Apicultura para iniciantes: colheita do mel com boas práticas de higiene e bem-estar das abelhas

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é “ponto de colheita” e por que ele importa

Colher mel no ponto certo significa retirar apenas o mel maduro, com baixa umidade e bem selado pelas abelhas. Isso reduz o risco de fermentação, melhora a qualidade e evita retirar recursos essenciais do ninho. Na prática, o ponto de colheita é avaliado principalmente por: percentual de quadros operculados, condição do fluxo de néctar e risco de umidade alta (que favorece fermentação).

Indicadores práticos do ponto de colheita

  • Quadros operculados: priorize quadros com a maior parte das células seladas (operculadas). Como referência prática, busque ≥ 80% operculado por quadro. Quanto maior o percentual selado, menor a chance de mel “verde” (úmido).
  • Teste do “sacudir” (shake test): segure o quadro na posição horizontal e dê uma sacudida firme. Se pingar néctar/mel, há grande chance de estar úmido demais para colher. Se não pingar, é um bom sinal (ainda assim, o operculado é o melhor indicador).
  • Fluxo de néctar: em fluxo forte, as abelhas podem estar enchendo quadros rapidamente com néctar ainda não maturado. Nesses períodos, seja mais exigente com o operculado e evite colher quadros “brilhantes” e muito abertos.
  • Risco de fermentação: aumenta quando o mel é colhido com umidade alta, em dias chuvosos/úmidos, ou quando o mel fica exposto ao ar por muito tempo. Sinais indiretos: quadros pouco operculados, gotejamento no shake test e ambiente úmido no dia da colheita.

O que não colher (para proteger a colônia e a qualidade)

  • Quadros do ninho: não misture quadros do ninho com quadros de mel para extração. Além de higiene e sabor, isso reduz risco de levar resíduos, pólen e cria para a sala de mel.
  • Quadros com cria, pólen em excesso ou mel muito escuro/velho do ninho: mantenha a colheita restrita às melgueiras (supers) destinadas ao mel.
  • Quadros com sinais de umidade alta: pouco operculado e/ou que pingam no shake test.

Planejamento da colheita: horário, clima e organização

Horário adequado

  • Preferência: fim da manhã até início da tarde, quando parte das campeiras está fora e a temperatura ajuda o mel a fluir (facilita manuseio e reduz tempo de exposição).
  • Evite: início da manhã fria/úmida e fim de tarde/noite (mais abelhas na colmeia, maior defensividade e maior chance de umidade/condensação).

Condições climáticas

  • Escolha dias secos, com baixa umidade relativa, para reduzir risco de absorção de água pelo mel durante o manuseio.
  • Evite chuva e neblina. Se precisar colher em período úmido, reduza ao máximo o tempo de quadros expostos e mantenha recipientes sempre tampados.

Organização do fluxo de trabalho (para reduzir estresse e contaminação)

Antes de abrir a primeira colmeia, deixe definido: rota de transporte, local de apoio, recipientes com tampa, ferramentas limpas e um “ponto de espera” para melgueiras fechadas. O objetivo é abrir, retirar, fechar e transportar com o mínimo de tempo e de manipulação.

Como retirar melgueiras minimizando estresse das abelhas

Princípios de bem-estar durante a colheita

  • Movimentos lentos e firmes: evite batidas, arrastos e vibração excessiva.
  • Tempo de colmeia aberta: quanto menor, melhor. Planeje para não “procurar coisas” com a colmeia aberta.
  • Uso moderado de fumaça: o suficiente para organizar as abelhas, não para saturar a colmeia.
  • Prevenção de esmagamento: abelhas esmagadas liberam odor de alarme e aumentam defensividade.

Uso moderado de fumaça (na prática)

  • Aplique poucas baforadas na entrada e sob a tampa, aguarde alguns segundos e só então manipule.
  • Evite fumaça direta e prolongada sobre os quadros de mel. Excesso de fumaça pode aumentar agitação e impregnar odor no material.
  • Se as abelhas estiverem calmas, reduza ainda mais a fumaça. A fumaça é ferramenta, não “padrão fixo”.

Controle de abelhas na melgueira (sem agressividade)

O objetivo é retirar a melgueira com o mínimo de abelhas possível, sem sacudir quadros de forma brusca e sem esmagar. Opções comuns:

  • Escova/pena macia: escove suavemente as abelhas do topo dos quadros para dentro da colmeia. Funciona melhor em dias secos e com abelhas menos defensivas.
  • Sacudida controlada do quadro: se necessário, uma sacudida curta e firme para deslocar a maioria das abelhas, seguida de escovação leve. Evite repetição e pancadas.
  • Retirada por etapas: levante a melgueira, verifique a face inferior e remova abelhas aglomeradas antes de colocar no recipiente/caixa de transporte.

Procedimento de colheita seguro (passo a passo)

O passo a passo abaixo foca em reduzir contaminação, evitar fermentação e minimizar estresse da colônia.

1) Preparar o local de apoio e os recipientes

  • Escolha um ponto próximo ao apiário, mas fora da linha de voo, para apoiar e fechar melgueiras.
  • Tenha caixas/recipientes com tampa (ou melgueiras vazias com tampa) para receber os quadros/melgueiras e evitar entrada de poeira, formigas e abelhas.
  • Deixe um pano limpo ou tampa rígida para cobrir imediatamente qualquer melgueira retirada.

2) Abrir a colmeia e confirmar o ponto de colheita

  • Abra com calma, usando fumaça moderada.
  • Inspecione rapidamente a melgueira: priorize quadros com alto percentual operculado.
  • Se houver dúvida em quadros abertos, faça o shake test em 1–2 quadros representativos.

3) Retirar quadros/melgueiras reduzindo esmagamento

  • Crie espaço com cuidado antes de puxar o primeiro quadro (evita esmagar abelhas nas laterais).
  • Ao recolocar quadros, alinhe lentamente e observe as bordas para não prensar abelhas.
  • Evite apoiar quadros em superfícies sujas ou no chão. Use suporte limpo ou mantenha o quadro sempre nas mãos.

4) Remover abelhas dos quadros e fechar imediatamente

  • Remova abelhas com escovação suave e/ou sacudida controlada.
  • Coloque o quadro na caixa/recipiente e tampe na hora.
  • Se estiver retirando a melgueira inteira, faça o mesmo: retire, confira a parte inferior, remova aglomerados e tampe.

5) Transporte das melgueiras/quadros (sem aquecer e sem contaminar)

  • Transporte em veículo limpo, com as melgueiras estáveis (sem tombar) para evitar esmagamento e vazamento.
  • Mantenha boa ventilação e evite sol direto prolongado no material colhido (calor excessivo pode amolecer cera e aumentar vazamentos).
  • Não deixe melgueiras abertas durante o transporte: isso atrai abelhas, vespas e poeira.

6) Controle de abelhas no local (evitar “roubo” e confusão)

  • Trabalhe com recipientes sempre fechados para não atrair abelhas para o mel exposto.
  • Se notar aumento de abelhas tentando acessar o material colhido, acelere o fechamento e remova o material do local.
  • Evite derramar mel. Pequenos respingos podem desencadear intensa atração de abelhas e dificultar o manejo.

Boas práticas de higiene na colheita e no manuseio do mel

Ambiente limpo e fluxo “sujo → limpo”

Organize o trabalho para que itens que tocaram o apiário (parte externa de caixas, ferramentas usadas na colmeia) não entrem em contato com superfícies e utensílios destinados ao mel. Uma regra simples é separar mentalmente:

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  • Zona do apiário (mais “suja”): onde ficam ferramentas de abertura, tampas, caixas externas.
  • Zona do mel (mais “limpa”): onde ficam recipientes internos, peneiras, baldes e superfícies que tocam o mel.

Utensílios adequados e materiais recomendados

  • Use utensílios de aço inox ou materiais próprios para alimentos (evite recipientes que liberem odor ou resíduos).
  • Tenha tampas que vedem bem para baldes/caixas de quadros.
  • Mantenha panos limpos e secos apenas para cobrir e proteger (pano úmido pode aumentar umidade do mel e carregar odores).

Proteção contra poeira e insetos

  • Não deixe quadros expostos ao ar por longos períodos.
  • Trabalhe com recipientes tampados e, se necessário, use telas/grades de proteção no local de apoio.
  • Evite apoiar quadros em locais com vento levantando poeira.

Separação rigorosa: materiais do ninho vs. materiais do mel

  • Não misture quadros do ninho (com cria/pólen) com quadros de mel para extração.
  • Se uma ferramenta tocou quadros do ninho e ficou com própolis/cera escura, limpe antes de usar em área “limpa”.
  • Armazene melgueiras e quadros de mel em local separado de materiais do ninho para reduzir contaminação cruzada.

Checklist rápido de higiene (para usar no dia)

ItemVerificar
Recipientes com tampaLimpos, secos, fecham bem
Superfície de apoioLimpa, elevada, protegida de poeira
FerramentasSem sujeira acumulada; separadas por uso (apiário vs. mel)
Exposição do melMínima; quadros sempre cobertos/tampados
TransporteVeículo limpo; carga estável; sem sol direto prolongado

Erros comuns e como evitar

Colher mel “verde” (úmido)

  • Erro: colher quadros pouco operculados em fluxo forte.
  • Como evitar: priorize ≥ 80% operculado e use o shake test quando houver dúvida.

Deixar melgueiras abertas atraindo abelhas e insetos

  • Erro: apoiar melgueira aberta enquanto “termina de ver” a colmeia.
  • Como evitar: tampa imediata e recipientes fechados; organize o passo a passo para não interromper.

Esmagar abelhas durante a retirada

  • Erro: puxar quadros sem criar espaço e recolocar rapidamente.
  • Como evitar: movimentos lentos, observar bordas, alinhar antes de fechar.

Contaminar o mel com poeira/odores

  • Erro: quadros expostos ao vento, recipientes inadequados, mistura de materiais do ninho.
  • Como evitar: zona “limpa” separada, utensílios próprios para alimentos, tampas sempre fechadas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar o “ponto de colheita” para reduzir risco de fermentação e garantir melhor qualidade do mel, qual prática está mais alinhada às boas orientações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quadros majoritariamente operculados indicam mel maduro e com menor umidade, reduzindo fermentação. Quando houver dúvida, o shake test ajuda a identificar quadros que ainda pingam (mel úmido) e não devem ser colhidos.

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Apicultura para iniciantes: extração, armazenamento e qualidade do mel

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