A pauta no jornalismo: da ideia ao pedido formal de apuração

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

+ Exercício

O que é uma pauta (e por que ela precisa ser formal)

Pauta é o documento que transforma uma ideia solta em um pedido claro de apuração. Ela orienta o repórter sobre o que investigar, por que agora, qual recorte, quais perguntas responder, onde buscar evidências e como entregar (formato e plano de execução). Uma pauta completa reduz retrabalho, evita apurações “turísticas” (ir a campo sem objetivo verificável) e ajuda a editoria a decidir prioridade, recursos e riscos.

Uma boa pauta é específica o suficiente para guiar a apuração e flexível o suficiente para permitir que os achados mudem o caminho (sem perder a pergunta central).

Tema, abordagem e gancho: diferenças que evitam pautas vagas

Tema

É o assunto amplo. Ex.: “transporte público”, “saúde mental”, “segurança no bairro”. Tema sozinho não vira pauta porque não define recorte, evidência nem pergunta.

Abordagem (ângulo)

É o recorte que determina o que exatamente será investigado dentro do tema. Ex.: no tema “transporte público”, a abordagem pode ser “impacto do corte de linhas nos deslocamentos de trabalhadores da periferia” ou “contratos emergenciais e aumento de custo por km rodado”.

Gancho

É o motivo de oportunidade que justifica a apuração agora. Pode ser um dado novo, uma decisão pública, uma mudança de regra, um evento, uma denúncia verificável ou um padrão que se tornou evidente. Ex.: “prefeitura anuncia redução de 12 linhas”, “novo relatório do tribunal de contas”, “aumento de reclamações registradas em 30 dias”.

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Regra prática: se você consegue responder “sobre o quê?”, você tem um tema. Se consegue responder “qual recorte específico?”, você tem uma abordagem. Se consegue responder “por que agora?”, você tem um gancho.

Componentes de uma pauta completa

1) Ângulo (abordagem) em uma frase

Defina o recorte com precisão e sem adjetivos. Evite “polêmico”, “absurdo”, “chocante”. Prefira termos verificáveis: “aumento”, “queda”, “mudança”, “contrato”, “fila”, “prazo”, “custo”, “impacto”.

2) Pergunta central (o que a matéria precisa responder)

É a pergunta que, se respondida com evidências, entrega a matéria. Ela deve ser investigável e não pode depender de opinião. Exemplos de perguntas centrais boas:

  • “O que mudou no atendimento após a terceirização e quais indicadores mostram isso?”
  • “Quanto custou a obra por etapa e como os aditivos alteraram o valor final?”
  • “Por que aumentaram os furtos em determinada área e o que os dados mostram sobre horários e locais?”

Exemplos fracos (vagos ou opinativos): “Por que está tudo pior?”, “Quem é o culpado?”, “A prefeitura está enganando a população?”

3) Contexto mínimo (o que o repórter precisa saber antes de sair)

Inclua 4 a 8 linhas com o essencial: o que já se sabe, o que é consenso, quais números básicos, quais decisões anteriores, e quais termos técnicos precisam ser entendidos. O objetivo é evitar que o repórter comece do zero.

4) Hipóteses de apuração (o que pode ser verdade)

Liste 2 a 4 hipóteses testáveis. Elas não são “tese”; são caminhos para checagem. Ex.: “A fila aumentou por falta de profissionais”, “A fila aumentou por mudança no sistema de agendamento”, “O aumento é sazonal”.

5) Fontes prováveis (quem pode confirmar, explicar e contestar)

Organize por tipo, para garantir equilíbrio e checagem cruzada:

  • Oficiais: órgãos públicos, assessorias, gestores, responsáveis por contratos e dados.
  • Técnicas: pesquisadores, conselhos profissionais, especialistas em políticas públicas.
  • Diretamente afetadas: usuários, moradores, trabalhadores, pacientes, alunos.
  • Fiscalização/controle: tribunal de contas, ministério público, ouvidorias, defensorias.
  • Documentais: editais, contratos, relatórios, atas, boletins, bases de dados.

Em cada fonte, indique por que ela é relevante e o que você espera obter (dado, explicação, contraponto, confirmação).

6) Dados e documentos a buscar (lista objetiva)

Transforme a apuração em itens coletáveis. Ex.: “planilhas de execução orçamentária”, “série histórica de atendimentos”, “mapa de ocorrências por bairro”, “contratos e aditivos”, “cronograma oficial vs. realizado”. Sempre que possível, defina:

  • Período: últimos 12/24/36 meses.
  • Recorte geográfico: cidade, bairro, unidade, linha.
  • Métrica: custo, tempo, volume, taxa, fila, prazo.

7) Riscos e cuidados (jurídicos, segurança, ética e qualidade)

Antecipe pontos que podem comprometer a apuração:

  • Difamação/atribuição indevida: evitar acusação sem prova documental ou múltiplas confirmações.
  • Identificação de vulneráveis: definir se haverá anonimização e como.
  • Conflito de interesse: fonte com interesse direto no resultado.
  • Segurança em campo: áreas de risco, horários, necessidade de ir acompanhado.
  • Risco de generalização: casos individuais não representam o todo; exigir dados.
  • Risco de viés de seleção: entrevistar apenas quem reclama; buscar contrapontos.

8) Formato e entrega (o que será publicado)

Escolha o formato com base no objetivo e no material disponível:

  • Nota: fato novo e confirmado, com contexto mínimo e impacto imediato.
  • Matéria: explicação completa com dados, personagens, contexto e contrapontos.
  • Entrevista: quando a fonte é central e tem responsabilidade/autoridade para explicar decisões ou dados.
  • Perfil: quando a história de uma pessoa ilumina um fenômeno maior (com evidências e contexto).

Defina também: tamanho estimado, necessidade de infográfico/foto/vídeo, e quais elementos são “obrigatórios” para fechar.

9) Planejamento de campo (como executar)

Detalhe o plano operacional:

  • Locais: onde ir e por quê.
  • Horários: quando observar (pico/fora de pico, dia útil/fim de semana).
  • Roteiro de entrevistas: 6 a 10 perguntas por tipo de fonte.
  • Checklist de evidências: fotos de contexto, documentos, registros, observação direta.
  • Plano B: se a fonte não responder, qual alternativa? Se o local estiver inacessível, qual substituto?

Passo a passo para construir uma pauta do zero

Passo 1 — Transforme a ideia em uma frase verificável

Escreva uma frase sem opinião, com sujeito e objeto. Ex.: “Moradores relatam aumento de tempo de espera no posto X após mudança no agendamento”.

Passo 2 — Defina o gancho (por que agora)

Liste o gatilho: anúncio, dado, denúncia, evento, mudança de regra. Se não houver gancho, a pauta pode existir, mas tende a perder prioridade. Ex.: “mudança implementada há 30 dias” + “reclamações na ouvidoria aumentaram”.

Passo 3 — Escolha o ângulo (o recorte que cabe em uma apuração)

Recortes úteis: um bairro, uma unidade, um contrato, um período, um grupo afetado, um indicador. Evite tentar cobrir “tudo”.

Passo 4 — Escreva a pergunta central e 3 subperguntas

Subperguntas ajudam a montar o esqueleto da matéria. Ex.:

  • O que mudou (processo/regra/estrutura)?
  • O que os dados mostram antes e depois?
  • Quem é afetado e como?
  • Qual a justificativa oficial e qual o contraponto técnico?

Passo 5 — Monte a lista de fontes por função

Para cada fonte, escreva: “o que ela pode provar/explicar”. Se não houver alguém que possa contestar, a pauta está desequilibrada.

Passo 6 — Liste dados e documentos como itens de coleta

Evite “buscar dados sobre X”. Prefira “solicitar série mensal de X (jan/2023 a dez/2025)”.

Passo 7 — Avalie riscos e defina salvaguardas

Ex.: “não publicar nomes de pacientes”, “gravar entrevistas com autorização”, “checar acusação com documento + 2 fontes independentes”.

Passo 8 — Defina formato e critérios de fechamento

Ex.: “fecha como matéria se houver série histórica + 3 fontes afetadas + resposta oficial + documento do contrato”. Se não, pode virar nota ou entrevista.

Passo 9 — Planeje campo e cronograma

Inclua prazos: quando pedir dados, quando ir a campo, quando cobrar resposta oficial, quando escrever. Pauta sem cronograma vira promessa.

Critérios de viabilidade: decidir se a pauta “fica em pé”

CritérioPergunta de checagemSinal de alertaComo ajustar
TempoDá para apurar e publicar no prazo?Depende de dados que demoram semanasMudar recorte, usar dados já públicos, transformar em 2 etapas
AcessoConsigo falar com fontes-chave e entrar nos locais?Fonte única, local restrito, silêncio institucionalBuscar documentos, fontes alternativas, observação externa
CustoHá deslocamento/equipamento necessário?Viagem cara para evidência incertaParcerias internas, reduzir campo, usar bases e entrevistas remotas
EvidênciaQuais provas sustentam a história?Baseada só em relatos sem documentaçãoExigir dados, registros, documentos, checagem cruzada
RelevânciaQuem é afetado e em que escala?Impacto pequeno e sem novidadeEncontrar indicador de escala, conectar a decisão pública, achar gancho
RiscoHá risco jurídico/segurança/ética?Acusação direta sem prova, exposição de vulneráveisReformular linguagem, reforçar documentação, anonimizar, plano de segurança

Template de pauta (campos obrigatórios)

PAUTA (pedido formal de apuração)  
1) Título operacional (curto e específico):  
2) Tema:  
3) Gancho (por que agora):  
4) Abordagem/Ângulo (recorte em 1 frase):  
5) Pergunta central:  
6) Subperguntas (3 a 6):  
7) Contexto mínimo (4 a 8 linhas):  
8) Hipóteses a testar (2 a 4):  
9) Fontes prováveis (com objetivo de cada uma):  
   - Oficiais:  
   - Técnicas:  
   - Afetadas:  
   - Controle/fiscalização:  
   - Documentais:  
10) Dados/documentos a buscar (lista objetiva + período/recorte):  
11) Riscos e cuidados (jurídico/segurança/ética/qualidade):  
12) Formato previsto (nota/matéria/entrevista/perfil) + entrega:  
13) Planejamento de campo (locais, horários, roteiro, checklist):  
14) Cronograma (datas de: pedidos, entrevistas, campo, cobrança, escrita):  
15) Critérios de fechamento (o que é obrigatório para publicar):  
16) Viabilidade (tempo/acesso/custo/relevância) + ajustes sugeridos:

Exemplo preenchido 1 (matéria com dados + personagens)

Pauta

1) Título operacional: Fila no posto do Bairro Nova Esperança após mudança no agendamento  
2) Tema: Atenção básica em saúde  
3) Gancho: Mudança no sistema de agendamento há 30 dias + aumento de reclamações na ouvidoria (últimas 4 semanas)  
4) Abordagem/Ângulo: Comparar antes/depois da mudança no agendamento no posto X e medir impacto em tempo de espera e desistências  
5) Pergunta central: A mudança no agendamento aumentou o tempo de espera e reduziu o acesso a consultas no posto X?  
6) Subperguntas:  
   - Qual era o fluxo de marcação antes e qual é agora?  
   - O que mostram os dados de consultas marcadas, faltas e encaixes (antes/depois)?  
   - Houve mudança de equipe (médicos/enfermeiros) no período?  
   - Como usuários descrevem o impacto (trabalho, deslocamento, desistência)?  
   - Qual a justificativa da gestão e quais alternativas existem?  
7) Contexto mínimo: O posto X atende três bairros e concentra demanda de clínica geral e pediatria. A unidade adotou novo sistema de agendamento (presencial/telefone/app) em data recente. Moradores relatam filas mais cedo e dificuldade de encaixe. É necessário comparar indicadores do trimestre anterior com o mês após a mudança e checar se houve alteração de equipe ou oferta de vagas.  
8) Hipóteses a testar:  
   - A fila aumentou por redução de vagas ofertadas  
   - A fila aumentou por falha de implementação (canais instáveis)  
   - A percepção de piora é concentrada em um horário/dia específico  
9) Fontes prováveis:  
   - Oficiais: coordenação do posto (explicar fluxo), secretaria municipal (dados e justificativa)  
   - Técnicas: especialista em gestão de filas/atenção básica (avaliar desenho do sistema)  
   - Afetadas: 6 a 10 usuários (diversos perfis), agentes comunitários (rotina e demanda)  
   - Controle/fiscalização: ouvidoria (volume e tipo de reclamações), conselho local de saúde (atas)  
   - Documentais: portaria interna/nota técnica da mudança, relatórios mensais do posto  
10) Dados/documentos a buscar:  
   - Série mensal (últimos 6 meses) de: consultas ofertadas, consultas realizadas, faltas, encaixes, tempo médio de espera (se existir)  
   - Escala de profissionais por semana (últimos 3 meses)  
   - Registros de reclamações na ouvidoria (últimas 8 semanas) por assunto  
   - Documento que formaliza a mudança (data, objetivo, canais)  
11) Riscos e cuidados:  
   - Não identificar pacientes por condição de saúde; usar apenas primeiro nome/anonimizar  
   - Não atribuir culpa sem documento; checar com dados e resposta oficial  
   - Evitar amostra enviesada: entrevistar também usuários que conseguiram atendimento  
12) Formato previsto: Matéria explicativa com dados + 2 personagens + resposta oficial + quadro 'como funciona o agendamento'  
13) Planejamento de campo:  
   - Visitar o posto em 2 dias (um início de semana e um fim) às 6h30 e às 10h  
   - Observar fila, registrar horários, conversar com usuários (consentimento)  
   - Roteiro de perguntas para usuários (tempo de chegada, tentativas, custo, impacto)  
14) Cronograma:  
   - D1 manhã: pedido de dados + pedido de entrevista oficial  
   - D2: campo 1 + entrevistas usuários  
   - D3: campo 2 + entrevista coordenação  
   - D4: entrevista técnica + checagem de dados  
   - D5: cobrança de resposta final + escrita  
15) Critérios de fechamento:  
   - Dados antes/depois OU documento que comprove mudança + 6 relatos + resposta oficial  
16) Viabilidade:  
   - Tempo: 5 dias (ok)  
   - Acesso: posto é público (ok), dados podem atrasar (plano B: ouvidoria + atas + observação)  
   - Custo: deslocamento local (baixo)  
   - Relevância: atende três bairros (alta)

Exemplo preenchido 2 (entrevista)

Pauta

1) Título operacional: Entrevista: por que a cidade mudou a regra de coleta seletiva  
2) Tema: Gestão de resíduos  
3) Gancho: Decreto publicado nesta semana alterando dias e exigências de separação  
4) Abordagem/Ângulo: Explicar o que muda, por que mudou, como será fiscalizado e quais metas/indicadores serão usados  
5) Pergunta central: O que muda na coleta seletiva e como a prefeitura vai medir se a mudança melhora o serviço?  
6) Subperguntas:  
   - Qual problema a mudança pretende resolver?  
   - Quais bairros serão afetados primeiro e por quê?  
   - Qual orçamento e qual contrato sustenta a operação?  
   - Como será a comunicação com moradores e quais penalidades existem?  
   - Quais metas (toneladas coletadas, cobertura, contaminação) e prazos?  
7) Contexto mínimo: A cidade publicou decreto com novas regras de separação e calendário. Há dúvidas sobre fiscalização e impacto em cooperativas. A entrevista deve traduzir termos do decreto e exigir indicadores e prazos.  
8) Hipóteses a testar:  
   - A mudança responde a baixa adesão/alta contaminação do material  
   - A mudança é motivada por custo/renegociação contratual  
9) Fontes prováveis:  
   - Oficial principal: secretário(a) responsável (decisão e metas)  
   - Complementar: representante de cooperativas (impacto e capacidade)  
   - Técnica: especialista em resíduos (avaliar metas e desenho)  
10) Dados/documentos a buscar:  
   - Texto do decreto + anexos  
   - Contrato vigente e aditivos (se houver)  
   - Série anual de coleta seletiva (últimos 3 anos): volume, cobertura, rejeito/contaminação  
11) Riscos e cuidados:  
   - Evitar entrevista promocional: insistir em números, prazos e responsabilidades  
   - Checar afirmações com documento e dados  
12) Formato previsto: Entrevista pingue-pongue + box com 'o que muda'  
13) Planejamento de campo:  
   - Entrevista agendada (presencial ou remota) com gravação autorizada  
   - Separar 12 perguntas, priorizando metas e execução  
14) Cronograma:  
   - D1: leitura do decreto + pedido de dados  
   - D2: entrevista oficial  
   - D3: entrevistas cooperativas/técnico + checagem  
15) Critérios de fechamento:  
   - Decreto + 3 indicadores com metas/prazos + contraponto (cooperativa ou técnico)  
16) Viabilidade:  
   - Tempo: 3 dias (ok)  
   - Acesso: depende de agenda do secretário (plano B: porta-voz + documento)  
   - Custo: baixo  
   - Relevância: mudança municipal (alta)

Checklist rápido para revisar a pauta antes de enviar

  • O ângulo cabe em uma frase e não é “tudo sobre…”?
  • A pergunta central é respondível com dados/documentos e entrevistas?
  • Há pelo menos uma fonte que confirma, uma que explica e uma que contesta?
  • Os dados a buscar estão listados com período e recorte?
  • Existe plano de campo com locais/horários e um plano B?
  • Os riscos estão mapeados e há medidas de mitigação?
  • O formato escolhido combina com o material que você consegue obter?
  • Os critérios de fechamento dizem claramente o que é obrigatório para publicar?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual opção descreve melhor a função de uma pauta formal na rotina de uma redação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A pauta formal organiza a apuração: explicita o recorte e a pergunta investigável, indica fontes e documentos, antecipa riscos e define formato/entrega. Isso reduz retrabalho e ajuda a editoria a priorizar recursos e avaliar riscos.

Próximo capitúlo

Apuração jornalística: técnicas de entrevista, observação e coleta de documentos

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