Seleção e edição de citações em entrevistas jornalísticas sem distorção

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é selecionar e editar citações “sem distorção”

Selecionar e editar citações é transformar fala bruta (com repetições, desvios e interrupções) em trechos publicáveis que mantenham sentido, intenção e alcance do que a fonte quis dizer. “Sem distorção” não significa transcrever tudo literalmente; significa que o leitor não pode ser levado a uma interpretação que a fonte não sustentaria ao ouvir o áudio completo.

Na prática, isso envolve duas decisões diferentes:

  • Seleção: quais trechos merecem virar citação direta (entre aspas) ou indireta (paráfrase).
  • Edição: como cortar e limpar a fala para ficar clara, sem “melhorar” o conteúdo, sem mudar o tom e sem alterar relações de causa, tempo, condição ou intensidade.

Critérios para escolher trechos citáveis

1) Relevância

O trecho precisa responder ao que a matéria está explicando, provando ou ilustrando. Citações não são decoração: elas devem acrescentar informação, nuance, contraste ou autoridade.

  • Bom sinal: o trecho contém um dado, uma justificativa, uma avaliação com base em experiência, ou uma formulação que esclarece um ponto controverso.
  • Mau sinal: o trecho repete o óbvio, só expressa cordialidade, ou não acrescenta nada além do que o texto já diz.

2) Clareza

Prefira trechos que se sustentem com pouca explicação adicional. Se a fala depende de muitas referências (“isso”, “aquilo”, “lá”), avalie se dá para contextualizar no texto ao redor ou se é melhor usar paráfrase.

  • Teste rápido: se você ler a frase isolada, ela ainda faz sentido?

3) Representatividade

O trecho deve representar com fidelidade a posição da fonte, não apenas um momento de hesitação, irritação ou improviso. Isso é especialmente importante quando a entrevista é longa e a pessoa ajusta a própria formulação ao longo do tempo.

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  • Boa prática: escolher a versão mais completa/precisa que a fonte deu para a mesma ideia (quando houver).
  • Risco: selecionar a frase mais “forte” se ela é um desvio do que a fonte sustentou no conjunto.

4) Força informativa

Uma citação forte não é só “impactante”; é informativa. Ela pode:

  • definir um conceito em linguagem acessível;
  • explicar uma decisão (“por que fizemos X”);
  • apontar limites e incertezas (“o que ainda não sabemos”);
  • trazer um número, uma comparação, uma consequência.

Checklist de seleção (aplicação prática)

  • O trecho adiciona informação que não está melhor expressa em narração?
  • Ele é compreensível com 1–2 frases de contexto (no máximo)?
  • Ele representa a posição da fonte no conjunto da entrevista?
  • Ele não depende de uma condição omitida (“se”, “talvez”, “em alguns casos”)?
  • Ele não muda de sentido se eu cortar uma oração?

Passo a passo: do áudio ao trecho publicável

Passo 1 — Marque o “núcleo de sentido”

Antes de editar, identifique a ideia central que precisa sobreviver intacta. Escreva em uma frase, em linguagem neutra, o que a fonte está afirmando.

Exemplo de núcleo: “A empresa atrasou o cronograma porque faltou componente; a previsão é retomar em duas semanas.”

Passo 2 — Delimite o contexto mínimo

Determine quais elementos precisam estar próximos da citação para evitar leitura enganosa: tempo, condição, comparação, exceção, alvo da crítica, base do dado.

  • Contexto mínimo pode ser uma frase antes (narração) ou uma continuação curta dentro da própria citação.

Passo 3 — Corte redundâncias e desvios sem mexer na lógica

Remova repetições, auto-correções e digressões que não alteram o significado. Preserve conectivos que mudam a relação lógica (“mas”, “porque”, “se”, “apesar de”).

Passo 4 — Faça limpeza leve de vícios de linguagem

É aceitável remover “né”, “tipo”, “assim”, “então” quando são muletas e não carregam sentido. Evite “embelezar” a fala a ponto de mudar o registro (por exemplo, transformar uma fala simples em uma frase acadêmica).

Passo 5 — Use elipses e colchetes com parcimônia

  • Elipse () indica corte no meio da fala. Use quando o corte pode ser percebido como relevante para a fluidez ou quando você pulou uma parte no interior da citação.
  • Colchetes ([ ]) servem para inserir esclarecimento mínimo (por exemplo, substituir um pronome por um referente) sem parecer que a fonte disse aquilo literalmente.

Evite usar elipses para “esconder” ressalvas importantes.

Passo 6 — Reescute o trecho no áudio

Antes de publicar, ouça o trecho completo de onde a citação foi extraída. Verifique se o recorte não inverteu o tom (ironia, dúvida, hipótese) nem eliminou condições essenciais.

Edição de citações: o que pode e o que não pode

O que geralmente pode (com cuidado)

  • Cortar repetições e digressões que não mudam o conteúdo.
  • Remover muletas (“né”, “tipo”) e hesitações (“é…”, “ahn”).
  • Ajustar pontuação para legibilidade (sem mudar sentido).
  • Inserir um esclarecimento mínimo em colchetes para evitar ambiguidade.

O que não pode (ou exige extrema cautela)

  • Trocar palavras por sinônimos dentro de aspas para “melhorar” estilo.
  • Reordenar frases de momentos diferentes como se fossem uma fala contínua.
  • Eliminar condicionais e qualificadores (“em geral”, “até agora”, “na minha experiência”).
  • Fundir duas respostas diferentes em uma única citação direta.
  • Corrigir um erro factual dentro das aspas sem sinalizar (isso altera o registro do que foi dito).

Exemplos de antes/depois com justificativas editoriais

Exemplo 1 — Corte de muletas e repetição (sem mudar sentido)

Antes (fala bruta)Depois (publicável)Justificativa
“Então, assim, a gente, né, a gente começou o projeto em março e, tipo, teve um atraso porque faltou peça, sabe, e aí a previsão é voltar em duas semanas.”“Começamos o projeto em março e houve atraso porque faltou peça. A previsão é retomar em duas semanas.”Remoção de muletas (“então”, “assim”, “né”, “tipo”, “sabe”) e repetição (“a gente”). Mantida a relação causal (“porque”) e a informação temporal.

Exemplo 2 — Elipse preservando condição importante

AntesDepoisJustificativa
“Se a demanda continuar nesse ritmo, a gente consegue reduzir o prazo. Mas se cair, aí não tem milagre, porque a equipe é a mesma.”“Se a demanda continuar nesse ritmo, a gente consegue reduzir o prazo… Mas, se cair, não tem milagre, porque a equipe é a mesma.”Uso de elipse para cortar uma explicação intermediária (não mostrada) sem remover as condições (“se”) nem a oposição (“mas”), que são essenciais para não parecer promessa incondicional.

Exemplo 3 — Colchetes para resolver ambiguidade

AntesDepoisJustificativa
“Quando eles mudaram a regra, isso travou tudo.”“Quando eles [o órgão regulador] mudaram a regra, isso travou tudo.”Inserção mínima para identificar o referente de “eles” e evitar atribuição errada. O colchete sinaliza que a palavra não foi dita literalmente.

Exemplo 4 — Risco de distorção por corte de ressalva

AntesDepois (ruim)Problema
“Eu não diria que houve fraude. O que houve foi falha de controle, e em alguns casos pode ter havido má-fé individual.”“Houve má-fé individual.”O corte elimina a negação inicial e o enquadramento (“em alguns casos”, “pode ter”), transformando hipótese limitada em afirmação geral.

Alternativa fiel (opção melhor): “Eu não diria que houve fraude. Houve falha de controle e, em alguns casos, pode ter havido má-fé individual.”

Como evitar descontextualização (técnicas práticas)

1) Preserve os “marcadores de escopo”

Palavras que delimitam alcance são frequentemente as primeiras a serem cortadas — e são as que mais protegem contra distorção.

  • Exemplos: “em geral”, “até agora”, “na minha experiência”, “neste caso”, “com os dados que temos”, “pode”, “tende a”.

2) Não separe causa e consequência

Se a citação tem uma explicação (“porque”, “por isso”, “já que”), cortar a causa pode fazer a consequência parecer arbitrária ou maliciosa.

3) Cuidado com ironia e humor

Ironia pode virar afirmação literal no texto. Se o tom for essencial, contextualize na narração (“disse em tom irônico”) ou prefira paráfrase.

4) Evite “frases de efeito” que contradizem o conjunto

Se a entrevista tem uma linha consistente e uma frase isolada foge disso, reescute e verifique se foi:

  • um exemplo hipotético;
  • uma provocação;
  • uma resposta a uma pergunta específica com premissas restritas;
  • um lapso corrigido logo depois.

5) Use citação indireta quando o contexto for grande

Quando a fala só faz sentido com muitos parágrafos de explicação, a citação direta pode induzir leitura errada. Nesses casos, a paráfrase pode ser mais fiel ao conjunto.

Paráfrase com fidelidade (citação indireta)

Paráfrase é reescrever a ideia da fonte com suas palavras, mantendo o conteúdo verificável e o grau de certeza. É útil para:

  • resumir respostas longas;
  • organizar raciocínios dispersos;
  • evitar publicar fala confusa sem “arrumar” dentro de aspas.

Regras práticas para não “aumentar” a fala

  • Mantenha o modal: “pode” não vira “vai”; “suspeita” não vira “confirmou”.
  • Mantenha o escopo: “alguns casos” não vira “o setor”.
  • Mantenha a base: se a fonte falou por experiência pessoal, não escreva como dado geral.

Exemplo de paráfrase fiel vs. infiel

FalaParáfrase fielParáfrase infiel
“Pelos relatórios que eu vi até agora, não dá pra afirmar que foi intencional.”Ele disse que, com base nos relatórios disponíveis até o momento, ainda não é possível afirmar intenção.Ele afirmou que não foi intencional.

Como lidar com lapsos factuais do entrevistado sem alterar a substância

Em entrevistas, a fonte pode errar datas, números, nomes ou atribuir causalidade de forma imprecisa. O desafio é corrigir a informação para o leitor sem falsificar o registro do que foi dito.

Estratégia 1 — Corrigir fora das aspas (preferencial)

Quando a frase é útil, mas contém um detalhe errado, mantenha a citação com o sentido e faça a correção na narração adjacente, de forma transparente.

AntesPublicação (modelo)Justificativa
“Isso aconteceu em 2019, quando a lei mudou.”

“Isso aconteceu em 2019, quando a lei mudou”, disse a fonte. A mudança legal, porém, ocorreu em 2020, segundo [documento/registro].

Preserva o que foi dito e informa o leitor do dado correto sem reescrever a fala dentro das aspas.

Estratégia 2 — Usar colchetes para correção mínima (apenas quando não muda a afirmação)

Se o erro for claramente um lapso de nome próprio e a correção não altera a tese, pode-se usar colchetes com parcimônia.

AntesDepoisJustificativa
“Foi o ministro Almeida que assinou.”“Foi o ministro [Silva] que assinou.”Correção de identificação, sinalizada como intervenção editorial. Use apenas se houver certeza documental e se a troca não mudar a interpretação do restante.

Estratégia 3 — Quando o erro é parte do conteúdo, não “conserte” a fala

Se a afirmação errada é central (por exemplo, um número que sustenta a conclusão), você tem três caminhos editoriais:

  • Não usar a citação e explicar o ponto com dados checados.
  • Usar a citação e imediatamente contextualizar/corrigir com informação verificada.
  • Retornar à fonte para esclarecimento e registrar a atualização (quando aplicável), sem reescrever retroativamente como se a fala original já estivesse correta.

Modelos de edição: decisões comuns e seus riscos

Modelo A — Transformar fala truncada em duas frases

Quando a fonte fala em períodos longos, quebrar em frases curtas pode melhorar a leitura sem mudar o conteúdo.

AntesDepoisJustificativa
“A gente fez isso porque tinha uma orientação interna, mas ao mesmo tempo a gente sabia que podia dar problema, só que não tinha alternativa naquele momento.”“Fizemos isso porque havia uma orientação interna. Ao mesmo tempo, sabíamos que podia dar problema, mas não havia alternativa naquele momento.”Reorganização apenas por pontuação e quebra de frase; preserva concessão (“ao mesmo tempo”) e contraste (“mas”).

Modelo B — Corte que altera intensidade (evitar)

AntesDepois (ruim)Problema
“Foi um erro grave, mas não foi deliberado.”“Foi um erro grave.”Remove a negação de intenção, mudando o julgamento moral e potencialmente a imputação.

Rotina de verificação final antes de publicar uma citação

  • Reescuta: ouça 30–60 segundos antes e depois do trecho.
  • Escopo: confira se “alguns”, “pode”, “até agora”, “se” foram preservados quando relevantes.
  • Referentes: garanta que pronomes (“eles”, “isso”) estejam claros no texto ao redor ou com colchetes.
  • Coerência: verifique se a citação não contradiz o que você atribuiu à fonte em paráfrase.
  • Correções: se houver ajuste factual, decida se será fora das aspas, com colchetes, ou se a citação deve ser descartada.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao editar uma citação de entrevista “sem distorção”, qual prática ajuda a preservar o sentido e evitar que o leitor chegue a uma interpretação que a fonte não sustentaria ao ouvir o áudio completo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Evitar distorção exige preservar relações lógicas e limites do que foi dito (condições, oposição e grau de certeza) e conferir no áudio se o recorte manteve tom e contexto essenciais.

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Construção do texto final com base em entrevista jornalística

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