Balística forense é o conjunto de conhecimentos técnicos usados para interpretar armas de fogo, munições, efeitos do disparo e vestígios associados, com foco em responder perguntas periciais típicas: qual arma pode ter efetuado o disparo, como o projétil se deslocou, de onde partiu o tiro, a que distância ocorreu e se há compatibilidade entre projétil/estojo e uma arma suspeita.
Noções de funcionamento de armas de fogo
Classificações úteis para a perícia
- Armas curtas: pistolas e revólveres. Em geral, menor comprimento de cano, maior manobrabilidade e maior probabilidade de uso em ambientes confinados.
- Armas longas: espingardas, carabinas e fuzis. Maior comprimento de cano, maior estabilidade e, frequentemente, maior energia/alcance (dependendo do calibre e do sistema).
- Cano raiado: possui raias e cheios (sulcos e relevos) que imprimem rotação ao projétil. Tende a gerar marcas no projétil úteis para confronto.
- Cano liso: típico de espingardas. Dispara múltiplos projéteis (chumbo) ou projétil único (slug). A análise se apoia mais em estojos, bucha/sabot, padrão de dispersão e perfurações.
Ciclo do disparo (visão operacional)
O ciclo do disparo descreve eventos mecânicos que geram vestígios. Entender a sequência ajuda a prever onde procurar marcas e resíduos.
- Alimentação: cartucho é posicionado na câmara (em armas semiautomáticas/automáticas) ou alinhado ao cano (revólver).
- Trancamento: conjunto ferrolho/cano se posiciona para conter a pressão.
- Percussão: percussor/ cão golpeia a espoleta, produzindo marca característica na cápsula de espoleta.
- Ignição e combustão: espoleta inflama a pólvora; gases expandem e impulsionam o projétil.
- Extração e ejeção (quando aplicável): extrator agarra o aro do estojo e o ejetor o lança para fora, deixando marcas no estojo.
Observação pericial: revólver normalmente retém estojos no tambor, enquanto pistolas tendem a ejetar estojos, criando um campo de dispersão de estojos que pode auxiliar na reconstrução.
Munições e componentes
Cartucho: partes e função
- Estojo: invólucro metálico (ou plástico/papel em espingardas) que contém os componentes; pode apresentar marcas de câmara, ferrolho, extrator e ejetor.
- Espoleta: iniciador; recebe a marca do percussor e sinais de pressão (achatamento, crateras) que devem ser interpretados com cautela.
- Pólvora: propelente; sua queima gera gases e resíduos (fuligem, partículas não queimadas).
- Projétil: pode ser encamisado, semiencamisado, expansivo, chumbo nu, slug; em cano raiado recebe impressões das raias.
- Componentes de espingarda: bucha, copo, feltro, sabot (dependendo do tipo), que podem ser encontrados no trajeto e ajudar na estimativa de distância e direção.
Calibre e implicações práticas
O calibre, por si só, raramente identifica uma arma específica, mas orienta compatibilidades e limitações: diâmetro do projétil, tipo de estojo, energia provável, e expectativa de perfuração/deformação. Em exame de local, calibre estimado deve ser tratado como hipótese e revisado após medições e exames laboratoriais.
Fenômenos do disparo e vestígios associados
Resíduos de disparo e efeitos térmicos
O disparo produz gases, fuligem e partículas (inclusive não queimadas). Esses materiais podem se depositar no alvo e em superfícies próximas, variando com arma, munição, comprimento do cano, condições ambientais e barreiras intermediárias.
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- Fuligem (enegrecimento): depósito superficial, mais comum em tiros próximos.
- Tatuagem (stippling): pontilhado por grãos de pólvora/partículas que impactam a pele/tecido; sugere proximidade, mas exige calibração por testes.
- Chamuscamento/queimadura: ação térmica e gases quentes em contato com o alvo.
- Resíduos em mãos/roupas: podem existir em atirador, vítima próxima ao cano ou por contaminação ambiental; interpretação deve considerar contexto e possibilidade de transferência secundária.
Espoletamento e sinais no estojo
A cápsula de espoleta registra a marca do percussor e pode apresentar sinais relacionados à dinâmica do disparo. Esses sinais ajudam no confronto e na avaliação de funcionamento, mas não devem ser usados isoladamente para inferir “arma forte/fraca” ou recarga sem outros elementos.
- Marca do percussor: forma, profundidade e microestrias podem ser individualizantes.
- Marcas de ferrolho (breech face): padrões na base do estojo, relevantes em armas semiautomáticas.
- Marcas de extrator/ejetor: arranhões e amassamentos típicos do ciclo de extração/ejeção.
Ricochete e desvio
Ricochete é a deflexão do projétil ao atingir uma superfície em ângulo. Pode gerar trajetórias secundárias, fragmentação e marcas características.
- Indicadores: deformação assimétrica do projétil, fragmentos, marcas alongadas na superfície, ângulo raso de impacto, perda de estabilidade.
- Risco interpretativo: após ricochete, a trajetória não representa a linha de tiro original; reconstruções devem considerar o ponto de impacto primário e a superfície defletora.
Análise de trajetórias, reconstrução e interpretação de perfurações
Conceitos essenciais
- Linha de tiro: linha geométrica aproximada entre boca do cano e o ponto de impacto, útil como modelo inicial.
- Trajetória: caminho real do projétil, que pode curvar-se por gravidade, resistência do ar e, principalmente em curtas distâncias, por interações com barreiras e tecidos.
- Barreiras intermediárias: vidro, madeira, metal, paredes, roupas e objetos podem desviar, deformar ou fragmentar o projétil.
Passo a passo prático: reconstrução de trajetória em ambiente
- 1) Identificar e numerar perfurações/impactos: em paredes, móveis, portas, vidros, veículos. Diferenciar impacto de entrada/saída quando possível.
- 2) Caracterizar cada perfuração: diâmetro, forma, presença de “rebarba”/lascamento, halo de sujidade, material ao redor, e alinhamento com possíveis obstáculos.
- 3) Procurar projétil/fragmentos: atrás do ponto de impacto, em anteparos, rodapés, forros, estofados. Registrar profundidade e posição.
- 4) Estabelecer eixos prováveis: usar hastes/varas de trajetória (ou lasers de alinhamento quando disponíveis) inseridas no sentido do canal de perfuração, respeitando o ângulo observado.
- 5) Triangular a origem provável: prolongar os eixos para trás até uma zona de convergência (área provável do atirador), considerando altura compatível com postura (em pé, ajoelhado) e obstáculos.
- 6) Validar com contexto e limitações: checar se há superfícies de ricochete, múltiplos disparos, mudanças de plano (porta aberta/fechada), e se a geometria é compatível com posições de pessoas/objetos.
Interpretação de perfurações: entrada vs saída (materiais comuns)
Os sinais variam conforme o material. A regra prática é: entradas tendem a ser mais regulares e saídas mais irregulares, mas há exceções (projétil instável, fragmentação, material frágil).
- Drywall/gesso: entrada geralmente mais circular; saída pode ser maior e esfarelada. Poeira pode indicar direção.
- Madeira: pode haver lascamento maior no lado de saída; fibras “levantadas” podem sugerir sentido.
- Metal: pode formar rebarba no lado de saída; impactos oblíquos geram rasgos alongados.
- Vidro: fraturas radiais e concêntricas; o lado de saída costuma apresentar maior “cone” de lascamento. Atenção a múltiplos impactos e tensão do vidro.
Distância de disparo e sinais correlatos
O que pode (e o que não pode) ser inferido
A distância de disparo é estimada pela presença/ausência e padrão de resíduos e efeitos (fuligem, tatuagem, queimadura, zona de esfumaçamento), além de danos em roupas e substratos. Não existe tabela universal: a estimativa deve ser suportada por testes com arma e munição compatíveis, em substrato semelhante.
Passo a passo prático: estimativa de distância por padrões de resíduos
- 1) Documentar o alvo: fotos em escala, macro de bordas e áreas com resíduos; registrar camadas (roupa/pele/superfície).
- 2) Identificar sinais: fuligem superficial, tatuagem, queimadura, rasgo em “cruz” em tecido, impressão de boca do cano (quando houver contato).
- 3) Considerar barreiras: roupas grossas podem reter fuligem e reduzir tatuagem na pele; múltiplas camadas alteram o padrão.
- 4) Planejar testes comparativos: disparos de prova com a arma suspeita (ou arma do mesmo modelo) e munição do mesmo tipo/lote quando possível, em alvos equivalentes (tecido similar, gel balístico, papel/cartolina para resíduos).
- 5) Comparar padrões: medir diâmetro da zona de resíduos e densidade do pontilhado; registrar distância em incrementos (ex.: 5 cm, 10 cm, 20 cm, 50 cm, 1 m) conforme o caso.
- 6) Reportar como faixa: expressar o resultado como intervalo provável e condições do teste, evitando precisão falsa.
Confronto balístico: princípios, marcas e limitações
O que é confrontar balisticamente
Confronto balístico é a comparação de marcas deixadas pela arma em projéteis e estojos para avaliar compatibilidade e, quando a qualidade das marcas permite, associação a uma arma específica. A comparação é feita por microscopia comparativa e/ou sistemas de triagem, sempre com confirmação por exame pericial.
Marcas em projéteis (cano raiado)
- Marcas de classe: características compartilhadas por um grupo (calibre, número de raias, sentido de giro, largura de raias). Servem para excluir incompatibilidades.
- Marcas individuais: microestrias decorrentes de imperfeições do cano; podem permitir associação quando preservadas.
Marcas em estojos
- Percussor: forma e microestrias na espoleta.
- Face do ferrolho: padrão de impressão na base do estojo.
- Extrator: arranhões/entalhes no aro.
- Ejetor: marcas de impacto/amassamento em ponto característico.
- Câmara: estrias longitudinais ou marcas de expansão do estojo.
Limitações e fontes de incerteza
- Deformação/fragmentação: projéteis deformados perdem marcas úteis; fragmentos podem ser insuficientes para individualização.
- Cano liso: projéteis múltiplos (chumbo) raramente trazem marcas individualizantes do cano; confronto depende mais de estojos e componentes.
- Manutenção e desgaste: limpeza, corrosão e desgaste alteram microestrias ao longo do tempo.
- Peças substituídas: troca de cano, ferrolho, percussor, extrator/ejetor pode mudar o padrão de marcas.
- Munição e pressão: diferentes cargas podem alterar a nitidez das marcas no estojo e no projétil.
- Qualidade do material: espoletas mais duras/macias e estojos de diferentes ligas respondem de modo distinto.
Cuidados específicos com armas, projéteis e estojos (manuseio e preservação)
Em balística, pequenos danos podem destruir marcas. O foco é preservar superfícies de contato (projétil e base do estojo) e evitar introduzir novas marcas.
Passo a passo prático: preservação de projéteis e estojos
- 1) Coleta com mínimo contato: usar pinças adequadas e luvas; evitar tocar na base do estojo e na superfície lateral do projétil.
- 2) Embalagem individual: cada projétil/estojo em recipiente separado (caixa rígida ou tubo), com material amortecedor para evitar atrito.
- 3) Não limpar: não remover fuligem, sangue, fibras ou material aderido; esses elementos podem ser analisados.
- 4) Identificação sem marcar a evidência: rotular a embalagem, não gravar/riscar diretamente no projétil/estojo.
- 5) Registro de localização: mapear posição no local (coordenadas, croqui, fotos em escala) e orientação quando relevante (ex.: estojo com boca voltada para qual direção).
Passo a passo prático: segurança e preservação ao lidar com arma de fogo
- 1) Tratar como carregada: manter cano apontado para direção segura e dedo fora do gatilho.
- 2) Documentar antes de manipular: fotografar posição, condição (ferrolho aberto/fechado, cão armado, seletor), carregador inserido, munição aparente.
- 3) Tornar segura com técnica: remover carregador quando aplicável; abrir ação; verificar câmara e alojamentos. Evitar acionar o gatilho.
- 4) Preservar superfícies: evitar tocar em áreas com possíveis impressões/vestígios (empunhadura, gatilho, carregador). Preferir segurar por áreas menos prováveis ou usar suportes.
- 5) Acondicionar: travar a arma em embalagem rígida, imobilizada, com proteção do gatilho e do cano; acondicionar carregadores e munições separadamente.
- 6) Registrar condição: número de munições no carregador, munição na câmara, posição de mecanismos, e qualquer anomalia (travamentos, peças soltas).
Exercícios de interpretação de cenários (com dados técnicos)
Exercício 1: trajetória com múltiplas perfurações
Cenário: em um cômodo, há duas perfurações em uma parede de drywall. A perfuração A está a 1,55 m do piso; a perfuração B está a 1,20 m do piso, 2,0 m à direita da A. Em frente à parede, a 3,0 m de distância, há uma mesa com tampo a 0,75 m do piso e uma cadeira caída. Não há sinais evidentes de ricochete na parede.
Tarefas:
- Indique se é mais provável que A e B pertençam ao mesmo disparo (mesma linha) ou a disparos distintos, justificando com geometria básica.
- Proponha um procedimento de reconstrução com hastes de trajetória e indique qual região do cômodo tenderia a ser a zona de origem para cada perfuração.
- Liste duas hipóteses que poderiam explicar uma perfuração mais baixa (B) sem exigir um segundo atirador (ex.: mudança de postura, barreira intermediária).
Exercício 2: distância de disparo em tecido
Cenário: camiseta apresenta orifício com bordas regulares. Há enegrecimento visível ao redor do orifício com diâmetro aproximado de 3 cm e pontilhado escuro (tatuagem) até cerca de 10 cm. Não há rasgo em cruz evidente. A vítima usava também uma jaqueta leve por cima, com orifício alinhado e fuligem discreta.
Tarefas:
- Classifique o disparo como mais compatível com contato, curta distância ou distância intermediária, explicando quais sinais sustentam sua escolha.
- Descreva um plano de testes comparativos (arma/munição compatíveis, alvos equivalentes, distâncias em incrementos) e como você reportaria o resultado (faixa provável e condições).
- Aponte dois fatores que podem reduzir a tatuagem na pele mesmo em tiros próximos.
Exercício 3: confronto por estojos e limitações
Cenário: foram recolhidos 5 estojos do mesmo calibre no local. Todos apresentam marca de percussor semelhante e marcas de ejetor em posição consistente. Uma arma suspeita (pistola) é apreendida, mas o ferrolho foi substituído recentemente, segundo relato. Dois projéteis recuperados estão muito deformados.
Tarefas:
- Quais elementos do estojo tendem a ser mais afetados pela troca do ferrolho e quais podem permanecer associados a outras partes da arma?
- Explique por que projéteis muito deformados podem impedir individualização por marcas de cano, e quais alternativas de exame podem ainda ser úteis (ex.: classe, compatibilidade, análise de fragmentos e contexto).
- Proponha como organizar disparos de prova e quais padrões comparar prioritariamente (percussor, face do ferrolho, extrator/ejetor).
Exercício 4: ricochete e trajetória secundária
Cenário: há uma marca alongada em uma viga metálica a 1,80 m do piso, com deformação e raspagem. No piso, a 4 m adiante, encontra-se um projétil deformado com um lado “achatado” e perda de massa. Uma janela de vidro próxima tem uma perfuração irregular.
Tarefas:
- Indique quais achados sugerem ricochete e qual seria a sequência mais provável (impacto primário, deflexão, impacto secundário).
- Descreva como você evitaria inferir diretamente a posição do atirador a partir da trajetória após ricochete.
- Liste quais vestígios adicionais você procuraria para confirmar o ponto de impacto primário e a direção inicial.