Aplicações do PCP em diferentes tipos de fábrica: repetitiva, por batelada, processos contínuos e sob encomenda

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Como o ambiente de fábrica muda o PCP

O PCP precisa “encaixar” a lógica de planejamento e programação no tipo de fluxo produtivo. Em vez de aplicar a mesma rotina para qualquer operação, o PCP ajusta: (1) como transforma demanda em ordens, (2) como protege capacidade e materiais, (3) como sequencia para reduzir perdas e (4) como mede desempenho. A seguir, compare quatro ambientes comuns: produção repetitiva (linha), produção por batelada, processos contínuos e job shop sob encomenda.

Produção repetitiva (linha): alto volume, baixa variedade

Onde esse ambiente aparece

Montagem seriada com fluxo previsível e operações encadeadas (ex.: montagem eletroeletrônica, linha de eletrodomésticos, autopeças seriadas).

Principais dores

  • Falta de componentes interrompendo a linha (paradas curtas e frequentes).
  • Desbalanceamento entre postos (um posto “segura” a linha).
  • Trocas de modelo gerando microparadas e perdas de ritmo.
  • Qualidade em linha (retrabalho e refugo impactam diretamente a cadência).

Dados críticos

  • Takt/cadência desejada por turno e mix por modelo.
  • Consumo por unidade (BOM efetiva) e pontos de uso (line-side).
  • Tempo de reposição interno (abastecimento de linha, supermercados, kitting).
  • Taxa de refugo/retrabalho por item e por posto.
  • Disponibilidade de linha (paradas planejadas e não planejadas).

Lógica de programação (como o PCP costuma operar)

  • Programação por ritmo: definir uma sequência de modelos que mantenha a cadência e respeite restrições de componentes.
  • Nivelamento do mix: distribuir modelos ao longo do turno para reduzir picos de consumo de componentes críticos.
  • Congelamento curto: travar a sequência de curto prazo para dar estabilidade ao abastecimento e à produção.
  • Gestão por exceção: reprogramar principalmente quando houver falta de material, quebra ou qualidade.

Indicadores mais relevantes (além dos básicos já tratados)

  • Paradas por falta de material (minutos/turno, ocorrências/dia).
  • Aderência à sequência (quantas trocas fora do planejado).
  • Balance loss (perda por desbalanceamento entre postos).
  • Fill rate do abastecimento de linha (kits completos/total, entregas no tempo).

Miniestudo de caso: montagem eletroeletrônica (faltas de componentes)

Cenário: uma linha monta 1.200 unidades/dia de dois modelos (A e B). O modelo A consome um CI importado com lead time longo e alta variabilidade. Quando o CI atrasa, a linha para ou troca para o modelo B, gerando atrasos no A.

Como o PCP ajusta a rotina:

  • Passo 1 — Identificar componentes “travadores”: listar itens que, se faltarem, param a linha (ex.: CI, display, fonte).
  • Passo 2 — Definir regra de sequência por restrição: programar primeiro os modelos com material garantido e limitar a produção do modelo A ao estoque disponível do CI (com margem para refugo).
  • Passo 3 — Nivelar consumo: em vez de produzir 600 A seguidos, alternar lotes menores (ex.: A-A-B-A-B) para reduzir pico de consumo e permitir reação a faltas.
  • Passo 4 — Criar “gatilhos” de reprogramação: se o estoque do CI cair abaixo de X horas de linha, travar novas liberações do modelo A e comunicar Compras/Almoxarifado para priorização.

Exemplo prático de decisão: estoque do CI = 900 peças, refugo esperado 2%. Produção segura do modelo A no dia = 900 / 1,02 ≈ 882 unidades. O PCP programa 880 A e completa o restante com B, evitando parada e reduzindo replanejamento no meio do turno.

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Produção por batelada: múltiplos produtos, setups e campanhas

Onde esse ambiente aparece

Fábricas com variedade moderada/alta e necessidade de agrupar produção em lotes por eficiência (ex.: injeção plástica, usinagem seriada, alimentos com campanhas, cosméticos).

Principais dores

  • Setups longos (troca de molde, troca de cor, limpeza, ajustes).
  • Conflito entre eficiência e atendimento: lotes grandes reduzem setup, mas aumentam espera e estoque.
  • Capacidade “consumida” por setup e não apenas por tempo de produção.
  • Qualidade na partida (peças de ajuste, perdas iniciais).

Dados críticos

  • Tempo de setup por família (e matriz de troca: de X para Y).
  • Tamanho mínimo/máximo de lote por restrição técnica (ex.: estabilidade do processo, validade, embalagem).
  • Taxa de produção por produto em cada recurso.
  • Perdas de partida (scrap de setup, purga, primeira peça aprovada).
  • Disponibilidade de ferramentas (moldes, matrizes, dispositivos).

Lógica de programação

  • Agrupamento por famílias: sequenciar itens semelhantes para reduzir tempo de troca.
  • Campanhas: produzir um conjunto de itens em janela definida (por cor, material, alergênicos, ou por molde).
  • Programação com “tempo total”: considerar tempo_total = setup + (quantidade × tempo_unitário) para comparar alternativas.
  • Janela de congelamento por recurso: travar o que já foi preparado (molde montado, máquina ajustada) para evitar retrabalho de setup.

Indicadores mais relevantes

  • % de tempo em setup por máquina/turno.
  • Número de trocas por período (e trocas não planejadas).
  • Perda de partida (kg de purga, peças refugadas no início).
  • Utilização de ferramenta crítica (moldes gargalo).

Miniestudo de caso: injeção plástica (setup e moldes)

Cenário: uma injetora produz tampas (T1), potes (P1) e frascos (F1). Trocar de molde leva 2h; produzir 1.000 peças leva 1h. Há 3 moldes, mas apenas 1 equipe de troca por turno.

Passo a passo prático de programação por batelada:

  • Passo 1 — Mapear tempos: setup = 2h por troca; produção = 1h/1.000 peças para todos os itens.
  • Passo 2 — Calcular custo de troca em capacidade: cada troca “custa” o equivalente a 2.000 peças de produção (2h).
  • Passo 3 — Definir lote econômico operacional: se o pedido é 1.000 peças, produzir exatamente 1.000 pode ser caro em setup; avaliar agrupar pedidos do mesmo item/família para reduzir trocas.
  • Passo 4 — Sequenciar para minimizar trocas: manter o mesmo molde o máximo possível dentro do horizonte curto, respeitando prazos.
  • Passo 5 — Verificar restrição de equipe: mesmo que máquinas estejam livres, a equipe de troca limita quantas mudanças cabem no turno.

Exemplo: em um turno de 8h, se fizer 3 trocas, consome 6h só em setup, sobrando 2h para produzir 2.000 peças. Se reduzir para 1 troca, consome 2h de setup e produz 6.000 peças. O PCP tende a agrupar por molde e negociar prazos/mix para reduzir o número de trocas.

Processos contínuos: alta estabilidade, paradas caras e restrições sanitárias/técnicas

Onde esse ambiente aparece

Produção em fluxo contínuo ou quase contínuo, com equipamentos que operam 24/7 e paradas custosas (ex.: alimentos e bebidas, químicos, papel e celulose, refino, tratamento).

Principais dores

  • Paradas e partidas com alto custo (perda de rendimento, descarte, energia).
  • Limpeza e sanitização obrigatórias (CIP/SIP), com janelas rígidas.
  • Contaminação cruzada (alergênicos, aromas, cores) exigindo sequência específica.
  • Validade e rastreabilidade por lote (especialmente em alimentos).

Dados críticos

  • Taxa de produção (t/h, L/h) e rendimento por produto.
  • Tempo e frequência de limpeza (por produto, por campanha, por horas de operação).
  • Restrições de sequência (ex.: claro → escuro, sem alergênico → com alergênico).
  • Capacidade de tanques/silos e tempos de transferência.
  • Validade: vida útil, tempo máximo em processo/armazenagem intermediária.

Lógica de programação

  • Campanhas longas: manter o processo rodando em um produto/família para reduzir paradas.
  • Sequenciamento por restrição sanitária: ordenar produtos para minimizar limpezas completas.
  • Planejamento por janelas: encaixar CIP/manutenção como “ordens” obrigatórias na programação.
  • Controle por taxa: ajustar velocidade do processo para atender volumes sem gerar excesso próximo da validade.

Indicadores mais relevantes

  • Horas entre limpezas (aderência ao padrão e desvios).
  • Perda por troca/limpeza (kg/L descartados, tempo parado).
  • Rendimento (yield) por campanha.
  • Vencimento/obsolescência (produto acabado e intermediários).

Miniestudo de caso: fábrica de alimentos (campanhas e validade)

Cenário: uma linha contínua produz molho em três versões: Tradicional (T), Picante (P) e Sem Glúten (SG). A troca para SG exige limpeza completa de 6h; entre T e P, limpeza reduzida de 2h. Validade do produto acabado: 60 dias. A demanda de SG é menor, mas não pode faltar.

Passo a passo prático para montar campanhas:

  • Passo 1 — Classificar por restrição: SG é “classe especial” (limpeza completa). T e P são “classe comum”.
  • Passo 2 — Definir sequência sanitária: produzir T e P em campanha semanal e reservar uma janela fixa para SG (ex.: toda terça à noite), reduzindo risco de contaminação e facilitando rotina.
  • Passo 3 — Dimensionar campanha pelo consumo e validade: produzir SG para cobrir o consumo até a próxima janela + segurança, evitando excesso que vença.
  • Passo 4 — Inserir limpezas como restrição de capacidade: bloquear 6h para limpeza completa antes de SG e 2h nas trocas T↔P quando necessário.

Exemplo numérico simples: consumo semanal de SG = 5.000 unidades. Se a janela de SG é semanal, a campanha pode ser 6.000 unidades (5.000 + margem), garantindo disponibilidade sem empurrar estoque além do necessário para 60 dias de validade. O PCP prioriza estabilidade e conformidade sanitária, mesmo que a eficiência de curto prazo pareça menor.

Job shop sob encomenda: roteiros variáveis e prazos desafiadores

Onde esse ambiente aparece

Produção sob encomenda, alta variedade, volumes baixos, roteiros diferentes por pedido e recursos compartilhados (ex.: metalúrgica sob encomenda, ferramentaria, caldeiraria, manutenção industrial, usinagem sob desenho).

Principais dores

  • Roteiros variáveis (cada pedido “anda” diferente pela fábrica).
  • Fila e espera em recursos críticos (gargalos mudam conforme mix).
  • Estimativas de tempo com alta incerteza (engenharia, ajustes, retrabalho).
  • Prioridades conflitantes (muitos pedidos urgentes ao mesmo tempo).

Dados críticos

  • Roteiro por pedido (operações e recursos necessários) e tempos estimados.
  • Datas prometidas e marcos intermediários (ex.: corte, usinagem, solda, pintura, inspeção).
  • Capacidade real por centro de trabalho (turnos, habilidades, restrições de ferramental).
  • Status detalhado por operação (em fila, em processo, aguardando inspeção, aguardando material).

Lógica de programação

  • Programação orientada a datas: priorizar por prazo e risco (pedidos com maior probabilidade de atrasar).
  • Foco no recurso crítico: construir a sequência a partir do centro mais disputado e “puxar” as operações anteriores.
  • Liberação controlada: evitar soltar tudo ao mesmo tempo para não inflar filas e perder visibilidade.
  • Replanejamento frequente: pequenas mudanças diárias conforme avanço real e imprevistos.

Indicadores mais relevantes

  • Backlog por centro (horas em fila) e envelhecimento das ordens.
  • Pedidos em risco (faltando X dias e ainda não passou pelo recurso crítico).
  • Retrabalho por tipo de operação (solda, usinagem, inspeção).
  • Tempo em fila vs. tempo em processo (para atacar esperas).

Miniestudo de caso: metalúrgica sob encomenda (gargalos e prazos)

Cenário: uma metalúrgica fabrica suportes e estruturas sob desenho. Quase todos os pedidos passam por usinagem CNC (recurso crítico) e depois por solda e pintura. Entram 20 pedidos por semana, cada um com roteiro e tempo diferente. O CNC vira gargalo e os prazos “estouram” mesmo quando outras áreas estão ociosas.

Passo a passo prático para programar pelo gargalo:

  • Passo 1 — Listar pedidos com prazo e tempo no CNC: exemplo: Pedido 101 (prazo 10 dias, CNC 6h), 102 (prazo 7 dias, CNC 4h), 103 (prazo 5 dias, CNC 8h).
  • Passo 2 — Montar a fila do CNC por risco: ordenar por prazo e carga (ex.: priorizar 103 primeiro por prazo mais curto, mas checar se há material e desenho liberado).
  • Passo 3 — “Puxar” operações anteriores: garantir que corte e preparação alimentem o CNC na data certa (sem liberar tudo de uma vez).
  • Passo 4 — Travar janelas de execução: reservar blocos de horas no CNC para cada pedido e comunicar as áreas seguintes (solda/pintura) com antecedência.
  • Passo 5 — Tratar exceções: se um pedido atrasar no CNC, recalcular impacto nos demais e renegociar prioridades com Comercial/Engenharia.

Exemplo prático de decisão: se o CNC tem 40h disponíveis na semana e a soma dos pedidos urgentes dá 52h, o PCP precisa escolher: (a) negociar prazo, (b) terceirizar parte, (c) abrir hora extra, ou (d) dividir operações (quando tecnicamente possível). A programação deixa de ser “ordem de chegada” e passa a ser “ordem de risco e capacidade”.

Comparativo rápido: o que muda no PCP em cada tipo

Tipo de fábricaDor dominanteDado que mais “manda”Lógica de programaçãoIndicadores que mais ajudam
Repetitiva (linha)Parada por falta de material e ritmoCadência + disponibilidade de componentesSequência nivelada e estávelParadas por material, aderência à sequência
BateladaSetups e trocasTempo de setup e disponibilidade de ferramentaAgrupar por família/campanha% setup, nº de trocas, perdas de partida
ContínuaParadas/limpeza e restrições sanitáriasJanelas de CIP + sequência permitidaCampanhas longas com janelas fixasPerdas por troca/limpeza, yield, vencimento
Job shop (sob encomenda)Filas no recurso crítico e variabilidadeRoteiro por pedido + carga por centroPriorizar por risco e programar pelo gargaloBacklog por centro, pedidos em risco, fila vs processo

Checklist prático para adaptar o PCP ao seu ambiente

1) Identifique a “unidade de programação”

  • Linha repetitiva: sequência de modelos por turno.
  • Batelada: campanha/lote por família.
  • Contínuo: janela de produção entre limpezas/paradas.
  • Job shop: operação por centro de trabalho (com foco no recurso crítico).

2) Defina o que não pode falhar (restrição nº 1)

  • Linha: componente travador e abastecimento.
  • Batelada: setup e ferramenta (molde/matriz).
  • Contínuo: limpeza obrigatória e sequência sanitária.
  • Job shop: capacidade do centro crítico e liberação de engenharia/material.

3) Monte regras simples de decisão para o dia a dia

  • Se faltar componente crítico, trocar para modelo alternativo já validado (linha) ou reordenar campanha (batelada), desde que não viole validade/limpeza (contínuo).
  • Se o setup for dominante, reduzir número de trocas e aumentar lote dentro de limites (batelada).
  • Se a limpeza for dominante, fixar janelas e respeitar sequência (contínuo).
  • Se a fila do gargalo crescer, reduzir liberações e priorizar pedidos em risco (job shop).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em qual situação o PCP tende a priorizar a programação pelo recurso crítico, com liberação controlada e replanejamento frequente para reduzir filas e atrasos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No job shop sob encomenda, cada pedido pode ter um roteiro diferente e os gargalos mudam conforme o mix. Por isso, o PCP costuma programar a partir do recurso crítico, controlar liberações para não inflar filas e replanejar com frequência conforme o avanço real.

Próximo capitúlo

Boas práticas essenciais do PCP para iniciantes: padronização, comunicação e disciplina do plano

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