”
- Resposta: “mas” / “porém” / “contudo”.
Item 4 (concessão): “________ estivesse cansado, terminou o relatório.”
- Resposta: “embora” / “ainda que” / “mesmo que”.
Item 5 (condição): “________ houver novas informações, o comunicado será atualizado.”
- Resposta: “se” / “caso”.
Item 6 (finalidade): “Revisou o texto duas vezes ________ evitar ambiguidades.”
- Resposta: “para” / “a fim de”.