Apuração jornalística: técnicas de entrevista, observação e coleta de documentos

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é apuração jornalística (e o que ela precisa entregar)

Apuração é o conjunto de métodos usados para transformar uma pauta em informação verificável. Na prática, ela precisa produzir evidências (falas atribuíveis, documentos, dados, observações) e contexto (o que significa, para quem, com quais limites). Uma boa apuração responde a três perguntas operacionais:

  • O que aconteceu? (fatos e cronologia)
  • Como você sabe? (fontes, documentos, dados, observação)
  • O que ainda não dá para afirmar? (lacunas e hipóteses)

Entrevistas: abertas, fechadas e o que cada uma resolve

Entrevista aberta (exploratória)

Serve para mapear o terreno: descobrir termos, atores, conflitos, números e documentos que você ainda não conhece. É útil no início da apuração ou quando o tema é complexo.

  • Formato: perguntas amplas, espaço para narrativa.
  • Risco: dispersão. Você controla com um roteiro flexível e checkpoints.
  • Entrega esperada: lista de personagens, eventos, documentos e pontos controversos.

Entrevista fechada (confirmatória)

Serve para confirmar/negações, obter números, datas, responsabilidades e frases objetivas. É útil quando você já tem hipóteses e precisa testar.

  • Formato: perguntas específicas, com recortes de tempo e critérios.
  • Risco: respostas evasivas. Você controla com follow-ups e pedidos de evidência.
  • Entrega esperada: afirmações verificáveis e atribuíveis, com detalhes.

Regras de atribuição: on the record, on background e off the record

Antes de começar, alinhe como a informação poderá ser usada. Isso evita conflito e protege a apuração.

RegimeO que significaComo pode ser usadoCuidados práticos
On the recordInformação atribuível à fonte (nome/cargo, conforme combinado).Você pode publicar citando a pessoa.Confirme grafia do nome, cargo e contexto da fala.
On backgroundInformação pode ser usada, mas com atribuição genérica (ex.: “um assessor”, “uma fonte do órgão”).Você publica sem identificar diretamente.Negocie o nível de anonimato e registre o acordo por mensagem quando possível.
Off the recordInformação não pode ser publicada.Serve para orientar a apuração (pistas).Use para buscar documentos e outras fontes que confirmem por vias publicáveis.

Regra operacional: se não ficou claro, pergunte e repita em voz alta: “Isso é on the record?”; “Posso atribuir ao seu nome/cargo?”; “Posso usar como on background?”

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Preparação de entrevista: pesquisa prévia e roteiro flexível

Passo a passo de preparação (30–60 minutos)

  1. Defina o objetivo da entrevista em uma frase: “Quero entender X e confirmar Y”.
  2. Liste o que você já sabe e de onde veio: links, documentos, dados, entrevistas anteriores.
  3. Identifique lacunas: o que falta para publicar com segurança (datas, valores, responsáveis, impacto).
  4. Monte um roteiro em blocos: contexto, fatos, evidências, consequências, contraponto.
  5. Prepare 3 perguntas de verificação: perguntas que exigem número, data, documento ou exemplo concreto.
  6. Prepare 2 perguntas de “teste de consistência”: peça para a fonte repetir a cronologia ou explicar o mesmo ponto por outro ângulo.
  7. Separe pedidos de documento: “Você pode me enviar o relatório/contrato/planilha?”

Modelo de roteiro flexível (copiar e colar)

Objetivo: ______________________________________
1) Abertura (contexto e alinhamento de registro/atribuição)
2) Linha do tempo (o que aconteceu, quando, quem participou)
3) Evidências (documentos, dados, registros, testemunhas)
4) Pontos controversos (o que é contestado e por quem)
5) Impacto (quem foi afetado, como medir, exemplos)
6) Contraponto (o que o outro lado diria? quem mais devo ouvir?)
7) Checagem final (resumo do que entendi + perguntas de precisão)

Condução da entrevista: escuta ativa e follow-up

Escuta ativa (técnicas que geram informação nova)

  • Silêncio produtivo: faça a pergunta e espere. Muitas pessoas completam com detalhes.
  • Espelhamento: repita a última frase como pergunta: “Você disse ‘pressão interna’. Pressão de quem?”
  • Clarificação: “Quando você diz ‘regular’, qual é o critério? Tem norma?”
  • Resumo de checagem: “Só para confirmar: foi no dia X, às Y, com Z presente?”

Perguntas de follow-up (as mais valiosas)

Follow-up é a pergunta que nasce da resposta. Use gatilhos práticos:

  • “Como você sabe?” (pede base e evidência)
  • “Quem mais confirma isso?” (abre novas fontes)
  • “Você tem um exemplo específico?” (tira do abstrato)
  • “Qual documento registra isso?” (puxa prova)
  • “Quando exatamente?” (fecha cronologia)
  • “Quanto foi?” (fecha números)
  • “O que mudou depois?” (efeito e consequência)

Como lidar com evasivas sem perder a entrevista

  • Reformule com recorte: “Entendo. Sobre o período de março a maio, qual foi a decisão?”
  • Ofereça opções: “Foi A, B ou C?” (a pessoa corrige ou escolhe)
  • Peça o limite: “O que você pode dizer on the record?”
  • Volte ao fato: “Quem assinou?” “Qual é o número do processo?”

Registro: anotações, gravação e controle de precisão

Anotações que ajudam a escrever e checar

Use um padrão simples para não se perder:

  • F: fato (data, número, evento)
  • C: citação potencial (frase forte)
  • D: documento mencionado (nome, data, onde obter)
  • P: pendência (o que checar depois)

Exemplo de anotação:

[F] 12/04: reunião com diretoria; decisão de suspender contrato por 30 dias.
[C] “A gente foi pego de surpresa pelo parecer.”
[D] Parecer jurídico nº 18/2025 (pedir por e-mail).
[P] Confirmar quem estava presente + ata da reunião.

Gravação (quando aplicável) e consentimento

Se for gravar, peça consentimento de forma direta e registre a resposta. Frase útil:

“Para garantir precisão, posso gravar nossa conversa?”

Se a pessoa não autorizar, redobre a disciplina de anotações e faça mais perguntas de confirmação (“Então, só para registrar corretamente, você disse X?”).

Observação em campo: ver, medir e descrever sem inferir

Observação é apuração por presença: você coleta evidências do ambiente, do comportamento e do contexto físico. O objetivo é registrar o que é observável e separar de interpretação.

Passo a passo de observação

  1. Defina o que você precisa observar: fluxo, filas, condições, horários, procedimentos, sinalização, acessibilidade.
  2. Chegue cedo e fique tempo suficiente: compare momentos (ex.: abertura vs. pico).
  3. Registre com marcadores objetivos: hora, local, quantidade, duração, falas públicas.
  4. Faça checagens rápidas: confirme nomes em crachás/placas, peça informações públicas, fotografe apenas se permitido e necessário.
  5. Separe descrição de hipótese: descreva primeiro; interprete depois com base em dados e fontes.

Checklist de observação (copiar e colar)

  • Onde: endereço, ponto de referência, condições do local
  • Quando: data, hora de chegada/saída, duração
  • Quem: perfis (sem presumir), funções visíveis, número aproximado
  • O que acontece: sequência de ações, regras anunciadas, interrupções
  • Medidas: contagens, tempos de espera, distâncias aproximadas
  • Contradições: o que difere do que foi dito por fontes/documentos

Documentos e dados públicos: como encontrar, ler e extrair o que importa

Tipos comuns de documentos úteis

  • Atos e normas: leis, decretos, portarias, resoluções.
  • Registros administrativos: contratos, aditivos, atas, processos, relatórios.
  • Orçamento e gastos: empenhos, pagamentos, licitações, convênios.
  • Dados e séries: indicadores, bases abertas, boletins, painéis.
  • Judiciário e controle: decisões, recomendações, auditorias, pareceres.

Passo a passo para análise de documento

  1. Identifique: título, número, órgão emissor, data, versão.
  2. Entenda o gênero: é norma (manda), relatório (descreve), contrato (obriga), parecer (opina)?
  3. Extraia o núcleo: o que muda, quem é responsável, qual prazo, qual valor.
  4. Marque trechos citáveis: parágrafos que sustentam afirmações.
  5. Procure anexos e referências: planilhas, notas técnicas, termos aditivos.
  6. Cheque consistência: compare com outros documentos e com o que fontes disseram.
  7. Liste perguntas que o documento abre: lacunas, termos vagos, itens sem justificativa.

Como transformar dados em perguntas

Ao olhar uma planilha ou série histórica, procure padrões simples:

  • Pico: “Por que subiu aqui?”
  • Queda: “O que mudou na política/processo?”
  • Outlier: “Por que este caso é diferente?”
  • Comparação: “Por que este bairro/órgão gasta mais?”
  • Ausência: “Por que não há registro neste período?”

Organização do material: do caos ao dossiê de apuração

Estrutura mínima de pastas e nomes

Padronize para encontrar tudo rápido:

/APURACAO_TEMA_X/
  01_ENTREVISTAS/
  02_DOCUMENTOS/
  03_DADOS/
  04_OBSERVACAO/
  05_CRONOLOGIA/
  06_PENDENCIAS/

Nomeie arquivos com data e fonte:

2026-01-12_Entrevista_Fulano_Cargo_onrecord.mp3
2026-01-12_Notas_Entrevista_Fulano.pdf
2025-11-03_Contrato_1234_OrgaoX.pdf

Planilha de controle de apuração (modelo)

ItemTipoFonteStatusO que provaRisco/limitePróximo passo
Reunião 12/04FatoEntrevista + ataParcialDecisão e presentesFalta documentoPedir ata
Contrato 1234DocumentoPortal públicoOKValor, prazo, objetoTermos técnicosOuvir especialista
Série de gastosDadoBase abertaOKTendência e outliersDefiniçõesChecar metodologia

Roteiros de perguntas por tipo de matéria

1) Matéria de serviço (como fazer, onde ir, o que muda para o público)

  • Quem é elegível? Quais critérios e documentos exigidos?
  • Onde e quando funciona? Horários, prazos, canais oficiais.
  • Qual é o passo a passo completo (do início ao fim)?
  • Quanto custa? Há isenção? Quais taxas?
  • Quais são os erros mais comuns que fazem a pessoa perder prazo?
  • Como medir se está funcionando (tempo de espera, volume atendido)?
  • O que mudou em relação ao procedimento anterior?

2) Matéria factual (o que aconteceu hoje)

  • O que aconteceu, exatamente? Qual a cronologia?
  • Onde e com quem? Nomes, cargos, instituições.
  • Quantos foram afetados? Há números confirmados?
  • Qual é a fonte primária (boletim, nota, registro, documento)?
  • O que ainda é incerto e o que já está confirmado?
  • Qual a versão do outro lado/autoridade responsável?
  • Qual é o próximo evento esperado (coletiva, perícia, audiência)?

3) Matéria investigativa (suspeita, irregularidade, contradição)

  • Qual é a alegação central e qual evidência a sustenta?
  • Quais documentos registram decisões, valores e responsáveis?
  • Quem se beneficia e quem perde? Como isso aparece em dados?
  • Qual regra/norma deveria ter sido seguida? Onde está escrito?
  • Quais são as explicações alternativas (não maliciosas) e como testá-las?
  • Quem pode confirmar de forma independente (técnicos, auditoria, usuários)?
  • Que perguntas precisam ser feitas ao citado antes da publicação (direito de resposta)?

4) Perfil/entrevista humana (trajetória e escolhas)

  • Qual foi o ponto de virada na sua história?
  • Que decisão você tomou que mudou o rumo?
  • Qual foi o maior erro e o que você aprendeu?
  • Como é um dia típico (rotina observável)?
  • Quem discorda de você e por quê?
  • Que números/realizações são verificáveis (datas, prêmios, projetos)?
  • O que você não quer que entendam errado sobre você?

Exercícios: transformar curiosidade em perguntas verificáveis

Exercício 1: do “por quê?” ao “como eu provo?”

Escolha uma curiosidade e reescreva em perguntas que exigem evidência.

Curiosidade (vaga)Pergunta verificávelEvidência necessária
“Estão gastando demais.”“Quanto foi gasto nos últimos 12 meses e como isso se compara aos 12 anteriores?”Dados de execução orçamentária + metodologia
“O atendimento piorou.”“Qual era o tempo médio de espera antes e depois de X?”Registros de atendimento + observação em campo
“Teve favorecimento.”“Quais critérios foram usados e quem decidiu? Há concorrentes desclassificados?”Edital, atas, pareceres, entrevistas

Exercício 2: perguntas que fecham lacunas (use este molde)

Preencha os campos e transforme em perguntas:

1) Quem tomou a decisão? (nome/cargo) ____________________________
2) Quando ocorreu? (data/hora) _________________________________
3) Onde está registrado? (documento/número) ______________________
4) Quanto custou/impactou? (valor/quantidade) ____________________
5) Quem foi afetado e como medir? (indicador) ____________________

Exercício 3: roteiro de entrevista em 12 perguntas (flexível)

  • Para começar: como você descreveria o problema em uma frase?
  • Quando você percebeu isso pela primeira vez?
  • O que aconteceu depois (linha do tempo)?
  • Quem estava envolvido em cada etapa?
  • Qual foi a decisão mais importante e quem a tomou?
  • Que evidências você tem (documentos, mensagens, registros)?
  • Posso receber cópias ou referências exatas (número, data, link)?
  • Quem mais pode confirmar de forma independente?
  • O que as pessoas costumam entender errado sobre isso?
  • Qual é a melhor explicação alternativa para o que ocorreu?
  • O que precisa acontecer para resolver (medida concreta)?
  • O que eu não perguntei e deveria perguntar?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a apuração, você recebe uma informação que não pode ser publicada, mas pode orientar os próximos passos para buscar comprovação. Qual regime de atribuição descreve melhor esse caso?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No regime off the record, a informação não pode ser publicada. Ela pode orientar a apuração, ajudando a buscar documentos e outras fontes que confirmem por vias publicáveis.

Próximo capitúlo

Fontes jornalísticas: credibilidade, diversidade e relacionamento profissional

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