O que são “boas práticas” no PCP (e por que elas aumentam a previsibilidade)
Boas práticas essenciais do PCP são rotinas e regras simples que reduzem variação, evitam retrabalho e diminuem “surpresas” no dia a dia. Para iniciantes, o foco não é sofisticar ferramentas, e sim criar um sistema operacional estável: dados confiáveis, prioridades claras, poucas mudanças de última hora, comunicação curta e frequente, e revisão periódica dos parâmetros que sustentam o plano.
Na prática, previsibilidade aumenta quando a fábrica passa a operar com: (1) cadastros e parâmetros confiáveis, (2) regras explícitas de prioridade, (3) um “congelamento” de curto prazo, (4) controle de mudanças, (5) comunicação diária entre PCP, produção e suprimentos, e (6) revisão periódica de tempos, lotes e estoques.
1) Cadastros confiáveis: o “chão” onde o plano pisa
Mesmo sem repetir conceitos de dados básicos, aqui o ponto é a disciplina: definir quem é dono de cada dado, como validar e com que frequência revisar. Cadastros “quase certos” geram planos “quase executáveis”, que viram urgências e mudanças constantes.
Boas práticas de governança de dados (simples e aplicáveis)
- Defina donos: cada campo crítico tem um responsável (ex.: tempos padrão = engenharia/processos; lote mínimo = PCP/industrial; estoque de segurança = PCP/suprimentos).
- Crie uma lista de “dados críticos”: poucos itens, mas obrigatórios (ex.: tempo padrão, rendimento, lote, política de abastecimento, lead time de compra, estoque de segurança, localização).
- Validação por amostragem: toda semana, revisar uma amostra pequena (ex.: 10 itens) e corrigir o que estiver fora.
- Regra de mudança: qualquer alteração em dado crítico precisa de registro (o que mudou, por quê, desde quando vale).
Passo a passo: como iniciar a confiabilidade em 7 dias
- Liste os 30 itens mais relevantes (por volume, faturamento, criticidade ou reclamações).
- Escolha 5 campos críticos para validar primeiro (ex.: tempo padrão, lote, estoque de segurança, lead time de compra, rendimento).
- Compare cadastro vs. realidade usando apontamentos e observação rápida no processo.
- Corrija o que for evidente e registre a mudança (modelo de registro mais abaixo).
- Crie uma rotina semanal de validação de 10 itens (30–45 min).
2) Regras claras de prioridade: menos discussão, mais execução
Prioridade precisa ser uma regra, não um debate. Quando cada área “puxa” para um lado, o sequenciamento vira disputa e o plano perde credibilidade. A boa prática é ter uma regra padrão e exceções raras, formalizadas.
Exemplo de política simples de prioridade (modelo)
- Regra padrão: atender na ordem de data prometida ao cliente (ou data de necessidade interna), respeitando restrições técnicas (setup, família, validade).
- Exceções permitidas (máximo 1–2): (a) risco de parada por falta de material crítico, (b) item de segurança/qualidade, (c) pedido estratégico aprovado.
- Quem decide exceção: uma pessoa (ou dupla) definida, com registro obrigatório.
- Janela de decisão: exceções só podem ser solicitadas até um horário limite (ex.: 15h do dia anterior).
Passo a passo: implantando prioridade em 1 semana
- Escreva a regra padrão em uma frase e valide com produção e suprimentos.
- Defina as exceções (poucas) e o aprovador.
- Crie um canal único para pedidos de mudança (e-mail, formulário, planilha compartilhada).
- Comece a registrar toda exceção por 5 dias úteis.
- Revise o volume de exceções: se tudo vira exceção, a regra não está clara ou o plano está sendo alimentado por dados ruins.
3) Congelamento de curto prazo: proteger o que já está “em movimento”
Congelamento (freeze) é uma janela curta em que o plano não muda, exceto por emergências definidas. Isso reduz reprogramações, evita troca de prioridade a cada hora e melhora produtividade (menos setups e interrupções).
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Como definir um congelamento prático
- Duração: comece pequeno (ex.: 24 a 72 horas), conforme o tipo de operação.
- O que fica congelado: sequência do dia/turno, ordens já liberadas e materiais já separados.
- O que pode mudar: apenas emergências com critério e aprovação (ligado ao registro de mudanças).
- Como comunicar: um quadro/relatório diário com “Plano Congelado D+0/D+1”.
Passo a passo: congelamento em 3 passos
- Escolha a janela (ex.: hoje e amanhã).
- Defina critérios de quebra (ex.: risco de parada, segurança, qualidade, cliente crítico).
- Implemente com disciplina: se quebrar o congelamento, registrar motivo e impacto (setup extra, atraso gerado, horas perdidas).
4) Controle de mudanças: mudar menos e, quando mudar, mudar direito
Controle de mudanças não é burocracia; é rastreabilidade e aprendizado. Sem registro, a empresa não sabe por que o plano falhou: foi falta de material, mudança comercial, quebra de máquina, tempo padrão errado, ou decisão de prioridade?
Regras simples de controle de mudanças
- Uma porta de entrada: toda solicitação de mudança passa por um único canal.
- Classificação: tipo (prioridade, quantidade, data, item, rota), motivo e urgência.
- Aprovação: quem aprova depende do tipo (ex.: prioridade = PCP + produção; data prometida = comercial + PCP).
- Registro obrigatório: sem registro, não muda.
Template (texto) — Registro de Mudanças de Prioridade
REGISTRO DE MUDANÇA DE PRIORIDADE (RMP) | ID: RMP-____ | Data/Hora: __/__/__ __:__ | Solicitante: ________ | Aprovador: ________ | Status: (Aprovado/Negado/Em análise)
1) O que mudar?
- Ordem/Item: ___________________________
- Linha/Recurso: ________________________
- Mudança solicitada: ( ) Subir prioridade ( ) Descer prioridade ( ) Inserir ordem ( ) Remover ordem
- Nova posição/Sequência desejada: _______
2) Por que mudar? (marque um)
( ) Falta de material iminente / risco de parada
( ) Pedido crítico (cliente/contrato)
( ) Qualidade / segurança
( ) Quebra de equipamento
( ) Erro de cadastro/parâmetro
( ) Outro: ______________________________
3) Impacto estimado (preencher rapidamente)
- Ordens afetadas: _______________________
- Atraso gerado (estimativa): ____________
- Setup extra / troca de família: ( ) Sim ( ) Não
- Necessita ação de suprimentos? ( ) Sim ( ) Não Qual: ___________
4) Decisão
- Aprovado? ( ) Sim ( ) Não
- Condições/observações: ________________
- Validade da mudança (até quando): ______
5) Comunicação diária com produção e suprimentos: cadência curta, foco em impedimentos
Uma rotina diária curta evita que problemas cresçam até virarem “incêndio”. O objetivo não é revisar tudo; é alinhar o plano do dia, checar materiais críticos e remover impedimentos rapidamente.
Pauta recomendada (15 minutos, em pé, no mesmo horário)
- Plano do dia (D0): o que precisa sair hoje por linha/recurso.
- Plano de amanhã (D1): checar se há risco de quebra do congelamento.
- Top 5 faltas/risco de falta: itens críticos e ação (quem faz o quê até quando).
- Restrições do chão: máquina, ferramenta, qualidade, pessoas.
- Mudanças aprovadas: apenas as registradas no RMP.
Template (texto) — Pauta de Reunião Diária (PCP + Produção + Suprimentos)
REUNIÃO DIÁRIA PCP (15 min) | Data: __/__/__ | Horário: __:__ | Participantes: __________________
1) Plano D0 (hoje)
- Linha A: Ordem(s) ________ Meta: ____ Observação: __________
- Linha B: Ordem(s) ________ Meta: ____ Observação: __________
2) Plano D1 (amanhã) — checagem rápida
- Risco de não cumprir? ( ) Não ( ) Sim Onde? __________ Motivo: __________
3) Materiais críticos (Top 5)
- Item: ______ Ordem: ______ Situação: ( ) OK ( ) Risco ( ) Falta
Ação: __________ Responsável: ______ Prazo: __:__
(repetir até 5)
4) Restrições/impedimentos do chão
- Restrição: __________ Impacto: __________ Ação: __________ Dono: ______ Prazo: __:__
5) Mudanças de prioridade (somente com RMP)
- RMP-____: ( ) Aprovada ( ) Negada Impacto: __________
6) Revisão periódica de parâmetros (tempos, lotes, estoques): manter o plano “calibrado”
Parâmetros envelhecem: tempos mudam com melhoria/treinamento, lotes mudam com demanda e setups, estoques mudam com variabilidade e fornecedores. A boa prática é revisar com frequência definida e com gatilhos claros (ex.: quando o desvio entre planejado e real passa de um limite).
Rotina simples de revisão (mensal, com gatilhos)
- Tempos: revisar itens com maior desvio entre tempo padrão e real (ex.: > 15%).
- Lotes: revisar itens com excesso de WIP/estoque ou setups frequentes.
- Estoques: revisar itens com ruptura recorrente ou excesso persistente.
- Gatilhos: mudança de processo, novo fornecedor, alteração de embalagem, mudança de mix.
Passo a passo: revisão mensal em 60–90 minutos
- Extraia uma lista curta (Top 10) de itens com maior impacto (atrasos, rupturas, excesso).
- Compare planejado vs. real (tempo, consumo, perdas, frequência de falta).
- Decida ajustes com responsáveis presentes (PCP + produção + suprimentos/engenharia conforme o caso).
- Registre a mudança (o que mudou e desde quando vale).
- Monitore por 2 semanas se o ajuste reduziu exceções.
Template (texto) — Checklist de Liberação de Ordem (para aumentar aderência e reduzir paradas)
Use este checklist antes de liberar uma ordem para o chão. A ideia é evitar liberar “ordem que vai parar” por falta de material, documento ou condição de processo.
CHECKLIST DE LIBERAÇÃO DE ORDEM (CLO)
Ordem: ______ Item: ______ Quantidade: ______ Data liberação: __/__/__ Responsável: ______
A) Materiais e abastecimento
[ ] Materiais críticos disponíveis (ou com entrega confirmada antes do início)
[ ] Separação/kit concluído (quando aplicável)
[ ] Substitutos aprovados (se houver) registrados
B) Documentação e qualidade
[ ] Desenho/Especificação vigente disponível
[ ] Plano de controle / inspeção definido (quando aplicável)
[ ] Lote/validade/identificação definidos (rastreabilidade)
C) Capacidade e recursos
[ ] Recurso (máquina/linha) confirmado para a janela planejada
[ ] Ferramental/dispositivo disponível
[ ] Setup previsto compatível com a sequência do dia
D) Regras do plano
[ ] Ordem está dentro do congelamento? ( ) Sim ( ) Não Se não: RMP anexado
[ ] Prioridade conforme regra definida (ou exceção registrada)
E) Liberação
[ ] Liberar para produção
[ ] Não liberar — pendência: __________________ Dono: ______ Prazo: __:__
Roteiro de implementação em etapas (fábrica): ganhos rápidos e sustentação
Etapa 1 (Semana 1): estabilizar a rotina e reduzir “surpresas”
- Implantar reunião diária de 15 min com pauta fixa (template acima).
- Definir regra padrão de prioridade + exceções permitidas.
- Começar congelamento curto (24–48h) e comunicar claramente.
- Ativar checklist de liberação para as ordens mais críticas (não precisa ser para todas no início).
Etapa 2 (Semanas 2–3): controlar mudanças e limpar o que mais dói
- Implantar Registro de Mudança de Prioridade (RMP) como condição para alterar sequência.
- Mapear Top 30 itens e validar 5 campos críticos (amostragem semanal).
- Atacar 3 causas recorrentes observadas na reunião diária (ex.: falta de um componente, setup não previsto, documentação desatualizada) com ações e donos.
Etapa 3 (Semana 4 em diante): calibrar parâmetros e consolidar disciplina
- Rodar revisão mensal de parâmetros (tempos, lotes, estoques) com lista Top 10.
- Definir indicadores de disciplina (ex.: % de mudanças com RMP, % de ordens liberadas com checklist, nº de quebras do congelamento por semana).
- Auditoria leve: 1 vez por semana, checar 5 ordens liberadas (se checklist foi seguido e se houve parada por falta evitável).
- Treinar por repetição: reforçar a regra de prioridade e o congelamento sempre que houver exceção.
Como usar os templates no dia a dia (sem virar burocracia)
- Comece pequeno: checklist apenas para itens A/criticamente atrasados; RMP apenas para mudanças dentro do congelamento.
- Tempo máximo: checklist (2–3 min), RMP (3–5 min), reunião diária (15 min).
- Se não gerar ação, simplifique: remova campos que ninguém usa e mantenha os que evitam parada e retrabalho.
- Transforme registros em aprendizado: toda semana, conte os motivos de RMP e ataque o Top 1 (ex.: falta de material por cadastro errado → corrigir parâmetro e validar fornecedor).