Bloco Fluxos de Receita no Lean Canvas: como cobrar, quanto cobrar e o que realmente paga a conta

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é o bloco “Fluxos de Receita” (e o que ele não é)

No Lean Canvas, Fluxos de Receita descreve como o dinheiro entra no negócio: quem paga, pelo quê, quando, quanto e com qual recorrência. Ele conecta diretamente a proposta de valor ao comportamento real do cliente (frequência de compra, sensibilidade a preço, necessidade de suporte, risco percebido, ciclo de decisão).

Este bloco não é um lugar para escrever “vamos faturar R$ 1 milhão”. Receita desejada sem base não ajuda a tomar decisões. O que você precisa aqui são mecanismos de cobrança e hipóteses testáveis sobre preço, conversão, volume e retenção.

Mapeando formas de monetização e quando cada uma faz sentido

A escolha do fluxo de receita deve refletir o modo como o cliente percebe valor e o momento em que ele sente esse valor. Abaixo, formas comuns e como relacioná-las ao comportamento do cliente:

ModeloComo cobraCombina comRisco/atenção
Venda únicaPagamento únicoValor entregue rápido; compra pontualCaixa menos previsível; exige aquisição constante
AssinaturaMensal/anualUso contínuo; valor recorrente; hábitoPrecisa reduzir churn e sustentar valor mês a mês
Por uso (pay-per-use)Por unidade (ex.: transação, minuto, GB)Uso variável; cliente quer pagar “justo”Receita oscila; exige medição e transparência
Comissão (take rate)% sobre transaçãoMarketplace/intermediaçãoDepende de volume; pode gerar conflito com lados do mercado
LicenciamentoDireito de uso (tempo/escopo)Empresas; compliance; implantação controladaCiclo de venda longo; negociação pesada
Serviço recorrenteRetainer mensalOperação contínua (gestão, suporte, consultoria)Escala limitada por equipe; risco de “hora vendida”
FreemiumGrátis + upgradeDistribuição forte; baixo custo marginalPrecisa de conversão e limites claros no plano grátis

Regra prática: “quando o cliente sente valor?”

  • Valor imediato (resultado em dias): venda única ou pacote fechado.
  • Valor contínuo (resultado ao longo do tempo): assinatura ou serviço recorrente.
  • Valor proporcional ao consumo: por uso.
  • Valor depende de transações entre partes: comissão.
  • Valor em ambiente controlado/enterprise: licenciamento.
  • Valor com forte efeito de rede e aquisição barata: freemium (com upgrade bem desenhado).

Passo a passo para preencher “Fluxos de Receita” no Lean Canvas

Passo 1 — Defina quem paga e o gatilho do pagamento

Escreva explicitamente quem é o pagador (nem sempre é o usuário) e quando ele paga.

  • Pagador: usuário final, gestor, empresa, parceiro, anunciante, etc.
  • Gatilho: ao iniciar, ao atingir limite, ao concluir tarefa, mensalmente, por transação, por renovação.

Exemplo (B2B): “Gestor de operações paga mensalmente por usuário ativo; cobrança no cartão/nota mensal.”

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Exemplo (B2C): “Usuário paga por sessão avulsa no momento do agendamento.”

Passo 2 — Escolha 1 fluxo principal e 1 secundário (no máximo)

Evite colocar 6 modelos ao mesmo tempo. Comece com o que é mais coerente com o comportamento do cliente e com sua capacidade de entregar.

  • Principal: o que deve sustentar o negócio.
  • Secundário: complemento (ex.: add-ons, setup, comissão, serviços).

Exemplo: Principal: assinatura mensal. Secundário: taxa de implantação (setup) e add-ons.

Passo 3 — Defina o preço inicial como hipótese (não como “verdade”)

Preço no Lean Canvas é uma hipótese testável. Para propor um preço inicial, combine três referências:

  • Referências de mercado: faixas praticadas por alternativas e substitutos (não apenas concorrentes diretos).
  • Valor gerado: quanto de tempo, dinheiro ou risco você reduz (ou receita que aumenta).
  • Capacidade de pagamento: orçamento, ticket médio, limites psicológicos e processo de aprovação.

Checklist rápido para chegar a um número inicial

  • Qual é a faixa de preço típica que o cliente já paga por algo parecido? (ex.: R$ 49–R$ 149/mês)
  • Qual é o custo do problema hoje? (ex.: 10 horas/mês de retrabalho)
  • Quanto do valor você captura sem travar a adoção? (ex.: 10%–30% do valor percebido)
  • Há barreiras de aprovação? (ex.: acima de R$ 500/mês precisa de diretor)

Exemplo numérico (valor gerado): se você economiza 8 horas/mês e a hora “custa” R$ 60, o valor mensal é ~R$ 480. Um preço inicial de R$ 99–R$ 199/mês pode ser plausível como hipótese (captura parcial do valor e reduz fricção).

Passo 4 — Evite “receitas desejadas” sem base

Troque frases vagas por hipóteses verificáveis. Compare:

  • Fraco (desejo): “Vamos faturar R$ 100 mil/mês em 6 meses.”
  • Forte (hipótese): “De 100 leads qualificados/mês, 12% iniciam teste; 25% convertem para o plano Pro de R$ 149/mês em até 30 dias; churn mensal < 4%.”

O segundo formato permite medir, aprender e ajustar: aquisição, ativação, conversão, preço e retenção.

Passo 5 — Escreva suposições verificáveis (modelos de frase)

Use frases que tenham métrica + condição + prazo. Exemplos prontos para você adaptar:

  • X% dos usuários do plano grátis atingem o limite e fazem upgrade para o plano Y em até Z dias.
  • Ticket médio inicial será R$ X; pelo menos Y% dos clientes aceitam esse preço sem desconto.
  • Ao oferecer anual com 2 meses de desconto, Y% dos novos clientes escolhem anual.
  • Churn mensal ficará abaixo de X% para clientes do tier Pro.
  • Add-on A será comprado por X% dos clientes do tier Base.

Exemplo solicitado: 20% dos clientes que iniciam teste aceitam o plano mensal de R$ 149 em até 14 dias.

Estrutura de oferta: pacotes, tiers e add-ons (e o efeito no caixa)

O jeito como você empacota a oferta muda conversão, ticket médio e previsibilidade. Três padrões úteis:

1) Pacotes (bundles) para venda única ou projetos

Você entrega um conjunto fechado com escopo claro.

  • Pacote Essencial: entrega mínima (preço menor, maior volume).
  • Pacote Completo: inclui suporte/implantação (maior margem).
  • Pacote Premium: inclui urgência, personalização ou SLA.

Impacto no caixa: entrada maior por venda, mas depende de novas vendas para manter receita.

2) Tiers (planos) para assinatura

Planos em camadas ajudam a capturar diferentes disposições a pagar e reduzir “desconto na negociação”.

TierPara quemÂncora de valorObjetivo
BaseComeçandoResolver o básicoBaixa barreira de entrada
ProUso frequenteAutomação/limites maioresPlano “padrão” (maior volume)
BusinessEquipe/empresaControle, permissões, SLAARPA maior e previsibilidade

Impacto no caixa: assinatura aumenta previsibilidade; tiers elevam ticket médio sem forçar todos a pagar caro.

3) Add-ons (complementos) para aumentar ARPA sem mexer no core

Add-ons são extras opcionais (por uso, por recurso, por serviço). Bons add-ons:

  • Atendem um subgrupo com alta disposição a pagar.
  • São fáceis de explicar e medir.
  • Não “quebram” o plano base (evite esconder o essencial em add-on).

Exemplos: usuários adicionais, relatórios avançados, integrações premium, suporte prioritário, implantação assistida.

Impacto no caixa: melhora margem e ticket, mas pode reduzir previsibilidade se depender muito de compra pontual.

Freemium bem desenhado: limite que empurra para o upgrade

Freemium funciona quando o plano grátis entrega valor, mas tem um limite natural que aparece no momento certo:

  • Limite por volume (ex.: até 100 registros/mês).
  • Limite por recurso (ex.: sem exportação/integração).
  • Limite por colaboração (ex.: 1 usuário; equipe paga).

Hipótese testável: 15% dos usuários que atingirem 80% do limite de uso verão a oferta e 5% farão upgrade em 7 dias.

Como registrar no Lean Canvas (exemplos prontos)

Exemplo A — SaaS B2B (assinatura + setup)

Fluxos de Receita: Assinatura mensal por usuário (R$ 79 Base, R$ 149 Pro); anual com 2 meses de desconto; setup opcional R$ 900. Hipóteses: 25% escolhem anual; 30% compram setup; churn < 3% ao mês no Pro.

Exemplo B — App B2C (por uso + assinatura)

Fluxos de Receita: Pagamento por sessão (R$ 19,90) + plano mensal (R$ 49,90) para uso ilimitado. Hipóteses: 10% dos compradores avulsos migram para mensal em 30 dias; frequência média 3 sessões/mês; margem bruta > 60%.

Exemplo C — Marketplace (comissão)

Fluxos de Receita: Comissão de 12% por transação + destaque patrocinado (R$ 39/mês). Hipóteses: take rate aceito sem queda de conversão; 8% dos vendedores pagam destaque; ticket médio R$ 180.

Mini-análise de sensibilidade: volume × margem × retenção

Para evitar decisões baseadas em “achismo”, faça uma checagem rápida de sensibilidade com três alavancas:

  • Volume: quantos clientes pagantes (ou transações) por mês.
  • Margem: quanto sobra após custos variáveis (ex.: processamento, suporte incremental, comissões, infraestrutura proporcional).
  • Retenção: por quanto tempo o cliente fica (ou churn mensal).

Modelo simples para assinatura

Use estas relações:

  • MRR (receita recorrente mensal) = Clientes pagantes × Preço médio
  • Lucro bruto mensalMRR × Margem bruta
  • Tempo médio de permanência (aprox.) = 1 / churn mensal (ex.: churn 5% → ~20 meses)

Tabela de sensibilidade (exemplo)

Suponha preço médio R$ 149/mês.

CenárioClientesMargem brutaChurn mensalMRRLucro bruto/mêsPermanência aprox.
Conservador8055%6%R$ 11.920R$ 6.556~16,7 meses
Base12065%4%R$ 17.880R$ 11.622~25 meses
Agressivo18070%3%R$ 26.820R$ 18.774~33,3 meses

Como usar a sensibilidade para decidir

  • Se o volume é incerto, prefira modelos que aumentem previsibilidade (assinatura/anual) e reduzam churn.
  • Se a margem cai com suporte/serviço, reforce tiers e add-ons para financiar atendimento premium.
  • Se churn é alto, aumentar preço pode piorar; primeiro ajuste entrega de valor, onboarding e limites do plano.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao preencher o bloco “Fluxos de Receita” no Lean Canvas, qual alternativa descreve melhor o que deve ser registrado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O bloco deve mostrar como o dinheiro entra no negócio, com mecanismos de cobrança e hipóteses mensuráveis (pagador, gatilho, preço, conversão e retenção). Metas de faturamento sem base e muitos modelos ao mesmo tempo não ajudam a decidir.

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