Ambiguidade na Interpretação de Texto: identificar leituras possíveis e resolver pelo contexto

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é ambiguidade na interpretação de texto

Ambiguidade ocorre quando um enunciado permite mais de uma leitura plausível. Ela pode ser intencional (efeito de estilo, humor, duplo sentido) ou acidental (falta de clareza). Em provas e textos informativos, a ambiguidade costuma ser um problema: o leitor precisa identificar as leituras possíveis e, em seguida, escolher a mais provável com base em pistas do próprio texto.

Três fontes muito frequentes de ambiguidade são: lexical (uma palavra com mais de um sentido), sintática (a estrutura permite mais de um encaixe) e referencial (não fica claro a quem/ao quê um pronome ou termo retoma; inclui elipses).

1) Ambiguidade lexical (sentido da palavra)

Como ela aparece

Uma mesma palavra pode ter sentidos diferentes, e o enunciado, sozinho, não “fecha” um deles. Exemplos comuns: banco (instituição/assento), manga (fruta/parte da roupa), grave (sério/baixo), capital (cidade/dinheiro).

Exemplos com duas leituras

  • “Ele ficou no banco por horas.”

    • Leitura A: ficou sentado em um assento.
    • Leitura B: ficou na instituição financeira.
  • “A capital cresceu muito.”

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    • Leitura A: a cidade capital aumentou (população, área etc.).
    • Leitura B: o capital (dinheiro, recursos) aumentou.

Como o contexto desambigua (pistas típicas)

  • Campo semântico: palavras vizinhas “puxam” um sentido. Ex.: “agência”, “saque”, “fila” favorecem banco = instituição.
  • Coesão lexical (repetições e sinônimos): se o texto retoma “instituição”, “conta”, “juros”, a leitura financeira se impõe.
  • Especificadores: adjuntos e complementos fecham o sentido. Ex.: “banco da praça” vs “banco central”.

2) Ambiguidade sintática (estrutura da frase)

Como ela aparece

A ambiguidade sintática surge quando um termo pode se ligar a mais de um elemento da frase, ou quando a ordem dos termos permite mais de uma organização. É muito comum com adjuntos adverbiais, orações reduzidas, expressões preposicionais e pontuação.

Casos clássicos

2.1) Modificador “solto” (onde o termo encaixa?)

  • “Vi o homem com o binóculo.”

    • Leitura A: eu usei o binóculo para ver o homem.
    • Leitura B: o homem estava com o binóculo.

Como desambiguar por coesão e contexto: se o texto menciona “observação”, “lente”, “aproximar a imagem”, favorece A; se menciona “objeto na mão”, “segurava”, favorece B.

2.2) Escopo de advérbio (o que ele modifica?)

  • “Ela quase perdeu o voo.”

    • Leitura A: por pouco, não perdeu (chegou a tempo).
    • Leitura B: quase aconteceu a perda (mas não se sabe se perdeu ou não, dependendo do restante).

Em textos avaliativos, a continuação resolve: “mas conseguiu embarcar” fecha A; “e precisou remarcar” fecha a ideia de perda efetiva.

2.3) Coordenação e paralelismo (quem faz o quê?)

  • “O professor elogiou o aluno e o diretor.”

    • Leitura A: elogiou o aluno e elogiou o diretor.
    • Leitura B: elogiou o aluno e (o aluno) elogiou o diretor (menos provável, mas possível em certos contextos).

O paralelismo e a concordância ajudam: se o texto mantém o mesmo sujeito para verbos coordenados, A tende a ser a leitura natural. Se houver mudança de sujeito, o texto costuma sinalizar com pontuação, repetição do sujeito ou conectores.

2.4) Pontuação como desambiguador

Compare:

  • “Vamos perder, nada está resolvido.” (afirma que vão perder; “nada está resolvido” explica)
  • “Vamos perder nada; está resolvido.” (nega a perda; “está resolvido” reforça)

Em questões objetivas, a pontuação é pista de primeira ordem: vírgulas, dois-pontos e ponto e vírgula frequentemente mudam o alcance de um termo.

3) Ambiguidade referencial (pronomes, retomadas e elipses)

Como ela aparece

Ocorre quando não fica claro quem é o referente de um pronome (“ele”, “ela”, “isso”, “aquele”), de um demonstrativo (“este”, “esse”), ou quando há elipse (algo omitido) e o leitor precisa recuperar o termo ausente.

3.1) Pronomes com mais de um antecedente possível

  • “Marina contou a Paula que ela passou no concurso.”

    • Leitura A: Marina passou.
    • Leitura B: Paula passou.

Como o texto costuma resolver: por retomadas explícitas (“Marina passou...”), por informações de mundo dentro do texto (“Paula estudava há anos...”), ou por reescrita com nome próprio.

3.2) Demonstrativos e proximidade textual

Em geral (embora haja variação), demonstrativos podem indicar proximidade no texto:

  • “isso/esse”: tende a retomar algo já mencionado ou próximo do interlocutor.
  • “isto/este”: pode apontar para o que vem a seguir ou para algo mais próximo do enunciador.

Exemplo:

  • “Ele falhou em duas etapas. Isso comprometeu o resultado.” (“isso” retoma “falhou em duas etapas”)
  • “Isto é decisivo: revisar o contrato antes de assinar.” (“isto” aponta para a explicação que vem)

3.3) Elipse (termo omitido) e risco de leitura errada

  • “João gosta de café; Maria, de chá.”

    • Leitura correta: “Maria gosta de chá.” (verbo omitido por elipse)
    • Leitura equivocada (pegadinha): achar que “Maria” é objeto de “gosta” ou que a frase está “incompleta” sem sentido.

O paralelismo é a pista: a segunda parte espelha a primeira, repetindo a estrutura com omissão do que é recuperável.

Como o contexto e a coesão desambiguam: um passo a passo prático

Passo 1: marque o ponto exato de ambiguidade

Pergunte: qual palavra, estrutura ou pronome permite duas leituras? Sublinhe mentalmente (ou no rascunho) o trecho que “abre” a dúvida.

Passo 2: liste duas interpretações completas

Não basta dizer “pode ser X ou Y”. Escreva as duas versões como frases completas, deixando explícito o que muda.

Enunciado: “Vi o homem com o binóculo.”  A) Eu usei o binóculo para ver.  B) O homem estava com o binóculo.

Passo 3: procure pistas de coesão (retomadas e encadeamento)

  • Retomadas: o texto repete, substitui por sinônimo, usa pronomes/demonstrativos para retomar um termo específico.
  • Concordância: gênero e número podem eliminar um antecedente (“elas” não retoma “o menino”).
  • Paralelismo: estruturas repetidas indicam o que foi omitido (elipse) e como ler a segunda parte.

Passo 4: observe ordem dos termos e pontuação

  • Ordem: em português, a posição de adjuntos e orações reduzidas pode indicar o alvo do modificador.
  • Pontuação: vírgulas podem isolar apostos, deslocar adjuntos e mudar o alcance de expressões.

Passo 5: escolha a leitura mais provável e justifique com trecho

Em prova, a justificativa precisa ser textual: cite a palavra/expressão que fecha o sentido. Evite justificar com “acho que” ou apenas com conhecimento de mundo fora do texto.

Exemplos guiados de desambiguação (com justificativa textual)

Exemplo 1 (lexical)

Trecho: “Após o saque, ele saiu do banco e atravessou a rua.”

  • Leitura A: banco = instituição financeira.
  • Leitura B: banco = assento.

Mais provável: A. Justificativa: “saque” é termo do campo financeiro e cria coesão lexical com “banco”.

Exemplo 2 (sintática + pontuação)

Trecho: “Os alunos que estudaram pouco, passaram.”

  • Leitura A: todos os alunos passaram; a oração “que estudaram pouco” é explicativa (vírgulas) e apenas comenta.
  • Leitura B: só os que estudaram pouco passaram (leitura típica sem vírgulas), o que seria estranho.

Mais provável: A, porque as vírgulas sinalizam oração explicativa, não restritiva. Em itens de prova, trocar ou retirar vírgulas é uma pegadinha comum para mudar o sentido.

Exemplo 3 (referencial)

Trecho: “Carlos discutiu com Pedro quando ele chegou.”

  • Leitura A: Carlos chegou.
  • Leitura B: Pedro chegou.

Como resolver: procure no texto anterior/posterior uma retomada (“Pedro, atrasado, chegou...”) ou uma concordância/descrição que identifique o “ele”. Sem isso, a frase isolada permanece ambígua, e uma questão bem feita não exigiria escolher sem pistas.

Pegadinhas comuns em questões objetivas (e como evitá-las)

1) Alternativa que “resolve” a ambiguidade inventando informação

Quando o enunciado é ambíguo, uma alternativa pode escolher uma leitura e acrescentar detalhes não presentes no texto para torná-la convincente.

  • Como evitar: exija sempre a pista textual que fecha o sentido. Se a alternativa depende de um detalhe que não está no texto, desconfie.

2) Troca de referente de pronome (“ele/ela/isso”) no meio da explicação

A alternativa começa retomando corretamente, mas depois muda o referente sem avisar.

  • Como evitar: faça um “rastreamento” do pronome: escreva ao lado “ele = ___” e confira se a alternativa mantém o mesmo antecedente.

3) Confundir oração restritiva e explicativa (vírgulas)

Questões exploram o efeito de sentido das vírgulas:

  • Restritiva (sem vírgulas): seleciona um subconjunto. “Os alunos que faltaram reprovaram.” (não são todos)
  • Explicativa (com vírgulas): adiciona comentário sobre o conjunto. “Os alunos, que faltaram, reprovaram.” (sugere que todos faltaram)
  • Como evitar: observe se a alternativa respeita a pontuação e o efeito de “selecionar” vs “comentar”.

4) Ambiguidade sintática com adjunto (“com”, “de”, “em”) e leitura apressada

Expressões preposicionais podem se ligar a elementos diferentes.

  • Como evitar: reescreva mentalmente em duas versões e procure no texto uma palavra que “puxe” uma delas (coesão lexical) ou uma estrutura paralela.

5) Elipse interpretada como falta de informação

Alguns itens tratam elipse como se fosse “lacuna de sentido”.

  • Como evitar: procure o paralelismo: se a segunda parte repete a estrutura da primeira, o termo omitido é recuperável e faz parte da coesão.

Exercícios (duas interpretações + escolha da mais provável)

Instruções: em cada item, (1) escreva duas interpretações possíveis; (2) escolha a mais provável; (3) justifique citando a pista textual (uma palavra, expressão, pontuação ou retomada).

Exercício 1 (lexical)

Trecho: “Depois de revisar a taxa, o banco anunciou novas condições.”

  • Interpretação A:
  • Interpretação B:
  • Mais provável:
  • Pista textual:

Exercício 2 (sintática: modificador)

Trecho: “O repórter entrevistou a atriz no camarim com pressa.”

  • Interpretação A:
  • Interpretação B:
  • Mais provável:
  • Pista textual (se houver):

Exercício 3 (referencial: pronome)

Trecho: “Ana avisou Beatriz que ela teria de refazer a prova.”

  • Interpretação A:
  • Interpretação B:
  • Mais provável:
  • Pista textual (se houver):

Exercício 4 (elipse e paralelismo)

Trecho: “Alguns preferem estudar de manhã; outros, à noite.”

  • Interpretação A (com termo elíptico recuperado):
  • Interpretação B (leitura equivocada possível):
  • Mais provável:
  • Pista textual:

Exercício 5 (pontuação)

Trecho A: “Não, espere.” Trecho B: “Não espere.”

  • Duas interpretações (uma para cada trecho):
  • Explique como a pontuação muda o sentido:

Exercício 6 (pegadinha de alternativa)

Trecho: “O gerente falou com o cliente irritado.”

Alternativa X: “O gerente estava irritado ao falar com o cliente.”

Alternativa Y: “O cliente estava irritado ao falar com o gerente.”

  • Mostre por que o trecho permite X e Y:
  • O texto (isolado) permite escolher uma só? O que faltaria para decidir?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma frase ambígua, qual procedimento é mais adequado para escolher a interpretação mais provável sem inventar informações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para resolver ambiguidade em contextos avaliativos, é preciso marcar onde ela ocorre, formular duas leituras completas e escolher a mais provável com base em pistas textuais (coesão, pontuação, concordância e paralelismo), evitando acrescentar detalhes ausentes.

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