O que é o bloco “Fluxos de Receita” (e o que ele não é)
No Lean Canvas, Fluxos de Receita descreve como o dinheiro entra no negócio: quem paga, pelo quê, quando, quanto e com qual recorrência. Ele conecta diretamente a proposta de valor ao comportamento real do cliente (frequência de compra, sensibilidade a preço, necessidade de suporte, risco percebido, ciclo de decisão).
Este bloco não é um lugar para escrever “vamos faturar R$ 1 milhão”. Receita desejada sem base não ajuda a tomar decisões. O que você precisa aqui são mecanismos de cobrança e hipóteses testáveis sobre preço, conversão, volume e retenção.
Mapeando formas de monetização e quando cada uma faz sentido
A escolha do fluxo de receita deve refletir o modo como o cliente percebe valor e o momento em que ele sente esse valor. Abaixo, formas comuns e como relacioná-las ao comportamento do cliente:
| Modelo | Como cobra | Combina com | Risco/atenção |
|---|---|---|---|
| Venda única | Pagamento único | Valor entregue rápido; compra pontual | Caixa menos previsível; exige aquisição constante |
| Assinatura | Mensal/anual | Uso contínuo; valor recorrente; hábito | Precisa reduzir churn e sustentar valor mês a mês |
| Por uso (pay-per-use) | Por unidade (ex.: transação, minuto, GB) | Uso variável; cliente quer pagar “justo” | Receita oscila; exige medição e transparência |
| Comissão (take rate) | % sobre transação | Marketplace/intermediação | Depende de volume; pode gerar conflito com lados do mercado |
| Licenciamento | Direito de uso (tempo/escopo) | Empresas; compliance; implantação controlada | Ciclo de venda longo; negociação pesada |
| Serviço recorrente | Retainer mensal | Operação contínua (gestão, suporte, consultoria) | Escala limitada por equipe; risco de “hora vendida” |
| Freemium | Grátis + upgrade | Distribuição forte; baixo custo marginal | Precisa de conversão e limites claros no plano grátis |
Regra prática: “quando o cliente sente valor?”
- Valor imediato (resultado em dias): venda única ou pacote fechado.
- Valor contínuo (resultado ao longo do tempo): assinatura ou serviço recorrente.
- Valor proporcional ao consumo: por uso.
- Valor depende de transações entre partes: comissão.
- Valor em ambiente controlado/enterprise: licenciamento.
- Valor com forte efeito de rede e aquisição barata: freemium (com upgrade bem desenhado).
Passo a passo para preencher “Fluxos de Receita” no Lean Canvas
Passo 1 — Defina quem paga e o gatilho do pagamento
Escreva explicitamente quem é o pagador (nem sempre é o usuário) e quando ele paga.
- Pagador: usuário final, gestor, empresa, parceiro, anunciante, etc.
- Gatilho: ao iniciar, ao atingir limite, ao concluir tarefa, mensalmente, por transação, por renovação.
Exemplo (B2B): “Gestor de operações paga mensalmente por usuário ativo; cobrança no cartão/nota mensal.”
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Exemplo (B2C): “Usuário paga por sessão avulsa no momento do agendamento.”
Passo 2 — Escolha 1 fluxo principal e 1 secundário (no máximo)
Evite colocar 6 modelos ao mesmo tempo. Comece com o que é mais coerente com o comportamento do cliente e com sua capacidade de entregar.
- Principal: o que deve sustentar o negócio.
- Secundário: complemento (ex.: add-ons, setup, comissão, serviços).
Exemplo: Principal: assinatura mensal. Secundário: taxa de implantação (setup) e add-ons.
Passo 3 — Defina o preço inicial como hipótese (não como “verdade”)
Preço no Lean Canvas é uma hipótese testável. Para propor um preço inicial, combine três referências:
- Referências de mercado: faixas praticadas por alternativas e substitutos (não apenas concorrentes diretos).
- Valor gerado: quanto de tempo, dinheiro ou risco você reduz (ou receita que aumenta).
- Capacidade de pagamento: orçamento, ticket médio, limites psicológicos e processo de aprovação.
Checklist rápido para chegar a um número inicial
- Qual é a faixa de preço típica que o cliente já paga por algo parecido? (ex.: R$ 49–R$ 149/mês)
- Qual é o custo do problema hoje? (ex.: 10 horas/mês de retrabalho)
- Quanto do valor você captura sem travar a adoção? (ex.: 10%–30% do valor percebido)
- Há barreiras de aprovação? (ex.: acima de R$ 500/mês precisa de diretor)
Exemplo numérico (valor gerado): se você economiza 8 horas/mês e a hora “custa” R$ 60, o valor mensal é ~R$ 480. Um preço inicial de R$ 99–R$ 199/mês pode ser plausível como hipótese (captura parcial do valor e reduz fricção).
Passo 4 — Evite “receitas desejadas” sem base
Troque frases vagas por hipóteses verificáveis. Compare:
- Fraco (desejo): “Vamos faturar R$ 100 mil/mês em 6 meses.”
- Forte (hipótese): “De 100 leads qualificados/mês, 12% iniciam teste; 25% convertem para o plano Pro de R$ 149/mês em até 30 dias; churn mensal < 4%.”
O segundo formato permite medir, aprender e ajustar: aquisição, ativação, conversão, preço e retenção.
Passo 5 — Escreva suposições verificáveis (modelos de frase)
Use frases que tenham métrica + condição + prazo. Exemplos prontos para você adaptar:
X% dos usuários do plano grátis atingem o limite e fazem upgrade para o plano Y em até Z dias.Ticket médio inicial será R$ X; pelo menos Y% dos clientes aceitam esse preço sem desconto.Ao oferecer anual com 2 meses de desconto, Y% dos novos clientes escolhem anual.Churn mensal ficará abaixo de X% para clientes do tier Pro.Add-on A será comprado por X% dos clientes do tier Base.
Exemplo solicitado: 20% dos clientes que iniciam teste aceitam o plano mensal de R$ 149 em até 14 dias.
Estrutura de oferta: pacotes, tiers e add-ons (e o efeito no caixa)
O jeito como você empacota a oferta muda conversão, ticket médio e previsibilidade. Três padrões úteis:
1) Pacotes (bundles) para venda única ou projetos
Você entrega um conjunto fechado com escopo claro.
- Pacote Essencial: entrega mínima (preço menor, maior volume).
- Pacote Completo: inclui suporte/implantação (maior margem).
- Pacote Premium: inclui urgência, personalização ou SLA.
Impacto no caixa: entrada maior por venda, mas depende de novas vendas para manter receita.
2) Tiers (planos) para assinatura
Planos em camadas ajudam a capturar diferentes disposições a pagar e reduzir “desconto na negociação”.
| Tier | Para quem | Âncora de valor | Objetivo |
|---|---|---|---|
| Base | Começando | Resolver o básico | Baixa barreira de entrada |
| Pro | Uso frequente | Automação/limites maiores | Plano “padrão” (maior volume) |
| Business | Equipe/empresa | Controle, permissões, SLA | ARPA maior e previsibilidade |
Impacto no caixa: assinatura aumenta previsibilidade; tiers elevam ticket médio sem forçar todos a pagar caro.
3) Add-ons (complementos) para aumentar ARPA sem mexer no core
Add-ons são extras opcionais (por uso, por recurso, por serviço). Bons add-ons:
- Atendem um subgrupo com alta disposição a pagar.
- São fáceis de explicar e medir.
- Não “quebram” o plano base (evite esconder o essencial em add-on).
Exemplos: usuários adicionais, relatórios avançados, integrações premium, suporte prioritário, implantação assistida.
Impacto no caixa: melhora margem e ticket, mas pode reduzir previsibilidade se depender muito de compra pontual.
Freemium bem desenhado: limite que empurra para o upgrade
Freemium funciona quando o plano grátis entrega valor, mas tem um limite natural que aparece no momento certo:
- Limite por volume (ex.: até 100 registros/mês).
- Limite por recurso (ex.: sem exportação/integração).
- Limite por colaboração (ex.: 1 usuário; equipe paga).
Hipótese testável: 15% dos usuários que atingirem 80% do limite de uso verão a oferta e 5% farão upgrade em 7 dias.
Como registrar no Lean Canvas (exemplos prontos)
Exemplo A — SaaS B2B (assinatura + setup)
Fluxos de Receita: Assinatura mensal por usuário (R$ 79 Base, R$ 149 Pro); anual com 2 meses de desconto; setup opcional R$ 900. Hipóteses: 25% escolhem anual; 30% compram setup; churn < 3% ao mês no Pro.Exemplo B — App B2C (por uso + assinatura)
Fluxos de Receita: Pagamento por sessão (R$ 19,90) + plano mensal (R$ 49,90) para uso ilimitado. Hipóteses: 10% dos compradores avulsos migram para mensal em 30 dias; frequência média 3 sessões/mês; margem bruta > 60%.Exemplo C — Marketplace (comissão)
Fluxos de Receita: Comissão de 12% por transação + destaque patrocinado (R$ 39/mês). Hipóteses: take rate aceito sem queda de conversão; 8% dos vendedores pagam destaque; ticket médio R$ 180.Mini-análise de sensibilidade: volume × margem × retenção
Para evitar decisões baseadas em “achismo”, faça uma checagem rápida de sensibilidade com três alavancas:
- Volume: quantos clientes pagantes (ou transações) por mês.
- Margem: quanto sobra após custos variáveis (ex.: processamento, suporte incremental, comissões, infraestrutura proporcional).
- Retenção: por quanto tempo o cliente fica (ou churn mensal).
Modelo simples para assinatura
Use estas relações:
- MRR (receita recorrente mensal) =
Clientes pagantes × Preço médio - Lucro bruto mensal ≈
MRR × Margem bruta - Tempo médio de permanência (aprox.) =
1 / churn mensal(ex.: churn 5% → ~20 meses)
Tabela de sensibilidade (exemplo)
Suponha preço médio R$ 149/mês.
| Cenário | Clientes | Margem bruta | Churn mensal | MRR | Lucro bruto/mês | Permanência aprox. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Conservador | 80 | 55% | 6% | R$ 11.920 | R$ 6.556 | ~16,7 meses |
| Base | 120 | 65% | 4% | R$ 17.880 | R$ 11.622 | ~25 meses |
| Agressivo | 180 | 70% | 3% | R$ 26.820 | R$ 18.774 | ~33,3 meses |
Como usar a sensibilidade para decidir
- Se o volume é incerto, prefira modelos que aumentem previsibilidade (assinatura/anual) e reduzam churn.
- Se a margem cai com suporte/serviço, reforce tiers e add-ons para financiar atendimento premium.
- Se churn é alto, aumentar preço pode piorar; primeiro ajuste entrega de valor, onboarding e limites do plano.