Atuadores de ignição na injeção eletrônica: bobinas, velas e combustão

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Relação entre ECU e sistema de ignição: dwell (tempo de carga) e disparo

No sistema de ignição, a ECU controla quando a centelha acontece e quanta energia a bobina acumula para gerar essa centelha. Isso é feito por dois comandos principais:

  • Dwell (tempo de carga): período em que a ECU “liga” o primário da bobina para criar campo magnético. Quanto maior o dwell (dentro do limite), maior a energia disponível para a centelha.
  • Disparo (spark): momento em que a ECU “desliga” o primário; o campo colapsa e gera alta tensão no secundário, saltando a centelha na vela.

Na prática, a ECU ajusta o dwell conforme tensão da bateria, rotação e demanda. Exemplo: com bateria baixa, a ECU tende a aumentar o dwell para compensar a menor corrente no primário. Em alta rotação, o tempo disponível por ciclo diminui; se o dwell ficar insuficiente, a centelha enfraquece e surgem falhas sob carga.

O que pode dar errado nesse comando

  • Dwell insuficiente: centelha fraca, falha mais evidente em aceleração e subida.
  • Dwell excessivo: aquecimento da bobina, saturação, falhas intermitentes após aquecer e possível dano ao componente.
  • Disparo fora do ponto: combustão instável, estouros e perda de potência (pode envolver sincronismo/estratégia, mas aqui o foco é o efeito no conjunto bobina/vela).

Tipos de bobinas e como identificar sintomas típicos

Bobina individual (coil-on-plug / COP)

Cada cilindro tem sua bobina diretamente na vela (ou muito próxima). Vantagens: menos perdas e melhor controle. Sintomas comuns quando falha:

  • Falha localizada (um cilindro): marcha lenta irregular, vibração, luz de injeção e perda de potência.
  • Intermitência por temperatura: falha aparece com motor quente e some ao esfriar.
  • Falha sob carga: em aceleração forte, a centelha “não vence” a pressão do cilindro e ocorre misfire.

Bobina dupla (wasted spark)

Uma bobina alimenta dois cilindros ao mesmo tempo: um em compressão (centelha útil) e outro em escape (centelha “perdida”). Sintomas típicos:

  • Falha em dois cilindros pareados: vibração forte e perda de potência mais evidente.
  • Maior sensibilidade a velas/cabos: porque a alta tensão percorre mais caminho e depende mais do isolamento.

Bobina com módulo (módulo de ignição separado ou integrado)

O estágio de potência (driver) pode estar em um módulo externo ou integrado à bobina. Quando o driver falha, pode haver:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Falha total (sem centelha) ou falha intermitente por aquecimento.
  • Falhas múltiplas se o módulo comanda mais de um canal.

Dica prática: falhas que aparecem após alguns minutos e pioram com calor frequentemente apontam para bobina/driver com problema térmico, conectores com mau contato ou isolamento comprometido.

Como falhas de ignição se manifestam: sintomas ligados a causas prováveis

1) Falha em marcha lenta (motor tremendo, rotação oscilando)

Causas prováveis no conjunto ignição:

  • Vela desgastada (eletrodo arredondado) ou folga fora do especificado.
  • Trinca/porosidade no isolador da vela (fuga de alta tensão).
  • Bobina fraca em baixa energia (pode falhar mais em lenta se a centelha estiver marginal e a mistura variar).
  • Umidade/óleo no poço da vela (muito comum em COP): a centelha “escapa” pelo caminho mais fácil.

Como o sintoma costuma evoluir: começa como leve tremor e pode virar falha constante em um cilindro, com cheiro de combustível no escape.

2) Falha sob carga (aceleração, subida, retomada)

Causas prováveis:

  • Folga da vela grande: exige mais tensão; sob alta pressão no cilindro, a centelha não salta.
  • Bobina com isolamento interno degradado: “fura” sob alta tensão.
  • Cabos de vela (quando existentes) com alta resistência, ressecados ou com fuga.
  • Conectores frouxos ou travas quebradas: vibração e carga elétrica aumentam a chance de falha.

Regra prática: se o carro falha mais quando você pisa e melhora ao aliviar o acelerador, pense primeiro em centelha insuficiente (folga/vela/bobina/cabo) antes de suspeitar de outros sistemas.

3) Estouros (pipocos) no escape ou na admissão

O que acontece: quando há misfire, parte da mistura pode sair sem queimar e inflamar no escape, gerando estouros. Em alguns casos, centelha fraca/atrasada pode contribuir para combustão incompleta.

Causas prováveis:

  • Misfire persistente em um ou mais cilindros.
  • Vela com trinca ou com isolação comprometida.
  • Bobina com fuga (principalmente em alta tensão).

Atenção: estouros frequentes junto com cheiro forte de combustível indicam risco aumentado ao catalisador.

4) Perda de potência e aumento de consumo

Por que acontece: misfire significa que parte do combustível não vira trabalho útil. O motorista compensa acelerando mais, e a ECU pode enriquecer em algumas condições para tentar estabilizar, elevando consumo.

Causas prováveis:

  • Velas fora de especificação (tipo térmico incorreto, modelo errado, folga inadequada).
  • Bobina fraca ou com falha intermitente.
  • Cabos/conectores com perdas elétricas.

Orientação prática: inspeção e checagens sem “troca por tentativa”

Passo a passo 1: inspeção visual das velas (cor, folga, desgaste)

  1. Remova as velas com o motor frio e identifique de qual cilindro cada uma veio (organize em ordem).
  2. Observe a cor do isolador e do eletrodo:
    • Marrom-claro/cinza: aspecto típico de funcionamento normal.
    • Preta e seca (fuligem): pode indicar centelha fraca, vela “fria” demais, uso severo ou mistura rica; em misfire, a fuligem pode aumentar.
    • Preta e molhada de combustível: forte indício de cilindro sem queima (misfire) ou partida repetida sem pegar.
    • Branca muito clara e eletrodo castigado: pode indicar temperatura elevada na câmara; a ignição fraca também pode coexistir, mas aqui o ponto é que a vela pode estar sofrendo.
    • Óleo no corpo/rosca/eletrodo: pode causar fuga de centelha e falha; também aponta para necessidade de investigar vedação/retentores, mas o efeito imediato é misfire.
  3. Verifique desgaste: eletrodos arredondados, erosão e aumento de folga pedem substituição.
  4. Meça a folga com calibrador e compare com a especificação do fabricante. Folga maior que o recomendado aumenta a tensão exigida e favorece falha sob carga.
  5. Procure trincas no isolador e marcas de “trilha” (caminho escurecido) indicando fuga de alta tensão.

Passo a passo 2: cabos, conectores e poços de vela

  1. Inspecione conectores: travas, pinos tortos/oxidados e folga. Mau contato pode simular bobina defeituosa.
  2. Procure sinais de fuga: marcas esbranquiçadas, pontos queimados, borracha ressecada, cheiro de ozônio.
  3. Verifique poço da vela (em COP): presença de óleo ou água. Limpe e corrija a causa (ex.: vedação da tampa de válvulas) para evitar retorno da falha.
  4. Cabos (quando houver): procure rachaduras e endurecimento; em ambiente escuro, fuga pode aparecer como centelhamento externo (teste com cuidado e segurança).

Passo a passo 3: isolar o cilindro com falha (troca cruzada inteligente)

Quando há bobina individual, uma técnica simples ajuda a evitar troca por tentativa:

  1. Identifique o cilindro com falha (por sintoma consistente ou leitura de falha por cilindro quando disponível).
  2. Troque a bobina desse cilindro com a de outro cilindro.
  3. Rode o motor e verifique se a falha migra para o cilindro que recebeu a bobina suspeita.
  4. Repita o mesmo raciocínio com a vela (se necessário), sempre mudando uma variável por vez.

Se a falha migra com a bobina, a chance de defeito na bobina é alta. Se não migra, investigue vela, conector, poço com óleo/umidade e integridade do chicote.

Como o misfire afeta sonda lambda e catalisador

Efeito na leitura da sonda lambda

Em um misfire, entra oxigênio “sobrando” no escape porque a mistura não queimou corretamente. A sonda pode interpretar isso como mistura pobre e a ECU pode tentar enriquecer para corrigir, o que piora consumo e pode aumentar ainda mais a carga de combustível não queimado no escape.

Sinais práticos: correções de mistura instáveis, consumo elevado e cheiro de combustível podem aparecer mesmo sem um problema direto de combustível, apenas por falha de ignição.

Risco ao catalisador

Combustível não queimado pode reagir dentro do catalisador, elevando muito a temperatura e acelerando a degradação. Misfire persistente é uma das formas mais rápidas de danificar o catalisador.

Critério de prioridade: se há misfire com cheiro forte de combustível, estouros e perda grande de potência, priorize resolver a ignição antes de rodar longas distâncias.

Critérios simples para priorizar manutenção preventiva antes de trocar peças por tentativa

  • Comece pelo básico e barato: velas corretas (modelo e folga), inspeção de poços, conectores e cabos (se houver).
  • Procure evidências: vela molhada/escura em um cilindro, trilhas de fuga, trincas, óleo no poço, conector frouxo.
  • Use troca cruzada (quando aplicável) para confirmar bobina defeituosa antes de comprar outra.
  • Considere o padrão do sintoma:
    • Falha em lenta e vibração constante: suspeite de vela/poço/isolação e falha localizada.
    • Falha sob carga: suspeite de folga excessiva, bobina fraca e fuga de alta tensão.
    • Falha que aparece com motor quente: suspeite de bobina/driver e mau contato térmico.
  • Evite “atirar” em várias peças: mude uma variável por vez e registre o resultado (qual cilindro, quando falha, quente/frio, carga/leve).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um carro com falha de ignição mais evidente em aceleração e subida, qual situação relacionada ao comando da ECU para a bobina tende a explicar uma centelha fraca nessas condições?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em alta rotação, há menos tempo por ciclo. Se o dwell ficar insuficiente, a bobina não carrega energia suficiente, gerando centelha fraca e falhas mais perceptíveis sob carga.

Próximo capitúlo

Controle de ar na injeção eletrônica: marcha lenta, atuador IAC e borboleta eletrônica

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Injeção Eletrônica Automotiva para Iniciantes: Sensores, Atuadores e Sintomas Comuns
75%

Injeção Eletrônica Automotiva para Iniciantes: Sensores, Atuadores e Sintomas Comuns

Novo curso

12 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.