O atendimento a local de crime é o conjunto de ações técnicas executadas no cenário do fato para preservar vestígios, registrar o estado original do ambiente e coletar materiais com potencial valor probatório. O foco operacional é evitar perda, alteração e contaminação, garantindo que a interpretação posterior (em laboratório e na análise pericial) seja sustentada por documentação fiel e por amostras íntegras.
1) Etapas operacionais no atendimento ao local
1.1 Segurança e preservação do local
Antes de qualquer registro ou coleta, a prioridade é a segurança. Um local inseguro gera risco à equipe e pode produzir alterações secundárias (pisoteio, deslocamento de objetos, incêndio, explosão, colapso estrutural).
- Verifique riscos imediatos: agressor presente, armas, munições, fios energizados, vazamento de gás, incêndio, produtos químicos, animais, instabilidade de estruturas, tráfego de veículos.
- Solicite apoio quando necessário: bombeiros, equipe de explosivos, concessionária de energia, defesa civil, equipe de saúde.
- Estabeleça rota de entrada e saída: defina um caminho único para reduzir trilhas de contaminação e pisoteio; se possível, use passadeiras/filme protetor em áreas críticas.
- Use EPI adequado ao risco: luvas, máscara, óculos, proteção respiratória específica (quando houver poeiras/químicos), propés e macacão quando indicado.
1.2 Delimitação do perímetro
Delimitar é criar uma área controlada que contenha o cenário relevante e uma margem de segurança para vestígios periféricos. A delimitação deve considerar que vestígios podem estar além do ponto “óbvio” (ex.: cápsulas e projéteis em trajetórias longas, pegadas em rotas de fuga, microvestígios em áreas de contato).
- Perímetro externo: área maior para impedir curiosos e reduzir interferências (barreiras físicas, fitas, cones).
- Perímetro interno: área de trabalho pericial, com acesso restrito e controlado.
- Pontos de interesse: marque visualmente (sem tocar) áreas com vestígios aparentes para orientar o fluxo e evitar pisoteio.
1.3 Controle de acesso
O controle de acesso reduz contaminação e preserva o estado do local. Na prática, menos pessoas e menos deslocamentos significam menos alterações.
- Defina um ponto único de entrada/saída: preferencialmente com barreira e local para paramentação/desparamentação.
- Restrinja o número de ingressos: apenas equipe essencial e por tempo necessário.
- Evite “circulação livre”: deslocamentos devem ser planejados; ao mudar de área, avalie troca de luvas/propés conforme risco de transferência.
- Registre intervenções inevitáveis: por exemplo, atendimento médico prévio, movimentação para socorro, desligamento de energia, ventilação do ambiente.
1.4 Avaliação inicial (triagem técnica)
A avaliação inicial é uma leitura rápida e sistemática para entender o tipo de local, o que pode se perder primeiro e quais vestígios são mais frágeis. Ela orienta a ordem de documentação e coleta.
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- Identifique condições ambientais: chuva, vento, calor, umidade, iluminação, presença de água, poeira, fluxo de pessoas.
- Reconheça vestígios efêmeros: marcas em poeira, pegadas em solo úmido, odores, fumaça, líquidos voláteis, resíduos facilmente removíveis.
- Determine áreas críticas: pontos de entrada/saída, áreas de luta, superfícies de contato (maçanetas, armas, celulares), rotas de fuga.
- Planeje a sequência: primeiro documentar o que muda rápido; depois, busca detalhada; por fim, coleta conforme prioridade e fragilidade.
1.5 Definição de prioridades (ordem de trabalho)
Uma ordem típica (ajustável ao caso) prioriza: (1) segurança e preservação, (2) documentação do estado original, (3) busca sistemática, (4) coleta e acondicionamento. Em locais com risco de perda rápida, a documentação e a coleta de vestígios efêmeros podem ser antecipadas, desde que registradas e justificadas.
- Priorize o que é perecível: líquidos voláteis, marcas em superfícies instáveis, vestígios expostos à chuva/vento.
- Priorize o que é facilmente transferível: microvestígios, partículas em roupas, resíduos em mãos/objetos manipulados.
- Priorize o que é crítico para reconstrução: posições relativas, trajetórias, pontos de impacto, distribuição de manchas.
2) Documentação pericial: técnicas e boas práticas
2.1 Anotações técnicas (caderno de campo)
Anotações técnicas são o registro objetivo do que foi observado e feito, com horários, condições e decisões operacionais. Devem ser claras, rastreáveis e focadas em fatos observáveis.
- O que registrar: data/hora de chegada, condições climáticas, iluminação, odores relevantes, estado de portas/janelas, presença de ventiladores/ar-condicionado, pessoas no local, intervenções prévias, alterações inevitáveis.
- Como registrar: linguagem descritiva, evitando conclusões; use medidas, direções e referências fixas (parede norte, quina, batente).
- Exemplo prático: “Às 14:32, janela do quarto (parede leste) aberta, cortina deslocada para dentro; ventilador de teto ligado; odor forte de solvente próximo à bancada.”
2.2 Croqui (esboço técnico do local)
O croqui organiza espacialmente o cenário e facilita a compreensão de distâncias e posições relativas. Pode ser preliminar no local e refinado posteriormente.
- Elementos mínimos: orientação (seta do norte), escala (quando possível), medidas principais, pontos fixos (paredes, portas), localização de vestígios numerados.
- Referenciamento: use método de duas medidas a partir de pontos fixos (ex.: canto da parede e batente) ou coordenadas em grade quando aplicável.
- Exemplo prático: em um quarto, medir a posição de uma cápsula deflagrada a partir do canto nordeste e da parede norte, anotando distância em centímetros e associando ao número do vestígio.
2.3 Fotografia pericial (com escalas e referência)
A fotografia pericial deve permitir que terceiros compreendam o local e os vestígios sem estarem presentes. A sequência recomendada é: visão geral, média distância e aproximação (close-up), sempre mantendo coerência de orientação e numeração.
- Sequência sugerida: (1) fotos externas e acessos, (2) visão geral do ambiente, (3) visão média contextualizando vestígios, (4) close-up do vestígio.
- Escala e referência: em close-up, use escala métrica adequada e, quando necessário, cartão de cor/cinza para padronização; evite cobrir o vestígio com a escala.
- Foco e paralaxe: mantenha o sensor paralelo ao plano do vestígio para reduzir distorção; use tripé quando necessário.
- Iluminação: use luz oblíqua (rasante) para realçar relevos (impressões, marcas em poeira); controle reflexos em superfícies brilhantes com mudança de ângulo e difusão.
- Exemplo prático: para uma pegada em poeira no piso, faça foto geral do corredor, depois foto média mostrando a sequência de marcas e, por fim, close-up com escala e luz rasante lateral.
2.4 Videografia (quando pertinente)
Vídeo pode complementar a fotografia ao registrar continuidade espacial (trajetos, relação entre cômodos) e condições dinâmicas (ex.: gotejamento, fumaça residual, fluxo de água). Deve ser estável e narrado com cuidado para não inserir interpretações.
- Quando usar: locais extensos, múltiplos ambientes, cenas externas com rotas, locais com muitos pontos de interesse.
- Como fazer: movimentos lentos, sem “varrer” rapidamente; comece com identificação do ambiente e siga um percurso lógico (entrada → área principal → pontos de interesse).
- Cuidados: não substitui fotos técnicas de vestígios; evite comentários conclusivos (“foi assim que ocorreu”), prefira descrições (“há mancha no piso próximo à porta”).
3) Estratégias de busca: padrões e recursos
3.1 Padrões de varredura (busca sistemática)
A busca deve ser planejada para reduzir omissões. O padrão escolhido depende do tamanho do local, número de peritos e complexidade.
- Faixas/linhas (line search): indicado para áreas abertas (terrenos, vias). Equipe avança em linha, mantendo espaçamento constante.
- Grade (grid): duas varreduras perpendiculares; aumenta chance de detectar microvestígios em áreas abertas.
- Espiral (in/out): útil em áreas pequenas e com um único operador; exige cuidado para não pisotear vestígios centrais.
- Setores/quadrantes: divide o ambiente em áreas menores; indicado para locais internos com muitos objetos.
- Zona por cômodos: em residências, cada cômodo é uma zona; documenta-se e busca-se por etapas para manter controle.
3.2 Iluminação forense e ângulos de observação
Vários vestígios aparecem apenas sob iluminação e ângulos específicos. Alternar luz ambiente, lanterna forte e luz rasante aumenta a detecção.
- Luz rasante: evidencia relevos (impressões, arranhões, marcas em poeira).
- Contraluz: pode revelar fibras e partículas em superfícies lisas.
- Ambiente escurecido: quando possível e seguro, reduzir luz ambiente pode ajudar a perceber brilhos e reflexos de microfragmentos.
3.3 Detecção de vestígios latentes (estratégia geral)
Vestígios latentes são aqueles não visíveis a olho nu ou pouco perceptíveis. A estratégia é: localizar áreas de maior probabilidade, usar métodos não destrutivos primeiro e documentar antes de qualquer procedimento que altere a superfície.
- Áreas de contato: maçanetas, interruptores, bordas de portas, garrafas/copos, armas, celulares, fitas, embalagens.
- Áreas de deposição: cantos, rodapés, superfícies horizontais, interior de veículos, tecidos.
- Progressão de métodos: começar por inspeção visual e luz adequada; em seguida, técnicas específicas conforme o tipo de vestígio (ex.: papiloscopia, microvestígios).
4) Princípios de coleta por tipo de vestígio (com prevenção de contaminação)
4.1 Regras gerais de prevenção de contaminação
Contaminação é a introdução, transferência ou perda de material que altera o valor interpretativo do vestígio. A prevenção depende de disciplina operacional e separação física de amostras.
- EPI e higiene: luvas sempre que houver contato potencial; máscara e proteção de cabelo quando houver risco de deposição de material biológico; propés em locais com solo/poeira.
- Troca de luvas: troque ao mudar de área, ao tocar superfícies diferentes relevantes, ao coletar amostras de naturezas distintas e sempre que houver sujidade/rasgo.
- Materiais estéreis: use swabs estéreis, recipientes limpos e ferramentas descontaminadas; evite reutilização sem limpeza apropriada.
- Separação de amostras: cada vestígio em embalagem individual; nunca misture itens de pessoas/locais diferentes no mesmo recipiente.
- Ordem de coleta: preferir coletar primeiro vestígios mais frágeis e os de maior risco de transferência (microvestígios), evitando cruzar áreas.
- Evite falar/tossir sobre vestígios: especialmente em amostras biológicas e superfícies de contato.
4.2 Vestígios biológicos (sangue, saliva, sêmen, tecidos)
Vestígios biológicos exigem cuidado para evitar contaminação por DNA e degradação por calor/umidade. A coleta deve preservar a amostra e manter a distinção entre fontes.
- Identificação e documentação: fotografe em visão média e close-up com escala; registre substrato (tecido, piso, parede) e condição (úmido/seco).
- Coleta em superfícies não porosas: use swab estéril levemente umedecido (quando apropriado) e, em seguida, swab seco para maximizar recuperação; acondicione cada swab separadamente.
- Coleta em superfícies porosas (tecido, papel): quando possível, recorte a área com material biológico (com ferramenta limpa) e embale individualmente; se não for possível, use swab conforme técnica.
- Amostra de referência do substrato: colete controle do material adjacente sem mancha (quando aplicável) para comparação e avaliação de interferentes.
- Secagem e acondicionamento: evite embalar material úmido em recipientes que favoreçam mofo; priorize acondicionamento que permita ventilação quando indicado pelos protocolos locais.
- Exemplo prático: mancha suspeita em bancada: foto com escala, swab umedecido em área delimitada, swab seco na mesma área, swabs em embalagens separadas e identificadas; troca de luvas antes de passar a outro vestígio.
4.3 Vestígios papiloscópicos (impressões digitais/palmares/plantar)
Vestígios papiloscópicos podem ser visíveis (por sujeira/sangue) ou latentes (oleosidade). O princípio é: não tocar na área de possível impressão, documentar antes e escolher método compatível com o suporte.
- Localização: priorize superfícies lisas e áreas de pega (copos, garrafas, telas, maçanetas, fitas, partes metálicas/plásticas).
- Documentação: fotografe antes de qualquer revelação; use iluminação oblíqua para realçar contraste quando houver impressão visível.
- Revelação e coleta: aplique técnica adequada ao material (ex.: pós em superfícies não porosas) e, quando revelada, faça registro fotográfico com escala e proceda ao levantamento conforme procedimento (ex.: fita/gel apropriado).
- Cuidados: evite umidade excessiva e fricção; troque luvas para não transferir oleosidade; não empilhe objetos com áreas de contato.
- Exemplo prático: em uma garrafa: segurar por áreas improváveis de contato (base/área texturizada), fotografar, aplicar técnica de revelação compatível, fotografar a impressão revelada com escala e levantar para suporte adequado.
4.4 Microvestígios (fibras, cabelos, fragmentos de vidro, partículas, solo)
Microvestígios são altamente transferíveis e facilmente perdidos. A estratégia é reduzir circulação, coletar cedo e usar métodos que minimizem dispersão.
- Onde buscar: roupas e calçados, bancos de veículos, áreas de luta, superfícies de contato, rodapés, lençóis, tapetes.
- Métodos de coleta: pinças limpas para itens visíveis; fitas adesivas/tapes específicos para varredura de superfícies; aspiração forense com filtro apropriado quando aplicável; coleta do substrato (ex.: porção de solo) em recipiente individual.
- Embalagem: recipientes rígidos para fragmentos (ex.: vidro) para evitar quebra; envelopes/papel apropriado para fibras; sempre individualizar.
- Controle de contaminação: troque luvas com frequência; mantenha ferramentas separadas por área; evite correntes de ar (ventiladores/janelas) quando isso puder dispersar partículas.
- Exemplo prático: suspeita de transferência de vidro em roupa: fotografar a peça, coletar fragmentos visíveis com pinça para recipiente rígido, aplicar fita em áreas estratégicas (punhos, joelhos), embalar a roupa individualmente para exame posterior.
4.5 Vestígios químicos (combustíveis, solventes, drogas, resíduos)
Vestígios químicos podem ser voláteis e degradar rapidamente. O princípio é minimizar evaporação, evitar fontes de ignição e usar recipientes compatíveis com o tipo de substância.
- Segurança: trate como potencialmente inflamável/tóxico; elimine fontes de ignição; garanta ventilação segura conforme risco.
- Documentação: registre recipientes, rótulos, tampas, posição e sinais de derramamento; fotografe antes de mover.
- Coleta de líquidos: quando possível, coletar em frasco compatível e vedação adequada; para resíduos em superfícies, usar swab/material absorvente apropriado e acondicionar de modo a reduzir perda por volatilização.
- Materiais impregnados: tecidos/papéis com odor de combustível devem ser embalados individualmente em recipiente que reduza evaporação e contaminação cruzada.
- Exemplo prático: suspeita de acelerante em pano: fotografar, coletar o pano inteiro, acondicionar em recipiente apropriado e vedado; trocar luvas antes de manusear outros itens para evitar transferência de odor/resíduo.
5) Passo a passo prático (roteiro operacional no local)
A seguir, um roteiro aplicável à maioria dos atendimentos, ajustando-se ao tipo de ocorrência e ao ambiente:
- Passo 1 — Chegada e segurança: confirmar que o local está seguro; identificar riscos; definir rota de entrada/saída; paramentar EPI.
- Passo 2 — Preservação e delimitação: estabelecer perímetros externo e interno; orientar equipe de apoio para manter barreiras; reduzir circulação.
- Passo 3 — Controle de acesso: definir ponto único de entrada; restringir ingressos; registrar intervenções inevitáveis e condições do local.
- Passo 4 — Avaliação inicial: triagem rápida para identificar vestígios efêmeros e áreas críticas; planejar padrão de busca (setores, linhas, grade etc.).
- Passo 5 — Documentação inicial: fotos gerais e do acesso; anotações técnicas; início do croqui com referências fixas.
- Passo 6 — Busca sistemática: executar varredura conforme padrão escolhido; usar iluminação forense e ângulos variados; marcar pontos de interesse sem tocar.
- Passo 7 — Documentação detalhada: para cada vestígio: foto média contextualizando + close-up com escala; registrar no croqui e nas anotações (localização, condição, observações objetivas).
- Passo 8 — Coleta por prioridade e fragilidade: coletar microvestígios e vestígios efêmeros cedo; depois biológicos, papiloscópicos e químicos conforme necessidade; trocar luvas entre coletas e separar embalagens.
- Passo 9 — Revisão do ambiente: repetir varredura rápida para confirmar que nada foi omitido; conferir se todos os vestígios coletados estão fotografados, descritos e identificados.
6) Erros comuns e como evitar (checklist rápido)
- Entrar sem rota definida: antes de pisar, planeje caminho e áreas proibidas.
- Fotografar sem referência: em close-up, use escala e mantenha o plano paralelo ao vestígio.
- Misturar amostras: um vestígio por embalagem; identifique imediatamente após acondicionar.
- Não trocar luvas: trate a troca como etapa obrigatória entre vestígios/áreas.
- Ventilar/limpar o local sem registrar: qualquer alteração deve ser documentada e justificada.
- Buscar sem padrão: escolha e declare o padrão de varredura; use setores em locais complexos.