Conceitos essenciais: contato, cordões e aderência
A aderência no assentamento depende de três controles que acontecem ao mesmo tempo: contato (argamassa “molhando” base e tardoz), geometria dos cordões (altura e orientação corretas) e tempo (usar a argamassa antes de perder capacidade de colagem por formação de película). Quando qualquer um desses pontos falha, surgem vazios, som cavo e risco de desplacamento.
- Dupla camada de contato: uma camada fina para “morder” a superfície (na base e/ou no tardoz, conforme o caso) + camada com cordões para garantir espessura e acomodação.
- Cordões: sulcos formados pela desempenadeira dentada; precisam manter altura e não podem ser “amassados” antes do assentamento.
- Tempo em aberto: janela em que a argamassa aplicada na base ainda aceita a peça e transfere aderência.
- Tempo de formação de película: momento em que a superfície dos cordões “seca” e cria uma película; mesmo que pareça úmida por baixo, a colagem cai muito.
Passo a passo prático de aplicação correta
1) Organize a área e defina o ritmo de trabalho
- Separe desempenadeira lisa, desempenadeira dentada (dente adequado ao formato da peça), martelo de borracha, espaçadores, nível/sistema de nivelamento, esponja e balde com água limpa para limpeza imediata.
- Planeje aplicar argamassa em panos pequenos (área que você consegue cobrir com peças antes de formar película). Em ambientes quentes/ventosos, reduza ainda mais o pano.
- Evite correntes de ar direto e insolação sobre a base; isso acelera a película e reduz o tempo em aberto.
2) Dupla camada de contato na base (camada “chapiscada/queima” quando adequado)
Antes dos cordões, faça uma camada fina de contato para melhorar a ancoragem e reduzir falhas por micro-porosidade ou textura.
- Com a desempenadeira lisa, espalhe uma película fina de argamassa, pressionando para “esfregar” e preencher poros e micro-irregularidades.
- Essa camada não é para criar espessura; é para garantir contato íntimo com a base.
- Em bases muito lisas/fechadas, a “queima” (esfregar a argamassa com pressão) ajuda a aumentar o contato, mas não substitui requisitos de preparo da base já tratados em capítulos anteriores.
3) Formação dos cordões com ângulo correto
Após a camada de contato, aplique mais argamassa e forme cordões uniformes.
- Deposite argamassa suficiente e, com a desempenadeira dentada, puxe em uma única direção, formando cordões paralelos.
- Mantenha a desempenadeira com ângulo constante de aprox. 60° em relação à base (referência prática: entre 45° e 70°, ajustando para manter cordões “altos” e contínuos).
- Não faça movimentos circulares com o dente: isso aprisiona ar e aumenta vazios.
- Evite “repassar” muitas vezes no mesmo lugar; isso quebra os cordões e acelera a película.
4) Orientação dos cordões para expulsar o ar
A direção dos cordões influencia a saída de ar quando a peça é pressionada.
- Em geral, mantenha cordões paralelos ao lado menor da peça (ou ao sentido em que você vai “assentar e arrastar”), para facilitar o colapso dos cordões e expulsão do ar.
- Em peças grandes, a regra prática é: cordões em uma direção e assentamento com movimento perpendicular aos cordões (leve “vai e vem” curto) para colapsar os sulcos.
5) Dupla camada de contato no tardoz (back-buttering) quando necessário
Além da base, algumas situações pedem camada de contato também no tardoz (verso) da peça para evitar vazios e aumentar a aderência.
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- Com desempenadeira lisa, aplique uma camada fina no tardoz, pressionando para preencher relevos e retirar pó.
- Essa camada deve ser fina e contínua, sem criar “montes” que atrapalhem o nivelamento.
- É especialmente útil em: peças de grande formato, porcelanatos com tardoz muito texturizado, assentamento em áreas críticas e quando se busca maior percentual de cobertura.
6) Assentamento: pressão, movimento e colapso dos cordões
- Posicione a peça no lugar e pressione.
- Faça um movimento curto de deslizamento (alguns milímetros) perpendicular aos cordões para colapsá-los.
- Use martelo de borracha com batidas leves e uniformes, se necessário, para acomodar sem “flutuar” a peça.
- Instale espaçadores e, se houver, o sistema de nivelamento conforme o plano de paginação e prumo/nível.
Controle do tempo em aberto e da formação de película
Como reconhecer que a argamassa ainda está “viva”
- Os cordões devem estar úmidos ao toque e com aspecto “fresco”.
- Ao encostar levemente o dedo, a argamassa deve transferir material e “grudar” (teste simples de pegajosidade).
Sinais de película (perda de colagem na superfície)
- Superfície com aspecto opaco/selado, menos pegajosa.
- Ao tocar, não suja o dedo ou suja muito pouco.
- Ao assentar a peça, a argamassa não “molha” o tardoz e a cobertura fica falhada.
Boas práticas para manter o tempo em aberto
- Aplique argamassa em panos menores e assente imediatamente.
- Evite espalhar argamassa e “deixar para depois”.
- Em calor/vento, reduza a área aplicada e aumente a frequência de verificação com testes.
- Não “reviva” argamassa que já começou a perder trabalhabilidade com água por cima; isso compromete desempenho.
Testes simples de verificação de aderência e cobertura
1) Inspeção do tardoz (levantamento de peça)
É o teste mais didático para confirmar se os cordões colapsaram e se a cobertura está adequada.
- Após assentar algumas peças (principalmente no início do pano), levante uma peça com cuidado.
- Observe o tardoz: deve haver argamassa bem distribuída, sem “linhas” intactas de cordões e sem áreas secas.
- Observe a base: os cordões devem ter colapsado; se ainda estão “em pé”, faltou pressão/movimento, dente inadequado ou argamassa já com película.
2) Teste de arrancamento prático (checagem de colagem inicial)
Sem instrumentos, dá para fazer uma checagem simples de colagem inicial durante o trabalho.
- Assente uma peça de teste e, após alguns minutos (ainda dentro do tempo de ajuste), tente deslocá-la lateralmente com as mãos.
- Se a peça “patina” facilmente e a argamassa não transfere bem para o tardoz, é sinal de película, pouco contato ou cordões mal formados.
- Use esse teste para ajustar: tamanho do pano, ângulo da desempenadeira, necessidade de back-buttering e pressão de assentamento.
Como corrigir perda de aderência (película, poeira, cordões quebrados)
Quando a argamassa na base formou película
- Não tente “salvar” apenas passando a desempenadeira por cima sem remover: isso pode deixar grumos e não recupera a colagem.
- Raspe e remova a argamassa daquele trecho e aplique novamente (camada de contato + cordões).
- Reduza o pano de aplicação e reavalie ventilação/temperatura.
Quando a peça foi assentada e a cobertura ficou ruim
- Retire a peça imediatamente enquanto ainda é possível ajustar.
- Limpe o tardoz (remova argamassa que já começou a secar em película) e reaplique camada fina de contato no tardoz, se necessário.
- Reaplique argamassa na base com cordões novos e reassente com movimento perpendicular.
Quando há poeira no tardoz ou na base
- Poeira funciona como desmoldante: reduz contato e pode gerar desplacamento.
- Limpe o tardoz com pano/esponja levemente umedecida (sem encharcar) e aguarde não haver água livre.
- Na base, remova pó solto antes de aplicar argamassa.
Boas práticas para evitar vazios, som cavo e desplacamento
Evite vazios com técnica de cordões e assentamento
- Faça cordões contínuos, de altura uniforme, sem falhas.
- Oriente cordões em uma direção e colapse com movimento perpendicular.
- Use dente adequado: dente pequeno tende a deixar pouca espessura e falhar em peças maiores; dente grande demais pode dificultar nivelamento e gerar excesso de argamassa nas juntas.
- Não “penteie” argamassa já endurecendo; refaça o trecho.
Controle de espessura e acomodação
- Não compense desníveis grandes com argamassa colante; isso aumenta retração local e risco de vazios.
- Ao bater com martelo de borracha, distribua a pressão do centro para as bordas para expulsar ar.
Cuidados com juntas e limpeza imediata
- Evite que argamassa suba e preencha a junta em excesso; isso dificulta o rejuntamento e pode criar pontos rígidos.
- Limpe extravasamentos enquanto fresco, sem lavar a superfície com excesso de água.
Checklist rápido de controle durante o assentamento
| O que verificar | Sinal de problema | Ajuste imediato |
|---|---|---|
| Cordões “frescos” e pegajosos | Superfície opaca/sem pega | Remover e reaplicar; reduzir pano |
| Cordões colapsados após assentamento | Linhas altas intactas | Mais pressão/movimento; dente maior; back-buttering |
| Transferência para o tardoz | Áreas secas/sem argamassa | Camada de contato no tardoz; refazer trecho |
| Som ao percutir (após cura) | Som cavo localizado | Prevenir com cobertura; em obra, avaliar remoção e refazer |