Apicultura para iniciantes: extração, armazenamento e qualidade do mel

Capítulo 16

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Conceito: o que é o “pós-colheita” do mel e por que ele define a qualidade

Pós-colheita é o conjunto de etapas que começa quando os quadros chegam à sala de extração e termina com o mel envasado, rotulado e armazenado. Nessa fase, o objetivo é separar o mel da cera e reduzir ao mínimo a incorporação de impurezas, água, odores e microrganismos, sem aquecer excessivamente. Pequenos descuidos (um balde com cheiro, um pano sujo, um aquecimento alto para “render”) podem comprometer sabor, aroma, cristalização e segurança do produto.

Fluxo completo pós-colheita (do quadro ao pote)

1) Preparação do ambiente e organização do fluxo

Antes de abrir os quadros, organize um fluxo “limpo” e “sujo” para evitar contaminação cruzada:

  • Área limpa: desoperculação, extração, filtragem, decantação e envase.
  • Área suja: recebimento de quadros, armazenamento temporário de caixas/quadros vazios, descarte de opérculos e resíduos.
  • Controle de acesso: portas fechadas, telas/janelas protegidas para evitar abelhas e insetos.
  • Superfícies laváveis: bancadas e piso fáceis de higienizar.

Trabalhe com recipientes e utensílios de grau alimentício (inox 304/316, plástico PP/PEAD apropriado para alimentos, vidro) e evite materiais que soltem partículas ou odores.

2) Desoperculação (retirada dos opérculos)

Desopercular é remover a “tampa” de cera que sela as células de mel. O objetivo é abrir as células sem triturar demais a cera e sem incorporar fragmentos.

  • Ferramentas comuns: garfo desoperculador, faca desoperculadora (lisa ou serrilhada), mesa/bandeja de desoperculação com peneira.
  • Como fazer: apoie o quadro na mesa; passe a faca/garfo nivelando a superfície até expor as células. Ajuste o ângulo para retirar apenas a camada de opérculo.
  • Cuidados: evite “raspar fundo” (aumenta cera no mel e reduz rendimento). Mantenha a ferramenta limpa durante o processo.

Opérculos devem escorrer em recipiente próprio (com peneira) para recuperar mel aderido. Não misture opérculos com resíduos de limpeza ou materiais não alimentícios.

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3) Extração (centrifugação)

A extração remove o mel por força centrífuga no extrator. O ponto-chave é não quebrar os favos e manter o mel fluido o suficiente para escoar, sem aquecimento excessivo.

  • Passo a passo:
  • Coloque os quadros desoperculados no extrator, equilibrando o peso (quadros semelhantes em lados opostos).
  • Comece em rotação baixa para não estourar o favo.
  • Aumente gradualmente a rotação até o mel sair bem.
  • Se o extrator for tangencial, extraia um lado, vire os quadros e extraia o outro.
  • Deixe o mel escorrer pelo registro inferior para o sistema de filtragem/decantação.

Temperatura: se o mel estiver muito viscoso (frio), prefira aquecer o ambiente da sala de extração de forma moderada e controlada, em vez de aquecer diretamente o mel. Evite temperaturas altas que aceleram perda de aromas e podem aumentar HMF (indicador de aquecimento/envelhecimento).

4) Filtragem (remoção de partículas)

Filtrar é reter pedaços de cera, abelhas acidentais e partículas maiores. Para pequenos produtores, o ideal é uma filtragem em etapas:

  • Filtragem grossa: peneira maior logo após o extrator.
  • Filtragem fina: peneira mais fina antes do decantador ou do maturador.

Evite “forçar” o mel na peneira com utensílios que soltem fibras. Se a filtragem estiver lenta, a causa geralmente é temperatura baixa (mel muito viscoso) ou excesso de cera por desoperculação agressiva.

5) Decantação (maturação/clarificação)

Decantar é deixar o mel em repouso para que bolhas de ar e microfragmentos de cera subam à superfície, formando uma espuma/camada superior que pode ser removida. Isso melhora aparência e estabilidade.

  • Recipiente: maturador/decantador com tampa e registro inferior (inox ou plástico grau alimentício).
  • Tempo: em geral 24–72 horas, dependendo da viscosidade e da quantidade de ar incorporado.
  • Como proceder: mantenha tampado; evite mexer; após o repouso, retire a espuma/cera superficial com utensílio limpo; envase pelo registro inferior para não arrastar a camada de cima.

6) Envase (enchimento dos recipientes)

O envase deve minimizar contato com ar, poeira e odores. Trabalhe com potes secos e limpos, e com o mel em condição fluida natural (sem superaquecimento).

  • Passo a passo:
  • Higienize e seque completamente os recipientes e tampas (umidade residual é inimiga do mel).
  • Posicione os potes em superfície limpa e nivelada.
  • Envase pelo registro do maturador/decantador, mantendo fluxo contínuo para reduzir bolhas.
  • Deixe um pequeno espaço livre (headspace) e feche imediatamente.
  • Limpe eventuais respingos externos para evitar pegajosidade e atração de insetos.

Evite aquecer o mel para “facilitar” o envase. Se necessário, use aquecimento suave e indireto (banho-maria controlado no recipiente fechado, ou sala aquecida moderadamente), sempre priorizando preservar aroma e enzimas naturais.

Fatores de qualidade do mel (o que observar e como prevenir problemas)

Umidade (risco de fermentação)

Mel com umidade elevada tem maior chance de fermentar (formação de gás, espuma, cheiro alcoólico/azedo). A umidade pode aumentar por:

  • Ambiente muito úmido na extração/armazenamento.
  • Recipientes mal vedados.
  • Potes ou baldes com água residual.
  • Tempo prolongado com mel exposto ao ar.

Boas práticas: manter tampas fechadas, reduzir tempo de exposição, usar recipientes secos, armazenar em local fresco e seco. Para controle mais técnico, utilize refratômetro para medir umidade e registrar os lotes.

Cristalização (processo natural)

Cristalização é a solidificação parcial do mel por formação de cristais de glicose. Não é defeito, mas pode ser indesejada comercialmente dependendo do público. Ela varia conforme:

  • Origem floral (proporção glicose/frutose).
  • Temperatura de armazenamento (faixas mais frias tendem a cristalizar mais rápido).
  • Presença de “sementes” de cristal (partículas finas, pólen, microcristais).

Como lidar: para vender mel líquido por mais tempo, reduza partículas com boa decantação/filtragem e armazene em temperatura estável. Se precisar descristalizar, prefira aquecimento suave e controlado (sem ferver, sem chama direta), monitorando para não degradar aroma e qualidade.

Contaminação (física, química e microbiológica)

  • Física: cera em excesso, fragmentos de madeira, poeira, insetos. Prevenção: peneiras adequadas, ambiente fechado, utensílios íntegros.
  • Química: resíduos de produtos de limpeza mal enxaguados, contato com recipientes inadequados (tintas, metais não alimentícios), odores absorvidos. Prevenção: usar apenas materiais grau alimentício e sanitizantes apropriados, enxágue correto quando aplicável.
  • Microbiológica: o mel é naturalmente pouco favorável a microrganismos, mas pode fermentar se houver umidade alta ou contaminação por água. Prevenção: recipientes secos, vedação e controle de umidade.

Odores e absorção de aromas

O mel absorve odores com facilidade. Armazenar ou envasar perto de combustível, tinta, ração, produtos de limpeza perfumados, temperos fortes ou ambientes com mofo pode alterar o aroma.

  • Use sala e armário/depósito sem cheiros.
  • Mantenha recipientes sempre bem vedados.
  • Evite panos com amaciante/perfume para “limpar” potes e tampas.

Limpeza e sanitização: rotina prática para equipamentos e utensílios

Princípios básicos

  • Limpeza remove sujeira visível (mel, cera, pó). Sem limpeza, a sanitização perde eficácia.
  • Sanitização reduz carga microbiana em superfícies já limpas.
  • Secagem é crítica: água residual pode elevar umidade do mel e favorecer fermentação.

Rotina sugerida (antes, durante e depois)

  • Antes: lave com detergente neutro e água potável os itens que terão contato com mel; enxágue bem; deixe secar ao ar; mantenha coberto.
  • Durante: se cair utensílio no chão, retire do uso e re-higienize; troque peneiras se saturarem de cera; mantenha tampas fechadas.
  • Depois: remova resíduos de mel/cera ainda frescos (facilita); lave; sanitizar conforme produto indicado para uso alimentício; enxágue se o sanitizante exigir; seque e armazene fechado.

Dica prática: mel e cera saem melhor com água morna (não precisa água muito quente). Evite esponjas que soltem partículas. Prefira escovas próprias e panos sem fiapos.

Recipientes apropriados, rotulagem básica e armazenamento

Recipientes (baldes e potes)

  • Para decantação/armazenamento a granel: baldes de PEAD/PP grau alimentício com tampa vedante ou maturadores de inox com registro.
  • Para venda: potes de vidro ou plástico grau alimentício com tampa de boa vedação.
  • Evite: recipientes reutilizados que tiveram produtos com cheiro forte (picles, temperos, químicos), baldes de tinta, metais que possam oxidar.

Rotulagem básica (organização e rastreabilidade)

Mesmo em pequena escala, rotular ajuda a controlar qualidade e identificar problemas. Inclua ao menos:

  • Identificação do lote (código simples).
  • Data de envase.
  • Origem (apiário/localidade) e tipo (se monofloral/multifloral, quando aplicável).
  • Peso líquido.

Para controle interno, vale adicionar no rótulo técnico (ou etiqueta no balde): umidade medida, observações de cor/aroma e eventuais ocorrências (ex.: “filtragem lenta”, “muito ar incorporado”).

Condições ideais de armazenamento

  • Temperatura: estável e fresca; evite calor constante (acelera escurecimento e perda de aromas). Evite alternância grande de temperatura (favorece condensação interna em recipientes mal vedados).
  • Luz: manter ao abrigo de luz direta; prefira local escuro ou embalagens protegidas.
  • Vedação: tampas bem fechadas para impedir absorção de umidade e odores.
  • Ambiente: seco, limpo, sem produtos odoríferos e sem risco de pragas (formigas, baratas).

Checklist de controle de qualidade (pequeno produtor)

Use este checklist por lote (balde/maturador) e por dia de envase. Marque OK, NÃO OK e registre ações corretivas.

ItemVerificaçãoOK/NÃO OKAção corretiva
AmbienteSala limpa, sem poeira, sem odores fortes, portas/telas fechadas
EquipamentosExtrator, peneiras, maturador e utensílios limpos, íntegros e secos
RecipientesBaldes/potes grau alimentício, sem cheiro, secos, tampas íntegras
DesoperculaçãoBaixa incorporação de cera (cortes superficiais, sem “raspar fundo”)
ExtraçãoQuadros equilibrados, rotação gradual, sem quebrar favos
FiltragemPeneiras adequadas, sem transbordo, sem contato com materiais fibrosos
DecantaçãoRepouso suficiente, tampa fechada, remoção da espuma/cera superficial
UmidadeMedição com refratômetro (se disponível) registrada no lote
SensorialAroma limpo (sem cheiro de fumaça, combustível, mofo), sabor típico
EnvasePotes fechados imediatamente, sem respingos, sem bolhas excessivas
RotulagemLote e data de envase aplicados; identificação interna completa
ArmazenamentoLocal fresco, escuro, seco; recipientes vedados; afastado de odores

Modelo simples de código de lote

Um padrão fácil de aplicar:

AAAAMMDD-APIARIO-NN  (ex.: 20260127-A1-03)
  • AAAAMMDD: data do envase
  • APIARIO: código do apiário (A1, A2...)
  • NN: número sequencial do lote no dia

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao organizar a sala de extração para evitar contaminação cruzada no pós-colheita do mel, qual prática está correta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A separação entre “limpo” e “sujo”, com controle de acesso e superfícies higienizáveis, reduz contaminação cruzada e a incorporação de impurezas, odores e microrganismos durante o pós-colheita.

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