O que é selecionar e editar citações “sem distorção”
Selecionar e editar citações é transformar fala bruta (com repetições, desvios e interrupções) em trechos publicáveis que mantenham sentido, intenção e alcance do que a fonte quis dizer. “Sem distorção” não significa transcrever tudo literalmente; significa que o leitor não pode ser levado a uma interpretação que a fonte não sustentaria ao ouvir o áudio completo.
Na prática, isso envolve duas decisões diferentes:
- Seleção: quais trechos merecem virar citação direta (entre aspas) ou indireta (paráfrase).
- Edição: como cortar e limpar a fala para ficar clara, sem “melhorar” o conteúdo, sem mudar o tom e sem alterar relações de causa, tempo, condição ou intensidade.
Critérios para escolher trechos citáveis
1) Relevância
O trecho precisa responder ao que a matéria está explicando, provando ou ilustrando. Citações não são decoração: elas devem acrescentar informação, nuance, contraste ou autoridade.
- Bom sinal: o trecho contém um dado, uma justificativa, uma avaliação com base em experiência, ou uma formulação que esclarece um ponto controverso.
- Mau sinal: o trecho repete o óbvio, só expressa cordialidade, ou não acrescenta nada além do que o texto já diz.
2) Clareza
Prefira trechos que se sustentem com pouca explicação adicional. Se a fala depende de muitas referências (“isso”, “aquilo”, “lá”), avalie se dá para contextualizar no texto ao redor ou se é melhor usar paráfrase.
- Teste rápido: se você ler a frase isolada, ela ainda faz sentido?
3) Representatividade
O trecho deve representar com fidelidade a posição da fonte, não apenas um momento de hesitação, irritação ou improviso. Isso é especialmente importante quando a entrevista é longa e a pessoa ajusta a própria formulação ao longo do tempo.
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- Boa prática: escolher a versão mais completa/precisa que a fonte deu para a mesma ideia (quando houver).
- Risco: selecionar a frase mais “forte” se ela é um desvio do que a fonte sustentou no conjunto.
4) Força informativa
Uma citação forte não é só “impactante”; é informativa. Ela pode:
- definir um conceito em linguagem acessível;
- explicar uma decisão (“por que fizemos X”);
- apontar limites e incertezas (“o que ainda não sabemos”);
- trazer um número, uma comparação, uma consequência.
Checklist de seleção (aplicação prática)
- O trecho adiciona informação que não está melhor expressa em narração?
- Ele é compreensível com 1–2 frases de contexto (no máximo)?
- Ele representa a posição da fonte no conjunto da entrevista?
- Ele não depende de uma condição omitida (“se”, “talvez”, “em alguns casos”)?
- Ele não muda de sentido se eu cortar uma oração?
Passo a passo: do áudio ao trecho publicável
Passo 1 — Marque o “núcleo de sentido”
Antes de editar, identifique a ideia central que precisa sobreviver intacta. Escreva em uma frase, em linguagem neutra, o que a fonte está afirmando.
Exemplo de núcleo: “A empresa atrasou o cronograma porque faltou componente; a previsão é retomar em duas semanas.”
Passo 2 — Delimite o contexto mínimo
Determine quais elementos precisam estar próximos da citação para evitar leitura enganosa: tempo, condição, comparação, exceção, alvo da crítica, base do dado.
- Contexto mínimo pode ser uma frase antes (narração) ou uma continuação curta dentro da própria citação.
Passo 3 — Corte redundâncias e desvios sem mexer na lógica
Remova repetições, auto-correções e digressões que não alteram o significado. Preserve conectivos que mudam a relação lógica (“mas”, “porque”, “se”, “apesar de”).
Passo 4 — Faça limpeza leve de vícios de linguagem
É aceitável remover “né”, “tipo”, “assim”, “então” quando são muletas e não carregam sentido. Evite “embelezar” a fala a ponto de mudar o registro (por exemplo, transformar uma fala simples em uma frase acadêmica).
Passo 5 — Use elipses e colchetes com parcimônia
- Elipse (
…) indica corte no meio da fala. Use quando o corte pode ser percebido como relevante para a fluidez ou quando você pulou uma parte no interior da citação. - Colchetes (
[ ]) servem para inserir esclarecimento mínimo (por exemplo, substituir um pronome por um referente) sem parecer que a fonte disse aquilo literalmente.
Evite usar elipses para “esconder” ressalvas importantes.
Passo 6 — Reescute o trecho no áudio
Antes de publicar, ouça o trecho completo de onde a citação foi extraída. Verifique se o recorte não inverteu o tom (ironia, dúvida, hipótese) nem eliminou condições essenciais.
Edição de citações: o que pode e o que não pode
O que geralmente pode (com cuidado)
- Cortar repetições e digressões que não mudam o conteúdo.
- Remover muletas (“né”, “tipo”) e hesitações (“é…”, “ahn”).
- Ajustar pontuação para legibilidade (sem mudar sentido).
- Inserir um esclarecimento mínimo em colchetes para evitar ambiguidade.
O que não pode (ou exige extrema cautela)
- Trocar palavras por sinônimos dentro de aspas para “melhorar” estilo.
- Reordenar frases de momentos diferentes como se fossem uma fala contínua.
- Eliminar condicionais e qualificadores (“em geral”, “até agora”, “na minha experiência”).
- Fundir duas respostas diferentes em uma única citação direta.
- Corrigir um erro factual dentro das aspas sem sinalizar (isso altera o registro do que foi dito).
Exemplos de antes/depois com justificativas editoriais
Exemplo 1 — Corte de muletas e repetição (sem mudar sentido)
| Antes (fala bruta) | Depois (publicável) | Justificativa |
|---|---|---|
| “Então, assim, a gente, né, a gente começou o projeto em março e, tipo, teve um atraso porque faltou peça, sabe, e aí a previsão é voltar em duas semanas.” | “Começamos o projeto em março e houve atraso porque faltou peça. A previsão é retomar em duas semanas.” | Remoção de muletas (“então”, “assim”, “né”, “tipo”, “sabe”) e repetição (“a gente”). Mantida a relação causal (“porque”) e a informação temporal. |
Exemplo 2 — Elipse preservando condição importante
| Antes | Depois | Justificativa |
|---|---|---|
| “Se a demanda continuar nesse ritmo, a gente consegue reduzir o prazo. Mas se cair, aí não tem milagre, porque a equipe é a mesma.” | “Se a demanda continuar nesse ritmo, a gente consegue reduzir o prazo… Mas, se cair, não tem milagre, porque a equipe é a mesma.” | Uso de elipse para cortar uma explicação intermediária (não mostrada) sem remover as condições (“se”) nem a oposição (“mas”), que são essenciais para não parecer promessa incondicional. |
Exemplo 3 — Colchetes para resolver ambiguidade
| Antes | Depois | Justificativa |
|---|---|---|
| “Quando eles mudaram a regra, isso travou tudo.” | “Quando eles [o órgão regulador] mudaram a regra, isso travou tudo.” | Inserção mínima para identificar o referente de “eles” e evitar atribuição errada. O colchete sinaliza que a palavra não foi dita literalmente. |
Exemplo 4 — Risco de distorção por corte de ressalva
| Antes | Depois (ruim) | Problema |
|---|---|---|
| “Eu não diria que houve fraude. O que houve foi falha de controle, e em alguns casos pode ter havido má-fé individual.” | “Houve má-fé individual.” | O corte elimina a negação inicial e o enquadramento (“em alguns casos”, “pode ter”), transformando hipótese limitada em afirmação geral. |
Alternativa fiel (opção melhor): “Eu não diria que houve fraude. Houve falha de controle e, em alguns casos, pode ter havido má-fé individual.”
Como evitar descontextualização (técnicas práticas)
1) Preserve os “marcadores de escopo”
Palavras que delimitam alcance são frequentemente as primeiras a serem cortadas — e são as que mais protegem contra distorção.
- Exemplos: “em geral”, “até agora”, “na minha experiência”, “neste caso”, “com os dados que temos”, “pode”, “tende a”.
2) Não separe causa e consequência
Se a citação tem uma explicação (“porque”, “por isso”, “já que”), cortar a causa pode fazer a consequência parecer arbitrária ou maliciosa.
3) Cuidado com ironia e humor
Ironia pode virar afirmação literal no texto. Se o tom for essencial, contextualize na narração (“disse em tom irônico”) ou prefira paráfrase.
4) Evite “frases de efeito” que contradizem o conjunto
Se a entrevista tem uma linha consistente e uma frase isolada foge disso, reescute e verifique se foi:
- um exemplo hipotético;
- uma provocação;
- uma resposta a uma pergunta específica com premissas restritas;
- um lapso corrigido logo depois.
5) Use citação indireta quando o contexto for grande
Quando a fala só faz sentido com muitos parágrafos de explicação, a citação direta pode induzir leitura errada. Nesses casos, a paráfrase pode ser mais fiel ao conjunto.
Paráfrase com fidelidade (citação indireta)
Paráfrase é reescrever a ideia da fonte com suas palavras, mantendo o conteúdo verificável e o grau de certeza. É útil para:
- resumir respostas longas;
- organizar raciocínios dispersos;
- evitar publicar fala confusa sem “arrumar” dentro de aspas.
Regras práticas para não “aumentar” a fala
- Mantenha o modal: “pode” não vira “vai”; “suspeita” não vira “confirmou”.
- Mantenha o escopo: “alguns casos” não vira “o setor”.
- Mantenha a base: se a fonte falou por experiência pessoal, não escreva como dado geral.
Exemplo de paráfrase fiel vs. infiel
| Fala | Paráfrase fiel | Paráfrase infiel |
|---|---|---|
| “Pelos relatórios que eu vi até agora, não dá pra afirmar que foi intencional.” | Ele disse que, com base nos relatórios disponíveis até o momento, ainda não é possível afirmar intenção. | Ele afirmou que não foi intencional. |
Como lidar com lapsos factuais do entrevistado sem alterar a substância
Em entrevistas, a fonte pode errar datas, números, nomes ou atribuir causalidade de forma imprecisa. O desafio é corrigir a informação para o leitor sem falsificar o registro do que foi dito.
Estratégia 1 — Corrigir fora das aspas (preferencial)
Quando a frase é útil, mas contém um detalhe errado, mantenha a citação com o sentido e faça a correção na narração adjacente, de forma transparente.
| Antes | Publicação (modelo) | Justificativa |
|---|---|---|
| “Isso aconteceu em 2019, quando a lei mudou.” | “Isso aconteceu em 2019, quando a lei mudou”, disse a fonte. A mudança legal, porém, ocorreu em 2020, segundo [documento/registro]. | Preserva o que foi dito e informa o leitor do dado correto sem reescrever a fala dentro das aspas. |
Estratégia 2 — Usar colchetes para correção mínima (apenas quando não muda a afirmação)
Se o erro for claramente um lapso de nome próprio e a correção não altera a tese, pode-se usar colchetes com parcimônia.
| Antes | Depois | Justificativa |
|---|---|---|
| “Foi o ministro Almeida que assinou.” | “Foi o ministro [Silva] que assinou.” | Correção de identificação, sinalizada como intervenção editorial. Use apenas se houver certeza documental e se a troca não mudar a interpretação do restante. |
Estratégia 3 — Quando o erro é parte do conteúdo, não “conserte” a fala
Se a afirmação errada é central (por exemplo, um número que sustenta a conclusão), você tem três caminhos editoriais:
- Não usar a citação e explicar o ponto com dados checados.
- Usar a citação e imediatamente contextualizar/corrigir com informação verificada.
- Retornar à fonte para esclarecimento e registrar a atualização (quando aplicável), sem reescrever retroativamente como se a fala original já estivesse correta.
Modelos de edição: decisões comuns e seus riscos
Modelo A — Transformar fala truncada em duas frases
Quando a fonte fala em períodos longos, quebrar em frases curtas pode melhorar a leitura sem mudar o conteúdo.
| Antes | Depois | Justificativa |
|---|---|---|
| “A gente fez isso porque tinha uma orientação interna, mas ao mesmo tempo a gente sabia que podia dar problema, só que não tinha alternativa naquele momento.” | “Fizemos isso porque havia uma orientação interna. Ao mesmo tempo, sabíamos que podia dar problema, mas não havia alternativa naquele momento.” | Reorganização apenas por pontuação e quebra de frase; preserva concessão (“ao mesmo tempo”) e contraste (“mas”). |
Modelo B — Corte que altera intensidade (evitar)
| Antes | Depois (ruim) | Problema |
|---|---|---|
| “Foi um erro grave, mas não foi deliberado.” | “Foi um erro grave.” | Remove a negação de intenção, mudando o julgamento moral e potencialmente a imputação. |
Rotina de verificação final antes de publicar uma citação
- Reescuta: ouça 30–60 segundos antes e depois do trecho.
- Escopo: confira se “alguns”, “pode”, “até agora”, “se” foram preservados quando relevantes.
- Referentes: garanta que pronomes (“eles”, “isso”) estejam claros no texto ao redor ou com colchetes.
- Coerência: verifique se a citação não contradiz o que você atribuiu à fonte em paráfrase.
- Correções: se houver ajuste factual, decida se será fora das aspas, com colchetes, ou se a citação deve ser descartada.