Por que multiplicar colônias exige planejamento
Multiplicar colônias (formar núcleos, dividir colmeias e controlar enxameação) é a forma mais comum de expandir um apiário usando o próprio material genético e a adaptação local das abelhas. Porém, toda multiplicação “retira” população, cria e recursos de colônias fortes; se isso for feito cedo demais, em excesso ou sem reposição de recursos, o resultado pode ser queda de produtividade, aumento de risco sanitário e enfraquecimento geral do apiário.
O objetivo do manejo responsável é equilibrar três pontos: bem-estar da colônia (não deixar unidades fracas), produtividade (não comprometer a safra) e qualidade de rainhas (boa aceitação e postura consistente).
Conceitos-chave: núcleo, divisão e enxameação
Formação de núcleos (núcleos de fecundação ou de crescimento)
Um núcleo é uma colônia pequena, montada com poucos quadros (ou mini-colmeia, dependendo do sistema), destinada a: (1) crescer e virar uma colônia completa, ou (2) receber/produzir uma rainha e servir como “reserva” do apiário. Núcleos são úteis para reduzir perdas por falhas de rainha e para multiplicar sem “quebrar” colônias produtivas.
Divisão de colônias
Dividir é separar uma colônia forte em duas (ou mais) unidades, redistribuindo quadros de cria, alimento e abelhas. Uma parte fica com a rainha (ou recebe uma rainha pronta) e a outra parte cria ou recebe uma nova rainha.
Controle de enxameação
Enxameação é a reprodução natural da colônia: a rainha velha sai com parte das abelhas e deixa realeiras para uma nova rainha. Para o apicultor, enxameação não controlada costuma significar queda de força e de produção. O controle responsável busca reduzir o impulso de enxamear por meio de espaço adequado, renovação de rainha e, quando necessário, divisões planejadas.
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Pré-requisitos para multiplicar com segurança
1) Força mínima da colônia doadora
- População: colônia claramente forte, com muitos quadros bem cobertos de abelhas (evite “tirar” de colônias medianas).
- Crias: presença de cria em diferentes idades (ovos/larvas e cria operculada), indicando postura consistente.
- Reservas: quadros com mel/pólen suficientes para sustentar a divisão sem depender de “socorro” imediato.
2) Recursos e logística
- Caixas e quadros prontos: não improvise no dia (falta de material aumenta tempo de colmeia aberta e estresse).
- Alimentação de apoio disponível caso falte fluxo de néctar/pólen (planeje antes).
- Capacidade de acompanhar: multiplicação exige revisitas em janelas específicas (principalmente para checar rainha).
3) Clima e janela de acasalamento
- Temperaturas amenas a quentes e dias com voo regular favorecem fecundação da rainha.
- Evite períodos frios, chuvosos ou de escassez prolongada, quando a colônia tem dificuldade de manter cria e a rainha pode falhar no acasalamento.
- Presença de zangões no apiário/região (sinal indireto de época reprodutiva). Sem zangões, a chance de rainha mal fecundada aumenta.
4) Sanidade e risco de espalhar problemas
Multiplicar é também “multiplicar” o que está escondido. Só use como doadoras colônias com bom histórico sanitário e sinais limpos na inspeção. Se houver dúvida, adie a multiplicação e priorize estabilizar o apiário.
Critérios práticos para selecionar colônias doadoras (e futuras matrizes)
Escolher bem as colônias doadoras é uma das decisões mais importantes para evolução do apiário. Use critérios simples e repetíveis:
- Mansidão: colônias que permitem manejo com defensividade baixa e previsível. Evite multiplicar colônias agressivas (você perpetua o problema).
- Produtividade consistente: não é “um pico” isolado; procure desempenho bom em mais de uma avaliação/safra.
- Sanidade: padrão de cria uniforme, ausência de sinais suspeitos e boa capacidade de limpeza.
- Baixa tendência à enxameação: colônias que mantêm postura e expansão sem excesso de realeiras em condições normais.
- Boa organização de quadros: postura bem distribuída e reservas bem posicionadas (indicador indireto de equilíbrio interno).
Dica de registro: mantenha uma ficha simples por colmeia (mansidão 1–5, produtividade 1–5, sanidade 1–5, enxameação 1–5). Em poucas semanas você identifica as melhores doadoras.
Estratégias responsáveis para expandir sem enfraquecer o apiário
Regra de ouro: não multiplicar “todas” ao mesmo tempo
Evite dividir muitas colônias no mesmo período. Uma prática segura é definir um limite: por exemplo, multiplicar apenas as colônias topo do apiário (as mais fortes e saudáveis) e manter uma parte do apiário focada em produção/estabilidade.
Trabalhe com “colônias suporte”
Tenha 1–2 colônias muito fortes (ou caixas de apoio) para fornecer um quadro de cria operculada ou um quadro de alimento caso algum núcleo fique para trás. Isso reduz mortalidade e evita “canibalizar” várias colônias medianas.
Evite divisões profundas em época de safra principal
Se o objetivo é produzir mel, divisões grandes durante o pico de florada tendem a reduzir a força de campeiras. Uma alternativa é fazer núcleos menores ou programar multiplicação para uma janela anterior/posterior ao pico, conforme sua região.
Passo a passo: divisão simples (1 colônia forte → 2 unidades)
Este é um método prático para iniciantes, com foco em reduzir riscos: uma unidade fica com a rainha (continua forte) e a outra cria ou recebe uma nova rainha.
Antes de abrir a colmeia
- Prepare duas caixas (A e B) com quadros suficientes.
- Tenha à mão 1–2 quadros de alimento extras (mel/pólen) caso a doadora não tenha sobra.
- Defina o plano de rainha para a unidade sem rainha: (i) realeira pronta, (ii) rainha fecundada ou (iii) deixar criar rainha (mais lento e mais incerto).
Passo 1 — Escolha a colônia e confirme que está realmente forte
Abra e avalie rapidamente: quantidade de quadros com cria, reservas e cobertura de abelhas. Se a colônia estiver apenas “boa”, não divida; procure outra ou adie.
Passo 2 — Localize a rainha (quando possível)
A forma mais segura para iniciantes é saber onde a rainha está. Se você não encontrar a rainha, ainda é possível dividir, mas o risco de erro aumenta (por exemplo, deixar as duas unidades sem rainha por engano).
Passo 3 — Monte a unidade A (com rainha) para manter força
Na caixa A, coloque:
- A rainha (no quadro onde ela está).
- 2–3 quadros de cria (preferencialmente com parte de cria operculada).
- 1–2 quadros de alimento.
- Complete com quadros vazios/cerados conforme seu sistema, garantindo espaço para postura.
Objetivo: a unidade A não pode ficar “magra”; ela deve continuar funcional e capaz de se defender e forragear.
Passo 4 — Monte a unidade B (sem rainha) com foco em criar/receber rainha
Na caixa B, coloque:
- 2–3 quadros de cria. Se a unidade B for criar rainha, é essencial ter cria bem jovem (ovos/larvas pequenas).
- 1–2 quadros de alimento.
- Quadros para completar o espaço.
Distribuição de abelhas: a unidade B precisa de abelhas nutrizes suficientes. Uma prática comum é sacudir (com cuidado) abelhas de 1–2 quadros de cria para dentro da caixa B, evitando levar a rainha junto.
Passo 5 — Posicionamento para equilibrar campeiras
Se as duas caixas ficarem lado a lado, as campeiras tendem a voltar para o local original, fortalecendo uma unidade e enfraquecendo a outra. Para reduzir isso:
- Coloque a unidade B no lugar original (para receber retorno de campeiras) e mova a unidade A alguns metros, ou
- Leve uma das unidades para outro ponto do apiário (ou outro apiário), se possível.
Passo 6 — Defina o método de rainha da unidade B
| Método | Vantagens | Pontos de atenção |
|---|---|---|
| Deixar criar rainha | Não exige compra; usa genética local | Mais demorado; depende de clima/zangões; maior chance de falha |
| Inserir realeira pronta | Mais rápido que criar do zero | Exige fonte confiável; cuidado no manuseio para não danificar |
| Introduzir rainha fecundada | Mais previsível; retoma postura rápido | Risco de rejeição; custo; exige técnica de introdução |
Como acompanhar aceitação e produção de rainha (checklist por dias)
O acompanhamento evita que uma unidade fique “órfã” por tempo demais, o que derruba população e pode levar a postura de operárias.
Se a unidade B vai criar rainha
- Dia 3–5: verificar se há realeiras (células reais) sendo construídas. Se não houver, pode faltar cria jovem; corrija adicionando um quadro com ovos/larvas de uma colônia doadora forte.
- Dia 10–14: evitar manipulação excessiva; realeiras podem estar próximas de opercular/emergir. Manuseio brusco pode danificar.
- Dia 20–30 (varia com clima): procurar sinais de postura nova (ovos alinhados, larvas pequenas). Se não houver postura até o limite esperado e não houver rainha visível, considere intervenção (inserir rainha fecundada ou unir com outra unidade).
Se a unidade B recebe rainha fecundada
- Primeiras 24–48h: minimizar abertura. A colônia precisa “assentar” o cheiro.
- Dia 3–7: checar aceitação (comportamento calmo no quadro, ausência de bolas de abelhas tentando matar a rainha, presença de postura inicial).
- Dia 10–14: confirmar padrão de postura (área contínua, cria uniforme). Postura falha pode indicar rainha mal fecundada ou estresse por falta de recursos.
Sinais de alerta em qualquer método: zumbido “alto” e inquieto, ausência persistente de ovos/larvas, muitas células de emergência repetidas, postura irregular por semanas. Nesses casos, agir cedo é melhor do que “esperar mais um pouco”.
Controle de enxameação com manejo de rainhas e espaço
Como identificar impulso de enxameação
- Congestionamento: muitos quadros cheios e pouco espaço para postura.
- Realeiras em maior número e em posições típicas de enxameação (frequentemente na borda inferior dos quadros, dependendo do sistema).
- Redução de área de postura apesar de boa população e recursos.
Medidas responsáveis
- Dar espaço no momento certo: adicionar quadros/caixas antes de “travar” o ninho de cria.
- Divisão preventiva: transformar o impulso de enxamear em multiplicação planejada (criando um núcleo e mantendo a colônia-mãe produtiva).
- Renovação de rainha: rainhas mais velhas tendem a aumentar risco de enxameação e queda de postura; planeje substituição sem pressa e com acompanhamento.
Cuidados para não enfraquecer o apiário (erros comuns e como evitar)
Erro 1 — Tirar cria e abelhas de colônias medianas
Como evitar: só retire quadros de colônias realmente fortes e limite a quantidade por colônia doadora. Se precisar de mais núcleos, aumente o número de doadoras (selecionadas) em vez de “espremer” poucas colmeias.
Erro 2 — Criar muitos núcleos sem capacidade de suporte
Como evitar: planeje quantas revisitas você consegue fazer e quantas rainhas/realeiras tem disponível. Núcleos exigem correções rápidas (alimento, reforço de cria, troca de rainha).
Erro 3 — Deixar unidades órfãs por tempo demais
Como evitar: use um calendário de checagens. Se a unidade não apresentar progresso (realeiras, depois postura), intervenha com quadro de ovos, rainha fecundada ou união.
Erro 4 — Multiplicar em época ruim de fecundação
Como evitar: observe voo, presença de zangões e estabilidade do tempo. Se a janela estiver ruim, prefira multiplicar com rainha fecundada ou adiar.
Erro 5 — Selecionar doadoras pela “força do dia” e não por comportamento e sanidade
Como evitar: use critérios e registros. Uma colônia muito forte, mas defensiva ou instável, não deve virar padrão do apiário.
Roteiro rápido de decisão (para usar antes de multiplicar)
1) Tenho colônias doadoras fortes e saudáveis? (sim/não)
2) Tenho caixas/quadros e alimento de apoio prontos? (sim/não)
3) O clima e a presença de zangões favorecem fecundação? (sim/não)
4) Tenho plano de rainha para cada unidade (criar / realeira / fecundada)? (sim/não)
5) Consigo revisar em 3–5 dias e depois em 10–14 dias? (sim/não)
Se qualquer resposta for “não”, ajuste o plano antes de dividir.