Conceito: o que é o “pós-colheita” do mel e por que ele define a qualidade
Pós-colheita é o conjunto de etapas que começa quando os quadros chegam à sala de extração e termina com o mel envasado, rotulado e armazenado. Nessa fase, o objetivo é separar o mel da cera e reduzir ao mínimo a incorporação de impurezas, água, odores e microrganismos, sem aquecer excessivamente. Pequenos descuidos (um balde com cheiro, um pano sujo, um aquecimento alto para “render”) podem comprometer sabor, aroma, cristalização e segurança do produto.
Fluxo completo pós-colheita (do quadro ao pote)
1) Preparação do ambiente e organização do fluxo
Antes de abrir os quadros, organize um fluxo “limpo” e “sujo” para evitar contaminação cruzada:
- Área limpa: desoperculação, extração, filtragem, decantação e envase.
- Área suja: recebimento de quadros, armazenamento temporário de caixas/quadros vazios, descarte de opérculos e resíduos.
- Controle de acesso: portas fechadas, telas/janelas protegidas para evitar abelhas e insetos.
- Superfícies laváveis: bancadas e piso fáceis de higienizar.
Trabalhe com recipientes e utensílios de grau alimentício (inox 304/316, plástico PP/PEAD apropriado para alimentos, vidro) e evite materiais que soltem partículas ou odores.
2) Desoperculação (retirada dos opérculos)
Desopercular é remover a “tampa” de cera que sela as células de mel. O objetivo é abrir as células sem triturar demais a cera e sem incorporar fragmentos.
- Ferramentas comuns: garfo desoperculador, faca desoperculadora (lisa ou serrilhada), mesa/bandeja de desoperculação com peneira.
- Como fazer: apoie o quadro na mesa; passe a faca/garfo nivelando a superfície até expor as células. Ajuste o ângulo para retirar apenas a camada de opérculo.
- Cuidados: evite “raspar fundo” (aumenta cera no mel e reduz rendimento). Mantenha a ferramenta limpa durante o processo.
Opérculos devem escorrer em recipiente próprio (com peneira) para recuperar mel aderido. Não misture opérculos com resíduos de limpeza ou materiais não alimentícios.
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3) Extração (centrifugação)
A extração remove o mel por força centrífuga no extrator. O ponto-chave é não quebrar os favos e manter o mel fluido o suficiente para escoar, sem aquecimento excessivo.
- Passo a passo:
- Coloque os quadros desoperculados no extrator, equilibrando o peso (quadros semelhantes em lados opostos).
- Comece em rotação baixa para não estourar o favo.
- Aumente gradualmente a rotação até o mel sair bem.
- Se o extrator for tangencial, extraia um lado, vire os quadros e extraia o outro.
- Deixe o mel escorrer pelo registro inferior para o sistema de filtragem/decantação.
Temperatura: se o mel estiver muito viscoso (frio), prefira aquecer o ambiente da sala de extração de forma moderada e controlada, em vez de aquecer diretamente o mel. Evite temperaturas altas que aceleram perda de aromas e podem aumentar HMF (indicador de aquecimento/envelhecimento).
4) Filtragem (remoção de partículas)
Filtrar é reter pedaços de cera, abelhas acidentais e partículas maiores. Para pequenos produtores, o ideal é uma filtragem em etapas:
- Filtragem grossa: peneira maior logo após o extrator.
- Filtragem fina: peneira mais fina antes do decantador ou do maturador.
Evite “forçar” o mel na peneira com utensílios que soltem fibras. Se a filtragem estiver lenta, a causa geralmente é temperatura baixa (mel muito viscoso) ou excesso de cera por desoperculação agressiva.
5) Decantação (maturação/clarificação)
Decantar é deixar o mel em repouso para que bolhas de ar e microfragmentos de cera subam à superfície, formando uma espuma/camada superior que pode ser removida. Isso melhora aparência e estabilidade.
- Recipiente: maturador/decantador com tampa e registro inferior (inox ou plástico grau alimentício).
- Tempo: em geral 24–72 horas, dependendo da viscosidade e da quantidade de ar incorporado.
- Como proceder: mantenha tampado; evite mexer; após o repouso, retire a espuma/cera superficial com utensílio limpo; envase pelo registro inferior para não arrastar a camada de cima.
6) Envase (enchimento dos recipientes)
O envase deve minimizar contato com ar, poeira e odores. Trabalhe com potes secos e limpos, e com o mel em condição fluida natural (sem superaquecimento).
- Passo a passo:
- Higienize e seque completamente os recipientes e tampas (umidade residual é inimiga do mel).
- Posicione os potes em superfície limpa e nivelada.
- Envase pelo registro do maturador/decantador, mantendo fluxo contínuo para reduzir bolhas.
- Deixe um pequeno espaço livre (headspace) e feche imediatamente.
- Limpe eventuais respingos externos para evitar pegajosidade e atração de insetos.
Evite aquecer o mel para “facilitar” o envase. Se necessário, use aquecimento suave e indireto (banho-maria controlado no recipiente fechado, ou sala aquecida moderadamente), sempre priorizando preservar aroma e enzimas naturais.
Fatores de qualidade do mel (o que observar e como prevenir problemas)
Umidade (risco de fermentação)
Mel com umidade elevada tem maior chance de fermentar (formação de gás, espuma, cheiro alcoólico/azedo). A umidade pode aumentar por:
- Ambiente muito úmido na extração/armazenamento.
- Recipientes mal vedados.
- Potes ou baldes com água residual.
- Tempo prolongado com mel exposto ao ar.
Boas práticas: manter tampas fechadas, reduzir tempo de exposição, usar recipientes secos, armazenar em local fresco e seco. Para controle mais técnico, utilize refratômetro para medir umidade e registrar os lotes.
Cristalização (processo natural)
Cristalização é a solidificação parcial do mel por formação de cristais de glicose. Não é defeito, mas pode ser indesejada comercialmente dependendo do público. Ela varia conforme:
- Origem floral (proporção glicose/frutose).
- Temperatura de armazenamento (faixas mais frias tendem a cristalizar mais rápido).
- Presença de “sementes” de cristal (partículas finas, pólen, microcristais).
Como lidar: para vender mel líquido por mais tempo, reduza partículas com boa decantação/filtragem e armazene em temperatura estável. Se precisar descristalizar, prefira aquecimento suave e controlado (sem ferver, sem chama direta), monitorando para não degradar aroma e qualidade.
Contaminação (física, química e microbiológica)
- Física: cera em excesso, fragmentos de madeira, poeira, insetos. Prevenção: peneiras adequadas, ambiente fechado, utensílios íntegros.
- Química: resíduos de produtos de limpeza mal enxaguados, contato com recipientes inadequados (tintas, metais não alimentícios), odores absorvidos. Prevenção: usar apenas materiais grau alimentício e sanitizantes apropriados, enxágue correto quando aplicável.
- Microbiológica: o mel é naturalmente pouco favorável a microrganismos, mas pode fermentar se houver umidade alta ou contaminação por água. Prevenção: recipientes secos, vedação e controle de umidade.
Odores e absorção de aromas
O mel absorve odores com facilidade. Armazenar ou envasar perto de combustível, tinta, ração, produtos de limpeza perfumados, temperos fortes ou ambientes com mofo pode alterar o aroma.
- Use sala e armário/depósito sem cheiros.
- Mantenha recipientes sempre bem vedados.
- Evite panos com amaciante/perfume para “limpar” potes e tampas.
Limpeza e sanitização: rotina prática para equipamentos e utensílios
Princípios básicos
- Limpeza remove sujeira visível (mel, cera, pó). Sem limpeza, a sanitização perde eficácia.
- Sanitização reduz carga microbiana em superfícies já limpas.
- Secagem é crítica: água residual pode elevar umidade do mel e favorecer fermentação.
Rotina sugerida (antes, durante e depois)
- Antes: lave com detergente neutro e água potável os itens que terão contato com mel; enxágue bem; deixe secar ao ar; mantenha coberto.
- Durante: se cair utensílio no chão, retire do uso e re-higienize; troque peneiras se saturarem de cera; mantenha tampas fechadas.
- Depois: remova resíduos de mel/cera ainda frescos (facilita); lave; sanitizar conforme produto indicado para uso alimentício; enxágue se o sanitizante exigir; seque e armazene fechado.
Dica prática: mel e cera saem melhor com água morna (não precisa água muito quente). Evite esponjas que soltem partículas. Prefira escovas próprias e panos sem fiapos.
Recipientes apropriados, rotulagem básica e armazenamento
Recipientes (baldes e potes)
- Para decantação/armazenamento a granel: baldes de PEAD/PP grau alimentício com tampa vedante ou maturadores de inox com registro.
- Para venda: potes de vidro ou plástico grau alimentício com tampa de boa vedação.
- Evite: recipientes reutilizados que tiveram produtos com cheiro forte (picles, temperos, químicos), baldes de tinta, metais que possam oxidar.
Rotulagem básica (organização e rastreabilidade)
Mesmo em pequena escala, rotular ajuda a controlar qualidade e identificar problemas. Inclua ao menos:
- Identificação do lote (código simples).
- Data de envase.
- Origem (apiário/localidade) e tipo (se monofloral/multifloral, quando aplicável).
- Peso líquido.
Para controle interno, vale adicionar no rótulo técnico (ou etiqueta no balde): umidade medida, observações de cor/aroma e eventuais ocorrências (ex.: “filtragem lenta”, “muito ar incorporado”).
Condições ideais de armazenamento
- Temperatura: estável e fresca; evite calor constante (acelera escurecimento e perda de aromas). Evite alternância grande de temperatura (favorece condensação interna em recipientes mal vedados).
- Luz: manter ao abrigo de luz direta; prefira local escuro ou embalagens protegidas.
- Vedação: tampas bem fechadas para impedir absorção de umidade e odores.
- Ambiente: seco, limpo, sem produtos odoríferos e sem risco de pragas (formigas, baratas).
Checklist de controle de qualidade (pequeno produtor)
Use este checklist por lote (balde/maturador) e por dia de envase. Marque OK, NÃO OK e registre ações corretivas.
| Item | Verificação | OK/NÃO OK | Ação corretiva |
|---|---|---|---|
| Ambiente | Sala limpa, sem poeira, sem odores fortes, portas/telas fechadas | ||
| Equipamentos | Extrator, peneiras, maturador e utensílios limpos, íntegros e secos | ||
| Recipientes | Baldes/potes grau alimentício, sem cheiro, secos, tampas íntegras | ||
| Desoperculação | Baixa incorporação de cera (cortes superficiais, sem “raspar fundo”) | ||
| Extração | Quadros equilibrados, rotação gradual, sem quebrar favos | ||
| Filtragem | Peneiras adequadas, sem transbordo, sem contato com materiais fibrosos | ||
| Decantação | Repouso suficiente, tampa fechada, remoção da espuma/cera superficial | ||
| Umidade | Medição com refratômetro (se disponível) registrada no lote | ||
| Sensorial | Aroma limpo (sem cheiro de fumaça, combustível, mofo), sabor típico | ||
| Envase | Potes fechados imediatamente, sem respingos, sem bolhas excessivas | ||
| Rotulagem | Lote e data de envase aplicados; identificação interna completa | ||
| Armazenamento | Local fresco, escuro, seco; recipientes vedados; afastado de odores |
Modelo simples de código de lote
Um padrão fácil de aplicar:
AAAAMMDD-APIARIO-NN (ex.: 20260127-A1-03)AAAAMMDD: data do envaseAPIARIO: código do apiário (A1, A2...)NN: número sequencial do lote no dia