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Investigador de Polícia Civil: Teoria, Prática e Técnicas de Investigação

Novo curso

16 páginas

Abordagem, Identificação e Condução: Procedimentos do Investigador de Polícia Civil em Campo

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Conceitos operacionais: abordagem, identificação e condução

Abordagem é a intervenção direta do investigador sobre pessoa(s) ou veículo(s) para controlar uma situação, obter identificação e verificar circunstâncias relevantes, com foco em segurança, proporcionalidade e respeito a direitos. Identificação é o conjunto de atos para confirmar a identidade declarada e checar restrições, mandados, vínculos e inconsistências documentais. Condução é o deslocamento controlado de pessoa para unidade policial ou outro ponto oficial, quando houver base legal e necessidade operacional, com registro e comunicação adequados.

Princípios práticos que orientam o procedimento em campo: (1) segurança do policial e de terceiros; (2) proporcionalidade do nível de controle ao risco observado; (3) legalidade e motivação do ato (fundamentação clara); (4) respeito à dignidade e não discriminação; (5) redução de riscos (evitar escalada, manter distância e cobertura); (6) rastreabilidade (registro do que foi visto, feito e por quê).

Leitura situacional (antes de intervir)

Critérios para avaliar risco e definir o nível de controle

  • Ambiente: iluminação, rotas de fuga, presença de multidão, obstáculos, pontos cegos, cobertura disponível, proximidade de vias rápidas.
  • Pessoa(s): número de envolvidos, sinais de nervosismo extremo, mãos ocultas, volume na cintura, tentativas de afastamento, resistência a comandos simples, sinais de intoxicação.
  • Contexto: denúncia/acionamento, correspondência com descrição, horário/local compatível com o fato, proximidade temporal do evento, comportamento compatível com ocultação ou descarte.
  • Recursos: equipe disponível, comunicação, possibilidade de apoio, equipamentos (algemas, lanterna, colete), viatura posicionada.

Matriz simples de decisão (controle x risco)

Use uma lógica de três níveis para padronizar decisões: baixo risco (identificação e esclarecimento com distância e linguagem neutra), médio risco (controle de mãos, posicionamento de segurança, checagens mais rigorosas), alto risco (abordagem tática, cobertura, contenção imediata, prioridade para neutralizar ameaça). A transição de nível deve ser motivada por fatos observáveis, não por suposições.

Passo a passo operacional da abordagem

1) Preparação e posicionamento

  • Defina papéis: quem verbaliza, quem faz cobertura, quem registra/observa entorno.
  • Posicionamento: mantenha ângulo de segurança (evite ficar alinhado ao abordado), preserve distância reacional e busque cobertura. Evite “encurralar” sem necessidade, mas controle rotas de fuga quando o risco justificar.
  • Viatura: pare de modo a iluminar e proteger a equipe, sem criar risco a terceiros. À noite, use faróis/lanterna para leitura de mãos e cintura.
  • Comunicação prévia: informe via rádio/localizador o ponto, motivo genérico e quantidade de abordados, quando possível.

2) Verbalização e comandos iniciais

  • Apresente-se e indique o motivo de forma objetiva: “Polícia Civil. Precisamos confirmar sua identificação e esclarecer uma situação.”
  • Comandos claros e curtos: “Mãos visíveis”, “Fique parado”, “Vire de lado”, “Afaste-se do veículo”. Evite múltiplas ordens simultâneas.
  • Tom e postura: firme, sem agressividade. A escalada verbal aumenta risco e dificulta controle.
  • Checagem de compreensão: se houver barreira linguística, deficiência auditiva ou confusão, adapte comandos e reduza velocidade do procedimento.

3) Controle de mãos e área de risco

  • Mãos visíveis: prioridade. Peça para manter mãos fora de bolsos e longe da cintura.
  • Objetos próximos: afaste o abordado de mochilas no chão, porta-luvas aberto, ferramentas, garrafas e itens que possam virar arma improvisada.
  • Observação contínua: um integrante mantém cobertura e varredura do entorno enquanto outro conduz a interação.

4) Identificação e verificação de documentos

  • Solicitação: peça documento de identificação e, se pertinente, documentos do veículo. Oriente a pessoa a informar onde está o documento antes de movimentar as mãos.
  • Verificação: confira foto, validade, sinais de adulteração, divergência de dados e consistência com a pessoa (idade aparente, assinatura, dados básicos).
  • Checagens: quando disponível, consulte sistemas para mandados, restrições e antecedentes relevantes ao fato investigado. Registre horário e resultado da consulta.
  • Entrevista breve de triagem: perguntas curtas para coerência (nome completo, data de nascimento, endereço, motivo de estar no local). Inconsistências podem elevar o nível de controle, desde que registradas como fatos.

5) Busca pessoal (quando cabível) e cuidados para evitar nulidades

A busca pessoal deve ser tratada como medida excepcional e motivada. Para reduzir riscos de nulidade, descreva de forma objetiva os elementos que indicaram necessidade (ex.: volume compatível com arma, tentativa de ocultação, denúncia específica e contemporânea, resistência a manter mãos visíveis, correspondência com descrição de autor e proximidade temporal/espacial do fato). Evite justificativas genéricas.

  • Antes da busca: explique o que será feito e por quê, em linguagem simples, mantendo controle do ambiente.
  • Posição do abordado: postura que reduza risco (de lado, mãos apoiadas em local indicado, pés afastados), sem exposição desnecessária.
  • Execução: varredura sistemática (cintura, bolsos, tornozelos), atenção a lâminas/agulhas. Preserve a dignidade (evite exposição corporal; use local discreto quando possível).
  • Testemunho e registro: quando viável, registre quem realizou, quem presenciou, horário e resultado (nada encontrado ou itens apreendidos com descrição).
  • Itens apreendidos: descreva com precisão (marca, cor, numeração, estado, local exato onde estava) e mantenha cadeia de custódia conforme rotina interna.

6) Uso de algemas e contenção

Algemas e contenções devem ser proporcionais ao risco e à necessidade de evitar fuga, agressão ou autolesão. Registre a motivação concreta (ex.: tentativa de evasão, agressividade, risco de ataque, múltiplos abordados com equipe reduzida). Faça checagem de conforto e segurança (circulação, posição, ausência de objetos cortantes) e evite exposição desnecessária.

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7) Condução: decisão, comunicação e execução

  • Quando conduzir: condução deve ter base legal e finalidade clara (apresentação à autoridade policial, cumprimento de mandado, formalização de ato, proteção da vítima, necessidade de esclarecimento com elementos objetivos). Evite “condução para averiguação” sem motivação e sem registro adequado.
  • Comunicação ao conduzido: informe de modo objetivo o motivo e o destino. Se houver restrição de liberdade, trate como ato formal, com registro do horário e circunstâncias.
  • Busca de segurança pré-embarque: verificação para evitar ingresso de armas/objetos perigosos na viatura.
  • Transporte: posicione o conduzido de forma segura, com cinto quando aplicável, e mantenha vigilância. Registre horários de saída e chegada.
  • Apresentação: ao chegar, apresente a pessoa e os motivos ao responsável, com relato cronológico e objetivo, incluindo o que foi observado e o que foi encontrado.

Cenários simulados (treino mental e padronização)

Cenário 1: abordagem de pedestre em área de baixa iluminação

Contexto: equipe vê indivíduo em rua pouco iluminada, próximo a local com registro recente de furtos. Ele muda de direção ao ver a viatura e mantém uma mão no bolso do casaco.

  • Leitura situacional: baixa iluminação + mão oculta + mudança brusca de direção elevam risco para médio.
  • Passos: (1) posicionar viatura para iluminar; (2) verbalização: “Polícia Civil, mãos visíveis”; (3) controle de mãos e distância; (4) solicitar identificação e orientar antes de pegar documento; (5) se persistir mão no bolso ou houver volume compatível com arma, justificar e realizar busca pessoal; (6) registrar: horário, local, comportamento observado, resultado da busca e da consulta.
  • Ponto crítico de nulidade: se houver busca, descreva o fato objetivo (mão oculta e volume/recusa em mostrar mãos), evitando “atitude suspeita” genérica.

Cenário 2: abordagem veicular com dois ocupantes

Contexto: veículo compatível com descrição de apoio a crime patrimonial. Dois ocupantes, vidros escuros, motorista nervoso e passageiro se inclina para baixo ao parar.

  • Leitura situacional: gesto de inclinar-se (possível ocultação) + dois ocupantes = risco médio/alto, conforme ambiente e apoio disponível.
  • Passos: (1) solicitar apoio se necessário; (2) posicionar viatura em ângulo, com cobertura; (3) comandos: desligar motor, mãos no volante, passageiro mãos no painel; (4) retirada controlada, um por vez, com cobertura; (5) identificação e checagem; (6) busca pessoal motivada pelo gesto de ocultação e risco de arma; (7) verificação do veículo conforme cabimento e motivação; (8) registro detalhado do gesto, comandos dados e resposta dos ocupantes.
  • Cuidados: evitar discussões na janela; priorizar controle de mãos e retirada para local seguro quando necessário.

Cenário 3: condução para apresentação após localização de objeto ilícito

Contexto: em busca pessoal motivada, é localizado objeto com indícios de ilicitude (ex.: documento possivelmente falso ou item relacionado ao fato investigado). A pessoa apresenta explicações contraditórias.

  • Decisão: condução para apresentação e formalização, com preservação do objeto e registro do local exato onde foi encontrado.
  • Passos: (1) informar que será conduzido e o motivo; (2) registrar horário e circunstâncias; (3) acondicionar o item de forma adequada, identificando quem apreendeu; (4) transporte seguro; (5) apresentação à autoridade com narrativa cronológica e anexos (consultas, fotos quando autorizadas, identificação completa).
  • Cuidados: não “completar” lacunas com suposições; separar claramente fato observado de inferência.

Registros necessários e comunicação formal

O que registrar no momento (anotações de campo)

  • Identificação do evento: data, hora, local preciso (referência, coordenada quando possível), equipe e viatura.
  • Motivação objetiva: quais fatos levaram à abordagem (descrição recebida, comportamento observado, vínculo com ocorrência).
  • Dinâmica: comandos dados, resposta do abordado, mudanças de nível de controle (por quê e quando).
  • Identificação: dados do abordado, documentos apresentados, resultados de consultas (com horários).
  • Busca: quem realizou, justificativa, local e resultado; descrição minuciosa de itens encontrados e onde estavam.
  • Condução: motivo, horário de restrição/embarque/chegada, uso de algemas (motivação), integridade física aparente antes/depois.
  • Testemunhas e mídias: nomes/contatos de testemunhas, existência de câmeras no local, registros próprios disponíveis conforme norma interna.

Estrutura prática para relato/parte/relatório operacional

1. Identificação: data/hora/local, equipe, viatura, referência da ocorrência/acionamento. 2. Motivação da intervenção: fatos objetivos (descrição, denúncia, observação direta). 3. Abordagem: posicionamento, verbalização, comandos e resposta. 4. Identificação e checagens: documentos, consultas e resultados (com horários). 5. Medidas adotadas: busca pessoal (fundamento e resultado), apreensões (descrição e acondicionamento), uso de algemas (fundamento). 6. Condução/apresentação: motivo, horários, destino, a quem foi apresentado e providências adotadas. 7. Observações relevantes: testemunhas, câmeras, condições do local, eventuais lesões relatadas/observadas e providências. Anexos: cópias/prints autorizados, fotos do item (quando cabível), recibos/termos internos.

Cuidados linguísticos que reduzem risco de questionamento

  • Descreva fatos, não rótulos: em vez de “atitude suspeita”, registre “manteve a mão direita no bolso apesar de três comandos para mantê-la visível”.
  • Sequência temporal: relate em ordem cronológica, com horários aproximados.
  • Separação entre observação e inferência: “observou-se volume na cintura” (fato) versus “parecia armado” (inferência). Se houver inferência, vincule ao fato.
  • Proporcionalidade: explique por que medidas mais invasivas foram necessárias e por que alternativas menos invasivas não eram suficientes naquele contexto.

Checklist rápido de campo (memorização)

  • Antes: papéis definidos, cobertura, rota de fuga controlada, comunicação.
  • Durante: mãos visíveis, comandos claros, distância/ângulo, checagem de documentos, consulta.
  • Se houver busca: motivação objetiva, execução sistemática, dignidade, registro.
  • Se houver condução: base e finalidade, comunicação ao conduzido, horários, apresentação formal.
  • Após: relato cronológico, anexos, itens descritos com precisão, motivação explícita.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao decidir elevar o nível de controle durante uma abordagem, qual conduta está mais alinhada aos princípios de legalidade, proporcionalidade e rastreabilidade?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A elevação do controle deve ser baseada em fatos observáveis, com medidas proporcionais ao risco, respeito a direitos e registro claro do que motivou a decisão. Justificativas genéricas e ações automáticas aumentam risco de questionamento e nulidades.

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