Bloco Solução no Lean Canvas: funcionalidades mínimas e escopo do MVP

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que entra no Bloco Solução (e o que não entra)

No Lean Canvas, o Bloco Solução descreve como você pretende resolver o problema principal do segmento principal, em 3 a 5 itens. Esses itens não são um catálogo de funcionalidades; são mecanismos essenciais que tornam a proposta de valor possível na prática.

Pense no bloco como: “Se eu tivesse que provar rapidamente que consigo entregar a promessa, quais 3–5 coisas precisam existir?”

Formato recomendado (3–5 itens)

  • Verbo + resultado (ex.: “Agendar em 30 segundos”, “Conferir divergências automaticamente”, “Gerar proposta em 1 clique”).
  • Foco no fluxo crítico (o caminho mínimo para sair do problema e chegar ao benefício).
  • Sem detalhes técnicos (evite stack, arquitetura, integrações “porque sim”).

Como evitar transformar a Solução em lista de desejos

Um erro comum é confundir “solução” com “o produto que eu quero construir”. Para separar o que é essencial do que é desejo interno, use duas perguntas:

  • Isso resolve diretamente o problema #1 do segmento #1? Se não, provavelmente não entra agora.
  • Sem isso, eu ainda consigo testar a hipótese principal? Se sim, deixe para depois.

Teste rápido: “Solução” vs “Desejo interno”

Item candidatoPor que parece importanteComo validar sem construir tudoDecisão típica
App nativo iOS/Android“Experiência premium”Protótipo clicável + piloto manualFora do MVP inicial
Integração com 5 ERPs“Vai escalar”1 integração manual/CSV em pilotoComeçar com 1 caso
Dashboard avançado“Vai impressionar”Relatório simples em PDF/planilhaVersão básica
Notificações automáticas“Reduz esquecimento”WhatsApp/e-mail manualManual primeiro

Overengineering: sinais e antídotos

Overengineering é investir em complexidade antes de ter evidência de que o cliente valoriza aquilo. Ele costuma aparecer quando a equipe otimiza para “produto perfeito” em vez de “teste rápido”.

Sinais de overengineering

  • Você está decidindo arquitetura, microserviços, escalabilidade e automações antes de ter usuários pagando/engajando.
  • O backlog cresce mais rápido do que a capacidade de testar hipóteses.
  • As funcionalidades “para depois” viram pré-requisito “para agora”.
  • Você mede progresso por entregas, não por aprendizado (ex.: taxa de conversão, tempo para valor, retenção).

Antídotos práticos

  • Defina a hipótese principal do MVP (ex.: “Se entregarmos X, o cliente faz Y e paga Z”).
  • Trave o escopo com um limite: no máximo 3–5 itens no bloco.
  • Troque automação por operação no início (manual primeiro, automatiza depois).
  • Escolha um único canal e um único caso de uso para o primeiro teste.

Passo a passo para escrever a Solução em 3–5 itens

Passo 1 — Relembre o problema principal e o momento de dor

Antes de escrever qualquer item, escreva em uma frase (fora do canvas, como rascunho): Quando [contexto], o cliente [dor principal] porque [causa]. Isso evita que a solução vire “lista de features legais”.

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Passo 2 — Desenhe o “fluxo mínimo de valor”

Liste as etapas que levam o cliente do problema ao resultado. Exemplo genérico de fluxo:

1) Capturar informação mínima do cliente 2) Processar/diagnosticar o que importa 3) Entregar recomendação/ação 4) Confirmar resultado (prova) 5) Próximo passo (pagamento/renovação)

Agora pergunte: quais dessas etapas precisam existir agora para testar a hipótese?

Passo 3 — Converta etapas em itens de solução (verbo + resultado)

Transforme as etapas essenciais em 3–5 itens. Exemplo (B2B):

  • Importar dados do cliente (via planilha) para análise inicial.
  • Detectar 3 tipos de inconsistência mais frequentes no processo atual.
  • Gerar relatório acionável com correções recomendadas.
  • Registrar aprovação do responsável para medir valor percebido.

Note que não há “painel completo”, “integração com tudo”, “perfis e permissões avançados”.

Passo 4 — Corte até sobrar o essencial

Para cada item, aplique o filtro:

  • Se eu remover isso, ainda consigo entregar a promessa central?
  • Se eu remover isso, ainda consigo medir o resultado?
  • Existe um jeito manual de fazer isso por 2 semanas?

Se a resposta for “sim” para a terceira pergunta, considere adiar automação.

Passo 5 — Escreva o que fica fora (para proteger o MVP)

Além dos 3–5 itens, mantenha uma lista curta de “fora do escopo” (não precisa ir no canvas, mas ajuda a equipe). Exemplos típicos:

  • Aplicativo nativo (ficar em web responsivo no piloto).
  • Integrações múltiplas (começar com upload/entrada manual).
  • Personalização avançada (um template padrão no início).
  • Automação completa (operar manualmente até validar demanda).

Técnicas de recorte de MVP (como testar sem construir um produto completo)

1) MVP Concierge

O que é: você entrega o resultado prometido com atendimento altamente manual e personalizado, como “concierge”.

Quando usar: quando o valor está no resultado e o processo ainda é incerto.

Como fazer (passo a passo):

  • Escolha 3–10 clientes do segmento principal.
  • Defina um pacote claro (o que você entrega, em quanto tempo, por quanto).
  • Execute manualmente o serviço, registrando tempo, dúvidas e objeções.
  • Meça: disposição a pagar, tempo para valor, recorrência.

2) Protótipo clicável

O que é: telas navegáveis que simulam o produto, sem back-end.

Quando usar: quando a maior incerteza é usabilidade, fluxo e entendimento da proposta.

Como fazer (passo a passo):

  • Desenhe apenas o fluxo crítico (3–7 telas).
  • Rode entrevistas com tarefas (ex.: “faça X em 2 minutos”).
  • Observe onde travam e o que esperavam ver.
  • Refaça e repita até o fluxo ficar óbvio.

3) Serviço manual (Wizard of Oz)

O que é: o cliente acha que há automação, mas por trás você executa manualmente (combinado de forma ética e transparente sobre prazos/limites).

Quando usar: quando a automação é cara e você quer validar demanda e critérios de qualidade.

Como fazer (passo a passo):

  • Crie uma interface simples de entrada (formulário/planilha).
  • Entregue o resultado manualmente em um SLA curto.
  • Registre quais partes são repetitivas (candidatas a automação).

4) Landing page (teste de interesse e mensagem)

O que é: uma página com promessa, prova e chamada para ação (lista de espera, demo, pré-venda).

Quando usar: quando a maior dúvida é “alguém quer isso?” e “qual mensagem converte?”.

Como fazer (passo a passo):

  • Escreva a promessa em uma frase e 3 benefícios.
  • Inclua um CTA único (ex.: “Quero uma demonstração”).
  • Direcione tráfego qualificado (parcerias, comunidades, anúncios pequenos).
  • Meça conversão e qualidade dos leads (não só cliques).

5) Piloto local

O que é: testar em uma região, unidade, bairro ou grupo pequeno com operação controlada.

Quando usar: quando logística, atendimento ou comportamento no mundo real afeta o resultado.

Como fazer (passo a passo):

  • Escolha um recorte geográfico e um tipo de cliente.
  • Defina métricas simples (tempo, custo, satisfação, repetição).
  • Rode por 2–4 semanas e documente gargalos.

6) Prova de conceito (PoC) B2B

O que é: um teste com empresa para validar viabilidade e valor em um caso real, com escopo e critérios definidos.

Quando usar: quando compra é consultiva e exige evidência antes de contrato maior.

Como fazer (passo a passo):

  • Defina objetivo mensurável (ex.: reduzir retrabalho em 20%).
  • Limite escopo (1 área, 1 processo, 1 integração ou nenhuma).
  • Combine duração curta (2–6 semanas) e entregáveis.
  • Ao final, faça revisão com decisores e próximos passos (contrato/piloto ampliado).

Critérios para decidir o que entra e o que fica fora do MVP

Use uma matriz simples para cada item candidato do Bloco Solução. Dê nota de 1 a 5 (baixo→alto) e compare.

CritérioPergunta práticaO que favorece entrar no MVP
Valor percebidoO cliente notaria falta disso?Alta percepção e impacto direto na dor
Custo de implementaçãoQuanto esforço/complexidade?Baixo custo ou alternativa manual viável
Tempo de testeEm quanto tempo consigo evidência?Teste em dias/semanas, não meses
RiscoQual risco reduzimos ao incluir?Reduz risco principal (demanda, entrega, qualidade)

Regra de decisão rápida

  • Entra se: alto valor percebido + reduz risco principal + testa rápido.
  • Fica fora se: baixo valor percebido ou alto custo/tempo para testar, especialmente se existir alternativa manual.

Exemplo completo: do bloco Solução ao escopo do MVP

Cenário (exemplo)

Segmento principal: clínicas pequenas. Problema principal: faltas em consultas geram perda de receita e agenda ociosa.

Solução (3–5 itens no Lean Canvas)

  • Confirmar consultas automaticamente via WhatsApp com resposta em 1 toque.
  • Reagendar em menos de 1 minuto com horários sugeridos.
  • Preencher vagas canceladas chamando lista de espera.
  • Relatório semanal simples de faltas e recuperações.

O que fica fora (proteção contra overengineering)

  • Aplicativo para pacientes (usar WhatsApp e web).
  • Integração completa com prontuário/ERP (começar com importação de agenda).
  • Segmentação avançada por perfil (começar com regras simples).
  • IA para previsão de faltas (somente após dados reais).

Quadro de prioridades (Must/Should/Could/Won’t) derivado do Bloco Solução

Transforme os 3–5 itens do bloco em prioridades e adicione itens de suporte apenas se forem necessários para testar.

CategoriaDefiniçãoExemplos (a partir do bloco)
MustSem isso, não há teste válido da hipóteseConfirmar consultas via WhatsApp; Reagendar rápido; Operação mínima de lista de espera
ShouldMelhora muito o teste, mas dá para rodar semRelatório semanal simples; Templates de mensagens
Could“Bom ter” se sobrar tempo/capacidadePersonalização de mensagens por especialidade; Dashboard básico
Won’tFora do escopo do MVP (por enquanto)App nativo; Integrações múltiplas; IA preditiva; Automação total de regras complexas

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao preencher o Bloco Solução no Lean Canvas, qual abordagem melhor mantém o escopo do MVP focado no que é essencial?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No Bloco Solução, o objetivo é registrar apenas 3–5 itens essenciais (verbo + resultado) que permitem testar a hipótese rapidamente, sem virar catálogo de funcionalidades. Detalhes técnicos e automações podem ser adiados quando houver forma manual de validar.

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