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Perito Médico do INSS: Guia Estratégico para Aprovação no Concurso Federal

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Bioética e Ética Médica na perícia do INSS: deveres do Perito Médico

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Na perícia médica do INSS, bioética e ética médica não são “valores abstratos”: elas orientam decisões concretas sob pressão, com impacto direto em direitos do periciando e na integridade do ato pericial. O perito atua como médico, mas em um contexto avaliativo, devendo manter independência técnica, imparcialidade, respeito, comunicação adequada e sigilo com limites bem definidos.

Independência técnica e autonomia profissional

Conceito: independência técnica é a obrigação de fundamentar a conclusão pericial exclusivamente em critérios médicos e técnico-científicos, sem subordinar o conteúdo do ato a interesses externos (institucionais, políticos, econômicos, pessoais ou de terceiros). A autonomia profissional não elimina deveres administrativos, mas impede interferência no mérito técnico.

Condutas práticas esperadas

  • Basear-se em exame, anamnese dirigida ao objetivo pericial e documentos apresentados, registrando achados relevantes.
  • Justificar tecnicamente limitações do exame (ex.: ausência de documentos, recusa do periciando, impossibilidade de exame físico por segurança).
  • Evitar “ajustes” de conclusão para atender expectativas de qualquer parte.

Cenário prático: pressão externa para alterar conclusão

Situação: gestor, colega ou pessoa influente sugere “rever” o resultado para reduzir concessões ou para favorecer um caso específico.

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Reafirme que o mérito técnico é indelegável e depende dos elementos do caso.
  • 2) Verifique se há fato novo objetivo (documento relevante, erro material). Se não houver, mantenha a conclusão.
  • 3) Registre de forma adequada no sistema/relato pericial os fundamentos técnicos, evitando menções pessoais desnecessárias.
  • 4) Se a pressão persistir ou configurar assédio/coação, utilize os canais institucionais apropriados e comunique a chefia imediata conforme fluxos internos, preservando a segurança.

Imparcialidade e justiça: evitar vieses e julgamentos morais

Conceito: imparcialidade é avaliar a capacidade funcional e as limitações de forma equânime, sem favorecer ou prejudicar o periciando por simpatia, antipatia, aparência, condição socioeconômica, crenças, histórico pessoal, diagnóstico estigmatizado ou conflitos prévios.

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Práticas para reduzir vieses

  • Usar roteiro padronizado de entrevista e exame, focado em funcionalidade e coerência clínica.
  • Separar “comportamento em consulta” de “capacidade funcional” (ex.: irritação não é, por si, incapacidade).
  • Evitar linguagem pejorativa e rótulos (ex.: “simulador”, “preguiçoso”); quando houver inconsistências, descrevê-las objetivamente (ex.: “incongruência entre queixa e achados”).

Cenário prático: tentativa de indução emocional

Situação: o periciando chora, ameaça “processar” ou relata dificuldades financeiras para obter decisão favorável.

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Acolha com respeito, sem prometer resultado.
  • 2) Reoriente a entrevista para dados clínicos e funcionais verificáveis.
  • 3) Explique o papel do perito: avaliar tecnicamente, não “conceder” por compaixão.
  • 4) Registre achados e documentos; conclua conforme critérios técnicos.

Sigilo profissional e seus limites na perícia

Conceito: o sigilo é dever ético central. No contexto pericial, ele se aplica às informações obtidas na entrevista, exame e documentos. Contudo, a perícia envolve compartilhamento administrativo estritamente necessário para a finalidade do ato: registrar no sistema e no relatório apenas o que é pertinente para justificar a conclusão pericial.

Confidencialidade x compartilhamento administrativo necessário

  • Confidencialidade: compromisso de não divulgar informações a terceiros sem base ética/legal. Inclui não comentar casos em ambientes informais, não expor dados em corredores, não deixar documentos visíveis, não discutir caso com pessoas sem necessidade funcional.
  • Compartilhamento administrativo estritamente necessário: inserção de informações mínimas e pertinentes no registro pericial para permitir auditoria, rastreabilidade e compreensão técnica da conclusão. Deve ser proporcional: nem omisso (sem fundamentação), nem excessivo (detalhes íntimos sem relevância).

Como decidir o que registrar (passo a passo)

  • 1) Pergunte: “Esta informação é necessária para sustentar a conclusão sobre capacidade/limitação?”
  • 2) Prefira termos funcionais e objetivos (ex.: “restrição para esforços repetitivos acima do ombro”) em vez de narrativas íntimas.
  • 3) Em saúde mental e condições sensíveis, descreva sinais/funcionalidade e tratamento, evitando detalhes desnecessários de vida pessoal.
  • 4) Se houver documento com dado sensível irrelevante, não o transcreva; registre apenas o que impacta a avaliação.
  • 5) Garanta segurança da informação: não imprimir sem necessidade, não fotografar documentos pessoais, não armazenar em dispositivos pessoais.

Cenário prático: solicitação indevida de informações

Situação: empregador, familiar, advogado ou servidor sem atribuição pede “o diagnóstico” ou “cópia do laudo completo”.

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Verifique se o solicitante tem legitimidade e se há previsão de acesso pelo canal adequado.
  • 2) Não forneça informações por telefone, mensagens ou informalmente.
  • 3) Oriente o solicitante a utilizar os meios oficiais de acesso/solicitação, conforme regras de transparência e proteção de dados aplicáveis ao órgão.
  • 4) Se houver insistência, registre a ocorrência conforme rotina interna e preserve o sigilo.

Respeito ao periciando: dignidade, privacidade e limites do exame

Conceito: respeito implica tratar o periciando com urbanidade, sem humilhação, ironia, ameaças, exposição corporal desnecessária ou comentários discriminatórios. O exame deve ser proporcional ao objetivo pericial, preservando privacidade e pudor.

Boas práticas de atendimento

  • Explicar o que será feito e por quê, antes de iniciar anamnese e exame.
  • Garantir ambiente adequado: porta fechada, presença de acompanhante quando justificado e permitido, e uso de barreiras de privacidade quando houver exame físico.
  • Evitar perguntas íntimas sem pertinência técnica; quando necessárias, fazer com linguagem neutra e objetiva.
  • Encerrar a avaliação com orientação clara sobre próximos passos administrativos, sem antecipar resultado se isso não for apropriado ao fluxo.

Consentimento, recusa e comunicação adequada

Conceito: no ato pericial, o periciando deve compreender a natureza avaliativa da consulta, o que será examinado e como as informações serão utilizadas. O consentimento aqui é principalmente para procedimentos de exame e para a condução da entrevista, respeitando a possibilidade de recusa. A recusa pode limitar a avaliação e deve ser registrada de forma objetiva.

Roteiro de comunicação inicial (modelo prático)

  • 1) Identifique-se e explique o papel: avaliação técnica para fins previdenciários.
  • 2) Informe o escopo: entrevista dirigida, exame físico/mental quando necessário e análise de documentos.
  • 3) Explique o uso das informações: registro no sistema/relatório apenas do necessário para fundamentar a conclusão.
  • 4) Pergunte se há dúvidas e confirme concordância para iniciar.

Cenário prático: recusa de exame físico

Situação: periciando recusa manobras por dor, pudor ou desconfiança.

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Esclareça a finalidade do exame e quais etapas são importantes para avaliar a funcionalidade.
  • 2) Ofereça alternativas menos invasivas quando possível (ex.: avaliação funcional observacional, testes adaptados).
  • 3) Se a recusa persistir, respeite-a; não coaja.
  • 4) Registre a recusa e suas consequências técnicas (ex.: “exame limitado por recusa do periciando”), e conclua com base no que for possível avaliar.

Conflitos de interesse: identificar, declarar e se afastar quando necessário

Conceito: conflito de interesse ocorre quando relações pessoais, financeiras, profissionais ou emocionais podem comprometer (ou parecer comprometer) a imparcialidade. Mesmo a aparência de parcialidade prejudica a confiança no ato pericial.

Situações comuns

  • Periciar familiar, amigo, colega de trabalho, vizinho próximo ou pessoa com quem haja litígio.
  • Ter vínculo assistencial prévio relevante (ter sido médico assistente do periciando) ou relação terapêutica em curso.
  • Ter interesse econômico indireto no resultado.

Como agir (passo a passo)

  • 1) Reconheça o conflito assim que identificar.
  • 2) Informe a necessidade de substituição/redistribuição conforme o procedimento interno.
  • 3) Evite coletar dados desnecessários antes da substituição para reduzir exposição de informações.
  • 4) Registre a justificativa de forma sucinta e respeitosa, sem expor detalhes pessoais.

Prevenção de assédio e discriminação

Conceito: assédio (moral ou sexual) e discriminação são incompatíveis com a ética médica e com o serviço público. O perito deve manter postura profissional, linguagem neutra e conduta respeitosa, além de atuar para que o ambiente seja seguro para todos.

Condutas preventivas

  • Evitar comentários sobre aparência, corpo, orientação sexual, religião, origem, raça/cor, deficiência ou condição social.
  • Não usar humor depreciativo, apelidos ou intimidação.
  • Manter distância física adequada e explicar previamente qualquer contato necessário ao exame.
  • Se houver necessidade de acompanhante/chaperone em exame sensível, seguir a rotina institucional.

Cenário prático: discriminação velada

Situação: colega sugere que “certos grupos sempre exageram” ou que “diagnóstico X é desculpa”.

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Reafirme que a avaliação é individual e baseada em achados e funcionalidade.
  • 2) Evite aderir a generalizações; mantenha registro técnico.
  • 3) Se houver conduta discriminatória no ambiente, utilize os canais apropriados para orientação/registro, conforme gravidade.

Condutas vedadas no contexto pericial

Algumas condutas são eticamente incompatíveis com a perícia, por violarem deveres de honestidade, respeito, sigilo e imparcialidade.

  • Emitir conclusão sem exame adequado ou sem análise mínima dos elementos disponíveis (negligência técnica).
  • Falsificar, omitir deliberadamente achados relevantes ou inserir informação sabidamente inverídica.
  • Antecipar resultado como “garantia” ao periciando ou negociar resultado.
  • Receber vantagem, presente, favor ou qualquer benefício relacionado ao ato pericial.
  • Manter comunicação paralela com partes interessadas para influenciar o resultado.
  • Expor dados do caso em redes sociais, conversas informais ou ambientes sem controle de acesso.
  • Tratar o periciando com humilhação, ameaça, coação ou discriminação.

Fraude, simulação e inconsistências: postura ética e técnica

Conceito: o perito deve lidar com suspeitas de fraude com objetividade, sem acusações morais. A ética exige descrever inconsistências de forma técnica, registrar limites e, quando aplicável, acionar fluxos institucionais de comunicação de indícios, sem extrapolar competência.

Cenário prático: tentativa de fraude com documento suspeito

Situação: documento com sinais de adulteração ou incongruências (datas, carimbos, conteúdo incompatível).

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Não confronte com acusação direta (“isso é falso”).
  • 2) Verifique coerência clínica com exame e demais documentos.
  • 3) Registre objetivamente os elementos observados (ex.: “documento apresenta divergência de datas/rasuras”).
  • 4) Encaminhe o indício pelos canais institucionais previstos, mantendo sigilo e evitando exposição desnecessária.
  • 5) Conclua com base no conjunto probatório e no exame, sem “punir” o periciando por suspeita não comprovada.

Cenário prático: inconsistência entre queixa e exame

Situação: queixa de incapacidade total, mas desempenho funcional observado é incompatível.

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Refaça perguntas com foco funcional (atividades diárias, limitações específicas, variabilidade).
  • 2) Realize testes compatíveis e seguros, descrevendo resultados.
  • 3) Registre a incongruência em linguagem técnica, sem adjetivos.
  • 4) Considere hipóteses clínicas (dor, transtornos, flutuação, medo de movimento) antes de inferir simulação.

Segurança, agressividade e manejo de crise na sala pericial

Conceito: o perito deve preservar a própria segurança, a do periciando e a de terceiros. A ética não exige tolerar violência. A comunicação deve ser desescaladora, com limites claros.

Cenário prático: agressividade verbal e ameaça

Situação: periciando grita, ofende, ameaça ou tenta intimidar para obter resultado.

Decisão ética (passo a passo):

  • 1) Mantenha tom calmo e firme; estabeleça limite: “Posso continuar se houver respeito. Caso contrário, vou encerrar por segurança.”
  • 2) Evite discutir mérito do benefício sob ameaça; reoriente para o procedimento.
  • 3) Se persistir, interrompa o atendimento e acione apoio/segurança conforme protocolo local.
  • 4) Registre o ocorrido de forma objetiva (comportamentos observados, impacto na possibilidade de exame), sem adjetivações.
  • 5) Se houver risco iminente, priorize retirada segura e comunicação imediata à autoridade competente.

Checklist ético-operacional para o ato pericial

  • Antes: verificar conflito de interesse; preparar ambiente com privacidade; revisar objetivo do exame.
  • Início: explicar papel pericial, escopo, uso das informações; confirmar concordância para exame.
  • Durante: conduzir entrevista objetiva; examinar com proporcionalidade; manter linguagem respeitosa; evitar vieses; registrar apenas o necessário.
  • Se houver problema: recusa → respeitar e registrar; pressão externa → manter independência; pedido indevido de dados → negar e orientar canal oficial; agressividade → desescalar e encerrar se necessário.
  • Registro: descrever achados e limitações; justificar tecnicamente; proteger dados sensíveis; evitar rótulos e juízos morais.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao receber pressão externa para “rever” uma conclusão pericial sem apresentação de fato novo objetivo, qual conduta está mais alinhada à independência técnica e à ética na perícia do INSS?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A independência técnica exige que a conclusão se baseie apenas em critérios médico-científicos. Sem fato novo objetivo, a conclusão deve ser mantida, com registro técnico suficiente. Persistindo pressão/assédio, devem-se acionar os canais institucionais, preservando segurança e evitando exposições desnecessárias.

Próximo capitúlo

Metodologia do exame pericial do INSS: entrevista, exame físico e funcionalidade

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