O que são Segmentos de Clientes (e por que “todo mundo” não é um segmento)
No Lean Canvas, Segmentos de Clientes descreve quem tem o problema que você quer resolver e em qual contexto ele aparece. Um segmento útil é específico o suficiente para você: (1) encontrar essas pessoas, (2) entender como elas decidem, (3) testar uma oferta e (4) vender sem depender de “marketing para massas”.
“Todo mundo” falha porque mistura pessoas com motivações, urgências, poder de compra e alternativas diferentes. Isso torna impossível escolher mensagem, canal e preço com clareza.
Como segmentar do jeito certo: comportamento, necessidade e contexto de compra
Segmentação demográfica (idade, renda, cidade) pode ajudar, mas raramente é o que explica a compra. O que costuma separar quem compra de quem não compra é:
1) Comportamento
- Frequência: usa/precisa diariamente, semanalmente, raramente.
- Intensidade do problema: sente “dor” leve vs. crítica.
- Alternativas atuais: faz manualmente, usa planilha, contrata serviço, ignora.
- Gatilhos: quando o problema aparece (ex.: fechamento do mês, auditoria, alta temporada).
2) Necessidade (job-to-be-done)
- Tarefa principal: o que a pessoa tenta realizar.
- Critério de sucesso: rapidez, precisão, custo, segurança, status, conveniência.
- Risco percebido: medo de errar, perder dinheiro, se expor, desperdiçar tempo.
3) Contexto de compra
- Momento: compra planejada vs. emergencial.
- Ambiente: no trabalho, em casa, na rua, no balcão, no celular.
- Restrições: orçamento, prazo, compliance, aprovação de terceiros.
- Canal natural: onde a pessoa procura solução (indicação, Google, marketplace, loja física, fornecedor).
Exemplo prático: transformando “todo mundo” em segmentos acionáveis
Produto hipotético: um serviço que reduz faltas em consultas (no-show) via confirmação automática e lembretes.
- Demográfico (fraco): “clínicas e consultórios no Brasil”.
- Comportamento: “clínicas com agenda lotada e alto volume de faltas semanais”.
- Necessidade: “reduzir buracos na agenda sem aumentar trabalho da recepção”.
- Contexto: “marcação por WhatsApp/telefone, equipe pequena, decisões rápidas do dono”.
Segmento acionável resultante: consultórios com 1–3 atendentes, agenda cheia, faltas recorrentes, marcação via WhatsApp e decisão centralizada no proprietário.
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Escolhendo um segmento principal (early adopters) e segmentos secundários
Você pode listar vários segmentos possíveis, mas precisa escolher um segmento principal para começar (seus early adopters) e manter segmentos secundários como opções para expandir depois. Early adopters não são “os mais legais”; são os que têm maior probabilidade de comprar cedo porque o problema é urgente e a adoção é viável.
Critérios claros para escolher o segmento principal
Use critérios objetivos. Um segmento principal forte tende a pontuar alto em:
- Urgência: o problema está acontecendo agora e custa caro (tempo, dinheiro, risco).
- Acessibilidade: você consegue encontrar e falar com essas pessoas rapidamente (comunidades, listas, locais, canais).
- Poder de decisão: quem sente a dor também decide ou influencia fortemente a compra.
- Recorrência: o problema volta com frequência (o valor se repete, retenção é mais provável).
- Clareza de alternativa: dá para comparar com o “jeito atual” e mostrar ganho.
- Baixa fricção de adoção: implementação simples, pouco treinamento, baixo risco percebido.
Matriz rápida de seleção (pontuação 1–5)
| Segmento | Urgência | Acessibilidade | Decisão | Recorrência | Total |
|---|---|---|---|---|---|
| Segmento A | __ | __ | __ | __ | __ |
| Segmento B | __ | __ | __ | __ | __ |
| Segmento C | __ | __ | __ | __ | __ |
Escolha o maior total como principal (desde que seja viável) e mantenha 1–2 como secundários.
Passo a passo prático para preencher Segmentos de Clientes
Passo 1 — Liste 3 a 7 segmentos candidatos (sem demografia pura)
Escreva segmentos no formato: [tipo de pessoa/negócio] + [comportamento/necessidade] + [contexto].
Donos de pet shop que fazem banho e tosa com agenda por WhatsApp e sofrem com remarcações diáriasGestores financeiros de PMEs que fecham o mês com planilhas e atrasam conciliaçõesProfissionais autônomos que vendem por Instagram e perdem pedidos no direct
Passo 2 — Para cada segmento, descreva o “momento de compra”
- Quando a pessoa percebe que precisa resolver?
- O que ela tenta primeiro (alternativa atual)?
- Quem mais participa da decisão?
- Qual é o orçamento típico e como é aprovado?
Passo 3 — Pontue com os critérios (urgência, acessibilidade, decisão, recorrência)
Preencha a matriz e escolha o segmento principal. Se houver empate, desempate por acessibilidade (quem você consegue entrevistar e vender primeiro) e poder de decisão (menos dependência de terceiros).
Passo 4 — Defina segmentos secundários (expansão)
Escolha 1–2 segmentos que:
- tenham problema parecido (reaproveita solução e mensagem),
- exijam poucos ajustes de produto,
- abram portas para canais melhores ou ticket maior.
Passo 5 — Escreva o bloco no Lean Canvas
No bloco, registre:
- Segmento principal (early adopters): uma frase específica.
- Segmentos secundários: 1–2 frases.
- Observação útil (opcional): “usuário ≠ comprador” ou “decisão por comitê”, se for o caso.
Persona enxuta: mini-template para deixar o segmento concreto
Depois de escolher o segmento principal, crie uma persona enxuta (não é uma biografia; é um resumo operacional para orientar testes, mensagem e oferta).
Persona enxuta (1 página, sem floreio) Tarefas (o que precisa fazer no dia a dia): - ... - ... Dores (o que atrapalha / custa caro / gera risco): - ... - ... Ganhos (o que seria “sucesso” para ela): - ... - ... Objeções (por que não compraria agora): - ... - ... Linguagem (palavras que ela usa para descrever o problema): - “...” - “...”Exemplo preenchido (B2B simples)
Persona enxuta Segmento: dono de clínica pequena com agenda cheia e faltas recorrentes Tarefas: - confirmar consultas e remarcar horários - responder pacientes no WhatsApp - organizar agenda da semana Dores: - buracos na agenda por no-show - recepção sobrecarregada - perda de faturamento e estresse Ganhos: - agenda previsível - menos mensagens repetitivas - mais atendimentos sem contratar mais gente Objeções: - “vai dar trabalho configurar” - “meus pacientes não vão responder” - “já tentamos lembrete e não funcionou” Linguagem: - “minha agenda fura” - “o paciente some” - “fico apagando incêndio”Diferenças importantes: B2C, negócios locais e B2B
B2C (consumidor final)
- Usuário = comprador na maioria dos casos.
- Segmentos costumam variar por situação de uso (contexto) e motivação (necessidade), mais do que por idade.
- Critérios de escolha do segmento principal: frequência (uso recorrente), canal de acesso (onde você encontra), disposição a pagar e alternativa atual.
Exemplo de segmentação por contexto: “pessoas que fazem marmita 5x por semana e precisam planejar compras em 15 minutos no domingo”.
Negócios locais (serviço presencial, região específica)
- O contexto inclui geografia + logística: distância, horário, estacionamento, fluxo de bairro.
- Segmentos podem ser definidos por rotina local (ex.: horário de pico, sazonalidade, eventos).
- Critérios de escolha: acessibilidade (parcerias locais, grupos de bairro), recorrência (cliente volta), urgência (dor imediata) e capacidade (você consegue atender a demanda).
Exemplo: “moradores a até 2 km que pedem almoço entre 11h30–13h e valorizam entrega em 20 minutos”.
B2B (empresa comprando)
Em B2B, frequentemente há papéis diferentes:
- Usuário: quem usa no dia a dia e sente a dor.
- Comprador: quem paga/contrata (procurement, financeiro, dono).
- Influenciador: TI, compliance, gestor, consultor, que aprova ou veta.
Ao definir o segmento, explicite qual papel você está mirando primeiro. Dois exemplos:
- Segmento centrado no usuário: “analistas financeiros que conciliam pagamentos manualmente e fecham mês com atraso”.
- Segmento centrado no comprador: “donos de PME que querem reduzir retrabalho do financeiro sem contratar mais”.
Critérios de escolha do segmento principal em B2B: ciclo de venda (curto vs. longo), número de aprovadores, risco percebido e facilidade de provar valor (métrica clara).
Perguntas para validar se o segmento está específico o suficiente
- Eu consigo completar a frase: “Quando [contexto], [segmento] precisa [tarefa] e hoje resolve com [alternativa]”?
- Consigo listar 10 pessoas/empresas desse segmento e onde encontrá-las?
- O segmento tem um gatilho claro que inicia a busca por solução?
- O problema é recorrente ou é um evento raro?
- Quem decide a compra é o mesmo que sente a dor? Se não, eu sei quem decide e quem influencia?
- Existe um orçamento típico ou uma forma comum de pagar (mensalidade, por uso, por projeto)?
- Eu consigo dizer por que esse segmento compraria agora e não “um dia”?
- O segmento é pequeno o suficiente para eu criar uma mensagem que pareça “feita para mim”?
- Se eu falar com 5 pessoas desse segmento, espero ouvir as mesmas palavras para descrever a dor?
- Se eu tiver que escolher um único canal para alcançá-los esta semana, eu sei qual é?