Coesão na Interpretação de Texto: conectivos, referências e encadeamento de ideias

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é coesão e por que ela muda a interpretação

Coesão é o conjunto de mecanismos linguísticos que “costuram” palavras, frases e parágrafos, indicando como as partes do texto se conectam. Na interpretação, a coesão funciona como um mapa: ela mostra quem é quem (referências), o que retoma o quê (substituições e elipses) e qual é a relação lógica entre ideias (conectores). Quando você identifica esses sinais, reduz erros como atribuir um pronome ao referente errado, inverter causa e consequência ou entender oposição como reforço.

Mecanismos coesivos: como reconhecer e interpretar

1) Referência: pronomes, demonstrativos e expressões que apontam

Referência ocorre quando um termo aponta para outro elemento do texto (ou do contexto). Em interpretação, o foco é localizar o referente: a palavra/ideia a que o termo se refere.

  • Anáfora: aponta para trás (retoma algo já dito). Ex.: “A empresa anunciou cortes. Isso gerou protestos.” (“isso” retoma “anunciou cortes”).
  • Catáfora: aponta para frente (antecipa algo que virá). Ex.: “Este é o problema: a verba não chegou.” (“este” antecipa “a verba não chegou”).

Pronomes pessoais (ele, ela, eles), possessivos (seu, sua), demonstrativos (este, esse, aquele, isso, aquilo) e expressões como “tal medida”, “o referido”, “essa decisão” são pistas fortes de encadeamento.

Cuidado frequente: “seu/sua” pode ser ambíguo. Ex.: “João falou com Pedro sobre sua demissão.” A coesão sozinha pode não resolver; procure pistas próximas (verbo, tema do parágrafo, retomadas) para decidir se é de João ou de Pedro.

2) Substituição: trocar um termo por outro para evitar repetição

Substituição ocorre quando o texto troca um elemento por outro equivalente para manter fluidez. Pode ser:

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  • Pronominal: “O relatório foi entregue. Ele será analisado.”
  • Nominal: “A pesquisadora apresentou a tese. A autora respondeu às perguntas.”
  • Verbal: “Alguns defendem reduzir impostos; outros preferem fazê-lo depois.” (“fazê-lo” substitui “reduzir impostos”).

Na interpretação, pergunte: o que foi substituído? e o que se mantém igual (sentido central) e o que muda (ênfase)?

3) Elipse: o que foi omitido, mas continua valendo

Elipse é a omissão de um termo recuperável pelo contexto. O texto “economiza” palavras, mas mantém o sentido.

Ex.: “Uns concordaram; outros, não.” (omissão de “concordaram”).

Para interpretar, reconstrua mentalmente a parte omitida: “outros não concordaram”. Isso ajuda a evitar leituras quebradas ou conclusões indevidas.

4) Repetição controlada: repetir para fixar, não para cansar

Repetição controlada é a retomada intencional de palavras-chave para manter o tópico visível e evitar perda de foco. Em textos argumentativos e informativos, repetir o termo central pode ser um recurso de clareza.

Ex.: “A vacinação reduz internações. A vacinação também protege grupos vulneráveis.”

Na interpretação, a repetição costuma indicar tópico estável e pode sinalizar que as frases estão no mesmo eixo temático (explicação, detalhamento, exemplificação).

5) Sinonímia e hiperonímia/hiponímia: variar o vocabulário sem perder o fio

O texto pode retomar uma ideia com sinônimos (ou quase sinônimos) e com termos mais gerais ou mais específicos.

  • Sinonímia: “O problema persistiu. A dificuldade afetou o cronograma.”
  • Hiperonímia (mais geral): “Comprou frutas. As maçãs estavam maduras.” (“frutas” é hiperônimo de “maçãs”).
  • Hiponímia (mais específico): “O animal avançou. O cão estava assustado.” (“cão” é hipônimo de “animal”).

Na interpretação, isso ajuda a perceber que o texto continua falando do mesmo assunto, mesmo quando troca a palavra.

Conectores: como eles organizam a lógica do texto

Conectores (ou conectivos) indicam relações entre orações, frases e parágrafos. Eles são decisivos para responder questões do tipo “por que?”, “com que objetivo?”, “em que condição?”, “apesar de quê?”.

RelaçãoConectores comunsO que você deve perguntar ao ler
Causaporque, pois, já que, visto queQual fato explica o outro?
Consequênciaportanto, por isso, assim, logo, de modo queO que resulta do que foi dito?
Oposiçãomas, porém, contudo, entretantoQue ideia contrasta com a anterior?
Concessãoembora, apesar de, ainda que, mesmo queO que é admitido, mas não impede a tese?
Condiçãose, caso, contanto que, desde queO que precisa acontecer para valer?
Finalidadepara, a fim de, com o objetivo dePara quê? Com que propósito?

Diferenças que mais geram erro

  • Oposição (mas) não é o mesmo que concessão (embora). Em “Ele estudou, mas foi mal”, há contraste direto. Em “Embora tenha estudado, foi mal”, o estudo é um fato admitido que não impede o resultado.
  • Causa vs. consequência: “Choveu, por isso o jogo foi cancelado” (consequência). “O jogo foi cancelado porque choveu” (causa).
  • Condição vs. finalidade: “Se chover, não sairemos” (condição). “Levei guarda-chuva para não me molhar” (finalidade).

Passo a passo prático: como usar coesão para mapear o texto

Passo 1 — Marque os “apontadores” (referências)

Sublinhe pronomes e demonstrativos (ele, ela, isso, esse, aquele, tal, o qual, cujo). Em seguida, pergunte: aponta para qual termo? Procure o candidato mais próximo que concorde em gênero/número e faça sentido no tema do trecho.

Passo 2 — Reconstrua elipses e substituições

Quando perceber uma frase “econômica” (com vírgulas, paralelismos, respostas curtas), tente reescrever mentalmente o que foi omitido. E quando houver troca de termo (“o autor”, “o pesquisador”, “ele”), liste as equivalências.

Passo 3 — Identifique conectores e nomeie a relação

Circule conectores e escreva ao lado a relação: causa, consequência, oposição, concessão, condição, finalidade. Isso evita interpretar parágrafos como “lista solta” e ajuda a entender a progressão do raciocínio.

Passo 4 — Faça um “esqueleto” de encadeamento

Transforme o trecho em uma sequência lógica curta, usando setas e rótulos:

Ideia A (causa) → Ideia B (consequência) → Ideia C (oposição) → Ideia D (conclusão parcial)

Esse esqueleto é útil para questões que pedem relação entre períodos, função de um parágrafo ou sentido de um conectivo.

Atividades práticas (com gabarito comentado)

1) Identificar o referente de pronomes e demonstrativos

Trecho 1: “A prefeitura anunciou novas regras para feiras. Elas começam a valer na próxima semana.”

  • Pergunta: “Elas” retoma o quê?
  • Gabarito: “novas regras”. Concorda em número (plural) e é o elemento que pode “começar a valer”.

Trecho 2: “O relatório criticou a falta de manutenção nas pontes. Isso preocupou os moradores.”

  • Pergunta: “Isso” se refere a “relatório” ou a “falta de manutenção”?
  • Gabarito: ao conteúdo criticado (a falta de manutenção nas pontes), isto é, ao fato/ideia apresentada, não ao objeto “relatório” em si.

Trecho 3: “Carla discutiu com Marina depois da reunião, mas ela pediu desculpas no dia seguinte.”

  • Pergunta: quem pediu desculpas?
  • Gabarito: indeterminado apenas pela frase; é necessário contexto adicional. Em prova, a alternativa correta costuma reconhecer a ambiguidade ou usar pistas do período seguinte.

2) Explicar a função de conectivos

Trecho 4: “O preço subiu, portanto a demanda caiu.”

  • Pergunta: qual a relação marcada por “portanto”?
  • Gabarito: consequência/conclusão (a queda da demanda é apresentada como resultado do aumento do preço).

Trecho 5: “Embora o time tenha melhorado, ainda comete erros defensivos.”

  • Pergunta: “embora” indica oposição ou concessão?
  • Gabarito: concessão (admite a melhora, mas afirma que isso não elimina os erros).

Trecho 6: “Levantaram dados adicionais para reduzir a margem de erro.”

  • Pergunta: “para” indica o quê?
  • Gabarito: finalidade (objetivo da ação de levantar dados).

3) Reorganizar trechos mantendo o sentido (coesão e lógica)

Instrução: reordene as frases para formar um parágrafo coeso.

Frases:

  • (A) “Por isso, a equipe revisou o cronograma.”
  • (B) “O atraso na entrega dos materiais foi confirmado.”
  • (C) “Além disso, renegociou prazos com fornecedores.”
  • Ordem esperada: B → A → C
  • Por quê: (A) “Por isso” precisa de uma causa anterior (B). (C) “Além disso” adiciona uma segunda ação após a primeira (A).

Frases:

  • (D) “No entanto, parte do público discordou.”
  • (E) “A proposta foi bem recebida por especialistas.”
  • (F) “Mesmo assim, o debate continuou nas semanas seguintes.”
  • Ordem possível: E → D → F
  • Por quê: (D) “No entanto” contrasta com (E). (F) “Mesmo assim” retoma o contraste e indica continuidade apesar da discordância.

4) Completar lacunas com conectores adequados

Instrução: escolha um conector que mantenha a relação pedida.

Item 1 (causa): “A rua foi interditada ________ houve risco de desabamento.”

  • Resposta: “porque” / “já que” / “visto que”.

Item 2 (consequência): “O sistema ficou instável; ________, o atendimento foi suspenso.”

  • Resposta: “por isso” / “portanto” / “assim”.

Item 3 (oposição): “O texto é curto, ________ apresenta muitos dados.”

  • Resposta: “mas” / “porém” / “contudo”.

Item 4 (concessão): “________ estivesse cansado, terminou o relatório.”

  • Resposta: “embora” / “ainda que” / “mesmo que”.

Item 5 (condição): “________ houver novas informações, o comunicado será atualizado.”

  • Resposta: “se” / “caso”.

Item 6 (finalidade): “Revisou o texto duas vezes ________ evitar ambiguidades.”

  • Resposta: “para” / “a fim de”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma frase como “Embora o time tenha melhorado, ainda comete erros defensivos.”, qual é a relação lógica indicada pelo conector “embora” e o que essa relação sugere na interpretação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

“Embora” marca concessão: reconhece um fato (a melhora), mas afirma que ele não é suficiente para impedir outro (os erros). Isso evita confundir concessão com oposição direta ou com relação de causa/resultado.

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