Relação entre ECU e sistema de ignição: dwell (tempo de carga) e disparo
No sistema de ignição, a ECU controla quando a centelha acontece e quanta energia a bobina acumula para gerar essa centelha. Isso é feito por dois comandos principais:
- Dwell (tempo de carga): período em que a ECU “liga” o primário da bobina para criar campo magnético. Quanto maior o dwell (dentro do limite), maior a energia disponível para a centelha.
- Disparo (spark): momento em que a ECU “desliga” o primário; o campo colapsa e gera alta tensão no secundário, saltando a centelha na vela.
Na prática, a ECU ajusta o dwell conforme tensão da bateria, rotação e demanda. Exemplo: com bateria baixa, a ECU tende a aumentar o dwell para compensar a menor corrente no primário. Em alta rotação, o tempo disponível por ciclo diminui; se o dwell ficar insuficiente, a centelha enfraquece e surgem falhas sob carga.
O que pode dar errado nesse comando
- Dwell insuficiente: centelha fraca, falha mais evidente em aceleração e subida.
- Dwell excessivo: aquecimento da bobina, saturação, falhas intermitentes após aquecer e possível dano ao componente.
- Disparo fora do ponto: combustão instável, estouros e perda de potência (pode envolver sincronismo/estratégia, mas aqui o foco é o efeito no conjunto bobina/vela).
Tipos de bobinas e como identificar sintomas típicos
Bobina individual (coil-on-plug / COP)
Cada cilindro tem sua bobina diretamente na vela (ou muito próxima). Vantagens: menos perdas e melhor controle. Sintomas comuns quando falha:
- Falha localizada (um cilindro): marcha lenta irregular, vibração, luz de injeção e perda de potência.
- Intermitência por temperatura: falha aparece com motor quente e some ao esfriar.
- Falha sob carga: em aceleração forte, a centelha “não vence” a pressão do cilindro e ocorre misfire.
Bobina dupla (wasted spark)
Uma bobina alimenta dois cilindros ao mesmo tempo: um em compressão (centelha útil) e outro em escape (centelha “perdida”). Sintomas típicos:
- Falha em dois cilindros pareados: vibração forte e perda de potência mais evidente.
- Maior sensibilidade a velas/cabos: porque a alta tensão percorre mais caminho e depende mais do isolamento.
Bobina com módulo (módulo de ignição separado ou integrado)
O estágio de potência (driver) pode estar em um módulo externo ou integrado à bobina. Quando o driver falha, pode haver:
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- Falha total (sem centelha) ou falha intermitente por aquecimento.
- Falhas múltiplas se o módulo comanda mais de um canal.
Dica prática: falhas que aparecem após alguns minutos e pioram com calor frequentemente apontam para bobina/driver com problema térmico, conectores com mau contato ou isolamento comprometido.
Como falhas de ignição se manifestam: sintomas ligados a causas prováveis
1) Falha em marcha lenta (motor tremendo, rotação oscilando)
Causas prováveis no conjunto ignição:
- Vela desgastada (eletrodo arredondado) ou folga fora do especificado.
- Trinca/porosidade no isolador da vela (fuga de alta tensão).
- Bobina fraca em baixa energia (pode falhar mais em lenta se a centelha estiver marginal e a mistura variar).
- Umidade/óleo no poço da vela (muito comum em COP): a centelha “escapa” pelo caminho mais fácil.
Como o sintoma costuma evoluir: começa como leve tremor e pode virar falha constante em um cilindro, com cheiro de combustível no escape.
2) Falha sob carga (aceleração, subida, retomada)
Causas prováveis:
- Folga da vela grande: exige mais tensão; sob alta pressão no cilindro, a centelha não salta.
- Bobina com isolamento interno degradado: “fura” sob alta tensão.
- Cabos de vela (quando existentes) com alta resistência, ressecados ou com fuga.
- Conectores frouxos ou travas quebradas: vibração e carga elétrica aumentam a chance de falha.
Regra prática: se o carro falha mais quando você pisa e melhora ao aliviar o acelerador, pense primeiro em centelha insuficiente (folga/vela/bobina/cabo) antes de suspeitar de outros sistemas.
3) Estouros (pipocos) no escape ou na admissão
O que acontece: quando há misfire, parte da mistura pode sair sem queimar e inflamar no escape, gerando estouros. Em alguns casos, centelha fraca/atrasada pode contribuir para combustão incompleta.
Causas prováveis:
- Misfire persistente em um ou mais cilindros.
- Vela com trinca ou com isolação comprometida.
- Bobina com fuga (principalmente em alta tensão).
Atenção: estouros frequentes junto com cheiro forte de combustível indicam risco aumentado ao catalisador.
4) Perda de potência e aumento de consumo
Por que acontece: misfire significa que parte do combustível não vira trabalho útil. O motorista compensa acelerando mais, e a ECU pode enriquecer em algumas condições para tentar estabilizar, elevando consumo.
Causas prováveis:
- Velas fora de especificação (tipo térmico incorreto, modelo errado, folga inadequada).
- Bobina fraca ou com falha intermitente.
- Cabos/conectores com perdas elétricas.
Orientação prática: inspeção e checagens sem “troca por tentativa”
Passo a passo 1: inspeção visual das velas (cor, folga, desgaste)
- Remova as velas com o motor frio e identifique de qual cilindro cada uma veio (organize em ordem).
- Observe a cor do isolador e do eletrodo:
- Marrom-claro/cinza: aspecto típico de funcionamento normal.
- Preta e seca (fuligem): pode indicar centelha fraca, vela “fria” demais, uso severo ou mistura rica; em misfire, a fuligem pode aumentar.
- Preta e molhada de combustível: forte indício de cilindro sem queima (misfire) ou partida repetida sem pegar.
- Branca muito clara e eletrodo castigado: pode indicar temperatura elevada na câmara; a ignição fraca também pode coexistir, mas aqui o ponto é que a vela pode estar sofrendo.
- Óleo no corpo/rosca/eletrodo: pode causar fuga de centelha e falha; também aponta para necessidade de investigar vedação/retentores, mas o efeito imediato é misfire.
- Verifique desgaste: eletrodos arredondados, erosão e aumento de folga pedem substituição.
- Meça a folga com calibrador e compare com a especificação do fabricante. Folga maior que o recomendado aumenta a tensão exigida e favorece falha sob carga.
- Procure trincas no isolador e marcas de “trilha” (caminho escurecido) indicando fuga de alta tensão.
Passo a passo 2: cabos, conectores e poços de vela
- Inspecione conectores: travas, pinos tortos/oxidados e folga. Mau contato pode simular bobina defeituosa.
- Procure sinais de fuga: marcas esbranquiçadas, pontos queimados, borracha ressecada, cheiro de ozônio.
- Verifique poço da vela (em COP): presença de óleo ou água. Limpe e corrija a causa (ex.: vedação da tampa de válvulas) para evitar retorno da falha.
- Cabos (quando houver): procure rachaduras e endurecimento; em ambiente escuro, fuga pode aparecer como centelhamento externo (teste com cuidado e segurança).
Passo a passo 3: isolar o cilindro com falha (troca cruzada inteligente)
Quando há bobina individual, uma técnica simples ajuda a evitar troca por tentativa:
- Identifique o cilindro com falha (por sintoma consistente ou leitura de falha por cilindro quando disponível).
- Troque a bobina desse cilindro com a de outro cilindro.
- Rode o motor e verifique se a falha migra para o cilindro que recebeu a bobina suspeita.
- Repita o mesmo raciocínio com a vela (se necessário), sempre mudando uma variável por vez.
Se a falha migra com a bobina, a chance de defeito na bobina é alta. Se não migra, investigue vela, conector, poço com óleo/umidade e integridade do chicote.
Como o misfire afeta sonda lambda e catalisador
Efeito na leitura da sonda lambda
Em um misfire, entra oxigênio “sobrando” no escape porque a mistura não queimou corretamente. A sonda pode interpretar isso como mistura pobre e a ECU pode tentar enriquecer para corrigir, o que piora consumo e pode aumentar ainda mais a carga de combustível não queimado no escape.
Sinais práticos: correções de mistura instáveis, consumo elevado e cheiro de combustível podem aparecer mesmo sem um problema direto de combustível, apenas por falha de ignição.
Risco ao catalisador
Combustível não queimado pode reagir dentro do catalisador, elevando muito a temperatura e acelerando a degradação. Misfire persistente é uma das formas mais rápidas de danificar o catalisador.
Critério de prioridade: se há misfire com cheiro forte de combustível, estouros e perda grande de potência, priorize resolver a ignição antes de rodar longas distâncias.
Critérios simples para priorizar manutenção preventiva antes de trocar peças por tentativa
- Comece pelo básico e barato: velas corretas (modelo e folga), inspeção de poços, conectores e cabos (se houver).
- Procure evidências: vela molhada/escura em um cilindro, trilhas de fuga, trincas, óleo no poço, conector frouxo.
- Use troca cruzada (quando aplicável) para confirmar bobina defeituosa antes de comprar outra.
- Considere o padrão do sintoma:
- Falha em lenta e vibração constante: suspeite de vela/poço/isolação e falha localizada.
- Falha sob carga: suspeite de folga excessiva, bobina fraca e fuga de alta tensão.
- Falha que aparece com motor quente: suspeite de bobina/driver e mau contato térmico.
- Evite “atirar” em várias peças: mude uma variável por vez e registre o resultado (qual cilindro, quando falha, quente/frio, carga/leve).