O que entra no Bloco Solução (e o que não entra)
No Lean Canvas, o Bloco Solução descreve como você pretende resolver o problema principal do segmento principal, em 3 a 5 itens. Esses itens não são um catálogo de funcionalidades; são mecanismos essenciais que tornam a proposta de valor possível na prática.
Pense no bloco como: “Se eu tivesse que provar rapidamente que consigo entregar a promessa, quais 3–5 coisas precisam existir?”
Formato recomendado (3–5 itens)
- Verbo + resultado (ex.: “Agendar em 30 segundos”, “Conferir divergências automaticamente”, “Gerar proposta em 1 clique”).
- Foco no fluxo crítico (o caminho mínimo para sair do problema e chegar ao benefício).
- Sem detalhes técnicos (evite stack, arquitetura, integrações “porque sim”).
Como evitar transformar a Solução em lista de desejos
Um erro comum é confundir “solução” com “o produto que eu quero construir”. Para separar o que é essencial do que é desejo interno, use duas perguntas:
- Isso resolve diretamente o problema #1 do segmento #1? Se não, provavelmente não entra agora.
- Sem isso, eu ainda consigo testar a hipótese principal? Se sim, deixe para depois.
Teste rápido: “Solução” vs “Desejo interno”
| Item candidato | Por que parece importante | Como validar sem construir tudo | Decisão típica |
|---|---|---|---|
| App nativo iOS/Android | “Experiência premium” | Protótipo clicável + piloto manual | Fora do MVP inicial |
| Integração com 5 ERPs | “Vai escalar” | 1 integração manual/CSV em piloto | Começar com 1 caso |
| Dashboard avançado | “Vai impressionar” | Relatório simples em PDF/planilha | Versão básica |
| Notificações automáticas | “Reduz esquecimento” | WhatsApp/e-mail manual | Manual primeiro |
Overengineering: sinais e antídotos
Overengineering é investir em complexidade antes de ter evidência de que o cliente valoriza aquilo. Ele costuma aparecer quando a equipe otimiza para “produto perfeito” em vez de “teste rápido”.
Sinais de overengineering
- Você está decidindo arquitetura, microserviços, escalabilidade e automações antes de ter usuários pagando/engajando.
- O backlog cresce mais rápido do que a capacidade de testar hipóteses.
- As funcionalidades “para depois” viram pré-requisito “para agora”.
- Você mede progresso por entregas, não por aprendizado (ex.: taxa de conversão, tempo para valor, retenção).
Antídotos práticos
- Defina a hipótese principal do MVP (ex.: “Se entregarmos X, o cliente faz Y e paga Z”).
- Trave o escopo com um limite: no máximo 3–5 itens no bloco.
- Troque automação por operação no início (manual primeiro, automatiza depois).
- Escolha um único canal e um único caso de uso para o primeiro teste.
Passo a passo para escrever a Solução em 3–5 itens
Passo 1 — Relembre o problema principal e o momento de dor
Antes de escrever qualquer item, escreva em uma frase (fora do canvas, como rascunho): Quando [contexto], o cliente [dor principal] porque [causa]. Isso evita que a solução vire “lista de features legais”.
- Ouça o áudio com a tela desligada
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Passo 2 — Desenhe o “fluxo mínimo de valor”
Liste as etapas que levam o cliente do problema ao resultado. Exemplo genérico de fluxo:
1) Capturar informação mínima do cliente 2) Processar/diagnosticar o que importa 3) Entregar recomendação/ação 4) Confirmar resultado (prova) 5) Próximo passo (pagamento/renovação)Agora pergunte: quais dessas etapas precisam existir agora para testar a hipótese?
Passo 3 — Converta etapas em itens de solução (verbo + resultado)
Transforme as etapas essenciais em 3–5 itens. Exemplo (B2B):
- Importar dados do cliente (via planilha) para análise inicial.
- Detectar 3 tipos de inconsistência mais frequentes no processo atual.
- Gerar relatório acionável com correções recomendadas.
- Registrar aprovação do responsável para medir valor percebido.
Note que não há “painel completo”, “integração com tudo”, “perfis e permissões avançados”.
Passo 4 — Corte até sobrar o essencial
Para cada item, aplique o filtro:
- Se eu remover isso, ainda consigo entregar a promessa central?
- Se eu remover isso, ainda consigo medir o resultado?
- Existe um jeito manual de fazer isso por 2 semanas?
Se a resposta for “sim” para a terceira pergunta, considere adiar automação.
Passo 5 — Escreva o que fica fora (para proteger o MVP)
Além dos 3–5 itens, mantenha uma lista curta de “fora do escopo” (não precisa ir no canvas, mas ajuda a equipe). Exemplos típicos:
- Aplicativo nativo (ficar em web responsivo no piloto).
- Integrações múltiplas (começar com upload/entrada manual).
- Personalização avançada (um template padrão no início).
- Automação completa (operar manualmente até validar demanda).
Técnicas de recorte de MVP (como testar sem construir um produto completo)
1) MVP Concierge
O que é: você entrega o resultado prometido com atendimento altamente manual e personalizado, como “concierge”.
Quando usar: quando o valor está no resultado e o processo ainda é incerto.
Como fazer (passo a passo):
- Escolha 3–10 clientes do segmento principal.
- Defina um pacote claro (o que você entrega, em quanto tempo, por quanto).
- Execute manualmente o serviço, registrando tempo, dúvidas e objeções.
- Meça: disposição a pagar, tempo para valor, recorrência.
2) Protótipo clicável
O que é: telas navegáveis que simulam o produto, sem back-end.
Quando usar: quando a maior incerteza é usabilidade, fluxo e entendimento da proposta.
Como fazer (passo a passo):
- Desenhe apenas o fluxo crítico (3–7 telas).
- Rode entrevistas com tarefas (ex.: “faça X em 2 minutos”).
- Observe onde travam e o que esperavam ver.
- Refaça e repita até o fluxo ficar óbvio.
3) Serviço manual (Wizard of Oz)
O que é: o cliente acha que há automação, mas por trás você executa manualmente (combinado de forma ética e transparente sobre prazos/limites).
Quando usar: quando a automação é cara e você quer validar demanda e critérios de qualidade.
Como fazer (passo a passo):
- Crie uma interface simples de entrada (formulário/planilha).
- Entregue o resultado manualmente em um SLA curto.
- Registre quais partes são repetitivas (candidatas a automação).
4) Landing page (teste de interesse e mensagem)
O que é: uma página com promessa, prova e chamada para ação (lista de espera, demo, pré-venda).
Quando usar: quando a maior dúvida é “alguém quer isso?” e “qual mensagem converte?”.
Como fazer (passo a passo):
- Escreva a promessa em uma frase e 3 benefícios.
- Inclua um CTA único (ex.: “Quero uma demonstração”).
- Direcione tráfego qualificado (parcerias, comunidades, anúncios pequenos).
- Meça conversão e qualidade dos leads (não só cliques).
5) Piloto local
O que é: testar em uma região, unidade, bairro ou grupo pequeno com operação controlada.
Quando usar: quando logística, atendimento ou comportamento no mundo real afeta o resultado.
Como fazer (passo a passo):
- Escolha um recorte geográfico e um tipo de cliente.
- Defina métricas simples (tempo, custo, satisfação, repetição).
- Rode por 2–4 semanas e documente gargalos.
6) Prova de conceito (PoC) B2B
O que é: um teste com empresa para validar viabilidade e valor em um caso real, com escopo e critérios definidos.
Quando usar: quando compra é consultiva e exige evidência antes de contrato maior.
Como fazer (passo a passo):
- Defina objetivo mensurável (ex.: reduzir retrabalho em 20%).
- Limite escopo (1 área, 1 processo, 1 integração ou nenhuma).
- Combine duração curta (2–6 semanas) e entregáveis.
- Ao final, faça revisão com decisores e próximos passos (contrato/piloto ampliado).
Critérios para decidir o que entra e o que fica fora do MVP
Use uma matriz simples para cada item candidato do Bloco Solução. Dê nota de 1 a 5 (baixo→alto) e compare.
| Critério | Pergunta prática | O que favorece entrar no MVP |
|---|---|---|
| Valor percebido | O cliente notaria falta disso? | Alta percepção e impacto direto na dor |
| Custo de implementação | Quanto esforço/complexidade? | Baixo custo ou alternativa manual viável |
| Tempo de teste | Em quanto tempo consigo evidência? | Teste em dias/semanas, não meses |
| Risco | Qual risco reduzimos ao incluir? | Reduz risco principal (demanda, entrega, qualidade) |
Regra de decisão rápida
- Entra se: alto valor percebido + reduz risco principal + testa rápido.
- Fica fora se: baixo valor percebido ou alto custo/tempo para testar, especialmente se existir alternativa manual.
Exemplo completo: do bloco Solução ao escopo do MVP
Cenário (exemplo)
Segmento principal: clínicas pequenas. Problema principal: faltas em consultas geram perda de receita e agenda ociosa.
Solução (3–5 itens no Lean Canvas)
- Confirmar consultas automaticamente via WhatsApp com resposta em 1 toque.
- Reagendar em menos de 1 minuto com horários sugeridos.
- Preencher vagas canceladas chamando lista de espera.
- Relatório semanal simples de faltas e recuperações.
O que fica fora (proteção contra overengineering)
- Aplicativo para pacientes (usar WhatsApp e web).
- Integração completa com prontuário/ERP (começar com importação de agenda).
- Segmentação avançada por perfil (começar com regras simples).
- IA para previsão de faltas (somente após dados reais).
Quadro de prioridades (Must/Should/Could/Won’t) derivado do Bloco Solução
Transforme os 3–5 itens do bloco em prioridades e adicione itens de suporte apenas se forem necessários para testar.
| Categoria | Definição | Exemplos (a partir do bloco) |
|---|---|---|
| Must | Sem isso, não há teste válido da hipótese | Confirmar consultas via WhatsApp; Reagendar rápido; Operação mínima de lista de espera |
| Should | Melhora muito o teste, mas dá para rodar sem | Relatório semanal simples; Templates de mensagens |
| Could | “Bom ter” se sobrar tempo/capacidade | Personalização de mensagens por especialidade; Dashboard básico |
| Won’t | Fora do escopo do MVP (por enquanto) | App nativo; Integrações múltiplas; IA preditiva; Automação total de regras complexas |