Boas práticas essenciais do PCP para iniciantes: padronização, comunicação e disciplina do plano

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que são “boas práticas” no PCP (e por que elas aumentam a previsibilidade)

Boas práticas essenciais do PCP são rotinas e regras simples que reduzem variação, evitam retrabalho e diminuem “surpresas” no dia a dia. Para iniciantes, o foco não é sofisticar ferramentas, e sim criar um sistema operacional estável: dados confiáveis, prioridades claras, poucas mudanças de última hora, comunicação curta e frequente, e revisão periódica dos parâmetros que sustentam o plano.

Na prática, previsibilidade aumenta quando a fábrica passa a operar com: (1) cadastros e parâmetros confiáveis, (2) regras explícitas de prioridade, (3) um “congelamento” de curto prazo, (4) controle de mudanças, (5) comunicação diária entre PCP, produção e suprimentos, e (6) revisão periódica de tempos, lotes e estoques.

1) Cadastros confiáveis: o “chão” onde o plano pisa

Mesmo sem repetir conceitos de dados básicos, aqui o ponto é a disciplina: definir quem é dono de cada dado, como validar e com que frequência revisar. Cadastros “quase certos” geram planos “quase executáveis”, que viram urgências e mudanças constantes.

Boas práticas de governança de dados (simples e aplicáveis)

  • Defina donos: cada campo crítico tem um responsável (ex.: tempos padrão = engenharia/processos; lote mínimo = PCP/industrial; estoque de segurança = PCP/suprimentos).
  • Crie uma lista de “dados críticos”: poucos itens, mas obrigatórios (ex.: tempo padrão, rendimento, lote, política de abastecimento, lead time de compra, estoque de segurança, localização).
  • Validação por amostragem: toda semana, revisar uma amostra pequena (ex.: 10 itens) e corrigir o que estiver fora.
  • Regra de mudança: qualquer alteração em dado crítico precisa de registro (o que mudou, por quê, desde quando vale).

Passo a passo: como iniciar a confiabilidade em 7 dias

  1. Liste os 30 itens mais relevantes (por volume, faturamento, criticidade ou reclamações).
  2. Escolha 5 campos críticos para validar primeiro (ex.: tempo padrão, lote, estoque de segurança, lead time de compra, rendimento).
  3. Compare cadastro vs. realidade usando apontamentos e observação rápida no processo.
  4. Corrija o que for evidente e registre a mudança (modelo de registro mais abaixo).
  5. Crie uma rotina semanal de validação de 10 itens (30–45 min).

2) Regras claras de prioridade: menos discussão, mais execução

Prioridade precisa ser uma regra, não um debate. Quando cada área “puxa” para um lado, o sequenciamento vira disputa e o plano perde credibilidade. A boa prática é ter uma regra padrão e exceções raras, formalizadas.

Exemplo de política simples de prioridade (modelo)

  • Regra padrão: atender na ordem de data prometida ao cliente (ou data de necessidade interna), respeitando restrições técnicas (setup, família, validade).
  • Exceções permitidas (máximo 1–2): (a) risco de parada por falta de material crítico, (b) item de segurança/qualidade, (c) pedido estratégico aprovado.
  • Quem decide exceção: uma pessoa (ou dupla) definida, com registro obrigatório.
  • Janela de decisão: exceções só podem ser solicitadas até um horário limite (ex.: 15h do dia anterior).

Passo a passo: implantando prioridade em 1 semana

  1. Escreva a regra padrão em uma frase e valide com produção e suprimentos.
  2. Defina as exceções (poucas) e o aprovador.
  3. Crie um canal único para pedidos de mudança (e-mail, formulário, planilha compartilhada).
  4. Comece a registrar toda exceção por 5 dias úteis.
  5. Revise o volume de exceções: se tudo vira exceção, a regra não está clara ou o plano está sendo alimentado por dados ruins.

3) Congelamento de curto prazo: proteger o que já está “em movimento”

Congelamento (freeze) é uma janela curta em que o plano não muda, exceto por emergências definidas. Isso reduz reprogramações, evita troca de prioridade a cada hora e melhora produtividade (menos setups e interrupções).

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Como definir um congelamento prático

  • Duração: comece pequeno (ex.: 24 a 72 horas), conforme o tipo de operação.
  • O que fica congelado: sequência do dia/turno, ordens já liberadas e materiais já separados.
  • O que pode mudar: apenas emergências com critério e aprovação (ligado ao registro de mudanças).
  • Como comunicar: um quadro/relatório diário com “Plano Congelado D+0/D+1”.

Passo a passo: congelamento em 3 passos

  1. Escolha a janela (ex.: hoje e amanhã).
  2. Defina critérios de quebra (ex.: risco de parada, segurança, qualidade, cliente crítico).
  3. Implemente com disciplina: se quebrar o congelamento, registrar motivo e impacto (setup extra, atraso gerado, horas perdidas).

4) Controle de mudanças: mudar menos e, quando mudar, mudar direito

Controle de mudanças não é burocracia; é rastreabilidade e aprendizado. Sem registro, a empresa não sabe por que o plano falhou: foi falta de material, mudança comercial, quebra de máquina, tempo padrão errado, ou decisão de prioridade?

Regras simples de controle de mudanças

  • Uma porta de entrada: toda solicitação de mudança passa por um único canal.
  • Classificação: tipo (prioridade, quantidade, data, item, rota), motivo e urgência.
  • Aprovação: quem aprova depende do tipo (ex.: prioridade = PCP + produção; data prometida = comercial + PCP).
  • Registro obrigatório: sem registro, não muda.

Template (texto) — Registro de Mudanças de Prioridade

REGISTRO DE MUDANÇA DE PRIORIDADE (RMP)  |  ID: RMP-____  |  Data/Hora: __/__/__ __:__  |  Solicitante: ________  |  Aprovador: ________  |  Status: (Aprovado/Negado/Em análise)

1) O que mudar?
- Ordem/Item: ___________________________
- Linha/Recurso: ________________________
- Mudança solicitada: ( ) Subir prioridade  ( ) Descer prioridade  ( ) Inserir ordem  ( ) Remover ordem
- Nova posição/Sequência desejada: _______

2) Por que mudar? (marque um)
( ) Falta de material iminente / risco de parada
( ) Pedido crítico (cliente/contrato)
( ) Qualidade / segurança
( ) Quebra de equipamento
( ) Erro de cadastro/parâmetro
( ) Outro: ______________________________

3) Impacto estimado (preencher rapidamente)
- Ordens afetadas: _______________________
- Atraso gerado (estimativa): ____________
- Setup extra / troca de família: ( ) Sim ( ) Não
- Necessita ação de suprimentos? ( ) Sim ( ) Não  Qual: ___________

4) Decisão
- Aprovado? ( ) Sim ( ) Não
- Condições/observações: ________________
- Validade da mudança (até quando): ______

5) Comunicação diária com produção e suprimentos: cadência curta, foco em impedimentos

Uma rotina diária curta evita que problemas cresçam até virarem “incêndio”. O objetivo não é revisar tudo; é alinhar o plano do dia, checar materiais críticos e remover impedimentos rapidamente.

Pauta recomendada (15 minutos, em pé, no mesmo horário)

  • Plano do dia (D0): o que precisa sair hoje por linha/recurso.
  • Plano de amanhã (D1): checar se há risco de quebra do congelamento.
  • Top 5 faltas/risco de falta: itens críticos e ação (quem faz o quê até quando).
  • Restrições do chão: máquina, ferramenta, qualidade, pessoas.
  • Mudanças aprovadas: apenas as registradas no RMP.

Template (texto) — Pauta de Reunião Diária (PCP + Produção + Suprimentos)

REUNIÃO DIÁRIA PCP (15 min)  |  Data: __/__/__  |  Horário: __:__  |  Participantes: __________________

1) Plano D0 (hoje)
- Linha A: Ordem(s) ________  Meta: ____  Observação: __________
- Linha B: Ordem(s) ________  Meta: ____  Observação: __________

2) Plano D1 (amanhã) — checagem rápida
- Risco de não cumprir? ( ) Não ( ) Sim  Onde? __________  Motivo: __________

3) Materiais críticos (Top 5)
- Item: ______  Ordem: ______  Situação: ( ) OK ( ) Risco ( ) Falta
  Ação: __________  Responsável: ______  Prazo: __:__
(repetir até 5)

4) Restrições/impedimentos do chão
- Restrição: __________  Impacto: __________  Ação: __________  Dono: ______  Prazo: __:__

5) Mudanças de prioridade (somente com RMP)
- RMP-____: ( ) Aprovada ( ) Negada  Impacto: __________

6) Revisão periódica de parâmetros (tempos, lotes, estoques): manter o plano “calibrado”

Parâmetros envelhecem: tempos mudam com melhoria/treinamento, lotes mudam com demanda e setups, estoques mudam com variabilidade e fornecedores. A boa prática é revisar com frequência definida e com gatilhos claros (ex.: quando o desvio entre planejado e real passa de um limite).

Rotina simples de revisão (mensal, com gatilhos)

  • Tempos: revisar itens com maior desvio entre tempo padrão e real (ex.: > 15%).
  • Lotes: revisar itens com excesso de WIP/estoque ou setups frequentes.
  • Estoques: revisar itens com ruptura recorrente ou excesso persistente.
  • Gatilhos: mudança de processo, novo fornecedor, alteração de embalagem, mudança de mix.

Passo a passo: revisão mensal em 60–90 minutos

  1. Extraia uma lista curta (Top 10) de itens com maior impacto (atrasos, rupturas, excesso).
  2. Compare planejado vs. real (tempo, consumo, perdas, frequência de falta).
  3. Decida ajustes com responsáveis presentes (PCP + produção + suprimentos/engenharia conforme o caso).
  4. Registre a mudança (o que mudou e desde quando vale).
  5. Monitore por 2 semanas se o ajuste reduziu exceções.

Template (texto) — Checklist de Liberação de Ordem (para aumentar aderência e reduzir paradas)

Use este checklist antes de liberar uma ordem para o chão. A ideia é evitar liberar “ordem que vai parar” por falta de material, documento ou condição de processo.

CHECKLIST DE LIBERAÇÃO DE ORDEM (CLO)
Ordem: ______  Item: ______  Quantidade: ______  Data liberação: __/__/__  Responsável: ______

A) Materiais e abastecimento
[ ] Materiais críticos disponíveis (ou com entrega confirmada antes do início)
[ ] Separação/kit concluído (quando aplicável)
[ ] Substitutos aprovados (se houver) registrados

B) Documentação e qualidade
[ ] Desenho/Especificação vigente disponível
[ ] Plano de controle / inspeção definido (quando aplicável)
[ ] Lote/validade/identificação definidos (rastreabilidade)

C) Capacidade e recursos
[ ] Recurso (máquina/linha) confirmado para a janela planejada
[ ] Ferramental/dispositivo disponível
[ ] Setup previsto compatível com a sequência do dia

D) Regras do plano
[ ] Ordem está dentro do congelamento? ( ) Sim ( ) Não  Se não: RMP anexado
[ ] Prioridade conforme regra definida (ou exceção registrada)

E) Liberação
[ ] Liberar para produção
[ ] Não liberar — pendência: __________________  Dono: ______  Prazo: __:__

Roteiro de implementação em etapas (fábrica): ganhos rápidos e sustentação

Etapa 1 (Semana 1): estabilizar a rotina e reduzir “surpresas”

  • Implantar reunião diária de 15 min com pauta fixa (template acima).
  • Definir regra padrão de prioridade + exceções permitidas.
  • Começar congelamento curto (24–48h) e comunicar claramente.
  • Ativar checklist de liberação para as ordens mais críticas (não precisa ser para todas no início).

Etapa 2 (Semanas 2–3): controlar mudanças e limpar o que mais dói

  • Implantar Registro de Mudança de Prioridade (RMP) como condição para alterar sequência.
  • Mapear Top 30 itens e validar 5 campos críticos (amostragem semanal).
  • Atacar 3 causas recorrentes observadas na reunião diária (ex.: falta de um componente, setup não previsto, documentação desatualizada) com ações e donos.

Etapa 3 (Semana 4 em diante): calibrar parâmetros e consolidar disciplina

  • Rodar revisão mensal de parâmetros (tempos, lotes, estoques) com lista Top 10.
  • Definir indicadores de disciplina (ex.: % de mudanças com RMP, % de ordens liberadas com checklist, nº de quebras do congelamento por semana).
  • Auditoria leve: 1 vez por semana, checar 5 ordens liberadas (se checklist foi seguido e se houve parada por falta evitável).
  • Treinar por repetição: reforçar a regra de prioridade e o congelamento sempre que houver exceção.

Como usar os templates no dia a dia (sem virar burocracia)

  • Comece pequeno: checklist apenas para itens A/criticamente atrasados; RMP apenas para mudanças dentro do congelamento.
  • Tempo máximo: checklist (2–3 min), RMP (3–5 min), reunião diária (15 min).
  • Se não gerar ação, simplifique: remova campos que ninguém usa e mantenha os que evitam parada e retrabalho.
  • Transforme registros em aprendizado: toda semana, conte os motivos de RMP e ataque o Top 1 (ex.: falta de material por cadastro errado → corrigir parâmetro e validar fornecedor).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática ajuda a aumentar a previsibilidade do PCP ao reduzir reprogramações e trocas de prioridade de última hora?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O congelamento de curto prazo protege o que já está em movimento, reduz reprogramações e evita mudanças constantes. Quando precisar quebrar o congelamento, a mudança deve seguir critério, aprovação e registro.

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