Apontamentos no PCP: coleta de dados, tempos reais, consumo e status da produção

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é apontamento e por que ele sustenta o controle

Apontamento é o registro do que realmente aconteceu na produção, no momento em que acontece (ou o mais próximo possível disso). Ele transforma a execução do chão de fábrica em dados confiáveis para o PCP acompanhar ordens, medir desempenho e corrigir desvios rapidamente.

Sem apontamento, o PCP trabalha “no escuro”: a ordem pode estar “em andamento” no papel, mas parada na prática; o estoque pode parecer suficiente no sistema, mas ter sido consumido sem registro; e o prazo prometido pode não refletir o tempo real de execução.

O que deve ser apontado (mínimo recomendado)

  • Início e fim de operação (data/hora) por ordem e por etapa do roteiro.
  • Quantidade produzida (boa) e quantidade refugada (sucata/retrabalho), com motivo.
  • Paradas (tempo e motivo): falta de material, quebra, setup, qualidade, espera de liberação etc.
  • Consumo real de materiais: quanto foi efetivamente usado, por item e quantidade.
  • Identificação de lote/serial (quando aplicável): lote do material consumido e lote do produto produzido.
  • Recurso (máquina/linha) e operador/turno (para rastreabilidade e análise).

Como o apontamento alimenta o acompanhamento de ordens e o status da produção

O status de uma ordem (liberada, em processo, parada, concluída, parcialmente concluída) deve refletir eventos apontados. Na prática, o PCP usa os apontamentos para responder perguntas operacionais do dia:

  • Onde a ordem está? (em qual operação, em qual recurso)
  • Quanto já foi produzido? (quantidade boa acumulada vs. planejada)
  • Quanto falta? (saldo a produzir e operações pendentes)
  • Por que atrasou? (paradas e tempos reais)
  • O material foi consumido? (consumo real e rastreabilidade por lote)

Status baseado em eventos (exemplo simples)

Evento apontadoInterpretaçãoStatus sugerido
Início de operação 10Ordem entrou em execuçãoEm processo
Parada com motivo “falta de material”Execução interrompida por restriçãoParada
Fim de operação 10 + início operação 20Fluxo avançou no roteiroEm processo (operação 20)
Apontamento de quantidade boa igual ao planejado na última operaçãoOrdem finalizadaConcluída

Tempos reais e lead time real: como calcular a partir dos apontamentos

Os apontamentos de início/fim e paradas permitem medir o tempo real em vez do tempo padrão. Isso é essencial para entender variabilidade e melhorar previsibilidade.

Componentes práticos medidos por apontamento

  • Tempo de processamento real: tempo entre início e fim da operação (descontando ou não paradas, conforme regra).
  • Tempo de setup real: quando apontado separadamente (ou inferido por códigos de parada).
  • Tempo de espera: fila antes de iniciar, espera por inspeção, espera por material.
  • Tempo de parada: por motivo, para atacar causas.

Exemplo de cálculo (por ordem)

Considere uma ordem com duas operações (Op10 e Op20). Apontamentos:

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  • Op10: início 08:00, parada 09:00–09:20 (quebra), fim 10:00
  • Op20: início 13:00, fim 14:30

Métricas possíveis:

  • Duração calendário Op10: 08:00–10:00 = 2h
  • Parada Op10: 20min
  • Tempo efetivo Op10 (se descontar paradas): 1h40
  • Espera entre operações: 10:00–13:00 = 3h
  • Lead time real da ordem (do primeiro início ao último fim): 08:00–14:30 = 6h30

Com isso, o PCP consegue separar “tempo que agrega” de “tempo perdido/espera”, e priorizar ações (ex.: reduzir espera entre operações ou atacar a causa de quebra).

Indicadores que dependem diretamente de apontamentos

Quando os apontamentos são consistentes, eles alimentam indicadores operacionais sem “achismo”. Exemplos:

  • Aderência ao plano: produzido vs. programado por turno/dia/ordem.
  • Produtividade: peças boas por hora (por recurso/turno).
  • Refugo e retrabalho: taxa de refugo por item/operação/motivo.
  • Paradas: tempo parado por motivo (Pareto de perdas).
  • Lead time real: por família, item, rota, recurso.
  • Consumo específico real: consumo real por unidade produzida (comparação com padrão).

Apontamento manual vs. digital: comparação sob a ótica de qualidade de dados

O ponto central não é “qual é mais moderno”, e sim qual gera dados mais confiáveis e utilizáveis. Abaixo, uma comparação prática.

CritérioManual (papel/planilha)Digital (coleta em terminal/coletor)
Tempo de registroTende a ser posterior ao fato (fim do turno), aumentando risco de memória/estimativaMais próximo do evento, reduzindo “chute”
Erros de digitação/legibilidadeMaior (letra, campos faltando, códigos errados)Menor (listas, validações, leitura de código)
Padronização de motivos de parada/refugoDifícil manter padrão; descrições livresMais fácil (catálogo de motivos, obrigatoriedade)
Rastreabilidade por loteDepende de disciplina; fácil esquecer de anotarMais robusta (leitura de etiqueta, validação)
Disponibilidade para o PCPCom atraso (precisa consolidar)Quase em tempo real
AuditoriaExige conferência física e reprocessamentoFacilita trilha de auditoria (quem, quando, o quê)

Observação importante: apontamento digital não “salva” um processo ruim. Se os campos e regras forem mal definidos, o erro apenas fica mais rápido. Por isso, o desenho do apontamento (o que registrar, quando e com quais validações) é decisivo.

Passo a passo prático: como estruturar um apontamento consistente

1) Defina o “pacote mínimo” por operação

  • Ordem + operação
  • Recurso (máquina/linha) + turno
  • Início e fim (data/hora)
  • Quantidade boa + refugo (com motivo)
  • Paradas (tempo + motivo) quando ocorrerem

2) Defina o “pacote mínimo” de materiais

  • Item consumido + quantidade
  • Unidade de medida
  • Lote/serial (se aplicável)
  • Local de consumo (linha/célula)

3) Estabeleça o momento do registro

  • Início: assim que a operação começa (não “quando der”).
  • Parada: no momento da parada (ou imediatamente após retomar).
  • Fim: assim que a operação termina.
  • Produção/refugo: no fim da operação ou em bateladas definidas (ex.: a cada 1h), conforme o processo.
  • Consumo: no momento da separação/abastecimento ou no momento do consumo, conforme o fluxo interno; o importante é ter regra única.

4) Padronize códigos e motivos

Crie listas curtas e objetivas para:

  • Motivos de parada (ex.: manutenção, falta de material, setup, qualidade, espera de liberação)
  • Motivos de refugo (ex.: dimensão fora, rebarba, contaminação, falha de montagem)

Evite “outros” como padrão. Se “outros” for frequente, é sinal de que a lista precisa ser ajustada.

5) Treine com exemplos reais e defina responsabilidades

  • Quem aponta início/fim? (operador, líder, apontador)
  • Quem aponta consumo? (almoxarifado, abastecedor, operador)
  • Quem valida e corrige? (líder/PCP/qualidade, conforme regra)

Fluxo de validação de apontamentos (regras simples + auditoria por amostragem)

Um fluxo de validação evita que o sistema “aceite qualquer coisa” e protege a confiabilidade dos indicadores.

Regras simples (validações automáticas ou checklist)

  • Sequência de tempo: fim não pode ser antes do início; paradas devem estar dentro do intervalo da operação.
  • Sobreposição: o mesmo recurso/operador não pode estar em duas operações ao mesmo tempo (salvo regra específica).
  • Quantidades: quantidade boa + refugo não pode exceder limites plausíveis (ex.: capacidade máxima do período) sem justificativa.
  • Obrigatoriedade: refugo exige motivo; parada acima de X minutos exige motivo.
  • Rastreabilidade: itens controlados por lote exigem lote no consumo e/ou na produção.
  • Fechamento de operação: só permitir “fim” se houver quantidade apontada (mesmo que zero, com justificativa).

Auditoria por amostragem (rotina leve, mas constante)

Exemplo de rotina semanal:

  • Selecionar 5% das ordens concluídas na semana (ou um número fixo por linha).
  • Conferir: (1) tempos, (2) quantidades boas/refugo, (3) paradas, (4) consumo de itens críticos, (5) lotes.
  • Comparar com evidências: etiquetas, apontamentos de qualidade, registros de manutenção, contagem rápida de WIP/estoque do ponto.
  • Classificar achados: erro de registro (digitado errado), erro de processo (consumiu sem requisitar), cadastro/regra (unidade de medida, fator de conversão, lista de motivos inadequada).
  • Registrar correção e causa para evitar repetição (ajuste de regra, treinamento, mudança de formulário/tela).

Exemplo prático: corrigindo divergências entre produzido, consumido e estoque

Cenário: uma ordem produziu 100 peças boas de um item A. O consumo do material M (matéria-prima) deveria ser 2,0 kg por peça (esperado: 200 kg). Ao fechar a ordem, aparecem os seguintes dados:

  • Produzido (bom): 100 peças
  • Refugo: 0
  • Consumo apontado de M: 230 kg
  • Estoque do M no sistema ficou 30 kg menor do que o físico (na contagem rápida)

Passo a passo para investigar e corrigir

1) Verifique se a unidade de medida e conversões estão coerentes

Checar se o consumo foi apontado em kg, g ou outra unidade. Um erro comum é apontar “230” quando o correto era “230.0” em outra unidade, ou registrar em unidade diferente da esperada.

2) Confirme o lote e o local de consumo

Verificar se o consumo foi lançado no lote correto e no local correto. Consumo no local errado pode “sumir” de um estoque e “sobrar” em outro.

3) Compare consumo com evidências físicas do processo

  • Quantos fardos/bobinas/sacos foram abertos?
  • Houve sobra retornada ao estoque e não registrada?
  • Houve descarte/perda (queda, contaminação) não apontada como refugo de material?

4) Cheque se houve apontamento duplicado ou lançamento em ordem errada

Exemplo: o abastecedor lançou 230 kg em duas ordens por engano, ou lançou na ordem anterior.

5) Aplique correções com rastreabilidade (sem “ajuste cego”)

Suponha que a investigação encontrou:

  • Foram separados 230 kg, mas 30 kg sobraram e voltaram ao estoque físico sem registro.

Correção recomendada:

  • Manter o consumo de 230 kg como “saída para produção” (se esse for o evento real de separação).
  • Registrar retorno de 30 kg ao estoque (movimento de devolução), com o mesmo lote, data e responsável.
  • Se o processo exigir consumo “líquido” na ordem, então ajustar o apontamento de consumo para 200 kg e registrar a sobra como retorno/ajuste conforme regra interna — mas sempre com motivo e evidência.

6) Atualize a causa raiz para evitar repetição

  • Se a causa foi “retorno sem registro”: criar regra de apontamento obrigatório de devolução ao final da ordem/turno.
  • Se a causa foi “apontamento em ordem errada”: reforçar validação (ex.: leitura de etiqueta da ordem/material).
  • Se a causa foi “perda de material”: criar motivo específico e rotina de registro (perda/derramamento/contaminação).

Boas práticas para manter o apontamento útil (e não burocrático)

  • Menos campos, mais disciplina: registre o essencial com alta qualidade, em vez de muitos campos incompletos.
  • Regra única por processo: quando apontar consumo (na separação ou no consumo) e como tratar sobras.
  • Motivos padronizados: sem isso, paradas e refugos viram texto livre e não geram ação.
  • Correção com trilha: toda alteração deve ter responsável, data e motivo (para não “maquiar” indicador).
  • Feedback rápido: mostrar no dia a dia como os apontamentos viram decisões (prioridade, falta de material, ataque a paradas) aumenta adesão.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática torna o status de uma ordem de produção mais confiável para o PCP acompanhar e corrigir desvios rapidamente?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O status deve refletir eventos reais da produção. Apontamentos feitos no momento (ou o mais próximo possível) transformam a execução em dados confiáveis para indicar em que etapa a ordem está, quanto produziu, por que parou e o que foi consumido.

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