O que é coerência na interpretação de texto
Coerência é a unidade de sentido de um texto: as partes “combinam” entre si e formam um todo compreensível, sem contradições internas. Um texto coerente mantém uma linha de raciocínio em que as ideias se conectam por progressão temática (o assunto avança de modo organizado) e por relações lógicas (causa, consequência, condição, comparação, concessão, exemplificação, generalização etc.).
Na interpretação, coerência é o critério que permite avaliar se uma leitura faz sentido com o conjunto do texto. Mesmo quando frases isoladas parecem claras, a interpretação pode ficar incoerente se você: (a) mistura tempos e causas, (b) atribui ao autor um ponto de vista que ele não sustenta, (c) tira conclusões que o texto não autoriza, (d) ignora limites do tema.
Coerência não é “concordar” com o texto
Um texto pode ser coerente e ainda assim defender uma posição discutível. Coerência trata de consistência interna e compatibilidade de sentidos, não de verdade absoluta.
Três pilares: consistência, progressão e compatibilidade
1) Consistência (ausência de contradições)
As afirmações não podem se anular sem explicação. Contradições típicas: o texto afirma X e depois afirma não-X como se fossem igualmente válidos, sem mudança de contexto, sem ressalva e sem justificativa.
2) Progressão temática (o texto avança)
As ideias devem se desenvolver: introduzir um tópico, detalhá-lo, exemplificar, contrastar, concluir ou encaminhar para outro tópico relacionado. Falhas comuns: repetição circular, saltos bruscos de assunto, introdução de informação que não se conecta ao que vinha sendo discutido.
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3) Compatibilidade de sentidos (relações lógicas e limites do texto)
As partes precisam ser compatíveis em tempo, causa, finalidade, condição e escopo. Exemplo: se o texto descreve um evento como consequência de outro, a ordem temporal e a relação causal precisam ser plausíveis dentro do que foi dito.
Como verificar coerência: checklist prático em 4 frentes
Frente A — Macroideias: o “esqueleto” do sentido
Macroideias são as ideias maiores que organizam o texto (tese, problemas, causas, propostas, critérios, resultados). Verificar coerência começa por reconstruir esse esqueleto.
Perguntas-guia:
- Qual é a questão central ou tema recortado (não o assunto amplo)?
- Qual é a tese/posição principal (quando houver)?
- Quais são os argumentos ou razões que sustentam a tese?
- Quais exemplos/dados aparecem para apoiar cada argumento?
- O texto muda de direção em algum ponto? Se muda, sinaliza essa mudança?
Sinal de incoerência: quando uma parte do texto parece “sobre outra coisa” e não dá para explicar a ligação com as macroideias.
Frente B — Compatibilidade temporal e causal
Coerência exige que o tempo e a causalidade “fechem”. Um texto pode narrar em ordem não cronológica, mas precisa deixar claro o encadeamento.
Passo a passo:
- Liste eventos/afirmações em ordem de aparecimento.
- Marque indicadores temporais (antes, depois, desde, quando, atualmente, no ano X) e reordene mentalmente se necessário.
- Marque relações causais (porque, por isso, portanto, devido a, como resultado) e pergunte: “o texto realmente mostrou essa causa?”
- Teste a compatibilidade: a causa vem antes do efeito? há condição faltando? o texto confunde correlação com causa?
Exemplo de falha causal (incoerência interna):
“A cidade reduziu o número de ônibus. Por isso, o trânsito melhorou, já que mais pessoas passaram a usar o transporte público.”Se há menos ônibus, a conclusão “mais pessoas passaram a usar o transporte público” entra em tensão com a premissa, a menos que o texto explique outra medida (corredores exclusivos, aumento de metrô, integração tarifária etc.).
Frente C — Manutenção de ponto de vista (voz, foco e critérios)
Coerência também depende de manter estáveis: (a) quem fala (autor, narrador, personagem), (b) de onde se observa (1ª/3ª pessoa, interno/externo), (c) qual critério está sendo usado para avaliar algo (econômico, ético, ambiental, jurídico).
Passo a passo:
- Identifique a voz dominante: é um narrador? um articulista? um relatório impessoal? uma personagem?
- Marque avaliações (adjetivos, julgamentos, recomendações) e pergunte: “quem está avaliando?”
- Cheque estabilidade: o texto troca “nós” por “eles” sem motivo? muda de opinião sem sinalizar? muda o critério de julgamento sem avisar?
Exemplo de quebra de ponto de vista:
“Defendo que a escola proíba celulares em sala. No entanto, a melhor solução é liberar totalmente, pois a proibição é sempre ineficaz.”Isso pode ser coerente se houver uma transição explícita (“mudei de posição após considerar...”), mas, sem essa ponte, parece contradição.
Frente D — Pertinência e escopo (o que cabe e o que não cabe)
Pertinência é a adequação das informações ao objetivo do texto e ao recorte do tema. Um texto pode trazer dados verdadeiros e ainda assim ser incoerente se esses dados não se conectam ao ponto central ou desviam o foco.
Perguntas-guia:
- Esta informação ajuda a sustentar a tese ou a explicar o tópico?
- Ela responde à pergunta central ou abre uma nova pergunta sem retorno?
- O texto generaliza além do que mostrou (ex.: de um caso para “sempre”, “todos”, “nunca”)?
Exemplo de conclusão fora do escopo:
Texto: “O estudo analisou hábitos de leitura de alunos do 9º ano em duas escolas.”Conclusão indevida: “Logo, os jovens brasileiros não leem.”A conclusão extrapola o escopo (amostra pequena e recorte específico).
Erros comuns de coerência na interpretação (e como detectar)
1) Inconsistências internas (o texto se contradiz)
Como detectar: procure pares de afirmações que não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo no mesmo contexto. Verifique se há ressalvas (“em parte”, “na maioria dos casos”, “exceto”) que resolvem a aparente contradição.
2) Inferências indevidas (o leitor “completa” demais)
Como detectar: pergunte “qual trecho sustenta isso?”. Se a resposta for “não tem, mas eu acho provável”, é inferência indevida para fins de interpretação objetiva.
Exemplo:
Trecho: “Marina chegou cedo e encontrou a porta aberta.”Inferência indevida: “Alguém invadiu a casa.”É possível, mas o texto não dá base suficiente; outras hipóteses cabem (alguém esqueceu aberta, ela mesma deixou aberta antes etc.).
3) Conclusões fora do escopo (extrapolação)
Como detectar: observe quantificadores e generalizações (“todos”, “nunca”, “sempre”, “o país inteiro”). Compare com o recorte real do texto (tempo, lugar, grupo, condições).
4) Troca de critério (mudança de régua sem aviso)
Como detectar: o texto começa avaliando por um critério (ex.: custo) e termina condenando por outro (ex.: moralidade) sem construir a ponte. Isso pode ser legítimo, mas precisa ser articulado.
Exercícios de checagem de coerência
Exercício 1 — Detecte a contradição ou a falta de ponte
Leia os mini-textos e indique o problema de coerência (contradição, salto de tema, troca de critério, falta de causa/explicação).
- A) “O relatório é totalmente imparcial. Por isso, recomenda que a empresa adote a estratégia que mais beneficia seus acionistas.”
- B) “A praça ficou mais segura após a instalação de iluminação. Além disso, a história da cidade no século XIX é pouco conhecida.”
- C) “O curso é curto e objetivo. Por esse motivo, ele se estende por oito meses com aulas diárias.”
Orientação: em cada item, sublinhe as duas partes que entram em conflito e escreva qual informação intermediária faltaria para tornar o texto coerente.
Exercício 2 — Identifique inferências indevidas
Em cada item, marque (i) o que é dito e (ii) o que é apenas suposto. Depois, reescreva a interpretação de forma coerente, limitando-se ao que o texto sustenta.
- A) “Carlos não respondeu às mensagens durante a reunião.”
- B) “A empresa reduziu o número de vagas e anunciou reestruturação.”
- C) “O atleta saiu mancando no final do jogo.”
Dica: se você usar palavras como “certamente”, “com certeza”, “isso prova”, confira se há prova textual.
Exercício 3 — Conclusão fora do escopo
Leia a afirmação e diga se a conclusão respeita o escopo. Se não respeitar, reescreva uma conclusão coerente.
| Base | Conclusão proposta |
|---|---|
| “Foram entrevistados 40 moradores do bairro X sobre coleta seletiva.” | “A população da cidade rejeita a coleta seletiva.” |
| “O texto analisa a produtividade em trabalho remoto em equipes de tecnologia.” | “Trabalhar de casa é sempre melhor para qualquer profissão.” |
| “O artigo discute os efeitos do açúcar em crianças em idade escolar.” | “Açúcar é prejudicial em todas as idades e deve ser proibido.” |
Mapa de ideias textual: ferramenta para checar coerência
Um mapa de ideias é uma representação simples do encadeamento do texto. Ele ajuda a verificar se há progressão, se os argumentos sustentam a tese e se a conclusão não extrapola.
Modelo de mapa (preencha em 5 minutos)
1) Tema recortado (sobre o quê, exatamente?): ______________________2) Tese/ideia central (o que o texto defende/explica?): _____________3) Argumento 1: ______________________ Evidência/Exemplo do texto: ______________________4) Argumento 2: ______________________ Evidência/Exemplo do texto: ______________________5) Contra-argumento/limitação (se houver): ______________________6) Conclusão do texto (o que ele fecha/propõe): ____________________Como usar o mapa para testar coerência (passo a passo)
- Compare tese e argumentos: cada argumento realmente sustenta a tese ou apenas tangencia o tema?
- Cheque a progressão: o Argumento 2 depende do 1? há um salto que exigiria uma explicação intermediária?
- Verifique compatibilidade temporal/causal: as evidências apontam para as causas e efeitos que o texto afirma?
- Teste a conclusão: ela é uma síntese do que foi mostrado ou adiciona uma ideia nova (fora do escopo)?
- Procure contradições: alguma parte do mapa afirma o oposto de outra sem ressalva?
Miniaplicação (exemplo guiado)
Texto-base (curto):
“Para reduzir desperdício de água, o condomínio instalou medidores individuais. Em três meses, o consumo médio caiu 12%. Alguns moradores reclamaram do custo inicial, mas a administração afirma que o investimento se paga em um ano.”Mapa de ideias:
- Tema recortado: redução de desperdício de água no condomínio por medição individual.
- Tese/ideia central: medidores individuais reduzem consumo e compensam financeiramente.
- Argumento 1: consumo caiu 12% em três meses (resultado).
- Argumento 2: investimento se paga em um ano (viabilidade econômica).
- Limitação: custo inicial gera reclamações (objeção reconhecida).
- Conclusão: medida é eficaz e economicamente justificável (dentro do escopo).
Teste de coerência: há progressão (medida → resultado → objeção → justificativa). Relação causal é sugerida (instalação → queda de consumo) com dado numérico; não há contradição interna; a conclusão não extrapola para “todo condomínio do país”, mantendo o escopo.