Este capítulo foca em técnicas e conhecimentos práticos para diligências e operações, com ênfase em padronização de procedimentos, segurança, registro de decisões e respeito a direitos fundamentais. A ideia é reduzir improviso: quanto mais previsível for o método, menor o risco operacional e jurídico.
1) Planejamento operacional imediato (briefing)
Planejamento operacional imediato é a organização rápida e objetiva, feita antes da execução, para alinhar missão, riscos, papéis e comunicação. Mesmo em diligências simples, um briefing curto evita falhas como duplicidade de tarefas, lacunas de segurança e abordagens incoerentes.
1.1 Estrutura do briefing (modelo prático)
- Objetivo: o que se busca (ex.: cumprir mandado, localizar pessoa, coletar elemento informativo, realizar vigilância).
- Base legal e limites: qual autorização existe (mandado, flagrante, consentimento, situação de risco) e o que não pode ser feito.
- Inteligência mínima: quem/onde/como (endereço, rotas, rotina, riscos conhecidos, presença de terceiros).
- Riscos e mitigação: armas, fuga, multidão, animais, ambiente confinado, escadas, iluminação, câmeras, trânsito.
- Papéis: quem comanda, quem aborda, quem cobre, quem registra, quem dirige, quem faz custódia.
- Comunicação: canal, palavras-chave, sinais, plano de silêncio, código para “interromper/retirar”.
- Plano A/B: se não estiver no local; se houver resistência; se houver criança/idoso; se houver imprensa; se houver risco de incêndio/colapso.
- Critérios de interrupção: quando abortar por risco desproporcional ou ausência de base legal.
1.2 Checklist de briefing (rápido, 2–5 minutos)
- Missão definida em uma frase?
- Base legal confirmada e compreendida por todos?
- Endereço/rota/ponto de encontro confirmados?
- Papéis distribuídos (comandante, abordagem, cobertura, custódia, registro)?
- Canal de comunicação testado e palavra de segurança definida?
- Plano de evacuação e ponto de reunião pós-ação?
- Equipamentos essenciais checados (EPIs, algemas, lanterna, rádio, kit básico)?
- Critérios de uso da força e de algemação alinhados?
2) Comunicação operacional e coordenação em campo
Comunicação operacional é o conjunto de regras para transmitir informação útil com clareza, brevidade e rastreabilidade. O objetivo é evitar ruído, reduzir tempo de reação e manter comando e controle.
2.1 Regras práticas de comunicação
- Brevidade: frases curtas, sem narrativas longas no rádio.
- Conteúdo mínimo: quem chama, onde está, o que vê, o que precisa.
- Confirmação: mensagens críticas devem ser repetidas/confirmadas (ex.: “recebido, mantendo perímetro”).
- Disciplina: evitar falar simultaneamente; priorizar emergências.
- Registro: decisões relevantes devem ser anotadas (horário, motivo, ordem recebida).
2.2 Exemplo de frase padrão (rádio)
“Equipe Alfa para Comando: visual do alvo na entrada do prédio, acompanhado de duas pessoas. Solicito orientação: abordagem imediata ou acompanhamento discreto?”3) Abordagem e busca pessoal/veicular sob perspectiva legal (noções procedimentais)
Abordagem é a intervenção para controle e verificação, com foco em segurança e legalidade. Busca pessoal e veicular são medidas invasivas e devem ser justificadas por critérios objetivos e proporcionais, respeitando dignidade, intimidade e integridade física.
3.1 Princípios operacionais aplicáveis
- Legalidade e finalidade: agir dentro da autorização e com objetivo claro (segurança, prevenção de fuga, localização de objeto relevante).
- Necessidade: fazer apenas o indispensável para o fim legítimo.
- Proporcionalidade: intensidade da intervenção compatível com o risco e a resistência.
- Não discriminação: critérios objetivos, evitando seletividade indevida.
- Segurança: controle de mãos, distância, ângulos e cobertura.
3.2 Passo a passo de abordagem (modelo seguro)
- 1) Observação prévia: identificar pessoas, mãos, volume na cintura, rotas de fuga, terceiros.
- 2) Posicionamento: manter vantagem de ângulo, evitar ficar alinhado com portas/janelas, usar cobertura quando possível.
- 3) Identificação e comando verbal: apresentar-se, dar ordens claras e uma de cada vez (ex.: “mãos visíveis”, “afaste-se do veículo”).
- 4) Controle inicial: priorizar controle das mãos e afastamento de objetos/veículo.
- 5) Verificação e entrevista breve: perguntas objetivas (nome, motivo da presença, se há objetos perigosos).
- 6) Busca (se cabível): executar de forma técnica, respeitosa e com justificativa registrada.
- 7) Encerramento: devolver itens não apreendidos, orientar e liberar ou conduzir conforme necessidade legal.
3.3 Busca pessoal: técnica e cautelas
Busca pessoal deve priorizar segurança e respeito. Procedimentalmente, recomenda-se: explicar o motivo de forma simples, manter a pessoa em posição estável, controlar mãos e cintura, e realizar varredura sistemática (cintura, bolsos, tornozelos, áreas de ocultação). Evite exposição desnecessária, contato excessivo e comentários inadequados. Se houver necessidade de busca mais invasiva, adote cautelas adicionais e registre a motivação e o procedimento.
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3.4 Busca veicular: pontos críticos e segurança
- Antes: motor desligado, chave controlada, ocupantes afastados e sob controle.
- Durante: varredura por setores (porta do motorista, console, bancos, porta-luvas, porta-malas), atenção a compartimentos ocultos.
- Segurança: cuidado com objetos perfurocortantes, armas, drogas e risco biológico.
- Documentação: registrar o que motivou a busca, o que foi encontrado, onde estava e quem presenciou.
3.5 Checklist de abordagem e busca
- Há justificativa objetiva para a intervenção e para a busca?
- Comandos verbais foram claros e graduais?
- Controle de mãos e posicionamento seguro foram mantidos?
- Terceiros foram gerenciados (distância, isolamento, testemunhas)?
- Busca foi sistemática e respeitosa, com mínima invasividade?
- Itens apreendidos foram acondicionados e identificados adequadamente?
- Registro de horários, local, participantes e motivos foi feito?
4) Preservação de local e controle de perímetro
Preservar local é manter a integridade do ambiente e dos vestígios, evitando contaminação, alteração ou desaparecimento. Controle de perímetro é a organização do espaço para segurança e preservação, definindo quem entra, por onde e por quê.
4.1 Passo a passo para preservação imediata
- 1) Segurança: verificar ameaças (agressor, armadilhas, risco elétrico, incêndio, vazamento).
- 2) Isolamento: estabelecer perímetro inicial maior do que o “necessário” e reduzir depois, se preciso.
- 3) Controle de acesso: ponto único de entrada/saída; registrar quem entrou, horário e motivo.
- 4) Proteção de vestígios: evitar pisoteio, toque, movimentação de objetos; criar corredores de passagem.
- 5) Separação de pessoas: testemunhas e envolvidos separados para evitar combinação de versões.
- 6) Comunicação: acionar equipes de apoio e orientar sobre preservação.
4.2 Perímetro em camadas
- Perímetro interno: área de vestígios; acesso extremamente restrito.
- Perímetro externo: área de segurança e controle de curiosos; ponto de triagem.
- Ponto de comando: local para coordenação, registro e tomada de decisão.
4.3 Checklist de preservação e perímetro
- Perímetro interno e externo definidos e sinalizados?
- Ponto único de acesso estabelecido?
- Registro de entrada/saída iniciado?
- Riscos ambientais avaliados e mitigados?
- Testemunhas separadas e identificadas?
- Vestígios protegidos contra clima, curiosos e contaminação?
5) Condução segura de pessoas (custódia e transporte)
Condução segura é o conjunto de medidas para transportar e custodiar pessoas minimizando risco de fuga, agressão, autolesão e alegações de abuso. Deve ser guiada por necessidade, proporcionalidade e respeito à integridade física e moral.
5.1 Procedimento prático de condução
- 1) Avaliação inicial: estado físico, sinais de intoxicação, lesões aparentes, comportamento.
- 2) Busca de segurança: antes de entrar em viatura, verificar objetos perigosos.
- 3) Posicionamento e controle: manter distância segura, controlar mãos, evitar aglomeração.
- 4) Embarque: entrada controlada, atenção à cabeça/ombros para evitar lesões acidentais.
- 5) Transporte: rota planejada, comunicação com central, paradas apenas se necessário e em local seguro.
- 6) Entrega e registro: formalizar custódia, registrar horários, condições e eventuais intercorrências.
5.2 Checklist de condução e transporte
- Condição física observada e registrada (se necessário)?
- Busca de segurança realizada antes do embarque?
- Algemação avaliada por critérios objetivos (quando aplicável)?
- Rota e destino confirmados; comunicação ativa?
- Intercorrências registradas com horário e descrição objetiva?
6) Algemação: critérios e boas práticas
Algemação é medida de contenção que restringe liberdade de movimento e deve ser aplicada com justificativa concreta. Procedimentalmente, a decisão deve considerar risco de fuga, resistência, agressividade, risco à equipe/terceiros e contexto (ambiente, número de envolvidos, possibilidade de resgate).
6.1 Critérios operacionais (decisão fundamentada)
- Resistência ativa ou iminente: recusa em obedecer comandos com risco de escalada.
- Risco de fuga: tentativa anterior, oportunidade evidente, ambiente favorável à evasão.
- Risco à integridade: ameaça a policiais, ao próprio conduzido ou a terceiros.
- Contexto tático: inferioridade numérica, local com multidão, necessidade de deslocamento.
6.2 Passo a passo de aplicação segura (procedimental)
- 1) Comando verbal: informar o que será feito e orientar postura (mãos para trás, dedos entrelaçados, afastar pés).
- 2) Controle: manter cobertura por outro policial; evitar ficar sozinho na contenção.
- 3) Aplicação: técnica padronizada, evitando torções desnecessárias.
- 4) Checagem: ajuste para evitar lesão (sem apertar excessivamente), verificar circulação e conforto mínimo.
- 5) Monitoramento: reavaliar necessidade ao longo do tempo; registrar motivo e circunstâncias.
6.3 Erros comuns a evitar
- Algemar por rotina, sem critério e sem registro.
- Exposição desnecessária do conduzido (humilhação, exibição).
- Negligenciar queixas de dor intensa, dormência ou sinais de lesão.
- Manter algemas quando o risco cessou e não há justificativa.
7) Uso progressivo da força (nível conceitual) e limites
Uso progressivo da força é a adequação do meio empregado ao nível de resistência ou ameaça, buscando sempre o menor nível eficaz para controlar a situação. O foco é cessar a ameaça, não punir. A força deve ser necessária, proporcional e interrompida quando o objetivo legítimo for atingido.
7.1 Escada conceitual (exemplo didático)
- Presença e postura profissional: uniformidade, posicionamento, vigilância.
- Comunicação verbal: comandos claros, negociação, advertências.
- Controle físico: contenções e técnicas de imobilização proporcionais.
- Instrumentos de menor potencial ofensivo: conforme treinamento e regras internas.
- Força potencialmente letal: apenas diante de ameaça grave e atual, dentro dos limites legais e técnicos.
7.2 Regras práticas para decisão em segundos
- Objetivo: qual ameaça precisa cessar agora?
- Ambiente: há terceiros, espaço confinado, risco de queda, trânsito?
- Alternativas: há opção menos lesiva com mesma eficácia?
- Tempo: há tempo para verbalização/negociação?
- Após controle: interromper a força, reavaliar, prestar assistência se necessário e registrar.
7.3 Checklist de uso da força (pós-evento)
- A ameaça/resistência foi descrita objetivamente?
- O meio usado foi o mínimo eficaz nas circunstâncias?
- Houve interrupção assim que cessou a necessidade?
- Houve assistência/avaliação de lesões quando aplicável?
- Relato e registros foram feitos com horários e testemunhas?
8) Segurança em deslocamentos (a pé e com viatura)
Segurança em deslocamentos é a prevenção de emboscadas, perdas de vigilância, acidentes e exposição desnecessária. Inclui rotas, postura, distância, cobertura e disciplina de informação.
8.1 Deslocamento a pé: práticas essenciais
- Varredura visual: mãos, cintura, janelas, esquinas, veículos parados com ocupantes.
- Uso de cobertura: paredes, pilares, veículos; evitar áreas abertas sem necessidade.
- Distância e ângulo: não “colar” em portas; manter campo de visão e reação.
- Controle de esquina: aproximação lenta, checagem por ângulo, evitar exposição do corpo inteiro.
- Gestão de terceiros: orientar afastamento, criar zona de segurança.
8.2 Deslocamento com viatura: práticas essenciais
- Rota e alternativas: planejar rota principal e secundária; evitar previsibilidade.
- Chegada ao alvo: evitar parar exatamente em frente; observar antes de desembarcar.
- Desembarque: coordenado, com cobertura; portas como abrigo momentâneo.
- Estacionamento: posição que facilite saída rápida; evitar “encaixotar” a viatura.
- Comunicação: informar marcos de posição e mudanças de plano.
8.3 Checklist de deslocamento
- Rota principal e alternativa definidas?
- Ponto de encontro e de evacuação definidos?
- Chegada com observação prévia e desembarque coordenado?
- Viatura posicionada para saída segura?
- Disciplina de comunicação mantida?
9) Estudos de caso narrativos para decisão (com foco procedimental)
Caso 1: Diligência de localização com risco de fuga
Cenário: equipe recebe informação de que um investigado pode estar em um endereço residencial. Há histórico de evasão e o local tem duas saídas (porta frontal e corredor lateral). Há vizinhos circulando.
Decisão 1 (briefing rápido): definir objetivo (“localizar e confirmar presença”), base legal e limites; distribuir papéis (abordagem, cobertura, perímetro, registro); definir palavra de interrupção.
Decisão 2 (controle de perímetro): estabelecer perímetro externo discreto para evitar fuga pelo corredor lateral, mantendo distância para não alertar. Um policial fica responsável por observar a saída secundária.
Decisão 3 (abordagem): ao contato com morador, comunicação clara e respeitosa. Se o investigado aparecer, comandos verbais para mãos visíveis e afastamento de terceiros. Busca pessoal somente se houver justificativa objetiva (segurança e contexto).
Ponto de atenção: se o investigado tentar correr, a equipe deve priorizar segurança de terceiros e avaliar proporcionalidade na contenção. Após controle, registrar objetivamente a tentativa de fuga e as medidas adotadas.
Caso 2: Abordagem veicular com suspeita de objeto perigoso
Cenário: veículo parado em local escuro; ocupante demonstra nervosismo e faz movimentos repetidos em direção ao console. Há trânsito próximo.
Decisão 1 (posicionamento): aproximar com ângulo de segurança, manter cobertura e distância. Um policial assume comunicação; outro, cobertura.
Decisão 2 (comandos): ordenar mãos visíveis e desligar o motor. Solicitar que o ocupante saia lentamente e se afaste do veículo.
Decisão 3 (busca veicular): com ocupante controlado e afastado, realizar varredura por setores, iniciando por áreas de acesso imediato (console, banco do motorista). Se encontrado objeto ilícito, acondicionar e registrar local exato e circunstâncias.
Ponto de atenção: evitar busca com ocupante ainda dentro do veículo e sem controle das mãos. Priorizar segurança e justificativa objetiva para cada etapa.
Caso 3: Preservação de local com grande fluxo de curiosos
Cenário: ocorrência em via pública com possível vestígio no chão e muitas pessoas filmando. Há risco de pisoteio e contaminação.
Decisão 1 (isolamento imediato): ampliar perímetro inicial e criar corredor de passagem. Designar um responsável pelo controle de acesso.
Decisão 2 (comunicação e gestão de terceiros): orientar afastamento com comandos firmes e respeitosos. Se necessário, solicitar apoio para reforçar perímetro.
Decisão 3 (registro): iniciar lista de quem entrou no perímetro interno e por quê. Registrar horário de isolamento e qualquer alteração inevitável (ex.: socorro).
Ponto de atenção: conciliar preservação com atendimento emergencial quando houver risco à vida, registrando as intervenções inevitáveis no local.
Caso 4: Condução com risco de autolesão e alegação de abuso
Cenário: pessoa conduzida está agitada, alterna choro e agressividade, e ameaça bater a cabeça na viatura. Há risco de lesão e de alegações posteriores.
Decisão 1 (contenção proporcional): priorizar verbalização e controle físico mínimo eficaz. Avaliar necessidade de algemação por risco concreto de autolesão e agressão.
Decisão 2 (transporte seguro): embarque controlado, monitoramento constante, comunicação com a central e escolha de rota mais rápida e segura.
Decisão 3 (registro e integridade): registrar comportamento, medidas adotadas e motivos. Se houver lesão ou queixa relevante, buscar avaliação adequada conforme protocolos.
Ponto de atenção: linguagem e postura profissional, evitando provocações. A clareza do registro e a proporcionalidade das medidas são essenciais para proteção do conduzido e da equipe.
10) Checklists operacionais consolidados (para uso em campo)
10.1 Checklist de diligência/operacional (geral)
- Objetivo definido e compartilhado?
- Base legal e limites compreendidos?
- Riscos mapeados e mitigação planejada?
- Papéis e cadeia de comando definidos?
- Comunicação testada e palavra de segurança definida?
- Plano de perímetro/evacuação pronto?
- Registro de decisões e horários previsto (quem registra)?
10.2 Checklist de abordagem (pessoa/veículo)
- Observação prévia e posicionamento seguro?
- Comandos verbais claros e graduais?
- Controle de mãos e distância mantidos?
- Busca justificada, sistemática e respeitosa?
- Itens apreendidos identificados e acondicionados?
- Testemunhas/terceiros gerenciados?
10.3 Checklist de preservação de local
- Perímetro interno/externo e ponto de comando definidos?
- Controle de acesso com registro iniciado?
- Vestígios protegidos contra contaminação?
- Separação e identificação de testemunhas?
- Riscos ambientais controlados?
10.4 Checklist de condução e algemação
- Risco de fuga/resistência/ameaça justifica contenção?
- Algemas aplicadas com técnica segura e checagem de ajuste?
- Monitoramento contínuo e reavaliação da necessidade?
- Transporte com rota segura e comunicação ativa?
- Registros objetivos de motivos e intercorrências?