Cabos, comandos e pontos de falha comuns: acelerador, embreagem e manetes

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que cabos e comandos são pontos de falha comuns em viagem

Em longas distâncias, cabos (acelerador e embreagem), manetes, pedaleiras e suportes trabalham sob vibração constante, poeira, chuva e variações de temperatura. Isso acelera o ressecamento de lubrificantes, aumenta atrito dentro dos conduítes e pode afrouxar fixações. O resultado típico é perda de suavidade, aumento de folga, retorno lento do acelerador ou até ruptura de fios do cabo. A boa prática é manter o acionamento leve, com folgas corretas e fixações firmes, para evitar falhas que imobilizam a moto.

Componentes e termos que você precisa reconhecer

  • Cabo: conjunto de fios de aço (alma) que desliza dentro do conduíte (capa).
  • Conduíte: capa externa com revestimento interno; protege e guia o cabo. Dobras fechadas e esmagamentos aumentam atrito.
  • Reguladores de folga: porcas/ajustadores no manete (embreagem) e no punho/corpo de borboleta (acelerador), usados para acertar folga.
  • Manete e pivô: alavanca e seu ponto de giro; sujeira e falta de graxa no pivô deixam o comando pesado.
  • Pedaleiras e suportes: peças fixadas ao chassi, sujeitas a vibração; parafusos podem afrouxar e gerar folgas.

Sinais de desgaste e quando agir imediatamente

No cabo e conduíte

  • Fios desfiando (principalmente perto do terminal no manete ou no atuador): risco alto de ruptura; substituição é a medida correta.
  • Pontos duros ao acionar: pode ser cabo oxidado, conduíte amassado, curva muito fechada ou sujeira interna.
  • Travamentos ou retorno lento: crítico no acelerador; não viaje até resolver.
  • Folga excessiva que “aparece” rápido: pode indicar cabo esticando, terminal deformado ou regulador sem trava.
  • Conduíte rachado, ressecado ou com ferrugem aparente: entrada de água e sujeira; tende a piorar rápido em chuva/poeira.

Nos manetes, pedaleiras e fixações

  • Manete com folga lateral excessiva no pivô: bucha/pino gasto ou parafuso frouxo.
  • Manete “grudando” ao retornar: pivô seco, sujeira, manete empenado ou protetor de mão interferindo.
  • Pedaleira com jogo ou rangido: pino/retentor gasto, mola cansada, parafusos do suporte afrouxando.
  • Vibração nova em pedaleiras/manetes: frequentemente é fixação afrouxada.

Inspeção prática: acelerador (retorno e integridade)

Objetivo

Garantir que o acelerador tenha retorno rápido e completo em qualquer posição do guidão, sem pontos duros, e que os cabos/conduítes estejam íntegros e bem roteados.

Passo a passo

  1. Moto desligada, em local seguro e com o guidão livre para virar totalmente.
  2. Teste de retorno: gire o punho e solte. Ele deve voltar imediatamente ao batente, sem “demorar” ou parar no meio.
  3. Teste com o guidão virando: repita o teste com o guidão totalmente para a esquerda e totalmente para a direita. Se o retorno piora em algum lado, há problema de roteamento, cabo esticado, conduíte dobrado ou interferência com acessórios.
  4. Verifique folga do acelerador: deve existir uma pequena folga antes de começar a acelerar (valor exato varia por modelo; siga o manual). Folga zero pode deixar a rotação subir ao virar o guidão; folga demais dá resposta “borrachuda”.
  5. Inspecione o conduíte ao longo do trajeto: procure esmagamentos, dobras fechadas, atrito com quinas, marcas de derretimento perto do motor e pontos onde o cabo fica “puxado” ao virar o guidão.
  6. Inspecione terminais (nas extremidades): procure fios desfiando, ferrugem, capa rompida e encaixes tortos.

Ajuste de folga do acelerador (visão geral)

Em muitas motos há ajustador próximo ao punho e/ou no corpo de borboleta. A lógica é: soltar a contraporca, girar o ajustador para aumentar/diminuir a folga e travar novamente. Após ajustar, repita o teste de retorno com o guidão virando. Se você não consegue obter folga correta sem prejudicar o retorno, trate como defeito (cabo/conduíte/roteamento) e não como “apenas ajuste”.

Lubrificação do cabo do acelerador: quando faz sentido

Alguns cabos modernos são do tipo “teflonado”/revestido e podem não exigir lubrificação interna; outros aceitam lubrificante específico para cabos. Como regra prática: se o cabo está pesado, com ruído ou aspereza, e o conduíte está íntegro, a lubrificação pode ajudar. Se há fios desfiando, conduíte rachado ou travamento, a solução correta é substituir.

Como lubrificar (quando aplicável):

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  1. Use um lubrificador de cabos (ferramenta que veda a ponta do conduíte) ou método equivalente para direcionar o produto para dentro.
  2. Aplique lubrificante próprio para cabos (evite produtos que atacam plásticos/borrachas; não use graxa grossa dentro do conduíte).
  3. Deixe o lubrificante atravessar até sair na outra ponta e acione o punho algumas vezes.
  4. Limpe o excesso para não atrair poeira.

Inspeção e ajuste da embreagem (cabo)

O que você está buscando

  • Folga correta no manete para evitar patinação (folga pequena demais) ou dificuldade de engate (folga grande demais).
  • Acionamento suave e progressivo, sem “degraus” no curso.
  • Curso suficiente para desacoplar totalmente a embreagem.

Passo a passo de inspeção

  1. Meça a folga no manete: normalmente é a folga na ponta do manete antes de começar a tracionar o cabo (consulte o manual para o valor). Se não tiver o valor em mãos, use como referência: deve existir folga perceptível, mas pequena, e consistente.
  2. Observe o regulador no manete: verifique se a contraporca está travada e se há rosca suficiente (ajuste “no fim” indica necessidade de ajuste no atuador ou cabo esticado).
  3. Inspecione o cabo nas extremidades: procure fios desfiando perto do manete e perto do atuador no motor (ponto clássico de ruptura).
  4. Teste de suavidade: acione e solte o manete lentamente. Qualquer ponto duro repetível sugere cabo/conduíte com atrito ou pivô seco.

Ajuste de folga: método em duas etapas (prático)

  1. Ajuste fino no manete: use o regulador do manete para chegar próximo da folga especificada.
  2. Ajuste grosso no atuador (quando o manete não dá mais margem): muitos modelos têm regulagem no lado do motor. A ideia é “centralizar” o ajuste, deixando o manete com rosca sobrando para correções durante a viagem.
  3. Trave as contraporcas e confirme que o manete não ficou pré-carregado (sem folga).
  4. Teste em funcionamento (com segurança): com a moto ligada e parada, engate a 1ª e puxe a embreagem; a moto não deve querer “andar” com o manete totalmente acionado. Em aceleração moderada, a embreagem não deve patinar (motor sobe giro sem ganho proporcional de velocidade).

Lubrificação do cabo e do pivô do manete

  • Cabo: mesma lógica do acelerador (somente quando aplicável e se estiver íntegro). Cabo pesado em viagem tende a cansar a mão e pode indicar desgaste interno.
  • Pivô do manete: remova o parafuso/pino conforme o modelo, limpe sujeira antiga e aplique uma fina camada de graxa no ponto de giro e na área de contato. Reinstale e aperte com critério (sem espanar rosca). Se houver bucha, verifique desgaste.

Manetes (freio e embreagem): folgas, alinhamento e interferências

Checklist rápido

  • Alinhamento: manete torto após queda pode “raspar” no suporte e não retornar bem.
  • Curso livre: protetores de mão, manoplas, retrovisores ou suportes podem encostar no manete e limitar o retorno.
  • Parafuso do pivô: deve estar firme, mas sem prender o movimento. Se apertar demais e o manete ficar pesado, revise montagem/arruelas/buchas.
  • Interruptores: em algumas motos o manete aciona interruptor de luz de freio/embreagem; verifique se não está travando por sujeira ou desalinhamento.

Integridade dos conduítes e roteamento: o detalhe que evita travamentos

Grande parte dos problemas de retorno do acelerador e peso na embreagem vem do roteamento errado: cabo passando por trás de mesa/guidão de forma apertada, preso por enforca-gato, esmagado por acessórios ou com curva muito fechada ao virar o guidão.

Passo a passo de verificação do roteamento

  1. Com o guidão reto, siga o cabo com a mão do comando até o destino, procurando curvas fechadas e pontos de atrito.
  2. Vire o guidão para os dois lados e observe se o cabo esticou ou mudou de posição de forma agressiva.
  3. Confirme que o cabo não encosta em partes quentes (cilindro/escape) e não fica “pinçado” por carenagens.
  4. Se houve instalação de acessórios (protetor de mão, riser, suporte de GPS), reavalie o caminho do cabo e a folga com o guidão esterçado.

Pedaleiras, suportes e fixações sujeitas a vibração

O que costuma afrouxar em viagem

  • Suportes de pedaleira (piloto e garupa).
  • Parafusos de manetes e suportes (especialmente após manutenção ou queda).
  • Abraçadeiras e suportes de protetores de mão, retrovisores e comandos no guidão.
  • Pedal de câmbio e pedal de freio: parafusos de fixação e articulações podem ganhar folga.

Reaperto criterioso: como fazer sem causar dano

  • Use a ferramenta correta (chave bem encaixada) para não espanar parafusos.
  • Não “aperte no instinto”: para peças críticas, prefira o torque do manual. Sem torque, aperte firme e progressivo, parando ao sentir assentamento; evite exceder em roscas pequenas.
  • Travas e arruelas: verifique presença de arruelas, contrapinos e travas originais. Se um parafuso vive afrouxando, pode haver falta de arruela, rosca suja, ou necessidade de trava química adequada ao caso (respeitando o manual).
  • Folgas funcionais: pedaleiras dobráveis precisam de movimento; não aperte a ponto de travar a articulação.

Inspeção rápida de pedaleiras e pedais

  1. Segure a pedaleira e tente movimentar para cima/baixo e para os lados: jogo excessivo indica pino gasto ou fixação frouxa.
  2. Acione o pedal de câmbio e o pedal de freio: procure folga anormal, rangidos e retorno lento.
  3. Olhe fixações: marcas de “poeira brilhante” ao redor de parafuso podem indicar micro-movimento por vibração.

Mini-check de funcionamento (antes de cada dia de viagem)

  • Acelerador: girar e soltar 3 vezes; retorno imediato. Repetir com guidão totalmente para esquerda e direita.
  • Folga do acelerador: confirmar que existe pequena folga e que a rotação não muda ao esterçar o guidão (moto ligada em marcha lenta, se seguro fazer).
  • Embreagem: conferir folga no manete e sensação suave; engatar 1ª com embreagem acionada e verificar se não “puxa” excessivamente.
  • Manetes: checar se retornam livres, sem encostar em protetor de mão/manopla; pivôs sem folga exagerada.
  • Pedaleiras e pedais: verificar se não há parafusos visivelmente soltos e se não surgiu jogo novo.
  • Olhar final nos cabos: procurar fios desfiando nas pontas e conduítes rachados; qualquer sinal desses é motivo para correção antes de rodar.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao testar o acelerador antes de pegar estrada, você percebe que o punho retorna bem com o guidão reto, mas fica mais lento quando o guidão está totalmente virado para um lado. O que isso indica com mais probabilidade?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Se o retorno piora ao esterçar o guidão, é sinal de cabo/conduíte sendo tensionado, dobrado ou interferido por acessórios/roteamento. Isso pode causar travamento ou retorno lento e deve ser corrigido antes de rodar.

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