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Investigador de Polícia Civil: Teoria, Prática e Técnicas de Investigação

Novo curso

16 páginas

Atuação do Investigador de Polícia Civil e Rotinas de Investigação Criminal

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Atribuições práticas do Investigador no ciclo investigativo

O Investigador de Polícia Civil atua como executor técnico-operacional da investigação criminal, transformando demandas formais (notícia-crime, requisições, determinações da autoridade policial) em ações verificáveis: coleta de informações, diligências, registros documentais e encaminhamentos. Na prática, seu trabalho conecta três eixos: (1) produção de informação (o que aconteceu, quem, como, quando, onde e por quê), (2) produção de prova e elementos informativos (com rastreabilidade e legalidade), e (3) gestão de rotinas (controle de prazos, comunicação interna, preservação de sigilo e cadeia de custódia quando houver vestígios).

Responsabilidades típicas no ciclo investigativo: receber e qualificar demandas; realizar verificações preliminares; planejar e cumprir diligências; entrevistar e localizar pessoas; identificar e preservar fontes; coletar e organizar documentos e registros; elaborar relatórios e termos; alimentar sistemas e controles internos; cumprir ordens de serviço; apoiar operações; e encaminhar resultados ao cartório e à autoridade policial para decisões (instauração, representações, indiciamento, diligências complementares e remessas).

Delimitação de responsabilidades e limites

  • O que é responsabilidade do Investigador: executar diligências determinadas; propor diligências com base em análise de lacunas; registrar fielmente o que fez e o que observou; manter cadeia de custódia quando houver vestígios sob sua guarda; preservar sigilo; reportar riscos e incidentes; cumprir protocolos de segurança e comunicação.
  • O que não é responsabilidade isolada do Investigador: decidir sozinho sobre medidas que dependem de autorização/representação (ex.: certas quebras de sigilo, buscas, prisões) ou sobre rumos estratégicos sem ciência da chefia/autoridade; produzir “versões” sem lastro documental; manipular vestígios sem orientação técnica quando isso comprometer a integridade.
  • Princípio operacional: tudo o que não estiver documentado ou comunicável pela cadeia de comando tende a “não existir” para fins de controle, auditoria e aproveitamento investigativo.

Fluxo de trabalho típico: da notícia-crime ao encaminhamento

1) Recebimento da notícia-crime e triagem

A notícia-crime pode chegar por boletim, comunicação direta, denúncia, ofício, requisição, flagrante, ou informação interna. A triagem organiza prioridade, risco e necessidades imediatas.

Passo a passo prático (triagem inicial):

  • Identificar origem, data/hora, local, envolvidos e natureza do fato.
  • Verificar urgência: risco à vida, continuidade delitiva, destruição de vestígios, fuga iminente, vulneráveis.
  • Checar se há medidas imediatas: preservação de local, localização de vítima/testemunha, coleta de imagens que expiram, identificação de placas/rotas.
  • Registrar a demanda em controle interno (livro/sistema) e informar a chefia/autoridade conforme protocolo.
  • Propor diligências preliminares objetivas (o que confirmar/descartar nas próximas horas/dias).

2) Verificações preliminares (VP)

Verificações preliminares são ações rápidas e proporcionais para confirmar plausibilidade, delimitar autoria/materialidade inicial e orientar a instauração/andamento. O foco é reduzir incerteza com baixo custo e alta rastreabilidade.

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Passo a passo prático (VP):

  • Definir hipóteses mínimas: “o que preciso confirmar para avançar?”
  • Mapear fontes imediatas: vítima, comunicante, testemunhas, vizinhança, registros públicos, câmeras, estabelecimentos.
  • Executar diligências rápidas: visita ao local, coleta de contatos, preservação de imagens, checagem de dados básicos.
  • Documentar resultados em relatório objetivo, destacando: confirmado, não confirmado, pendente, riscos e próximos passos.

3) Coleta de informações e organização do caso

Com o caso em andamento, o Investigador organiza informações em linhas: pessoas, lugares, objetos, eventos e vínculos. A rotina inclui cruzamentos, cronologia e identificação de lacunas.

  • Produto esperado: cronologia do fato, mapa de envolvidos, lista de diligências realizadas e pendentes, e um quadro de evidências/elementos informativos com origem e data.
  • Regra prática: cada informação deve ter fonte, data, meio de obtenção e responsável.

4) Planejamento e cumprimento de diligências

Diligência é ação dirigida a um objetivo investigativo (localizar pessoa, obter documento, confirmar presença, identificar veículo, recuperar objeto, etc.). O Investigador deve planejar para reduzir risco, evitar retrabalho e preservar legalidade.

Passo a passo prático (planejamento de diligência):

  • Definir objetivo mensurável (ex.: “identificar quem dirigia o veículo X no dia Y”).
  • Listar meios e fontes (câmeras, entrevistas, registros, visitas).
  • Checar necessidade de autorização/ordem (quando aplicável) e alinhar com a autoridade.
  • Planejar logística: equipe, viatura, horários, rotas, pontos de observação, contatos.
  • Planejar comunicação: quem informa quem, em que momentos, e qual canal.
  • Executar e registrar: o que foi feito, por quem, quando, onde, resultado e anexos.

5) Relatórios, termos e encaminhamentos

O Investigador materializa o trabalho em documentos que permitem decisão e controle: termos (quando cabíveis), relatórios de diligência, juntadas e encaminhamentos. Encaminhar é entregar o resultado ao cartório/autoridade com clareza do que foi obtido e do que falta.

  • Encaminhamentos típicos: anexar mídias e documentos; sugerir novas diligências; indicar necessidade de representação; apontar contradições; informar riscos (ameaças, retaliação, destruição de prova).
  • Padrão de escrita: objetivo, cronológico, sem adjetivações, com identificação de fontes e anexos.

Papéis em equipes: cartório, campo e inteligência

Cartório (rotina documental e controle)

  • Recebe e organiza peças; controla prazos; providencia juntadas; formaliza expedientes (ofícios, requisições); mantém controle de diligências pendentes e retornos.
  • Interface com o Investigador: devolutivas de diligências, solicitação de complementos, padronização de anexos e numeração, conferência de assinaturas e datas.

Campo (execução de diligências externas)

  • Realiza entrevistas, localizações, levantamentos de endereço, verificações in loco, busca de imagens, reconhecimento de rotas, identificação de veículos e contatos.
  • Interface com cartório/inteligência: recebe objetivos claros e devolve relatórios com anexos rastreáveis (fotos, prints, mídias, recibos de entrega, contatos).

Inteligência (análise e produção de conhecimento)

  • Consolida dados, cruza informações, identifica padrões, vínculos e oportunidades operacionais; produz notas analíticas e mapas (cronologia, rede de relacionamentos, georreferência).
  • Interface com campo: orienta pontos de coleta e valida hipóteses; com cartório: indica quais elementos precisam ser formalizados e como anexar.

Integração prática: “mão dupla”

Campo coleta, cartório formaliza e controla, inteligência orienta e analisa. O Investigador pode transitar entre funções, mas deve respeitar o fluxo: objetivo claro → execução → registro → análise → decisão → nova execução.

Padrões de comunicação interna, sigilo e cadeia de comando

Comunicação interna: o que, quando e como reportar

  • Antes da diligência: objetivo, equipe, local, horário, riscos, canal de contato e ponto de controle (check-in).
  • Durante: reportar mudanças relevantes (alvo não localizado, risco, necessidade de apoio, ocorrência de flagrante, resistência, presença de imprensa, incidente com vestígios).
  • Depois: resultado, anexos, pendências e recomendações; registrar no controle interno.

Cadeia de comando

O Investigador atua sob orientação da chefia imediata e da autoridade policial. Na rotina, isso significa: não “pular” níveis para decisões operacionais sensíveis; registrar ordens recebidas; alinhar medidas que possam gerar repercussão (abordagens complexas, diligências em locais de risco, contato com órgãos externos) e manter previsibilidade do que a equipe está fazendo.

Sigilo: regra operacional

  • Compartilhar informação pelo princípio da necessidade: só com quem precisa para executar a tarefa.
  • Evitar exposição de nomes, endereços e estratégias em canais inadequados.
  • Controlar documentos e mídias: quem acessou, quando, para quê; manter armazenamento seguro.
  • Em entrevistas e diligências, evitar revelar linha investigativa, fontes e próximos passos.

Rotinas documentais: modelos práticos e exemplos

Ordem de Serviço (OS) – exemplo de estrutura

A OS formaliza a determinação de diligências, define responsáveis e prazos, e padroniza a devolutiva.

ORDEM DE SERVIÇO Nº ____/____  (Unidade: ________) Data: __/__/____  Hora: __:__  Processo/Procedimento: ________  Referência: Notícia-crime/BO/Ofício nº ________  Objetivo: (ex.: localizar e entrevistar testemunha X; obter imagens do local Y no período Z)  Equipe designada: (nomes/matrículas)  Diligências:  1) (descrição objetiva)  2) (descrição objetiva)  Prazos: (data/horário para devolutiva parcial e final)  Riscos/observações: (ex.: área de risco; necessidade de apoio; cautelas)  Forma de devolutiva: (relatório + anexos + indicação de pendências)  Assinatura/Identificação da chefia: __________________

Termo de Diligência/Certidão – exemplo de registro factual

Documento curto para certificar ato realizado e seu resultado, útil para rotinas de cartório.

TERMO/CERTIDÃO DE DILIGÊNCIA  Aos __/__/____, às __:__, o Investigador __________________, matrícula ______, em cumprimento à OS nº ____/____, dirigiu-se ao endereço ______________________, com a finalidade de ______________________.  Resultado: (ex.: não localizado; imóvel fechado; informado por ______ que ______; agendado retorno para __/__/____ às __:__).  Observações: (ex.: contato telefônico ______; referência de ponto ______).  Anexos: (ex.: fotos 01-03; print de mensagem; cartão de visita).  Assinatura: __________________

Relatório de Diligência – exemplo com padrão de anexos

Relatório mais completo, com contexto mínimo, execução e resultados, permitindo decisão pela autoridade.

RELATÓRIO DE DILIGÊNCIA  Identificação: Procedimento nº ______ / OS nº ____/____ / Data: __/__/____  Objetivo: ______________________________  Metodologia/ações realizadas (cronológico):  - (hora) (ação) (local) (pessoa contatada)  - (hora) (ação) (resultado)  Resultados obtidos:  1) ______________________________  2) ______________________________  Pendências/lacunas:  - ______________________________  Recomendações:  - (ex.: nova diligência; requisição de documento; necessidade de representação)  Anexos (listar e nomear):  A1 - Foto fachada (data/hora)  A2 - Print conversa (data/hora)  A3 - Mídia/arquivo (hash/identificação interna, se aplicável)  Responsável: __________________ (matrícula)  Ciência da chefia (se aplicável): __________________

Controle de diligências (checklist documental)

  • OS recebida e registrada (nº, data, objetivo, prazo).
  • Equipe e viatura definidas; riscos anotados.
  • Contatos e endereços conferidos; rotas planejadas.
  • Registro de execução: datas/horas, locais, pessoas contatadas.
  • Anexos nomeados e vinculados ao relatório (padrão A1, A2...).
  • Devolutiva entregue ao cartório/chefia dentro do prazo.
  • Pendências listadas com proposta de próximos passos.

Checklists operacionais (campo e gabinete)

Checklist de saída para diligência externa

  • Objetivo da diligência escrito em uma frase.
  • OS/solicitação em mãos (ou referência formal).
  • Identificação funcional e equipamentos necessários.
  • Plano de comunicação: check-in, canal, horários.
  • Endereços e contatos confirmados; alternativa de rota.
  • Riscos mapeados (área, horário, histórico, presença de armas, facções, etc.).
  • Plano de registro: como anotar, como nomear anexos, como armazenar mídias.

Checklist de entrevista/oitiva informal (coleta de informação)

  • Identificar a pessoa (nome, contato, vínculo com o fato).
  • Registrar data, hora e local da conversa.
  • Separar: o que viu (fato) vs. o que ouviu dizer (relato indireto).
  • Fixar marcos temporais (antes/durante/depois) e pontos de referência.
  • Pedir detalhes verificáveis (placa, roupa, direção, horários, nomes).
  • Checar contradições com perguntas de controle (sem indução).
  • Registrar autorização para contato posterior e melhor horário.

Checklist de coleta de imagens (câmeras privadas/públicas)

  • Identificar local, responsável e período exato (data/hora) necessário.
  • Confirmar retenção/expiração do sistema e priorizar urgências.
  • Registrar origem: quem forneceu, como, quando, em qual mídia.
  • Nomear arquivo com padrão: LOCAL_DATA_HORA_INICIO-FIM.
  • Gerar registro de entrega/recebimento interno e anexar ao relatório.
  • Evitar edição; manter cópia íntegra e cópia de trabalho (quando aplicável).

Exercícios de fixação (situações-problema)

1) Notícia-crime com risco de perda de imagens

Cenário: chega notícia de roubo em via pública ocorrido há 36 horas. A vítima informa que há câmeras em um comércio próximo, mas não sabe o nome do responsável. O sistema costuma sobrescrever em 48 horas.

  • Tarefa: descreva um plano de VP em 5 passos para preservar e obter as imagens, incluindo comunicação interna e documento de devolutiva.
  • Pontos que devem aparecer: priorização por urgência; ida imediata ao local; identificação do responsável; coleta com registro de origem; relatório com anexos nomeados e pendências.

2) Diligência de localização com informação conflitante

Cenário: duas fontes indicam endereços diferentes para o suspeito. Um endereço é área de risco. A OS determina “localizar e qualificar o investigado”.

  • Tarefa: monte um checklist de planejamento (equipe, horário, comunicação, risco) e indique como registraria resultados caso não localize ninguém.
  • Pontos que devem aparecer: avaliação de risco e necessidade de apoio; check-in; registro factual em termo/certidão; anexos (foto da numeração, referência, contato de vizinho).

3) Informação sensível e sigilo interno

Cenário: durante diligência, um informante relata que o autor frequenta um local específico e que haverá movimentação em determinado horário. Você recebe pedido de um colega de outra equipe para “mandar no grupo” o endereço e o nome do informante.

  • Tarefa: explique como aplicar o princípio da necessidade e como encaminhar a informação pela cadeia de comando, preservando a fonte.
  • Pontos que devem aparecer: não expor fonte; reportar à chefia/autoridade; registrar nota/relatório; compartilhar apenas o necessário (local/horário) com quem executará a ação.

4) Relatório com lacunas e proposta de diligências

Cenário: após três diligências, você tem: (a) placa parcial de veículo, (b) apelido do suspeito, (c) rota provável de fuga. Ainda não há identificação civil completa.

  • Tarefa: elabore um esqueleto de relatório de diligência com: objetivos, resultados, pendências e três recomendações de próximos passos.
  • Pontos que devem aparecer: cronologia; anexos; recomendações objetivas (novas câmeras, entrevistas dirigidas, cruzamento de dados); delimitação do que foi confirmado vs. hipótese.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar e executar uma diligência, qual prática melhor garante rastreabilidade, legalidade e utilidade do resultado para decisões internas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A prática recomendada combina objetivo claro, respeito à cadeia de comando e autorizações quando necessárias, comunicação planejada e registro completo (cronologia, responsáveis, resultados e anexos). Isso assegura rastreabilidade, legalidade e aproveitamento investigativo.

Próximo capitúlo

Preservação de Local de Crime e Procedimentos Operacionais do Investigador de Polícia Civil

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