Argamassas colantes (AC1, AC2, AC3): escolha correta e preparo

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que são argamassas colantes AC1, AC2 e AC3

Argamassa colante é o material cimentício industrializado usado para fixar placas cerâmicas e porcelanatos à base. A sigla AC indica a classe de desempenho (aderência e resistência em condições específicas). Em termos práticos, quanto maior a classe, maior a capacidade de aderir em situações mais exigentes (baixa absorção, variação térmica, umidade, peças grandes e solicitações mecânicas).

  • AC1: indicada para situações menos exigentes, tipicamente ambientes internos secos e peças cerâmicas de maior absorção.
  • AC2: uso mais versátil; atende melhor variações de umidade e temperatura moderadas, e peças com absorção menor.
  • AC3: maior desempenho; indicada para condições severas (exterior, fachadas, grandes formatos, porcelanatos e situações com maior deformabilidade/solicitação).

Importante: a classe é um ponto de partida. A escolha final deve considerar também o tipo de placa, absorção, tamanho, cor, local de aplicação e exigências de deformabilidade. Sempre confira a indicação do fabricante no saco e a norma/linha do produto (existem variações dentro da mesma classe).

Critérios práticos para escolher AC1/AC2/AC3

1) Ambiente: interno, externo e condições de uso

  • Interno seco (salas, quartos, corredores): normalmente AC1 pode atender para cerâmicas comuns e formatos menores, desde que a placa e o fabricante permitam. Para porcelanato, grandes formatos ou tráfego mais intenso, prefira AC2 ou AC3.
  • Interno úmido (cozinhas, lavabos, áreas de serviço): prefira AC2. Em porcelanato, peças grandes ou variações térmicas (próximo a fogão/forno), considere AC3.
  • Externo (varandas, quintais, áreas abertas): prefira AC3 devido à chuva, insolação e variação térmica. Em áreas externas cobertas, AC2 pode ser possível em alguns casos, mas AC3 é a escolha mais segura.
  • Fachadas e paredes externas: em regra, AC3 (e, quando especificado, argamassa com maior deformabilidade). Exige controle rigoroso de cobertura e técnica.

2) Tipo de peça: cerâmica x porcelanato

A diferença principal é a absorção de água e a densidade da placa.

  • Cerâmica (maior absorção): tende a “aceitar” melhor a ancoragem da argamassa. Pode trabalhar com AC1 em condições simples, mas AC2/AC3 aumentam a segurança em áreas úmidas, externas e formatos maiores.
  • Porcelanato (baixa absorção): exige maior aderência e contato efetivo. Em geral, prefira AC2 ou AC3, e para grandes formatos e/ou exterior, AC3.

3) Absorção e acabamento da placa

Quanto menor a absorção, maior a exigência da argamassa. Porcelanatos e algumas placas com tardoz muito liso pedem argamassa de melhor desempenho e técnica de aplicação que garanta alta cobertura.

  • Baixa absorção (porcelanato): priorize AC3 quando houver qualquer fator adicional (exterior, grande formato, tráfego, variação térmica).
  • Placas com tardoz muito fechado: aumente a atenção à escolha do dente e à técnica (cordões alinhados e, quando necessário, dupla colagem).

4) Tamanho e formato da peça (grande formato, réguas, placas finas)

Peças maiores exigem: (1) mais aderência, (2) mais tempo em aberto adequado e (3) maior controle de planicidade e cobertura. Réguas e formatos alongados também aumentam o risco de empeno e falta de contato.

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  • Até ~30×30 cm em interno seco com cerâmica: AC1 pode ser suficiente (conforme fabricante).
  • Acima de ~60 cm, réguas, placas finas e grandes formatos: prefira AC3 e trabalhe com desempenadeira compatível e, frequentemente, dupla colagem.

5) Cor da argamassa: branca x cinza

A cor não é “só estética”: ela influencia o resultado em peças claras, translúcidas ou com risco de manchamento.

  • Argamassa branca: recomendada para porcelanatos claros, pastilhas claras, mármores/rochas claras (quando permitido pelo fabricante) e peças com risco de “sombra” do fundo.
  • Argamassa cinza: comum para cerâmicas e porcelanatos escuros, e quando não há risco de transparência.

Dica prática: em peças muito claras, teste uma peça solta sobre uma amostra de argamassa endurecida (branca e cinza) para verificar se há alteração visual.

6) Exigências de deformabilidade (movimentos e variações térmicas)

Deformabilidade é a capacidade do sistema de acomodar pequenas movimentações sem perder aderência. Ela se torna crítica em:

  • Áreas externas com sol forte e variação térmica diária.
  • Fachadas.
  • Grandes formatos e placas finas.
  • Substratos sujeitos a microdeformações (ex.: algumas estruturas e painéis específicos, quando aplicável).

Nesses casos, a escolha tende a ir para AC3 e, quando o projeto exigir, para argamassas com maior deformabilidade (verifique a classificação adicional indicada pelo fabricante).

Quadro de decisão rápida (referência prática)

SituaçãoEscolha mais comumObservações
Interno seco + cerâmica pequena/médiaAC1Se porcelanato, prefira AC2/AC3.
Interno úmido (cozinha/serviço)AC2Com porcelanato grande, AC3.
Externo (piso/parede)AC3Maior variação térmica e umidade.
FachadaAC3Exige alta cobertura e técnica rigorosa.
Grande formato / réguasAC3Frequentemente com dupla colagem.

Atenção: este quadro é um guia. A palavra final é a ficha técnica do produto e a recomendação do fabricante para o tipo de placa e ambiente.

Preparo correto da argamassa colante

Proporção água/pó: por que seguir o fabricante

A proporção de água define trabalhabilidade, tempo em aberto, aderência e retração. Mais água do que o indicado deixa a argamassa “macia”, mas reduz desempenho e aumenta risco de descolamento e fissuras. Menos água pode dificultar o espalhamento e reduzir contato com o tardoz.

Regra prática: use medidor (balde graduado) e siga a faixa indicada no saco (ex.: “X a Y litros por saco de 20 kg”). Evite “olhômetro”.

Passo a passo de mistura (procedimento prático)

  1. Separe ferramentas: balde limpo, misturador mecânico (hélice) em furadeira de baixa rotação, medidor de água.
  2. Coloque a água primeiro no balde (na quantidade prevista para meia ou um saco, conforme o lote que você vai usar).
  3. Adicione o pó aos poucos, misturando continuamente para evitar grumos.
  4. Misture por 2 a 3 minutos (ou conforme fabricante) até ficar homogêneo.
  5. Respeite o tempo de maturação (descanso) normalmente de 5 a 15 minutos. Esse tempo permite hidratação de aditivos e estabiliza a consistência.
  6. Remisture por 30 a 60 segundos sem adicionar água.
  7. Use dentro da vida no balde (pot life) indicada na embalagem.

Tempo de maturação: o que acontece se pular

Sem maturação, a argamassa pode parecer “boa” no início, mas perde estabilidade: muda a consistência durante o uso, reduz tempo em aberto e pode comprometer a aderência. O descanso é parte do desempenho do produto.

Vida no balde (pot life): como controlar na obra

Vida no balde é o tempo em que a argamassa, já misturada, mantém desempenho adequado dentro do recipiente. Ela varia por produto e clima (calor e vento reduzem).

  • Faça lotes menores em dias quentes ou quando a equipe é pequena.
  • Não “estique” a argamassa vencida: quando começar a perder plasticidade, formar película ou ficar “farinhenta”, descarte.
  • Mantenha o balde à sombra e longe de piso quente.

Retempera: quando pode e quando não fazer

Retempera é voltar a misturar a argamassa que ficou em repouso no balde para recuperar trabalhabilidade.

  • Em geral, pode: se a argamassa apenas “assentou” no balde, ainda dentro da vida útil, você pode remisturar para homogeneizar.
  • Não fazer: não adicione água para “reviver” argamassa que começou a endurecer, passou do tempo de uso ou perdeu desempenho. Isso derruba a resistência e a aderência.
  • Sinal de descarte: grumos duros, aquecimento, perda de pegajosidade, aspecto arenoso, dificuldade de formar cordões firmes.

Influência do clima (calor, vento, frio e umidade)

  • Calor e vento: aceleram a evaporação e reduzem tempo em aberto. Trabalhe em panos menores, evite sol direto, proteja o balde e não espalhe argamassa em área grande de uma vez.
  • Frio: pode aumentar tempos de pega e atrasar liberação. Misture conforme orientação e evite água muito gelada.
  • Umidade alta: pode alterar secagem superficial; ainda assim, siga tempo em aberto e verifique formação de película.

Teste de tempo em aberto (prático): após espalhar a argamassa, toque levemente com a ponta do dedo. Se formar película seca e não “sujar” o dedo com material fresco, a argamassa perdeu tempo em aberto naquela área: raspe e reaplique.

Escolha da desempenadeira dentada e relação com cobertura

Por que o tamanho do dente importa

A desempenadeira dentada controla a quantidade de argamassa aplicada e a capacidade de preencher irregularidades e garantir cobertura no tardoz. Dente pequeno pode deixar falhas (vazios). Dente grande demais pode gerar excesso, sujeira de juntas e dificuldade de assentamento.

Referência prática de dentes por tipo/tamanho de peça

Use como ponto de partida e ajuste conforme planicidade da peça/base e necessidade de cobertura:

  • Peças pequenas (até ~20×20 cm): dente 6 mm (ou similar).
  • Médias (~30×30 a 45×45 cm): dente 8 mm.
  • Grandes (~60×60 cm): dente 10 mm.
  • Grandes formatos e réguas: dente 10 a 12 mm e avaliar dupla colagem.

Observação: fabricantes podem recomendar dentes específicos para cada linha de argamassa e tipo de placa. Siga a ficha técnica quando houver indicação.

Técnica de aplicação para maximizar cobertura (passo a passo)

  1. Espalhe a argamassa com o lado liso da desempenadeira, pressionando para “chavear” na base.
  2. Penteie com o lado dentado mantendo ângulo constante (aprox. 45° a 60°) para cordões uniformes.
  3. Oriente os cordões na mesma direção (não faça “redemoinho”). Isso facilita o escape de ar quando a peça é assentada.
  4. Assente a placa e faça movimento de deslizamento perpendicular aos cordões (pequeno vai-e-vem) para colapsar os cordões e eliminar vazios.
  5. Verifique a cobertura levantando uma peça recém-assentada: o tardoz deve estar bem “carimbado” e com contato amplo. Se houver falhas, aumente o dente, ajuste o ângulo, reduza a área aplicada por vez ou use dupla colagem.

Dupla colagem: quando considerar

Dupla colagem é aplicar argamassa tanto na base quanto uma camada fina no tardoz da peça (com lado liso), para aumentar contato e reduzir vazios.

  • Indicada frequentemente para porcelanatos, grandes formatos, réguas, externo e quando a verificação de cobertura mostrar falhas.
  • Não substitui a escolha correta do dente: ela complementa a técnica para atingir cobertura adequada.

Erros comuns e como evitar

  • Escolher AC1 para porcelanato ou exterior: aumenta risco de descolamento. Prefira AC2/AC3 conforme exigência.
  • Adicionar água para “amolecer”: reduz desempenho. Respeite proporção e descarte argamassa vencida.
  • Espalhar área grande e perder tempo em aberto: trabalhe em panos menores e faça o teste de película.
  • Dente inadequado: gera vazios ou excesso. Ajuste pelo tamanho da peça e confirme pela verificação de cobertura.
  • Cordões sem direção: aprisiona ar. Penteie sempre em uma direção e assente com deslizamento perpendicular.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao assentar porcelanato de grande formato em área externa, qual combinação de escolha de argamassa e técnica tende a aumentar a segurança de aderência e a cobertura?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em exterior e com porcelanato grande, a exigência de aderência e deformabilidade aumenta, favorecendo AC3. A dupla colagem e cordões na mesma direção com deslizamento perpendicular ajudam a eliminar vazios e melhorar a cobertura.

Próximo capitúlo

Aplicação da argamassa: cordões, tempo em aberto e controle de aderência

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