Em investigações com componente financeiro, a contabilidade funciona como uma “linguagem” para descrever o que uma pessoa ou empresa possui, deve, ganha e gasta. A leitura correta de demonstrativos e registros contábeis ajuda a transformar movimentações em hipóteses verificáveis: origem de recursos, compatibilidade com renda declarada, padrões de pagamentos, e sinais de ocultação ou integração de valores.
Patrimônio: o que é e por que importa na investigação
Patrimônio é o conjunto de bens, direitos e obrigações de uma entidade (pessoa física ou jurídica) em determinado momento. Na contabilidade, ele é representado pela relação entre ativos, passivos e patrimônio líquido.
- Ativo: bens e direitos (caixa, bancos, estoques, veículos, imóveis, valores a receber).
- Passivo: obrigações (empréstimos, fornecedores a pagar, impostos a recolher).
- Patrimônio Líquido (PL): “o que sobra” para os sócios/ titular. Fórmula: PL = Ativo − Passivo.
Aplicação investigativa: variações patrimoniais incompatíveis com a capacidade econômica declarada podem indicar renda não declarada, interposição de terceiros, simulação de dívidas ou aquisição com recursos de origem não comprovada.
Passo a passo: leitura patrimonial rápida
- 1) Liste os ativos relevantes: saldos bancários, aplicações, bens registráveis, contas a receber.
- 2) Liste os passivos: empréstimos, financiamentos, fornecedores, tributos parcelados.
- 3) Calcule o PL e compare com períodos anteriores.
- 4) Pergunte “o que explica a variação?”: lucro, aporte, venda de ativo, novo empréstimo, reavaliação, ou evento não explicado.
Receitas e despesas: resultado e sinais de inconsistência
Receita é o valor gerado pela atividade (vendas, prestação de serviços, juros recebidos). Despesa é o consumo de recursos para gerar receita (salários, aluguel, energia, marketing, serviços de terceiros). O confronto entre receitas e despesas forma o resultado (lucro ou prejuízo).
Aplicação investigativa: despesas elevadas sem lastro operacional (ex.: “consultorias” recorrentes sem entregáveis), receitas subfaturadas, ou margens fora do padrão do setor podem indicar simulação, caixa dois, ou pagamentos disfarçados.
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Indicadores simples úteis
- Margem = (Receita − Custos/Despesas) ÷ Receita. Quedas abruptas podem sinalizar subfaturamento ou aumento artificial de despesas.
- Concentração de fornecedores: muitos pagamentos para poucos CNPJs, especialmente recém-criados, pode indicar empresas de fachada.
- Recorrência e arredondamentos: pagamentos mensais com valores “redondos” (ex.: R$ 9.900,00) podem sugerir contratos simulados.
Regime de competência x regime de caixa
Regime de competência reconhece receitas e despesas quando ocorrem (quando o serviço é prestado ou a obrigação nasce), mesmo que o dinheiro ainda não tenha sido recebido/pago. Regime de caixa reconhece quando há entrada/saída de dinheiro.
Aplicação investigativa: a divergência entre lucro (competência) e dinheiro (caixa) é um ponto crítico. Uma empresa pode mostrar lucro contábil e, ainda assim, ter caixa baixo (por vendas a prazo não recebidas). O inverso (muito caixa com pouco resultado) pode indicar receitas não contabilizadas, empréstimos informais, ou entradas de origem não comprovada.
Passo a passo: checagem rápida competência x caixa
- 1) Compare DRE (resultado) com variação de caixa/bancos no período.
- 2) Se lucro alto e caixa cai: verifique contas a receber, estoques, investimentos, amortização de dívidas.
- 3) Se lucro baixo e caixa sobe: verifique empréstimos, aportes, venda de ativos, receitas não registradas.
- 4) Valide com extratos: identifique entradas/saídas que não aparecem como receita/despesa (ex.: “mútuos”, “adiantamentos”, “empréstimos de sócios”).
Demonstrações contábeis essenciais: Balanço e DRE
Balanço Patrimonial (BP)
O Balanço mostra a posição patrimonial em uma data. Estrutura básica:
- Ativo (circulante e não circulante)
- Passivo (circulante e não circulante)
- Patrimônio Líquido
Leitura investigativa: procure por contas “genéricas” ou “elásticas” (ex.: “Outros créditos”, “Adiantamentos”, “Diversos”), saltos abruptos em “Caixa”, “Empréstimos”, “Fornecedores”, e ativos incompatíveis com a atividade (ex.: empresa de serviços com estoque elevado sem explicação).
Demonstração do Resultado do Exercício (DRE)
A DRE resume receitas e despesas de um período, chegando ao lucro/prejuízo. Estrutura simplificada:
- Receita
- (−) Custos/Despesas
- (=) Resultado
Leitura investigativa: verifique coerência entre crescimento de receita e estrutura de custos (pessoal, insumos, tributos). Despesas com “serviços de terceiros” e “consultoria” merecem atenção por serem frequentemente usadas para disfarçar pagamentos.
Contas e lançamentos: a mecânica por trás dos números
Contabilidade registra fatos por contas (caixa, bancos, fornecedores, receitas, despesas etc.) e por lançamentos no método das partidas dobradas: todo lançamento tem débito e crédito de igual valor.
Uma regra prática: Ativos aumentam no débito e diminuem no crédito; Passivos e Patrimônio Líquido aumentam no crédito e diminuem no débito; Despesas aumentam no débito; Receitas aumentam no crédito.
Exemplos de lançamentos (simplificados)
1) Venda à vista de R$ 5.000,00 (serviço prestado e recebido no ato) Débito: Caixa/Bancos 5.000 Crédito: Receita de Serviços 5.0002) Pagamento de aluguel R$ 1.200,00 Débito: Despesa de Aluguel 1.200 Crédito: Caixa/Bancos 1.2003) Compra a prazo de R$ 3.000,00 (insumo) Débito: Estoques/Insumos 3.000 Crédito: Fornecedores 3.000Aplicação investigativa: ao mapear lançamentos para documentos (nota fiscal, contrato, comprovante, extrato), você testa a existência do fato e sua substância econômica. Lançamentos repetidos em contas genéricas, sem documentação robusta, são pontos de fragilidade probatória.
Leitura contábil aplicada: movimentações, inconsistências e fluxo de caixa
Noções de fluxo de caixa para investigação
Fluxo de caixa é a trilha de entradas e saídas de dinheiro ao longo do tempo. Mesmo sem uma demonstração formal, é possível reconstruí-lo com extratos bancários, livros-caixa, relatórios de recebíveis, e pagamentos a fornecedores.
Passo a passo: reconstrução simplificada de fluxo de caixa (com extrato)
- 1) Defina o período (ex.: 3 meses críticos).
- 2) Classifique entradas: vendas/recebíveis, aportes, empréstimos, transferências internas, venda de ativos.
- 3) Classifique saídas: folha, fornecedores, tributos, saques, transferências, aquisição de bens.
- 4) Marque transações sem justificativa: TEDs para terceiros sem contrato, saques fracionados, pagamentos para empresas recém-criadas.
- 5) Cruze com contabilidade: o que está no extrato deve aparecer em contas compatíveis (receita, empréstimo, adiantamento etc.).
Indícios contábeis comuns de ocultação/integração de valores (sem automatismos)
- Entradas fracionadas em valores próximos e recorrentes, seguidas de transferências para terceiros.
- Saques frequentes sem correspondência com despesas operacionais típicas.
- Empréstimos/mútuos entre partes relacionadas sem contrato, sem juros, sem cronograma de pagamento.
- Receitas incompatíveis com capacidade operacional (poucos funcionários, baixa estrutura, mas faturamento elevado).
- Despesas “espelho”: pagamentos para “consultoria”, “intermediação”, “comissões” sem evidência de serviço.
- Ativos de luxo no balanço ou no patrimônio pessoal sem origem de recursos compatível.
Casos práticos com dados simplificados
Caso 1: Balanço com variação patrimonial sem explicação
Uma empresa apresenta os seguintes saldos (em R$):
Balanço em 31/12/Ano 1 Ativo: Caixa/Bancos 20.000 | Estoques 30.000 | Imobilizado 50.000 Total Ativo: 100.000 Passivo: Fornecedores 25.000 | Empréstimos 15.000 Total Passivo: 40.000 Patrimônio Líquido: 60.000 Balanço em 31/12/Ano 2 Ativo: Caixa/Bancos 120.000 | Estoques 20.000 | Imobilizado 60.000 Total Ativo: 200.000 Passivo: Fornecedores 30.000 | Empréstimos 20.000 Total Passivo: 50.000 Patrimônio Líquido: 150.000Interpretação orientada:
- O PL aumentou de 60.000 para 150.000 (variação +90.000).
- O caixa/bancos aumentou +100.000, enquanto estoques caíram e imobilizado subiu pouco.
- Se não houver registro de lucro suficiente na DRE ou aporte formal de sócios, a variação pode indicar entrada não explicada.
Passo a passo de checagem:
- 1) Solicite/analise a DRE do Ano 2: o lucro explica +90.000?
- 2) Verifique “Aportes/Integralização de capital” e contratos de mútuo.
- 3) Cruze com extratos: identifique entradas relevantes (origem, remetente, histórico).
- 4) Se houver entradas de terceiros sem causa aparente, aprofunde em vínculos, notas fiscais, e lastro contratual.
Caso 2: DRE com despesas de terceiros e margem incoerente
DRE simplificada (Ano 2):
Receita de Serviços: 500.000 Despesas com Pessoal: 80.000 Serviços de Terceiros (consultoria/intermediação): 220.000 Aluguel e utilidades: 30.000 Tributos e taxas: 20.000 Resultado: 150.000Pontos de atenção:
- “Serviços de terceiros” representa 44% da receita (220.000/500.000), valor alto para muitos modelos de serviço.
- Se a empresa tem equipe pequena e baixa estrutura, a despesa pode ser compatível (terceirização real) ou pode ser canal de saída para pagamentos disfarçados.
Passo a passo de validação:
- 1) Liste os fornecedores que compõem os 220.000 (CNPJ, datas, valores).
- 2) Para cada fornecedor, verifique: contrato, escopo, entregáveis, e evidências (relatórios, e-mails, ordens de serviço).
- 3) Cruze pagamentos no extrato com notas fiscais e com a competência (mês do serviço).
- 4) Identifique padrões: pagamentos mensais fixos, fornecedores recém-abertos, endereços compartilhados, vínculos com sócios/administradores.
Caso 3: Competência positiva, caixa “estranho”
Uma empresa declara lucro de R$ 120.000 no ano (DRE), mas o caixa/bancos aumentou R$ 300.000 no mesmo período.
Hipóteses contábeis possíveis (a testar):
- Entrada por empréstimo bancário ou mútuo (deveria aparecer no passivo).
- Aporte de sócios (deveria aparecer no PL ou em conta específica).
- Venda de ativo (deveria reduzir imobilizado/investimentos e/ou gerar ganho).
- Receitas não contabilizadas (caixa sobe sem refletir na DRE).
Passo a passo:
- 1) Verifique no balanço se empréstimos/passivos cresceram compativelmente.
- 2) Procure lançamentos de aporte/adiantamento para futuro aumento de capital.
- 3) Identifique no extrato as maiores entradas e classifique por origem.
- 4) Se houver entradas de pessoas/empresas sem relação comercial aparente, peça lastro documental e rastreie a cadeia de transferências.
Exercícios de interpretação (com gabarito)
Exercício 1: Patrimônio líquido e coerência
Dados (R$): Ativo total 480.000; Passivo total 310.000. Calcule o PL e diga o que significa.
Resposta esperada: PL = 480.000 − 310.000 = 170.000. Significa a parcela do ativo financiada por recursos próprios (dos sócios/titular e resultados acumulados).Exercício 2: Competência x caixa
Uma empresa prestou serviço em dezembro (R$ 40.000), emitiu nota e receberá em janeiro. Em qual regime a receita aparece em dezembro?
Resposta esperada: No regime de competência, a receita é reconhecida em dezembro (quando o serviço foi prestado). No regime de caixa, só apareceria em janeiro (quando o dinheiro entrar).Exercício 3: Identificação de inconsistência simples
Extrato mostra entrada de R$ 95.000 com histórico “TED RECEBIDA”, remetente pessoa física sem relação comercial. Na contabilidade, o valor foi lançado como “Receita de Vendas”. Aponte dois problemas e duas verificações.
Resposta esperada (exemplos): Problemas: (1) classificação como receita sem documento fiscal/contrato; (2) origem do recurso não explicada e potencial incompatibilidade com atividade. Verificações: (1) buscar contrato/nota fiscal e evidências de entrega; (2) verificar se é empréstimo/aporte e se há registro no passivo/PL; cruzar com outras transferências do remetente.Exercício 4: Lançamento contábil
Uma empresa paga R$ 8.000 de fornecedor por transferência bancária. Indique um lançamento possível (contas e débitos/créditos).
Resposta esperada: Débito: Fornecedores 8.000 Crédito: Bancos 8.000Checklist prático de leitura contábil para fins investigativos
- Coerência entre DRE e caixa: lucro e variação de bancos fazem sentido?
- Contas genéricas: “diversos”, “outros”, “adiantamentos” têm detalhamento e documentos?
- Partes relacionadas: há pagamentos/recebimentos com sócios, familiares, empresas do mesmo grupo?
- Documentos de suporte: cada lançamento relevante tem nota/contrato/comprovante?
- Padrões de transação: fracionamento, recorrência, arredondamentos, picos em datas específicas.
- Compatibilidade operacional: estrutura (pessoal, sede, equipamentos) sustenta o volume de receita?