Vigilância de sangramento, choque e alterações hemodinâmicas no pós-operatório

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivo da vigilância

No pós-operatório, sangramento pode ser evidente (em curativos, drenos, vômitos com sangue, hematúria) ou oculto (cavidades, retroperitônio, hemorragia interna), levando à hipovolemia, redução da perfusão tecidual e progressão para choque. A vigilância de enfermagem busca identificar precocemente sinais de perda sanguínea e alterações hemodinâmicas, correlacionar achados clínicos com perdas mensuráveis e acionar intervenções imediatas para evitar deterioração rápida.

Sinais clínicos sugestivos de sangramento e choque

Achados que devem elevar suspeita

  • Pele e perfusão: palidez, pele fria, sudorese, extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado.
  • Cardiovascular: taquicardia (muitas vezes sinal precoce), pulso fino, hipotensão (pode ser tardia), pressão de pulso estreita, piora progressiva de parâmetros hemodinâmicos.
  • Renal: queda de diurese (oligúria) ou tendência de redução do débito urinário.
  • Neurológico: inquietação, ansiedade, confusão, sonolência, rebaixamento do nível de consciência.
  • Respiratório/metabólico: taquipneia, sensação de falta de ar, sinais de hipoperfusão (por exemplo, piora de perfusão periférica).

Como interpretar combinações de sinais

Um único sinal isolado pode ter outras causas, mas tendências e conjuntos de achados aumentam a probabilidade de sangramento significativo. Exemplos práticos:

  • Taquicardia + palidez + sudorese com curativo “pesando” ou drenagem crescente: pensar em perda ativa.
  • Queda de diurese acompanhada de extremidades frias e alteração do nível de consciência: pensar em hipoperfusão e choque iminente.
  • Hipotensão após período de estabilidade, mesmo sem sangramento visível: considerar sangramento oculto e revisar drenos, abdome, flancos, curativos e balanço hídrico.

Achados laboratoriais que apoiam a suspeita

Os exames ajudam a confirmar e dimensionar a perda, mas podem não refletir imediatamente o sangramento agudo. A enfermagem deve reconhecer padrões e comunicar tendências.

  • Hemoglobina/hematócrito: queda em relação ao basal ou tendência de queda seriada (atenção ao tempo de coleta e reposição volêmica, que pode “diluir” valores).
  • Lactato e gasometria (quando disponíveis): elevação de lactato e sinais de acidose sugerem hipoperfusão.
  • Coagulograma (TP/INR, TTPa, fibrinogênio, plaquetas): alterações podem indicar coagulopatia associada e maior risco de sangramento persistente.
  • Eletrólitos e função renal: podem refletir repercussões da hipoperfusão e orientar reposição.

Correlacionando sinais com perdas visíveis e ocultas

Fontes de perda visível

  • Curativos: saturação por sangue, expansão de mancha, extravasamento pelas bordas.
  • Drenos cirúrgicos: aumento do débito, mudança de aspecto (serossanguinolento para sanguinolento vivo), presença de coágulos.
  • Eliminações: hematúria, melena/hematoquezia, vômitos com sangue (se ocorrerem).

Fontes de perda oculta (suspeitar quando há instabilidade sem explicação)

  • Sangramento interno: cavidade abdominal/torácica, retroperitônio, hematomas profundos.
  • Hematomas em expansão: dor local desproporcional, aumento de volume, tensão de pele, equimoses progressivas.
  • Perdas não mensuradas: sangramento sob curativo oclusivo, lençóis/roupas, coletores não aferidos.

Checklist rápido de correlação (à beira-leito)

  • tendência de piora dos sinais de perfusão (palidez, sudorese, extremidades frias)?
  • O débito urinário caiu em relação ao esperado?
  • Curativo está seco, com pequena mancha estável ou há expansão?
  • Dreno: volume/hora aumentou? aspecto ficou mais sanguinolento?
  • dor crescente e distensão/rigidez local sugerindo sangramento interno?
  • Exames seriados mostram queda de Hb/Ht ou piora de marcadores de perfusão?

Checagem de curativos: técnica, marcação e quantificação

O que observar no curativo

  • Saturação: porcentagem aproximada da área do curativo impregnada por sangue (ex.: 25%, 50%, 75%, 100%).
  • Expansão da mancha: aumento do diâmetro/área ao longo do tempo.
  • Extravasamento: sangue ultrapassando bordas, escorrendo para pele/lençol.
  • Integridade: curativo solto, descolado, úmido por outras secreções.
  • Condições da pele ao redor: hematoma, edema, dor à palpação, calor local (diferenciar sangramento de sinais inflamatórios).

Passo a passo prático: marcação de bordas e reavaliação

  1. Higienize as mãos e utilize EPI conforme risco de exposição.
  2. Inspecione sem remover o curativo inicialmente: identifique manchas e extravasamentos.
  3. Marque as bordas da mancha com caneta apropriada e registre horário ao lado da marcação.
  4. Estime a saturação (ex.: “curativo 50% saturado por sangue”).
  5. Verifique o leito e roupas para perdas não contabilizadas (lençóis, compressas, campos).
  6. Reavalie em intervalo curto quando houver suspeita (ex.: 15–30 min, conforme gravidade e protocolo local) e compare com a marcação anterior.
  7. Se houver expansão rápida, extravasamento importante ou sinais de instabilidade, trate como urgência: priorize intervenções e comunicação imediata.

Quantificação e comunicação padronizada (exemplos de frase)

Evite termos vagos como “curativo muito sujo”. Prefira descrição objetiva e comparável.

  • Curativo: “Curativo abdominal com saturação aproximada de 75%, mancha expandiu 3 cm além da marcação em 20 min, com extravasamento pela borda inferior.”
  • Compressas/lençóis: “Foram identificadas 2 compressas totalmente saturadas e lençol com área de 20x15 cm de sangue; material separado para estimativa/registro conforme rotina.”
  • Registro temporal: “Às 14:10 curativo 25% saturado; às 14:30 50% com expansão além da marcação.”

Vigilância e quantificação de drenos

O que avaliar no dreno

  • Volume: medir e registrar em mL, com horário e intervalo (por exemplo, mL/h).
  • Aspecto: seroso, serossanguinolento, sanguinolento vivo, presença de coágulos.
  • Funcionamento: sistema pérvio, sem dobras, sem desconexões, sucção adequada (quando aplicável).
  • Fixação e inserção: sangramento ao redor do sítio, deslocamento, dor local.

Passo a passo prático: mensuração e tendência

  1. Confirme o tipo de dreno e a rotina de esvaziamento/medição do serviço.
  2. Meça o volume no coletor graduado e registre com horário.
  3. Descreva o aspecto (ex.: “sanguinolento vivo” versus “serossanguinolento”).
  4. Calcule tendência quando necessário: mL no intervalo e mL/h.
  5. Compare com o período anterior: aumento progressivo é mais relevante do que um valor isolado.
  6. Verifique patência: se houver suspeita de obstrução (coágulos, ausência súbita de débito com sinais clínicos), comunique imediatamente e siga protocolo local (não manipular além do permitido).

Priorização e condutas imediatas de enfermagem diante de suspeita de sangramento/choque

Princípios de ação rápida

Quando há sinais de hipoperfusão ou sangramento ativo, a prioridade é reconhecer, intervir no que é de enfermagem e acionar suporte sem atrasos. A abordagem deve ser simultânea: enquanto um profissional reavalia e quantifica perdas, outro garante acesso venoso e prepara materiais.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Passo a passo prático (primeiros minutos)

  1. Reconheça e declare a gravidade: trate como potencial emergência quando houver instabilidade, rebaixamento de consciência, sangramento ativo ou rápida piora clínica.
  2. Acione rapidamente o time conforme fluxo institucional (cirurgião/anestesia/equipe de resposta rápida). Use comunicação objetiva (ver modelo abaixo).
  3. Garanta acesso venoso pérvio: verifique permeabilidade, calibre e fixação; se houver apenas acesso de pequeno calibre ou sinais de infiltração, solicite/prepare novo acesso conforme protocolo e competência local.
  4. Prepare para reposição volêmica: se houver prescrição/protocolo, organize soluções, equipos, bombas e aquecedor de fluidos quando disponível; mantenha material pronto para administração rápida.
  5. Posicione e mantenha segurança: manter paciente em posição que favoreça perfusão e segurança (conforme tolerância e prescrição), aquecer para reduzir piora de coagulopatia por hipotermia, evitar quedas e aspiração se houver rebaixamento.
  6. Controle de perdas externas sem atrasar acionamento: reforçar curativo com compressas se houver extravasamento (sem remover curativo cirúrgico se não indicado), manter pressão local apenas quando apropriado e conforme orientação do serviço/cirurgião.
  7. Quantifique e documente perdas: curativo (saturação e expansão), drenos (mL e aspecto), roupas/lençóis/compressas.
  8. Prepare coleta e envio de exames conforme solicitação: hemograma, coagulograma, gasometria/lactato, tipagem e prova de compatibilidade quando indicado.
  9. Reavalie continuamente resposta às intervenções e evolução das perdas, mantendo registros com horário.

O que não atrasar

  • Não esperar “confirmar no laboratório” para acionar ajuda quando há sinais clínicos de choque.
  • Não minimizar taquicardia persistente, queda de diurese e alteração de consciência, mesmo com pressão aparentemente preservada.
  • Não deixar de quantificar: informação objetiva acelera decisões (reposição, transfusão, retorno ao centro cirúrgico).

Modelo de comunicação rápida e padronizada (SBAR)

Use um roteiro curto, com números e tendência. Exemplo:

S (Situação): Paciente no pós-operatório imediato com suspeita de sangramento ativo e sinais de hipoperfusão.  B (Background): Cirurgia X há 3 horas, dreno Y em sucção.  A (Avaliação): Curativo 75% saturado, mancha expandiu 3 cm em 20 min; dreno passou de 20 mL/h para 90 mL/h, aspecto sanguinolento vivo; diurese caiu para 15 mL na última hora; pele fria e sudorese; nível de consciência mais sonolento.  R (Recomendação): Solicito avaliação imediata à beira-leito; acesso venoso já checado e preparo de reposição volêmica em andamento; favor orientar conduta e exames/transfusão conforme necessidade.

Organização do cuidado: tarefas paralelas na equipe

Profissional/açãoFocoExemplos
Enfermeiro(a) responsávelCoordenação e decisãoAcionar time, priorizar intervenções, orientar equipe, comunicação SBAR, registro crítico
Técnico(a)/auxiliar 1Quantificação de perdasChecar curativo, marcar bordas, medir drenos, verificar lençóis/compressas
Técnico(a)/auxiliar 2Acesso e preparoChecar acesso venoso, preparar equipos/soluções, organizar materiais para coleta
TodosReavaliação contínuaObservar perfusão, nível de consciência, diurese e tendência de sangramento

Exemplos de cenários e respostas de enfermagem

Cenário 1: curativo com expansão rápida

Situação: curativo abdominal com mancha que ultrapassa marcação em 15 minutos, paciente pálido e sudorético.

  • Marcar bordas e horário; estimar saturação e registrar.
  • Reforçar curativo conforme protocolo (sem remover o original se não indicado).
  • Medir drenos e procurar outras perdas (lençóis, compressas).
  • Checar acesso venoso e preparar reposição conforme prescrição/protocolo.
  • Acionar cirurgião/anestesia/equipe de resposta rápida com dados objetivos.

Cenário 2: instabilidade sem sangramento evidente

Situação: queda de diurese e sonolência progressiva, curativo aparentemente seco, dreno com débito baixo.

  • Suspeitar sangramento oculto ou obstrução de dreno; reavaliar inserção, dobras e sistema.
  • Inspecionar áreas de possível hematoma (flancos, região inguinal, dorso) e distensão local.
  • Recontar perdas não mensuradas e revisar balanço hídrico recente.
  • Acionar time com foco em tendência e ausência de fonte visível, solicitando avaliação imediata.

Cenário 3: dreno com aumento súbito e sangue vivo

Situação: dreno passa a apresentar débito elevado com aspecto sanguinolento vivo.

  • Mensurar e registrar volume por intervalo (mL/h) e aspecto.
  • Verificar conexões, sucção e patência sem manipulações indevidas.
  • Checar curativo e sítio do dreno para sangramento ao redor.
  • Preparar acesso e reposição; acionar equipe cirúrgica imediatamente com números e tendência.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

No pós-operatório, ao observar taquicardia persistente, pele fria e sudorese, queda da diurese e rebaixamento progressivo do nível de consciência, mesmo com pressão arterial ainda aparentemente preservada, qual deve ser a conduta prioritária da enfermagem?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O conjunto e a tendência dos sinais sugerem hipoperfusão/choque iminente, mesmo sem hipotensão. A enfermagem deve agir sem atrasos: quantificar perdas, checar acesso, preparar reposição e acionar o time com dados objetivos, sem esperar confirmação laboratorial.

Próximo capitúlo

Curativos pós-operatórios: técnica, avaliação da ferida e troca segura

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Cuidados de Enfermagem no Pós-Operatório: Recuperação, Dor e Prevenção de Complicações
38%

Cuidados de Enfermagem no Pós-Operatório: Recuperação, Dor e Prevenção de Complicações

Novo curso

16 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.