Como o ambiente de fábrica muda o PCP
O PCP precisa “encaixar” a lógica de planejamento e programação no tipo de fluxo produtivo. Em vez de aplicar a mesma rotina para qualquer operação, o PCP ajusta: (1) como transforma demanda em ordens, (2) como protege capacidade e materiais, (3) como sequencia para reduzir perdas e (4) como mede desempenho. A seguir, compare quatro ambientes comuns: produção repetitiva (linha), produção por batelada, processos contínuos e job shop sob encomenda.
Produção repetitiva (linha): alto volume, baixa variedade
Onde esse ambiente aparece
Montagem seriada com fluxo previsível e operações encadeadas (ex.: montagem eletroeletrônica, linha de eletrodomésticos, autopeças seriadas).
Principais dores
- Falta de componentes interrompendo a linha (paradas curtas e frequentes).
- Desbalanceamento entre postos (um posto “segura” a linha).
- Trocas de modelo gerando microparadas e perdas de ritmo.
- Qualidade em linha (retrabalho e refugo impactam diretamente a cadência).
Dados críticos
- Takt/cadência desejada por turno e mix por modelo.
- Consumo por unidade (BOM efetiva) e pontos de uso (line-side).
- Tempo de reposição interno (abastecimento de linha, supermercados, kitting).
- Taxa de refugo/retrabalho por item e por posto.
- Disponibilidade de linha (paradas planejadas e não planejadas).
Lógica de programação (como o PCP costuma operar)
- Programação por ritmo: definir uma sequência de modelos que mantenha a cadência e respeite restrições de componentes.
- Nivelamento do mix: distribuir modelos ao longo do turno para reduzir picos de consumo de componentes críticos.
- Congelamento curto: travar a sequência de curto prazo para dar estabilidade ao abastecimento e à produção.
- Gestão por exceção: reprogramar principalmente quando houver falta de material, quebra ou qualidade.
Indicadores mais relevantes (além dos básicos já tratados)
- Paradas por falta de material (minutos/turno, ocorrências/dia).
- Aderência à sequência (quantas trocas fora do planejado).
- Balance loss (perda por desbalanceamento entre postos).
- Fill rate do abastecimento de linha (kits completos/total, entregas no tempo).
Miniestudo de caso: montagem eletroeletrônica (faltas de componentes)
Cenário: uma linha monta 1.200 unidades/dia de dois modelos (A e B). O modelo A consome um CI importado com lead time longo e alta variabilidade. Quando o CI atrasa, a linha para ou troca para o modelo B, gerando atrasos no A.
Como o PCP ajusta a rotina:
- Passo 1 — Identificar componentes “travadores”: listar itens que, se faltarem, param a linha (ex.: CI, display, fonte).
- Passo 2 — Definir regra de sequência por restrição: programar primeiro os modelos com material garantido e limitar a produção do modelo A ao estoque disponível do CI (com margem para refugo).
- Passo 3 — Nivelar consumo: em vez de produzir 600 A seguidos, alternar lotes menores (ex.: A-A-B-A-B) para reduzir pico de consumo e permitir reação a faltas.
- Passo 4 — Criar “gatilhos” de reprogramação: se o estoque do CI cair abaixo de X horas de linha, travar novas liberações do modelo A e comunicar Compras/Almoxarifado para priorização.
Exemplo prático de decisão: estoque do CI = 900 peças, refugo esperado 2%. Produção segura do modelo A no dia = 900 / 1,02 ≈ 882 unidades. O PCP programa 880 A e completa o restante com B, evitando parada e reduzindo replanejamento no meio do turno.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Produção por batelada: múltiplos produtos, setups e campanhas
Onde esse ambiente aparece
Fábricas com variedade moderada/alta e necessidade de agrupar produção em lotes por eficiência (ex.: injeção plástica, usinagem seriada, alimentos com campanhas, cosméticos).
Principais dores
- Setups longos (troca de molde, troca de cor, limpeza, ajustes).
- Conflito entre eficiência e atendimento: lotes grandes reduzem setup, mas aumentam espera e estoque.
- Capacidade “consumida” por setup e não apenas por tempo de produção.
- Qualidade na partida (peças de ajuste, perdas iniciais).
Dados críticos
- Tempo de setup por família (e matriz de troca: de X para Y).
- Tamanho mínimo/máximo de lote por restrição técnica (ex.: estabilidade do processo, validade, embalagem).
- Taxa de produção por produto em cada recurso.
- Perdas de partida (scrap de setup, purga, primeira peça aprovada).
- Disponibilidade de ferramentas (moldes, matrizes, dispositivos).
Lógica de programação
- Agrupamento por famílias: sequenciar itens semelhantes para reduzir tempo de troca.
- Campanhas: produzir um conjunto de itens em janela definida (por cor, material, alergênicos, ou por molde).
- Programação com “tempo total”: considerar
tempo_total = setup + (quantidade × tempo_unitário)para comparar alternativas. - Janela de congelamento por recurso: travar o que já foi preparado (molde montado, máquina ajustada) para evitar retrabalho de setup.
Indicadores mais relevantes
- % de tempo em setup por máquina/turno.
- Número de trocas por período (e trocas não planejadas).
- Perda de partida (kg de purga, peças refugadas no início).
- Utilização de ferramenta crítica (moldes gargalo).
Miniestudo de caso: injeção plástica (setup e moldes)
Cenário: uma injetora produz tampas (T1), potes (P1) e frascos (F1). Trocar de molde leva 2h; produzir 1.000 peças leva 1h. Há 3 moldes, mas apenas 1 equipe de troca por turno.
Passo a passo prático de programação por batelada:
- Passo 1 — Mapear tempos: setup = 2h por troca; produção = 1h/1.000 peças para todos os itens.
- Passo 2 — Calcular custo de troca em capacidade: cada troca “custa” o equivalente a
2.000 peçasde produção (2h). - Passo 3 — Definir lote econômico operacional: se o pedido é 1.000 peças, produzir exatamente 1.000 pode ser caro em setup; avaliar agrupar pedidos do mesmo item/família para reduzir trocas.
- Passo 4 — Sequenciar para minimizar trocas: manter o mesmo molde o máximo possível dentro do horizonte curto, respeitando prazos.
- Passo 5 — Verificar restrição de equipe: mesmo que máquinas estejam livres, a equipe de troca limita quantas mudanças cabem no turno.
Exemplo: em um turno de 8h, se fizer 3 trocas, consome 6h só em setup, sobrando 2h para produzir 2.000 peças. Se reduzir para 1 troca, consome 2h de setup e produz 6.000 peças. O PCP tende a agrupar por molde e negociar prazos/mix para reduzir o número de trocas.
Processos contínuos: alta estabilidade, paradas caras e restrições sanitárias/técnicas
Onde esse ambiente aparece
Produção em fluxo contínuo ou quase contínuo, com equipamentos que operam 24/7 e paradas custosas (ex.: alimentos e bebidas, químicos, papel e celulose, refino, tratamento).
Principais dores
- Paradas e partidas com alto custo (perda de rendimento, descarte, energia).
- Limpeza e sanitização obrigatórias (CIP/SIP), com janelas rígidas.
- Contaminação cruzada (alergênicos, aromas, cores) exigindo sequência específica.
- Validade e rastreabilidade por lote (especialmente em alimentos).
Dados críticos
- Taxa de produção (t/h, L/h) e rendimento por produto.
- Tempo e frequência de limpeza (por produto, por campanha, por horas de operação).
- Restrições de sequência (ex.: claro → escuro, sem alergênico → com alergênico).
- Capacidade de tanques/silos e tempos de transferência.
- Validade: vida útil, tempo máximo em processo/armazenagem intermediária.
Lógica de programação
- Campanhas longas: manter o processo rodando em um produto/família para reduzir paradas.
- Sequenciamento por restrição sanitária: ordenar produtos para minimizar limpezas completas.
- Planejamento por janelas: encaixar CIP/manutenção como “ordens” obrigatórias na programação.
- Controle por taxa: ajustar velocidade do processo para atender volumes sem gerar excesso próximo da validade.
Indicadores mais relevantes
- Horas entre limpezas (aderência ao padrão e desvios).
- Perda por troca/limpeza (kg/L descartados, tempo parado).
- Rendimento (yield) por campanha.
- Vencimento/obsolescência (produto acabado e intermediários).
Miniestudo de caso: fábrica de alimentos (campanhas e validade)
Cenário: uma linha contínua produz molho em três versões: Tradicional (T), Picante (P) e Sem Glúten (SG). A troca para SG exige limpeza completa de 6h; entre T e P, limpeza reduzida de 2h. Validade do produto acabado: 60 dias. A demanda de SG é menor, mas não pode faltar.
Passo a passo prático para montar campanhas:
- Passo 1 — Classificar por restrição: SG é “classe especial” (limpeza completa). T e P são “classe comum”.
- Passo 2 — Definir sequência sanitária: produzir T e P em campanha semanal e reservar uma janela fixa para SG (ex.: toda terça à noite), reduzindo risco de contaminação e facilitando rotina.
- Passo 3 — Dimensionar campanha pelo consumo e validade: produzir SG para cobrir o consumo até a próxima janela + segurança, evitando excesso que vença.
- Passo 4 — Inserir limpezas como restrição de capacidade: bloquear 6h para limpeza completa antes de SG e 2h nas trocas T↔P quando necessário.
Exemplo numérico simples: consumo semanal de SG = 5.000 unidades. Se a janela de SG é semanal, a campanha pode ser 6.000 unidades (5.000 + margem), garantindo disponibilidade sem empurrar estoque além do necessário para 60 dias de validade. O PCP prioriza estabilidade e conformidade sanitária, mesmo que a eficiência de curto prazo pareça menor.
Job shop sob encomenda: roteiros variáveis e prazos desafiadores
Onde esse ambiente aparece
Produção sob encomenda, alta variedade, volumes baixos, roteiros diferentes por pedido e recursos compartilhados (ex.: metalúrgica sob encomenda, ferramentaria, caldeiraria, manutenção industrial, usinagem sob desenho).
Principais dores
- Roteiros variáveis (cada pedido “anda” diferente pela fábrica).
- Fila e espera em recursos críticos (gargalos mudam conforme mix).
- Estimativas de tempo com alta incerteza (engenharia, ajustes, retrabalho).
- Prioridades conflitantes (muitos pedidos urgentes ao mesmo tempo).
Dados críticos
- Roteiro por pedido (operações e recursos necessários) e tempos estimados.
- Datas prometidas e marcos intermediários (ex.: corte, usinagem, solda, pintura, inspeção).
- Capacidade real por centro de trabalho (turnos, habilidades, restrições de ferramental).
- Status detalhado por operação (em fila, em processo, aguardando inspeção, aguardando material).
Lógica de programação
- Programação orientada a datas: priorizar por prazo e risco (pedidos com maior probabilidade de atrasar).
- Foco no recurso crítico: construir a sequência a partir do centro mais disputado e “puxar” as operações anteriores.
- Liberação controlada: evitar soltar tudo ao mesmo tempo para não inflar filas e perder visibilidade.
- Replanejamento frequente: pequenas mudanças diárias conforme avanço real e imprevistos.
Indicadores mais relevantes
- Backlog por centro (horas em fila) e envelhecimento das ordens.
- Pedidos em risco (faltando X dias e ainda não passou pelo recurso crítico).
- Retrabalho por tipo de operação (solda, usinagem, inspeção).
- Tempo em fila vs. tempo em processo (para atacar esperas).
Miniestudo de caso: metalúrgica sob encomenda (gargalos e prazos)
Cenário: uma metalúrgica fabrica suportes e estruturas sob desenho. Quase todos os pedidos passam por usinagem CNC (recurso crítico) e depois por solda e pintura. Entram 20 pedidos por semana, cada um com roteiro e tempo diferente. O CNC vira gargalo e os prazos “estouram” mesmo quando outras áreas estão ociosas.
Passo a passo prático para programar pelo gargalo:
- Passo 1 — Listar pedidos com prazo e tempo no CNC: exemplo: Pedido 101 (prazo 10 dias, CNC 6h), 102 (prazo 7 dias, CNC 4h), 103 (prazo 5 dias, CNC 8h).
- Passo 2 — Montar a fila do CNC por risco: ordenar por prazo e carga (ex.: priorizar 103 primeiro por prazo mais curto, mas checar se há material e desenho liberado).
- Passo 3 — “Puxar” operações anteriores: garantir que corte e preparação alimentem o CNC na data certa (sem liberar tudo de uma vez).
- Passo 4 — Travar janelas de execução: reservar blocos de horas no CNC para cada pedido e comunicar as áreas seguintes (solda/pintura) com antecedência.
- Passo 5 — Tratar exceções: se um pedido atrasar no CNC, recalcular impacto nos demais e renegociar prioridades com Comercial/Engenharia.
Exemplo prático de decisão: se o CNC tem 40h disponíveis na semana e a soma dos pedidos urgentes dá 52h, o PCP precisa escolher: (a) negociar prazo, (b) terceirizar parte, (c) abrir hora extra, ou (d) dividir operações (quando tecnicamente possível). A programação deixa de ser “ordem de chegada” e passa a ser “ordem de risco e capacidade”.
Comparativo rápido: o que muda no PCP em cada tipo
| Tipo de fábrica | Dor dominante | Dado que mais “manda” | Lógica de programação | Indicadores que mais ajudam |
|---|---|---|---|---|
| Repetitiva (linha) | Parada por falta de material e ritmo | Cadência + disponibilidade de componentes | Sequência nivelada e estável | Paradas por material, aderência à sequência |
| Batelada | Setups e trocas | Tempo de setup e disponibilidade de ferramenta | Agrupar por família/campanha | % setup, nº de trocas, perdas de partida |
| Contínua | Paradas/limpeza e restrições sanitárias | Janelas de CIP + sequência permitida | Campanhas longas com janelas fixas | Perdas por troca/limpeza, yield, vencimento |
| Job shop (sob encomenda) | Filas no recurso crítico e variabilidade | Roteiro por pedido + carga por centro | Priorizar por risco e programar pelo gargalo | Backlog por centro, pedidos em risco, fila vs processo |
Checklist prático para adaptar o PCP ao seu ambiente
1) Identifique a “unidade de programação”
- Linha repetitiva: sequência de modelos por turno.
- Batelada: campanha/lote por família.
- Contínuo: janela de produção entre limpezas/paradas.
- Job shop: operação por centro de trabalho (com foco no recurso crítico).
2) Defina o que não pode falhar (restrição nº 1)
- Linha: componente travador e abastecimento.
- Batelada: setup e ferramenta (molde/matriz).
- Contínuo: limpeza obrigatória e sequência sanitária.
- Job shop: capacidade do centro crítico e liberação de engenharia/material.
3) Monte regras simples de decisão para o dia a dia
- Se faltar componente crítico, trocar para modelo alternativo já validado (linha) ou reordenar campanha (batelada), desde que não viole validade/limpeza (contínuo).
- Se o setup for dominante, reduzir número de trocas e aumentar lote dentro de limites (batelada).
- Se a limpeza for dominante, fixar janelas e respeitar sequência (contínuo).
- Se a fila do gargalo crescer, reduzir liberações e priorizar pedidos em risco (job shop).