O que é apontamento e por que ele sustenta o controle
Apontamento é o registro do que realmente aconteceu na produção, no momento em que acontece (ou o mais próximo possível disso). Ele transforma a execução do chão de fábrica em dados confiáveis para o PCP acompanhar ordens, medir desempenho e corrigir desvios rapidamente.
Sem apontamento, o PCP trabalha “no escuro”: a ordem pode estar “em andamento” no papel, mas parada na prática; o estoque pode parecer suficiente no sistema, mas ter sido consumido sem registro; e o prazo prometido pode não refletir o tempo real de execução.
O que deve ser apontado (mínimo recomendado)
- Início e fim de operação (data/hora) por ordem e por etapa do roteiro.
- Quantidade produzida (boa) e quantidade refugada (sucata/retrabalho), com motivo.
- Paradas (tempo e motivo): falta de material, quebra, setup, qualidade, espera de liberação etc.
- Consumo real de materiais: quanto foi efetivamente usado, por item e quantidade.
- Identificação de lote/serial (quando aplicável): lote do material consumido e lote do produto produzido.
- Recurso (máquina/linha) e operador/turno (para rastreabilidade e análise).
Como o apontamento alimenta o acompanhamento de ordens e o status da produção
O status de uma ordem (liberada, em processo, parada, concluída, parcialmente concluída) deve refletir eventos apontados. Na prática, o PCP usa os apontamentos para responder perguntas operacionais do dia:
- Onde a ordem está? (em qual operação, em qual recurso)
- Quanto já foi produzido? (quantidade boa acumulada vs. planejada)
- Quanto falta? (saldo a produzir e operações pendentes)
- Por que atrasou? (paradas e tempos reais)
- O material foi consumido? (consumo real e rastreabilidade por lote)
Status baseado em eventos (exemplo simples)
| Evento apontado | Interpretação | Status sugerido |
|---|---|---|
| Início de operação 10 | Ordem entrou em execução | Em processo |
| Parada com motivo “falta de material” | Execução interrompida por restrição | Parada |
| Fim de operação 10 + início operação 20 | Fluxo avançou no roteiro | Em processo (operação 20) |
| Apontamento de quantidade boa igual ao planejado na última operação | Ordem finalizada | Concluída |
Tempos reais e lead time real: como calcular a partir dos apontamentos
Os apontamentos de início/fim e paradas permitem medir o tempo real em vez do tempo padrão. Isso é essencial para entender variabilidade e melhorar previsibilidade.
Componentes práticos medidos por apontamento
- Tempo de processamento real: tempo entre início e fim da operação (descontando ou não paradas, conforme regra).
- Tempo de setup real: quando apontado separadamente (ou inferido por códigos de parada).
- Tempo de espera: fila antes de iniciar, espera por inspeção, espera por material.
- Tempo de parada: por motivo, para atacar causas.
Exemplo de cálculo (por ordem)
Considere uma ordem com duas operações (Op10 e Op20). Apontamentos:
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- Op10: início 08:00, parada 09:00–09:20 (quebra), fim 10:00
- Op20: início 13:00, fim 14:30
Métricas possíveis:
- Duração calendário Op10: 08:00–10:00 = 2h
- Parada Op10: 20min
- Tempo efetivo Op10 (se descontar paradas): 1h40
- Espera entre operações: 10:00–13:00 = 3h
- Lead time real da ordem (do primeiro início ao último fim): 08:00–14:30 = 6h30
Com isso, o PCP consegue separar “tempo que agrega” de “tempo perdido/espera”, e priorizar ações (ex.: reduzir espera entre operações ou atacar a causa de quebra).
Indicadores que dependem diretamente de apontamentos
Quando os apontamentos são consistentes, eles alimentam indicadores operacionais sem “achismo”. Exemplos:
- Aderência ao plano: produzido vs. programado por turno/dia/ordem.
- Produtividade: peças boas por hora (por recurso/turno).
- Refugo e retrabalho: taxa de refugo por item/operação/motivo.
- Paradas: tempo parado por motivo (Pareto de perdas).
- Lead time real: por família, item, rota, recurso.
- Consumo específico real: consumo real por unidade produzida (comparação com padrão).
Apontamento manual vs. digital: comparação sob a ótica de qualidade de dados
O ponto central não é “qual é mais moderno”, e sim qual gera dados mais confiáveis e utilizáveis. Abaixo, uma comparação prática.
| Critério | Manual (papel/planilha) | Digital (coleta em terminal/coletor) |
|---|---|---|
| Tempo de registro | Tende a ser posterior ao fato (fim do turno), aumentando risco de memória/estimativa | Mais próximo do evento, reduzindo “chute” |
| Erros de digitação/legibilidade | Maior (letra, campos faltando, códigos errados) | Menor (listas, validações, leitura de código) |
| Padronização de motivos de parada/refugo | Difícil manter padrão; descrições livres | Mais fácil (catálogo de motivos, obrigatoriedade) |
| Rastreabilidade por lote | Depende de disciplina; fácil esquecer de anotar | Mais robusta (leitura de etiqueta, validação) |
| Disponibilidade para o PCP | Com atraso (precisa consolidar) | Quase em tempo real |
| Auditoria | Exige conferência física e reprocessamento | Facilita trilha de auditoria (quem, quando, o quê) |
Observação importante: apontamento digital não “salva” um processo ruim. Se os campos e regras forem mal definidos, o erro apenas fica mais rápido. Por isso, o desenho do apontamento (o que registrar, quando e com quais validações) é decisivo.
Passo a passo prático: como estruturar um apontamento consistente
1) Defina o “pacote mínimo” por operação
- Ordem + operação
- Recurso (máquina/linha) + turno
- Início e fim (data/hora)
- Quantidade boa + refugo (com motivo)
- Paradas (tempo + motivo) quando ocorrerem
2) Defina o “pacote mínimo” de materiais
- Item consumido + quantidade
- Unidade de medida
- Lote/serial (se aplicável)
- Local de consumo (linha/célula)
3) Estabeleça o momento do registro
- Início: assim que a operação começa (não “quando der”).
- Parada: no momento da parada (ou imediatamente após retomar).
- Fim: assim que a operação termina.
- Produção/refugo: no fim da operação ou em bateladas definidas (ex.: a cada 1h), conforme o processo.
- Consumo: no momento da separação/abastecimento ou no momento do consumo, conforme o fluxo interno; o importante é ter regra única.
4) Padronize códigos e motivos
Crie listas curtas e objetivas para:
- Motivos de parada (ex.: manutenção, falta de material, setup, qualidade, espera de liberação)
- Motivos de refugo (ex.: dimensão fora, rebarba, contaminação, falha de montagem)
Evite “outros” como padrão. Se “outros” for frequente, é sinal de que a lista precisa ser ajustada.
5) Treine com exemplos reais e defina responsabilidades
- Quem aponta início/fim? (operador, líder, apontador)
- Quem aponta consumo? (almoxarifado, abastecedor, operador)
- Quem valida e corrige? (líder/PCP/qualidade, conforme regra)
Fluxo de validação de apontamentos (regras simples + auditoria por amostragem)
Um fluxo de validação evita que o sistema “aceite qualquer coisa” e protege a confiabilidade dos indicadores.
Regras simples (validações automáticas ou checklist)
- Sequência de tempo: fim não pode ser antes do início; paradas devem estar dentro do intervalo da operação.
- Sobreposição: o mesmo recurso/operador não pode estar em duas operações ao mesmo tempo (salvo regra específica).
- Quantidades: quantidade boa + refugo não pode exceder limites plausíveis (ex.: capacidade máxima do período) sem justificativa.
- Obrigatoriedade: refugo exige motivo; parada acima de X minutos exige motivo.
- Rastreabilidade: itens controlados por lote exigem lote no consumo e/ou na produção.
- Fechamento de operação: só permitir “fim” se houver quantidade apontada (mesmo que zero, com justificativa).
Auditoria por amostragem (rotina leve, mas constante)
Exemplo de rotina semanal:
- Selecionar 5% das ordens concluídas na semana (ou um número fixo por linha).
- Conferir: (1) tempos, (2) quantidades boas/refugo, (3) paradas, (4) consumo de itens críticos, (5) lotes.
- Comparar com evidências: etiquetas, apontamentos de qualidade, registros de manutenção, contagem rápida de WIP/estoque do ponto.
- Classificar achados: erro de registro (digitado errado), erro de processo (consumiu sem requisitar), cadastro/regra (unidade de medida, fator de conversão, lista de motivos inadequada).
- Registrar correção e causa para evitar repetição (ajuste de regra, treinamento, mudança de formulário/tela).
Exemplo prático: corrigindo divergências entre produzido, consumido e estoque
Cenário: uma ordem produziu 100 peças boas de um item A. O consumo do material M (matéria-prima) deveria ser 2,0 kg por peça (esperado: 200 kg). Ao fechar a ordem, aparecem os seguintes dados:
- Produzido (bom): 100 peças
- Refugo: 0
- Consumo apontado de M: 230 kg
- Estoque do M no sistema ficou 30 kg menor do que o físico (na contagem rápida)
Passo a passo para investigar e corrigir
1) Verifique se a unidade de medida e conversões estão coerentes
Checar se o consumo foi apontado em kg, g ou outra unidade. Um erro comum é apontar “230” quando o correto era “230.0” em outra unidade, ou registrar em unidade diferente da esperada.
2) Confirme o lote e o local de consumo
Verificar se o consumo foi lançado no lote correto e no local correto. Consumo no local errado pode “sumir” de um estoque e “sobrar” em outro.
3) Compare consumo com evidências físicas do processo
- Quantos fardos/bobinas/sacos foram abertos?
- Houve sobra retornada ao estoque e não registrada?
- Houve descarte/perda (queda, contaminação) não apontada como refugo de material?
4) Cheque se houve apontamento duplicado ou lançamento em ordem errada
Exemplo: o abastecedor lançou 230 kg em duas ordens por engano, ou lançou na ordem anterior.
5) Aplique correções com rastreabilidade (sem “ajuste cego”)
Suponha que a investigação encontrou:
- Foram separados 230 kg, mas 30 kg sobraram e voltaram ao estoque físico sem registro.
Correção recomendada:
- Manter o consumo de 230 kg como “saída para produção” (se esse for o evento real de separação).
- Registrar retorno de 30 kg ao estoque (movimento de devolução), com o mesmo lote, data e responsável.
- Se o processo exigir consumo “líquido” na ordem, então ajustar o apontamento de consumo para 200 kg e registrar a sobra como retorno/ajuste conforme regra interna — mas sempre com motivo e evidência.
6) Atualize a causa raiz para evitar repetição
- Se a causa foi “retorno sem registro”: criar regra de apontamento obrigatório de devolução ao final da ordem/turno.
- Se a causa foi “apontamento em ordem errada”: reforçar validação (ex.: leitura de etiqueta da ordem/material).
- Se a causa foi “perda de material”: criar motivo específico e rotina de registro (perda/derramamento/contaminação).
Boas práticas para manter o apontamento útil (e não burocrático)
- Menos campos, mais disciplina: registre o essencial com alta qualidade, em vez de muitos campos incompletos.
- Regra única por processo: quando apontar consumo (na separação ou no consumo) e como tratar sobras.
- Motivos padronizados: sem isso, paradas e refugos viram texto livre e não geram ação.
- Correção com trilha: toda alteração deve ter responsável, data e motivo (para não “maquiar” indicador).
- Feedback rápido: mostrar no dia a dia como os apontamentos viram decisões (prioridade, falta de material, ataque a paradas) aumenta adesão.