Áreas de armazenagem no layout industrial: recebimento, estoque, WIP, supermercados e expedição

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que são áreas de armazenagem e por que elas “mandam” no fluxo

Áreas de armazenagem no layout industrial são pontos onde materiais ficam parados por algum tempo: aguardando inspeção, aguardando consumo, aguardando próxima operação ou aguardando expedição. Elas podem apoiar o fluxo (quando bem posicionadas e dimensionadas) ou criar movimentações desnecessárias (quando viram “depósitos” sem regra).

Para reduzir transporte e manuseio, a lógica é: armazenar o mínimo necessário, o mais perto possível do ponto de uso (quando faz sentido), com regras visuais e rotas de reposição que evitem idas e voltas.

Tipos de armazenagem no layout: quando usar e como posicionar

1) Recebimento (inbound)

Função: receber, conferir, identificar, eventualmente inspecionar e direcionar materiais para o destino correto (estoque, linha, quarentena, devolução).

  • Posicionamento: junto às docas/portões de entrada, com acesso direto à via principal interna e sem cruzar rotas de pedestres.
  • Regra de ouro: recebimento não é estoque. Deve ter permanência curta e fluxo “puxado” para o próximo destino.

2) Estoque de matéria-prima (MP)

Função: garantir disponibilidade de insumos para produção, absorvendo variações de entrega e lote de compra.

  • Quando usar: quando fornecedores não entregam em frequência suficiente, quando há lead time longo, ou quando há necessidade de consolidação.
  • Posicionamento: próximo ao recebimento e com acesso fácil às rotas de abastecimento para as áreas produtivas. Evite colocar MP “no meio” da fábrica se o consumo é distribuído; prefira um estoque central com rotas bem definidas ou pequenos pontos de uso (supermercados) com reposição estruturada.

3) WIP (Work In Process / material em processo)

Função: armazenar temporariamente itens entre operações (fila), aguardando processamento, inspeção ou transporte interno.

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  • Quando usar: quando há desacoplamento inevitável entre processos (tempos de ciclo diferentes, setups, inspeções por amostragem, restrições de capacidade).
  • Posicionamento: imediatamente antes/depois do processo que o gera/consome, com limites físicos e visuais. WIP “viajando” para longe é sinal de layout/abastecimento mal definido.
  • Regra prática: WIP deve ser controlado por limite (quantidade máxima) e por local fixo. Se não cabe no local, não produz.

4) Supermercados de linha (ponto de uso / kanban)

Função: pequeno estoque controlado próximo ao consumo (linha/célula), com reposição por rota (milk run) ou por sinal (kanban), reduzindo idas ao estoque central.

  • Quando usar: itens de alto consumo, itens comuns a várias ordens, componentes que causam paradas se faltarem, e quando o abastecimento direto do estoque central gera muita movimentação.
  • Posicionamento: na “borda” da área produtiva (perto do ponto de uso, mas fora da área de trabalho), permitindo reposição sem interferir na operação.
  • Cuidados: supermercado não é “depósito paralelo”. Deve ter itens definidos, quantidades definidas e reposição padronizada.

5) Estoque de produto acabado (PA) e expedição (outbound)

Função do PA: consolidar pedidos, aguardar janela de coleta, permitir separação/embalagem final. Função da expedição: staging por transportadora/rota, conferência final e carregamento.

  • Quando usar PA: quando há necessidade de consolidação, quando o cliente retira em janelas, ou quando a expedição exige preparação (picking, etiquetagem, documentação).
  • Posicionamento: PA próximo à expedição, com fluxo direto para docas, evitando cruzamento com recebimento e com rotas de abastecimento da produção.
  • Separar fisicamente: recebimento e expedição podem compartilhar docas em alguns casos, mas as áreas de staging devem ser claramente separadas para evitar mistura e retrabalho.

Dimensionamento prático: cobertura em horas/dias e limites visuais

Passo a passo para dimensionar um supermercado de linha

  1. Defina o consumo do item no ponto de uso (unidades/hora ou unidades/dia).
  2. Defina a frequência de reposição (ex.: a cada 2 horas; 2 vezes por turno; 1 vez/dia).
  3. Defina uma proteção (buffer) para variabilidade (ex.: 10% a 30% ou um tempo extra em horas).
  4. Calcule a quantidade alvo: Qtd_alvo = Consumo_no_período_de_reposição + Proteção.
  5. Traduza em espaço: converta unidades em caixas/pallets e dimensione o número de posições.
  6. Crie limite visual: marque mínimo e máximo (linhas no rack, cartões, divisórias, posições numeradas). Se passou do máximo, é excesso; se atingiu o mínimo, dispara reposição.

Exemplo: um componente consome 120 peças/turno (8h) = 15 peças/h. Reposição a cada 2h: consumo no período = 30 peças. Proteção de 20% = 6 peças. Qtd_alvo = 36 peças. Se a embalagem tem 12 peças/caixa, o supermercado precisa de 3 caixas (com marcação de mínimo em 1 caixa e máximo em 3 caixas, por exemplo).

Dimensionamento rápido de WIP entre processos

Use cobertura em tempo para evitar “fila infinita”.

  • Defina o objetivo: por exemplo, WIP máximo equivalente a 1 hora de produção do processo seguinte.
  • Calcule: WIP_max (unid) = Taxa_consumo_processo_seguinte (unid/h) × Cobertura (h).
  • Implemente limite físico: número de posições no carrinho, berço, rack ou área demarcada no piso.

Exemplo: processo B consome 50 unid/h. Cobertura desejada: 0,5h. WIP_max = 25 unid. Se cada caixa tem 5 unid, limite de 5 caixas. A área de WIP deve ter exatamente 5 posições marcadas.

Dimensionamento de estoque de MP e PA por dias de cobertura

Para estoques centrais (MP/PA), é comum dimensionar por dias de cobertura, mas com disciplina para não virar “pulmão infinito”.

  • MP: Estoque_alvo = Consumo_médio_diário × Cobertura_dias (ajuste por lote mínimo e lead time).
  • PA: Estoque_alvo = Expedição_média_diária × Cobertura_dias (ajuste por sazonalidade e janelas de coleta).

Transforme o alvo em posições (pallet positions) e trate o número de posições como o “máximo permitido”. Se a demanda cresce, aumente posições conscientemente (projeto), não por “empilhar onde dá”.

Endereçamento e acessibilidade: como evitar procura e manuseio extra

Regras simples de endereçamento

  • Endereço único por posição (rua-coluna-nível), mesmo em áreas pequenas.
  • Identificação visível no rack e no piso (ex.: R02-C05-N02).
  • Separar por status: aprovado, quarentena, devolução, sucata. Nunca misturar fisicamente.
  • Compatibilidade: itens incompatíveis (químicos, inflamáveis, alimentos, etc.) devem ter segregação conforme norma interna.

Acessibilidade e ergonomia que reduzem movimentação

  • Itens de alto giro em posições de fácil acesso (altura entre joelho e ombro para picking manual; níveis baixos para pallets pesados conforme padrão interno).
  • Evite “duplo manuseio”: se o material chega em pallet e será consumido em pallet, minimize reembalagem. Se precisa fracionar, crie área dedicada de fracionamento próxima ao recebimento/estoque, não no meio da produção.
  • Corredores dimensionados para o equipamento (paleteira, empilhadeira, rebocador) e para cruzamentos seguros.

Giro (ABC simples) aplicado a armazenagem e abastecimento

ABC simples ajuda a decidir onde colocar e como abastecer.

  • A (alto giro): perto do ponto de saída/abastecimento, preferencialmente em supermercados ou em posições “golden zone” do estoque. Reposição frequente e lotes menores.
  • B (médio giro): posições intermediárias, reposição em frequência moderada.
  • C (baixo giro): mais distante, níveis superiores, reposição sob demanda; avaliar se faz sentido manter no site.

Passo a passo (sem software): (1) liste itens e consumo mensal (unid ou valor); (2) ordene do maior para o menor; (3) classifique A até ~80% do consumo acumulado, B até ~95%, C o restante; (4) redesenhe posições e rotas priorizando A.

Rotas de reposição: como desenhar para não virar “correria”

Princípios

  • Rota fixa e horário fixo: abastecimento previsível reduz pedidos urgentes e deslocamentos aleatórios.
  • Pontos de coleta/entrega padronizados: cada linha/célula tem um local único para receber materiais e devolver vazios.
  • Regras de sinal: cartão, etiqueta, quadro, ou posição vazia como gatilho de reposição.

Passo a passo para criar uma rota (milk run interno)

  1. Defina quais áreas serão atendidas (linhas/células/supermercados).
  2. Defina o intervalo (ex.: a cada 60 ou 120 minutos) com base no consumo e no espaço disponível no ponto de uso.
  3. Defina o “trem logístico”/equipamento (carrinho, rebocador, paleteira) e sua capacidade.
  4. Desenhe o percurso em loop, evitando retornos e cruzamentos com recebimento/expedição.
  5. Padronize o que vai e o que volta (materiais, vazios, sucata, devoluções) para evitar viagens extras.
  6. Crie um quadro simples de controle: horário, responsável, checklist de paradas e exceções.

Regras para evitar “estoques sombra” (materiais escondidos na fábrica)

“Estoque sombra” é material guardado fora dos locais oficiais (atrás de máquina, em corredor, em gavetas), geralmente para “garantir” que não falte. Ele aumenta movimentação, dificulta inventário e cria risco de qualidade (lote errado, FIFO quebrado).

  • Regra 1: lugar único — cada item tem local definido (estoque, supermercado ou WIP). Se não cabe, o sistema está mal dimensionado.
  • Regra 2: limite máximo físico — posições limitadas impedem acúmulo “por garantia”.
  • Regra 3: reposição confiável — estoques sombra surgem quando a reposição falha. Corrija rota, frequência e gatilhos.
  • Regra 4: auditoria rápida — ronda diária/por turno em corredores e áreas de máquina para retirar materiais fora do lugar e identificar causa.
  • Regra 5: FIFO visível — flow rack, pistas, ou regra “entra por um lado, sai pelo outro”. Quando FIFO é difícil, o operador tende a “separar” material e criar sombra.

Checklist de requisitos físicos das áreas de armazenagem

CategoriaRequisitos mínimosVerificação prática
Segurança de pessoasSeparação de pedestres e equipamentos; travessias sinalizadas; iluminação adequadaRotas demarcadas no piso; pontos de cruzamento com placas e espelhos quando necessário
Proteção de rotasBarreiras/guarda-corpos em áreas de tráfego; proteção de colunas e racksChecar impactos recorrentes e instalar proteções nos pontos críticos
Estabilidade de empilhamentoAltura máxima definida; pallets íntegros; cargas amarradas/filme quando aplicávelPadrão visual de empilhamento e inspeção de pallets danificados
Sinalização e endereçamentoEndereços legíveis; identificação de status (aprovado/quarentena); limites min/maxAuditar se qualquer pessoa encontra um item em menos de 1 minuto
Qualidade e integridadeProteção contra poeira/umidade; segregação de itens sensíveis; controle de loteÁreas dedicadas e etiquetas de lote/validade visíveis
Acessibilidade operacionalCorredores compatíveis com equipamento; áreas de giro; docas desobstruídasSimular manobra com carga; medir gargalos em horários de pico
Organização (5S aplicado)Locais definidos para vazios, sucata, devoluções e materiais de embalagemSem itens no chão fora de áreas demarcadas
Prevenção de incêndioDistâncias de segurança; extintores/hidrantes acessíveis; rotas de fuga livresChecar se há bloqueios e se a sinalização está visível

Exemplo prático: reorganização do recebimento para reduzir retrabalho de transporte

Situação comum (antes)

  • Caminhão descarrega no recebimento.
  • Material é colocado “temporariamente” em qualquer espaço livre.
  • Conferência acontece depois, quando alguém tem tempo.
  • Após conferência, o material é levado ao estoque.
  • Mais tarde, o abastecedor busca no estoque e leva à produção.

Resultado típico: duas ou três movimentações do mesmo pallet/caixa (recebimento → área temporária → estoque → linha), além de procura, reetiquetagem e filas.

Reorganização proposta (depois) — passo a passo

  1. Crie zonas no recebimento demarcadas no piso: Conferência, Quarentena, Cross-dock para linha, Direto para estoque.
  2. Padronize a triagem na chegada: ao descarregar, cada volume recebe identificação imediata (pedido, item, quantidade, status).
  3. Implemente “cross-docking interno”: itens A (alto giro) e/ou materiais já programados para consumo no mesmo dia vão para a zona Cross-dock e seguem direto para o supermercado/linha na próxima rota, sem entrar no estoque central.
  4. Quarentena física obrigatória: qualquer material sem conferência/inspeção vai para Quarentena (área bloqueada), evitando que “escape” para a produção.
  5. Janela de conferência: defina capacidade e sequência (ex.: conferir por transportadora/nota, ou por criticidade). O objetivo é não criar “montanhas” no recebimento.
  6. Rota única de saída: materiais aprovados saem do recebimento por uma rota definida (para estoque ou para supermercados), evitando cruzar com entrada.

Ganhos esperados (o que medir)

  • Redução de manuseios: menos toques por pallet/caixa (meta: eliminar a etapa “área temporária”).
  • Menos transporte interno: parte do volume vai direto ao ponto de uso (cross-dock).
  • Menos retrabalho: menos reetiquetagem e menos procura por material “perdido”.
  • Mais confiabilidade: quarentena evita uso de material sem status definido.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática ajuda a reduzir movimentações desnecessárias e evitar que áreas de armazenagem virem “depósitos” sem regra?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A redução de transportes e manuseio vem de minimizar estoques, posicionar materiais perto do consumo quando adequado e usar regras visuais (mín./máx.) e rotas de reposição para evitar idas e voltas e “estoques sombra”.

Próximo capitúlo

Pontos de abastecimento e rotas internas: milk run, kanban simples e padronização de movimentação

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